{"id":10966,"date":"2010-02-02T00:00:00","date_gmt":"2010-02-02T02:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/sinal-de-contradicao\/"},"modified":"2010-02-02T00:00:00","modified_gmt":"2010-02-02T02:00:00","slug":"sinal-de-contradicao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/sinal-de-contradicao\/","title":{"rendered":"Sinal de Contradi\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify\">Tentei imaginar as rea\u00e7\u00f5es dos habitantes de Nazar\u00e9 quando chegou por l\u00e1 a not\u00edcia da morte de Jesus na cruz. Talvez a novidade tenha corrido junto com os boatos da sua ressurrei\u00e7\u00e3o. Muitos devem ter lembrado o que havia acontecido, mais ou menos, tr\u00eas anos antes, quando Jesus, ap\u00f3s ter suscitado tanta admira\u00e7\u00e3o no in\u00edcio da sua fala na sinagoga, tinha escapado depois, por um triz, de ser lan\u00e7ado num precip\u00edcio. Os mais rancorosos devem ter dito: \u201dEu sabia que n\u00e3o prestava\u201d. Outros, movidos pela compaix\u00e3o, podem ter pensado e dito que teria sido melhor mesmo segur\u00e1-lo em Nazar\u00e9. Alguns devem ter lembrado das suas palavras pol\u00eamicas na sinagoga e pensado que, falando daquele jeito, s\u00f3 podia dar no que deu. Enfim, outros poucos devem ter dado ouvido aos boatos sobre a sua ressurrei\u00e7\u00e3o e lembrado as palavras cheias de encanto que sa\u00edam da sua boca; o seu jeito diferente os gestos realizados em Cafarnaum e em tantos outros lugares. Esses talvez tenham exclamado, bem mais baixo do que os outros: \u201cNingu\u00e9m nunca falou como este homem!\u201d<\/p>\n<p>  <!--more-->  <\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Todas as especula\u00e7\u00f5es s\u00e3o minhas, evidentemente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Com a r\u00e1pida muta\u00e7\u00e3o de humor por parte dos habitantes de Nazar\u00e9 a respeito de Jesus, o evangelista Lucas deve ter querido nos lembrar simplesmente o que o velho Sime\u00e3o havia profetizado: \u201cEle ser\u00e1 um sinal de contradi\u00e7\u00e3o\u201d. Ap\u00f3s tantos anos, ainda hoje Jesus continua o mesmo: um divisor de opini\u00f5es, com ele ou contra ele. \u00c9 dif\u00edcil ficar em cima do muro com Jesus. Somente pessoas superficiais, ou por demais cheias de si, podem pensar que n\u00e3o vale mais a pena refletir sobre o que ele fez e ensinou. As suas palavras continuam a atrair ou a incomodar, a sua mem\u00f3ria faz sentir as pessoas felizes, prontas para segui-lo ou insatisfeitas consigo mesmas, duvidando das suas seguran\u00e7as. N\u00e3o tem muito sentido repetir, como eterna desculpa das nossas atrapalhadas, o jarg\u00e3o que \u201ctamb\u00e9m Jesus n\u00e3o agradou a todos\u201d, porque \u00e9 isso mesmo: ele n\u00e3o veio para que todos fic\u00e1ssemos satisfeitos com ele. Ao contr\u00e1rio, veio para questionar a todos. Somente quem n\u00e3o aceita nenhuma cr\u00edtica, n\u00e3o admite defeitos, culpas ou pecados, pode se eximir de confrontar-se com o jeito de falar e de agir dele.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Com certeza Jesus n\u00e3o fez nada para agradar aos grandes e aos poderosos. Preferiu os pequenos, os pobres, os doentes, e quando deu aten\u00e7\u00e3o a algum chefe foi por causa da f\u00e9 demonstrada, nunca para tirar proveito, ou para cativar a simpatia dele. Com os moradores de Nazar\u00e9, foi pior ainda. A eles que queriam segur\u00e1-lo para que fosse um curandeiro de aldeia a servi\u00e7o deles ou, quem sabe, at\u00e9 para ganhar algum trocado, Jesus responde com os exemplos dos estrangeiros que foram beneficiados pelos profetas. Um insulto ao nacionalismo e ao amor pr\u00f3prio daquelas pessoas. Passaram da admira\u00e7\u00e3o ao \u00f3dio, da inten\u00e7\u00e3o de entret\u00ea-lo com eles \u00e0 vontade de mat\u00e1-lo: se n\u00e3o queria ser o profeta deles, que n\u00e3o o fosse de ningu\u00e9m. No entanto Jesus n\u00e3o podia satisfazer as exig\u00eancias daquele povo, porque tinha outra miss\u00e3o. E o alcance de sua miss\u00e3o era bem maior do que os limites da pequena e orgulhosa aldeia de Nazar\u00e9.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Assim a hist\u00f3ria de Jesus chegou at\u00e9 n\u00f3s; entre trancos e barrancos, entre os avan\u00e7os e os trope\u00e7os da vida humana, entre as contradi\u00e7\u00f5es daqueles que ele deixou para transmitir a sua mem\u00f3ria. Houve santos e santas, pessoas nas quais quase se podia ouvir e enxergar o Mestre.\u00a0 Houve falsos pregadores, aproveitadores, quem usasse o nome de Jesus para ganhar poder e prestigio. M\u00e1rtires\u00a0 derramaram seu sangue por amor a ele. Houve tamb\u00e9m quem matou talvez pensando que o estava defendendo. Coisas do passado? N\u00e3o sei.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Nos dias de hoje muitos falam e escrevem sobre Jesus. J\u00e1 foi apresentado como o maior l\u00edder, o maior psic\u00f3logo, uma intelig\u00eancia superior e agora como um Cristo c\u00f3smico, guia espiritual para quem quiser alcan\u00e7ar a ilumina\u00e7\u00e3o. Parece tudo t\u00e3o bonito e fascinante. Espero n\u00e3o sejam modernas tentativas de domesticar Jesus, para silenci\u00e1-lo e faz\u00ea-lo entrar nos nossos esquemas mentais, conforme as modas ou as car\u00eancias da humanidade de cada \u00e9poca. Jesus continuar\u00e1 incomodando. Ningu\u00e9m vai prend\u00ea-lo. Ainda vai passar pelo meio de todos e continuar o seu caminho. Que bom se ao encontr\u00e1-lo numa esquina da vida, ouvindo o seu convite, teremos a coragem de segui-lo e de conhec\u00ea-lo melhor. Com sinceridade e sem preconceitos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Tentei imaginar as rea\u00e7\u00f5es dos habitantes de Nazar\u00e9 quando chegou por l\u00e1 a not\u00edcia da morte de Jesus na cruz. 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