{"id":10944,"date":"2010-01-20T00:00:00","date_gmt":"2010-01-20T02:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/memoria-de-um-batalhador-de-sorriso-negro\/"},"modified":"2010-01-20T00:00:00","modified_gmt":"2010-01-20T02:00:00","slug":"memoria-de-um-batalhador-de-sorriso-negro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/memoria-de-um-batalhador-de-sorriso-negro\/","title":{"rendered":"Mem\u00f3ria de um batalhador de sorriso negro"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify\">Por ocasi\u00e3o do 30\u00ba dia da morte do padre Toninho vejamos um artigo que retrata a import\u00e2ncia do trabalho que ele desenvolveu na Igreja do Brasil.<\/p>\n<p>  <!--more-->  <\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Padre Ant\u00f4nio Aparecido da Silva, mais conhecido como Padre Toninho, faleceu dia 17 de dezembro, \u00e0s 21h30min, em consequ\u00eancia de um AVC sofrido em 12 de dezembro. Pe. Toninho se destacou pelo combate a toda e qualquer forma de discrimina\u00e7\u00e3o racial. Nascido em Lup\u00e9rcio, pequena cidade do interior de S\u00e3o Paulo, viveu uma boa parte de sua inf\u00e2ncia e juventude em Parapu\u00e3, outra pequena cidade do interior de S\u00e3o Paulo, onde foi sepultado. Tinha 33 anos de vida sacerdotal e pertencia a Ordem Religiosa da Pequena Obra da Divina Provid\u00eancia [Orionitas]. A seguir, a IHU On-Line celebra a mem\u00f3ria do Padre Toninho publicando um depoimento e duas entrevistas. O blog do Instituto Humanitas Unisinos &#8211; IHU tamb\u00e9m repercutiu a sua vida e obra.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Confira<\/p>\n<h4 style=\"text-align: justify\">Combativo e generoso: nos passos de Padre Toninho<\/h4>\n<p style=\"text-align: justify\">A seguir voc\u00ea confere o depoimento de Afonso Maria Ligorio Soares, refletindo o legado de Padre Toninho. Ele \u00e9 presidente da Sociedade de Teologia e Ci\u00eancias da Religi\u00e3o &#8211; Soter, membro e s\u00f3cio-fundador do Centro Atabaque de Teologia e Cultura Negra. Graduou-se em Filosofia pela Pontif\u00edcia Universidade Cat\u00f3lica do Paran\u00e1 &#8211; PUCPR, mestre em Teologia Fundamental pela Pontif\u00edcia Universidade Gregoriana de Roma &#8211; PUGR, It\u00e1lia, e doutor em Ci\u00eancias da Religi\u00e3o pela Universidade Metodista de S\u00e3o Paulo &#8211; Umesp. \u00c9 p\u00f3s-doutor pela Pontif\u00edcia Universidade Cat\u00f3lica do Rio de Janeiro &#8211; PUC-Rio &#8211; e livre-docente pela Pontif\u00edcia Universidade Cat\u00f3lica de S\u00e3o Paulo &#8211; PUCSP. De sua produ\u00e7\u00e3o bibliogr\u00e1fica, destacamos Negros, uma hist\u00f3ria de migra\u00e7\u00f5es (2. ed. S\u00e3o Paulo: Centro de Estudos Migrat\u00f3rios, 1996).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Confira o artigo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">&#8220;A primeira vez que vi Padre Toninho foi numa confer\u00eancia que proferiu em uma Semana Filos\u00f3fica na PUC de Curitiba, no in\u00edcio dos anos 1980. Ainda estudante de filosofia, fiquei impressionado com aquele jovem presb\u00edtero, negro, de fala mansa e bem-humorada, que tinha o dom de fazer as den\u00fancias mais duras sem perder a leveza, como se estivesse numa roda de amigos contando anedotas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">E n\u00e3o era nada irrelevante o tema de Toninho naquela manh\u00e3. Era dura e cr\u00edtica a sua fala. A plateia por v\u00e1rias vezes n\u00e3o conteve o riso, gra\u00e7as \u00e0 maneira daquele padre militante recordar os casos de racismo que ele ou conhecidos seus haviam passado e ainda passavam em seu dia-a-dia. O riso era nervoso e o recado calava fundo, porque n\u00e3o era f\u00e1cil admitir que al\u00e9m de toda a discrimina\u00e7\u00e3o sofrida pela comunidade negra brasileira, durante e ap\u00f3s o escravismo, at\u00e9 mesmo dentro das igrejas crist\u00e3s, principalmente na Igreja cat\u00f3lica, negros e negras tinham sido e seguiam sendo alijados como gente de segunda classe.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">S\u00f3 mais tarde me dei conta da figura \u00edmpar daquele homem combativo e generoso, e da dimens\u00e3o de seu envolvimento com a causa do povo negro. Assessor e incentivador, junto \u00e0 CNBB, das discuss\u00f5es em torno de uma aten\u00e7\u00e3o pastoral \u00e0 quest\u00e3o negra, ele esteve presente na cria\u00e7\u00e3o dos Agentes de Pastoral Negros (APNs) em 1983, batalhou pela visibilidade e pelo combate ao drama do racismo nas assessorias que prestou ao episcopado durante as Confer\u00eancias de Puebla e Santo Domingo, e manteve-se como principal lideran\u00e7a da Pastoral afro nos \u00faltimos 30 anos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Lembro-me de qu\u00e3o decisiva foi, para o desabrochar da consci\u00eancia negra junto aos estudantes, a sua gest\u00e3o \u00e0 frente da atual Faculdade de Teologia da PUC-SP. Al\u00e9m disso, ele tamb\u00e9m presidiu a Sociedade de Teologia e Ci\u00eancias da Religi\u00e3o &#8211; Soter em um per\u00edodo delicado para a consolida\u00e7\u00e3o da reflex\u00e3o teol\u00f3gica latino-americana. Depois, no final de 1990, Padre Toninho reuniu um pequeno grupo de militantes da causa negra &#8211; homens e mulheres; leigos e presb\u00edteros; cat\u00f3licos, protestantes e iniciados na tradi\u00e7\u00e3o dos orix\u00e1s; fil\u00f3sofos, educadores, te\u00f3logos e terapeutas &#8211; e juntamente com estes fundou o Grupo Atabaque de Teologia e Cultura Negra (hoje, Centro Atabaque). O Atabaque, sob a lideran\u00e7a e sustenta\u00e7\u00e3o diuturna de Toninho, firmou-se como uma ONG ecum\u00eanica que se re\u00fane at\u00e9 hoje com o prop\u00f3sito de subsidiar a reflex\u00e3o e a pr\u00e1tica dos APNs, intensificando tamb\u00e9m o interc\u00e2mbio com grupos e entidades internacionais envolvidos com a luta pela cida dania plena de todos os afro-descendentes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Que legado nos deixa Toninho? Num dos \u00faltimos balan\u00e7os que fez sobre a pr\u00e1tica e a reflex\u00e3o teol\u00f3gica em nossos dias, ele apontava, como um dos temas recorrentes, a supera\u00e7\u00e3o de preconceitos em busca do necess\u00e1rio di\u00e1logo afro-religioso, e projetava, para a pr\u00f3xima d\u00e9cada, cinco temas particularmente importantes: teologia, f\u00e9 e pr\u00e1ticas afro-religiosas; teologia feminista afro-americana; B\u00edblia e comunidades negras; comunidade negra e nova ordem mundial; ecumenismo e macroecumenismo (ecumenismo integral) na perspectiva afro. Detendo-se nesse \u00faltimo, Padre Toninho direcionava sua reflex\u00e3o para a incultura\u00e7\u00e3o, esclarecendo, por\u00e9m, &#8220;n\u00e3o se tratar de um processo descendente, cujo protagonismo caiba \u00e0 mensagem ou ao mensageiro, mas de uma pr\u00e1tica em que \u00e9 dada prioridade ao povo, com suas culturas que, por certo, n\u00e3o superam os evangelhos, mas integram sua mensagem no pr\u00f3prio viver&#8221;. Para mim, esse trecho soa como s\u00edntese e desafio lan\u00e7ado aos que seg uimos na caminhada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Mas \u00e9 dif\u00edcil ainda pensar a frio, a poucos dias desta despedida definitiva. Parecem sobrar as palavras que repetem como ele foi importante para o di\u00e1logo inter-religioso e para a convers\u00e3o da Igreja no Brasil \u00e0 defesa de plataformas antidiscriminat\u00f3rias de qualquer esp\u00e9cie. Toninho tinha o dom da concilia\u00e7\u00e3o no melhor dos sentidos. N\u00e3o lhe interessava o conflito pelo conflito nem a cr\u00edtica destrutiva aos tremendos pecados da Igreja cat\u00f3lica contra nossos ancestrais africanos. Ele sempre viu e nos pregou que as Igrejas, n\u00e3o obstante seus erros, eram portadoras de uma mensagem evang\u00e9lica que as ultrapassava. E em nome dessa convic\u00e7\u00e3o de f\u00e9, vivida na esperan\u00e7a pascal, e posta em pr\u00e1tica em seu amor pelos mais pobres, Toninho consumiu sua vida at\u00e9 os \u00faltimos instantes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Nestes dias, as igrejas crist\u00e3s e, nelas, as comunidades negras de todo o Brasil est\u00e3o de luto, mas seguem na luta. O cora\u00e7\u00e3o ecum\u00eanico e inter-religioso deste nosso &#8220;Patriarca&#8221; (era assim que, carinhosamente o cham\u00e1vamos &#8211; mas ele n\u00e3o gostava muito, por receio de que algu\u00e9m confundisse com patriarcalismo) permanecer\u00e1 conosco, seus filhos e filhas espirituais, onde quer que passemos&#8221;.<\/p>\n<h4 style=\"text-align: justify\">Um compromisso com a causa dos pobres<\/h4>\n<p style=\"text-align: justify\">A seguir, voc\u00ea confere duas entrevistas, realizadas com Vilson Caetano de Sousa J\u00fanior e Irene Dias de Oliveira. Ambos conviveram intensamente com Padre Toninho, e por isso recuperam aspectos de sua trajet\u00f3ria na constru\u00e7\u00e3o da Pastoral do Negro e suas lutas em prol de uma humanidade mais justa e fraterna.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Vilson \u00e9 doutor em Ci\u00eancias Sociais pela Pontif\u00edcia Universidade Cat\u00f3lica de S\u00e3o Paulo &#8211; PUCSP &#8211; e p\u00f3s-doutor em Antropologia pela Universidade Estadual de S\u00e3o Paulo &#8211; UNESP. \u00c9 professor adjunto da Universidade Federal da Bahia &#8211; UFBA, iniciado no Candombl\u00e9 e membro do Centro Atabaque de Cultura Negra e Teologia. De sua produ\u00e7\u00e3o bibliogr\u00e1fica, citamos O Banquete Sagrado: notas sobre a comida e o comer em terreiros de candombl\u00e9 (Salvador: Atalho, 2008).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Irene \u00e9 te\u00f3loga e fil\u00f3sofa, graduada pela Pontif\u00edcia Faculdade Teol\u00f3gica da It\u00e1lia Meridional, onde tamb\u00e9m cursou mestrado e doutorado em Teologia. \u00c9 autora, entre outros, de Identidade negada e o rosto desfigurado do povo africano (os Tsongas). (S\u00e3o Paulo: Annablume, 2002).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Confira as entrevistas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><strong>IHU On-Line &#8211; Qual \u00e9 o principal legado de Padre Toninho?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Irene Dias de Oliveira &#8211; O seu principal legado foi sua luta e seu compromisso com a causa dos pobres entre os mais pobres. Tem sido um dos principais atuante no combate \u00e0 discrimina\u00e7\u00e3o racial e toda forma de exclus\u00e3o religiosa e social. Pe. Toninho se destaca pela sua grande contribui\u00e7\u00e3o na Igreja Cat\u00f3lica por ter fundado a Pastoral do Negro; por ter sido um dos grandes intelectuais da Teologia Negra no Brasil e fundador do grupo Atabaque de Cultura Negra e Teologia cujo objetivo \u00e9 pensar, discutir os temas emergentes das comunidades negras, publicar, oferecer cursos, assessorias e subs\u00eddios aos grupos e comunidades comprometidas com a causa dos povos negros.\u00a0 Al\u00e9m disso,\u00a0 Pe. Toninho tem sido para todos e todas que tiveram o privil\u00e9gio de conhec\u00ea-lo, um testemunho vivo de amorosidade, respeito, solidariedade e ternura. Sua heran\u00e7a m\u00edstico-te\u00f3logica \u00e9 uma riqueza \u00edmpar para a Igreja Cat\u00f3lica e para a Comunidade Negra que tanto ele amou e acolheu.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Vilson Caetano J\u00fanior &#8211; Acredito que o principal legado do Pe. Toninho tenha sido a Teologia Negra Latino Americana. Uma Teologia que procurou ir al\u00e9m do texto do \u00caxodo 3, 7-8 que inspirou a Campanha da Fraternidade de 1988. Depois dessa Campanha, a igreja, particularmente do Brasil, nunca mais foi a mesma. O pensamento teol\u00f3gico negro representado pelo Pe. Toninho juntamente com outros te\u00f3logos como o Pe. Batista, Edir Soares e Heitor Frizotti desafiou a igreja a pensar que o oprimido tinha rosto, era negro(a). Era pobre porque era negro, indo al\u00e9m da perspectiva da teologia negra at\u00e9 ent\u00e3o produzida pelos te\u00f3logos(as) norte americanos. A fim de sistematizar este pensamento, Pe Toninho juntamente com outros companheiros(as) criou o Grupo Atabaque de Cultura Negra e Teologia, atualmente chamado de Centro Atabaque de Cultura Negra e Teologia, grupo interdisciplinar e macroecum\u00eanico. A partir do Centro Atabaque de Cultura Negra e Teologia, o Pe. Toninho incentivou a sistematiza\u00e7\u00e3o de quest\u00f5es espec\u00edficas sobre g\u00eanero,b\u00edblia e di\u00e1logo inter-religioso, presidindo tr\u00eas Consultas de Teologia e Culturas Afro-Americanas e Caribenhas. Outro legado do Pe. Toninho foi a Pastoral, seja atrav\u00e9s dos Agentes de Pastoral Negros, a Liturgia incultura, chamada de Missa Afro. Pe. Toninho deixou tamb\u00e9m outro legado: a vida religiosa. V\u00e1rias vezes ele representou a CRB e foi um dos fundadores do Instituto Mariama que re\u00fane presb\u00edteros, di\u00e1conos e bispos negros, sem falar no GRENI, grupo de religiosos e religiosas negras e ind\u00edgenas. Toninho nos deixa ainda um legado acad\u00eamico enorme. Diretor da Faculdade de Teologia Nossa Senhora da Assun\u00e7\u00e3o, professor do Instituto Teol\u00f3gico S\u00e3o Paulo &#8211; ITESP.\u00a0 Pe. Toninho era especialista em Teologia Moral, assim dialogava com tranquilidade com diversos campos de saber entre eles a Filosofia, a Hist\u00f3ria, a Sociologia e a Antropologia.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line &#8211; Como as suas lutas ajudaram a solidi ficar o di\u00e1logo inter-religioso e o respeito pelas diferentes cren\u00e7as?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Irene Dias de Oliveira &#8211; Reconhecendo e fazendo reconhecer nas vozes dos pobres e oprimidos e em sua lutas um patrim\u00f4nio espiritual comum, dom de Deus para todos juntamente com todas as hist\u00f3rias de f\u00e9 dos v\u00e1rios povos e religi\u00f5es, Pe. Toninho, ao longo de sua vida, enquanto te\u00f3logo e sacerdote, tem se dedicado a mudar o olhar da Igreja e da Teologia em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s religi\u00f5es de matriz africana permitindo dessa forma espa\u00e7os de aproxima\u00e7\u00f5es, ensaios inter-religiosos e respeito incondicional ao outro, ao diferente e \u00e0queles(as) que professam outras cren\u00e7as e credos. Ao longo de sua vida, ele tem valorizado as m\u00faltiplas express\u00f5es de f\u00e9 que, segundo ele, mostram-se atrav\u00e9s do rosto de um Deus afro. Neste sentido, destacam-se suas obras e publica\u00e7\u00f5es sobre o tema da Incultura\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Vilson Caetano J\u00fanior &#8211; Isso foi algo muito particular na trajet\u00f3ria de vida do Pe.Toninho. Ele tinha um profundo amor pela igreja, pelo minist\u00e9rio que assumiu e, v\u00e1rias vezes, ouvi dizer que se houvesse a possibilidade de retornar a esta vida, ele queria ser padre novamente para visitar as fam\u00edlias, esta junto dos pobres, rezar missas, que adorava&#8230; Mas ele tinha a concep\u00e7\u00e3o de que esta igreja de Jesus de Nazar\u00e9 deveria est\u00e1 aberta para outras experi\u00eancias religiosas, para outras viv\u00eancias da espiritualidade que certa vez resumiu como tr\u00eas: a dos romeiros, a dos esp\u00edritas e a dos terreiros. Assim Toninho, desde cedo, esfor\u00e7ou-se para demonstrar que, se a igreja de Jesus quisesse de fato cumprir a sua fun\u00e7\u00e3o mission\u00e1ria no mundo, deveria estar cada vez mais aberta a estas viv\u00eancias do sagrado. Assim quando alguns sacerdotes diziam que n\u00e3o se importavam com a presen\u00e7a de pessoas do candombl\u00e9 nas suas par\u00f3quias, a menos que estas estivessem com suas ve stes lit\u00fargicas, acredito ter sido o Pe. Toninho o primeiro presb\u00edtero que convidou um babalorix\u00e1 e uma ialorix\u00e1 para concelebrar com ele. Isso para n\u00f3s, pertencentes \u00e0s religi\u00f5es de matriz africana, foi muito bom. Era um gesto que ia al\u00e9m do respeito e do di\u00e1logo, pois nos reconhecia, reconhecia tamb\u00e9m o nosso minist\u00e9rio. Isso \u00e9 apenas um exemplo. A partir desse fato, o Pe. Toninho foi lan\u00e7ando desafios para toda Igreja que, disposta a seguir Jesus, ganhava mais consci\u00eancia de que ela deveria ser cada vez mais negra e ind\u00edgena.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><strong>IHU On-Line &#8211; Em que aspectos Padre Toninho promoveu a valoriza\u00e7\u00e3o da cultura negra brasileira?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Irene Dias de Oliveira &#8211; Pe. Toninho tem se destacado por sua luta cont\u00ednua para o resgate da heran\u00e7a afro-brasileira, especialmente atrav\u00e9s de sua matriz religiosa e cultural, dando \u00eanfase especial ao respeito e ao acolhimento da cultura, das express\u00f5es de f\u00e9 das comunidades afro-brasileiras; lutando contra as injusti\u00e7as cometidas contra as popula\u00e7\u00f5es negras n\u00e3o apenas no Brasil mas tamb\u00e9m fora dele.Vilson Caetano J\u00fanior &#8211; Em todos os aspectos. Seja atrav\u00e9s da filosofia, da teologia moral, da hist\u00f3ria e demais campos de saber. Toda sua vida foi dedicada \u00e0 promo\u00e7\u00e3o e valoriza\u00e7\u00e3o dessa realidade. Fiel ao Carisma da Congrega\u00e7\u00e3o fundada por Dom Orione, Toninho soube desde cedo que eram os negros aqueles que estavam na linha de risco, atingindo os picos da fome e da mis\u00e9ria. Ele mesmo enfrentou todos os preconceitos que recaem sobre qualquer descendente de africano que traz no corpo os tra\u00e7os que os definem como inferior ou lhe recobre de estere\u00f3tipos. Atrav\u00e9s do engajamento e di\u00e1logo com os v\u00e1rios segmentos da sociedade, Pe. Toninho, a partir da sua experi\u00eancia de vida como um semeador, foi abrindo caminhos e depositando sementes, fortalecendo a cada dia os elementos civilizat\u00f3rios africanos, mantenedores de nossa identidade e respons\u00e1veis pela nossa perman\u00eancia no mundo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><strong>IHU On-Line &#8211; Quais s\u00e3o as principais lembran\u00e7as que voc\u00ea tem da pessoa Padre Toninho? Quais eram as suas marcas registradas?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Irene Dias de Oliveira &#8211; Sua solidariedade para com os pobres, sua compaix\u00e3o, seu grande esp\u00edrito de compreens\u00e3o, acolhimento e sua abertura e seu profundo senso de comunidade. N\u00e3o me lembro de ter ouvido uma cr\u00edtica negativa, um coment\u00e1rio que n\u00e3o fosse para motivar, incentivar, iluminar e um convite \u00e0 compreens\u00e3o e ao perd\u00e3o das fragilidades humanas. Pe. Toninho deixa uma lacuna muito grande no \u00e2mbito da reflex\u00e3o teol\u00f3gica negra inculturada e especialmente no \u00e2mbito da Comunidade Negra. De outro lado, a certeza crist\u00e3 nos ilumina e nos leva a acreditar de que ele, agora um grande ancestral, continua conosco refor\u00e7ando nossa esperan\u00e7a e nossos sonhos em um mundo melhor, solid\u00e1rio e terno.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Vilson Caetano J\u00fanior &#8211; Sou suspeito para falar sobre isso, pois conheci Pe. Toninho ainda quando fazia teologia numa sala de aula na disciplina teologia moral, h\u00e1 quase vinte anos. Entreguei a ele um texto que havia acabado de escrever sobre as religi\u00f5es de matriz africana, e em seguida ele me convidou para participar do Grupo Atabaque de Cultura Negra e Teologia. Pe. Toninho era muito sereno. Nos \u00faltimos anos, eu brincava com ele dizendo que ele era do mundo do bem, e eu do mundo do mal. Outra lembran\u00e7a que tenho \u00e9 que quando havia uma discuss\u00e3o, ele sempre falava por \u00faltimo. Eu nunca gostava de falar depois dele, pois ele era sempre conciliador. Pe. Toninho era um homem muito bom. Onde ele encontrava algu\u00e9m numa situa\u00e7\u00e3o de risco, acolhia como Maria acolheu Jesus no seu ventre. Diante dos pobres, dos negros, de situa\u00e7\u00f5es limites, ele dizia sempre sim. Acho que por isso \u00e9 que ele, nos \u00faltimos anos, sofreu muito. Pe. Toninho n\u00e3o era de gritar, desabafar, n \u00e3o se queixava de nada, estava sempre sorrindo. O tempo foi passado, e pena que percebemos isso muito tarde, quando as l\u00e1grimas rolavam no seu rosto e nem ele mesmo percebia. Toninho tinha um profundo amor por Nossa Senhora, a negra Mariana de n\u00f3s negros. Tinha um profundo amor pela sua igreja, a qual se consagrou quando presb\u00edtero. Tinha um profundo respeito pelas religi\u00f5es de matriz africana e uma paix\u00e3o eterna pela cidade de Parapu\u00e3, onde foi sepultado. \u00c9 tudo isso que permanece hoje em n\u00f3s respons\u00e1veis a dar continuidade a seu legado teol\u00f3gico. Isso \u00e9 Ressurrei\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Fonte: IHU<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por ocasi\u00e3o do 30\u00ba dia da morte do padre Toninho vejamos um artigo que retrata a import\u00e2ncia do trabalho que ele desenvolveu na Igreja do Brasil.<\/p>\n","protected":false},"author":83,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":""},"categories":[758],"tags":[],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/posts\/10944"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/users\/83"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/comments?post=10944"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/posts\/10944\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/media?parent=10944"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/categories?post=10944"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/tags?post=10944"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}