{"id":11018,"date":"2009-03-27T00:00:00","date_gmt":"2009-03-27T03:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/um-encontro-transformador\/"},"modified":"2009-03-27T00:00:00","modified_gmt":"2009-03-27T03:00:00","slug":"um-encontro-transformador","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/um-encontro-transformador\/","title":{"rendered":"Um encontro transformador"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify\">Se h\u00e1 algo que salta aos olhos do leitor dos Atos dos Ap\u00f3stolos \u00e9 a convers\u00e3o de Paulo. A repeti\u00e7\u00e3o do relato, que aparece tr\u00eas vezes (cf. At 9,1-22; 22,1-21; 26,9-18), e a extens\u00e3o do texto falam muito. Esses detalhes n\u00e3o s\u00e3o de somenos import\u00e2ncia. A estrutura do texto aponta certamente para a estrutura teol\u00f3gica e, num tempo em que escrever era arte cara e trabalhosa, a insist\u00eancia de Lucas acerca da convers\u00e3o do Fariseu de Tarso s\u00f3 pode indicar algo de grande.<\/p>\n<p>  <!--more-->  <\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">J\u00e1 muito se falou que Paulo \u00e9 o ap\u00f3stolo das na\u00e7\u00f5es. Se lemos as Cartas Paulinas, notamos sua peleja para ser reconhecido como ap\u00f3stolo, como os demais que conheceram Jesus. \u00c9 s\u00f3 abrir a Segunda Carta aos Cor\u00edntios e aparece um rol de argumentos convincentes que fazem crer que, ainda que seja o \u00faltimo dos ap\u00f3stolos, ele tamb\u00e9m conheceu o Senhor no caminho de Damasco. Pulula no texto uma argumenta\u00e7\u00e3o ardente, calorosa, cheia de vida&#8230; Emana das palavras paulinas um ardor apaixonado pelo Crucificado. De onde vem tanta paix\u00e3o? De onde vem tanto entusiasmo e convic\u00e7\u00e3o? Qual a origem de tanta for\u00e7a e garra? Por que, mesmo em meio a desprezos e priva\u00e7\u00f5es, o antigo e zeloso Fariseu de Tarso n\u00e3o desanima de seguir Aquele que antes ele perseguia? De onde vem a espiritualidade evangelizadora paulina?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Para o autor dos Atos dos Ap\u00f3stolos, o segredo se encontra no epis\u00f3dio narrado no cap\u00edtulo 9: no confronto com o Ressuscitado se fundamenta a for\u00e7a de Paulo e sua miss\u00e3o. A espiritualidade paulina \u00e9 a espiritualidade do encontro. Na experi\u00eancia pessoal com o Ressuscitado, Paulo tem seus alicerces judaicos balan\u00e7ados e encontra no Messias de Nazar\u00e9 outra fundamenta\u00e7\u00e3o \u2013 maior e mais s\u00f3lida \u2013 para prosseguir na jornada da f\u00e9.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Mas a experi\u00eancia pessoal com Deus \u00e9 base suficiente para alicer\u00e7ar a vida de f\u00e9?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Essa pergunta pode ser respondida a partir do relato da convers\u00e3o de Paulo presente em At 9,1-22. Lucas insiste em registrar que a experi\u00eancia feita por Saulo de Tarso n\u00e3o surge de iniciativa pr\u00f3pria (como foi sua iniciativa de pedir ao Sin\u00e9drio cartas que lhe davam o direito de ca\u00e7ar e prender os crist\u00e3os, At 9,1). Saulo n\u00e3o \u00e9 o sujeito que provoca aquele encontro: o sujeito da a\u00e7\u00e3o \u00e9 o pr\u00f3prio Deus, que cerca Paulo com sua luz e lhe dirige sua voz, chamando-o pelo nome. Mas Saulo, ao mesmo tempo, tamb\u00e9m \u00e9 sujeito: Deus se comunica a Saulo como a algu\u00e9m: fala a uma pessoa que tem hist\u00f3ria, passado, desejos; algu\u00e9m capaz de responder pessoalmente a um apelo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Lucas deixa claro: n\u00e3o \u00e9 Saulo que v\u00ea o Senhor, mas o Senhor que aparece para ele. E isso faz toda a diferen\u00e7a. O que aconteceu \u00e0quele que respirava amea\u00e7as de morte contra os disc\u00edpulos do Senhor (cf. At 9,1) n\u00e3o foi uma experi\u00eancia psicol\u00f3gica, fruto de auto-sugest\u00e3o. Saulo n\u00e3o teve uma experi\u00eancia subjetiva, afetiva, interior somente. Tamb\u00e9m! Certamente, tal evento n\u00e3o poderia deixar de trazer marcas de subjetividade, de sua vida mais \u00edntima e pessoal. Saulo entra em di\u00e1logo com o Senhor: cria rela\u00e7\u00f5es com ele (cf. At 9,4-7). Mas essa experi\u00eancia n\u00e3o \u00e9 desprovida de objetividade, como se o encontro com o Ressuscitado fosse algo emocional ou psicol\u00f3gico. A experi\u00eancia de Saulo se assenta em Deus. N\u00e3o \u00e9 fruto do desejo dele. Deus, que \u00e9 fonte de todo bem e autor de toda obra, toma a iniciativa. \u00c9 Deus mesmo o fundamento da experi\u00eancia. O Deus que chamou os patriarcas e os profetas apareceu a Saulo, como numa vis\u00e3o, e lhe deu a miss\u00e3o de pregar aos gentios. Tal experi\u00eancia de encontro revela-se t\u00e3o densa de potencialidades e impregna naquele que a vive tantos traumas, que n\u00e3o h\u00e1 for\u00e7a capaz de apagar suas marcas. A partir do caminho de Damasco, Saulo de Tarso nunca mais ser\u00e1 o mesmo. Sua vida recebeu um selo, seu cora\u00e7\u00e3o foi tatuado com a marca do Ressuscitado, sua mente foi afetada por Aquele que o amou primeiro&#8230; E Saulo sabe disso. Desde ent\u00e3o n\u00e3o pode e n\u00e3o quer mais viver para outra coisa a n\u00e3o ser anunciar Aquele que ele conheceu a partir dessa experi\u00eancia impactante.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">\u00c9 dif\u00edcil falar sobre essa experi\u00eancia do encontro. Lucas n\u00e3o se preocupa em dizer como ela se deu. Lucas \u00e9 em primeiro lugar te\u00f3logo e n\u00e3o historiador, apesar de se valer de muitos dados hist\u00f3ricos e fazer hist\u00f3ria a seu modo. Apenas quer garantir que foi algo forte, transformador, como forte e transformador \u00e9 Aquele que ama e chama Saulo a segui-lo. Surge da\u00ed a certeza de que evangelizar \u2013 anunciar Aquele que o chamou \u2013 \u00e9 a sua vida: \u201cai de mim, se eu n\u00e3o evangelizar!\u201d dir\u00e1 aquele que doravante se chamar\u00e1 Paulo, o ap\u00f3stolo (1Cor 9,16). Para Paulo, evangelizar n\u00e3o \u00e9 honra, e ser ap\u00f3stolo n\u00e3o lhe d\u00e1 gl\u00f3rias. Sua evangeliza\u00e7\u00e3o apenas revela que n\u00e3o se pode guardar para si uma experi\u00eancia de tal grandiosidade: o Crucificado est\u00e1 vivo e sua presen\u00e7a transformadora deve ser acolhida por todos. O que Paulo experimenta n\u00e3o cabe mais dentro dele: reclama espa\u00e7os, quer sair e se expandir.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">A experi\u00eancia com Deus feita por Paulo no caminho de Damasco torna-se sua fonte de for\u00e7a e determina\u00e7\u00e3o. Quando acusado de charlat\u00e3o, Paulo se defende: \u201ceu tamb\u00e9m vi o Senhor!\u201d (cf. 1Cor 15,5-8). E isto lhe basta! Ver o Senhor fez toda a diferen\u00e7a na vida de Paulo. Ele n\u00e3o seguia um desconhecido, nem algu\u00e9m de quem ouviu falar, nem uma doutrina envolvente, uma argumenta\u00e7\u00e3o teol\u00f3gica convincente. Seguia Aquele que ele conheceu no caminho de Damasco: o Crucificado-ressuscitado. E isto lhe dava for\u00e7as! Sempre! Em qualquer situa\u00e7\u00e3o. Foi esse encontro que fez dele o ap\u00f3stolo dos gentios, o grande evangelizador das na\u00e7\u00f5es. A espiritualidade paulina pode ser dita, sem d\u00favida, como a experi\u00eancia do encontro, um encontro pessoal com Deus.<\/p>\n<h4 style=\"text-align: right\">Solange do Carmo<br \/>Biblista, professora, escritora<br \/>Belo Horizonte &#8211; MG<\/h4>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Se h\u00e1 algo que salta aos olhos do leitor dos Atos dos Ap\u00f3stolos \u00e9 a convers\u00e3o de Paulo. A repeti\u00e7\u00e3o do relato, que aparece tr\u00eas vezes (cf. At 9,1-22; 22,1-21; 26,9-18), e a extens\u00e3o do texto falam muito. Esses detalhes n\u00e3o s\u00e3o de somenos import\u00e2ncia. 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