{"id":11050,"date":"2008-09-26T00:00:00","date_gmt":"2008-09-26T03:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/a-relevancia-da-experiencia-do-encontro-pessoal-com-cristo\/"},"modified":"2008-09-26T00:00:00","modified_gmt":"2008-09-26T03:00:00","slug":"a-relevancia-da-experiencia-do-encontro-pessoal-com-cristo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/a-relevancia-da-experiencia-do-encontro-pessoal-com-cristo\/","title":{"rendered":"A relev\u00e2ncia da experi\u00eancia do encontro pessoal com Cristo"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify\">A Cristologia Paulina tem como ponto de partida uma experi\u00eancia e n\u00e3o uma refer\u00eancia doutrinal. Quando Paulo passa a falar de Cristo n\u00e3o o faz por ter ouvido dizer a respeito dele. Mas porque o encontrou na experi\u00eancia singular vivida na estrada de Damasco. A singularidade dessa experi\u00eancia se comprova, por exemplo, no fato significativo do seu disc\u00edpulo Lucas, nos Atos dos Ap\u00f3stolos, narr\u00e1-lo por tr\u00eas vezes em At 9,1-22;\u00a0 22,1-21; 26,1-23 com ecos fortes em v\u00e1rias passagens de suas cartas, como ICor 9,1; 15,8; IICor 4,6; Gl 1,12.15-16; 2,20; Fl 3,7-10.12.<\/p>\n<p>  <!--more-->  <\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Essa perspectiva n\u00e3o s\u00f3 toca profundamente a subjetividade do ap\u00f3stolo como tamb\u00e9m reorienta toda a sua compreens\u00e3o de mundo. Naturalmente, da\u00ed vem o seu \u00edmpeto prof\u00e9tico e a beleza sedutora do seu falar. Compreende-se, ent\u00e3o, o que produz sua for\u00e7a querigm\u00e1tica na prega\u00e7\u00e3o, uma experi\u00eancia pessoal de ter sido conquistado e de viver esta conquista com grande paix\u00e3o. Ele diz: &#8230;continuo correndo para alcan\u00e7\u00e1-lo, visto que eu mesmo fui alcan\u00e7ado pelo Cristo Jesus. Eu n\u00e3o julgo j\u00e1 t\u00ea-lo alcan\u00e7ado. Uma coisa, por\u00e9m, fa\u00e7o: esquecendo o que fica para tr\u00e1s, lan\u00e7o-me para o que est\u00e1 \u00e0 frente.\u201d (Fl 3,12b-13)<\/p>\n<p> Em Gl 1,15ss, Paulo exp\u00f5e o alcance e a significa\u00e7\u00e3o da cristofania acontecida, proporcionando o entendimento da experi\u00eancia por ele vivida.\u00a0 S\u00e3o tr\u00eas componentes fundamentais na explicita\u00e7\u00e3o deste acontecimento, \u00e0 luz da consci\u00eancia que Paulo elabora do fato. H\u00e1 uma componente de car\u00e1ter teol\u00f3gico, na medida em que Paulo aponta Deus como o respons\u00e1vel e, tamb\u00e9m, o primeiro agente da experi\u00eancia pessoal por ele vivida. Bem assim, a nomea\u00e7\u00e3o de Cristo como seu Filho. Por isso o ap\u00f3stolo sublinha que Deus o colocou \u00e0 parte, o chamou, revelou-se nele. Compreende-se, conseq\u00fcentemente, que o acontecimento \u00e9 pela for\u00e7a da gra\u00e7a de Deus e de seu benepl\u00e1cito amoroso. Paulo acentua que o encontro e conhecimento de Cristo \u00e9 fruto da a\u00e7\u00e3o luminosa de Deus, como Deus que na cria\u00e7\u00e3o, recordando Gn 1,3, ordena e acontece a luz. O seu cora\u00e7\u00e3o foi iluminado por essa luz criadora de Deus. <\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Um segundo componente \u00e9, naturalmente, de car\u00e1ter cristol\u00f3gico. O epis\u00f3dio revela a identidade de Cristo Jesus como Filho de Deus. Este t\u00edtulo n\u00e3o expressa toda a riqueza da compreens\u00e3o que o ap\u00f3stolo tem da identidade de Cristo. Ele compartilha o grande impacto que a pessoa de Cristo causou na sua pessoa, levando-o a considerar como lixo tudo o que precedentemente era de grande import\u00e2ncia para ele: \u201cJulgo que tudo \u00e9 preju\u00edzo diante deste bem supremo que \u00e9 o conhecimento do Cristo Jesus, meu Senhor. Por causa dele, perdi tudo e considero tudo como lixo, a fim de ganhar Cristo&#8230;\u201d (Fl 3,8).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">O terceiro componente \u00e9 de car\u00e1ter mission\u00e1rio com ra\u00edzes nos componentes precedentes. Ele sabe que o seu chamado \u00e9 em raz\u00e3o da miss\u00e3o de anunciar o Evangelho aos gentios (Rm 11,13). Assim, sua compreens\u00e3o cristol\u00f3gica e teol\u00f3gica n\u00e3o tem um fim em si mesma. Mas, a raz\u00e3o \u00e9 a miss\u00e3o recebida a partir do chamado que ele recebe. \u00c9 central nesse componente mission\u00e1rio a consci\u00eancia que ele tem e aprofunda de que Cristo Vivente \u00e9 o verdadeiro mediador entre Deus e o homem. Para ele n\u00e3o \u00e9 mais a lei. Existencialmente, ele experimenta a media\u00e7\u00e3o de Cristo que modifica a sua vida e faz dele seu mission\u00e1rio. Embora n\u00e3o use o voc\u00e1bulo disc\u00edpulo, neste horizonte est\u00e1 a compreens\u00e3o e a explicita\u00e7\u00e3o do que \u00e9 ser e viver a experi\u00eancia de disc\u00edpulo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Nesse contexto \u00e9 que se levanta a pergunta se a experi\u00eancia vivida por Paulo \u00e9 uma experi\u00eancia de chamado ou de convers\u00e3o. Em que categoria se localiza o que ele compartilha como sendo sua experi\u00eancia central diante de Cristo Jesus? Alguns exegetas indicam que \u00e9 mais pertinente pensar a categoria chamado. Isso porque o pr\u00f3prio ap\u00f3stolo n\u00e3o faz uso, nas explicita\u00e7\u00f5es que faz dessa experi\u00eancia, do vocabul\u00e1rio de convers\u00e3o (metanoein\/ \u00e9pistr\u00e9fein), mas usa o vocabul\u00e1rio que se refere ao chamado (kalein\/ \u00e1forizein, apokal\u00faptein), sublinhando mais o aspecto teol\u00f3gico do evento do que aquele de car\u00e1ter antropol\u00f3gico. Algo semelhante ao que viveram profetas como Isa\u00edas ou Jeremias. O pr\u00f3prio fato do acontecimento se localiza na estrada de Damasco, relembrando o que \u00e9 pr\u00f3prio de uma voca\u00e7\u00e3o prof\u00e9tica. \u00c9 interessante, nesse sentido, observar a nuance em que o acontecimento de Damasco n\u00e3o identifica, imediatamente, a figura de Cristo com o Deus invis\u00edvel e nem com um simples homem. Muitos pensam que Paulo interpretou o acontecimento nos par\u00e2metros de categorias m\u00edstico-apocal\u00edpticas, como se apresenta em Ezequiel 1. Uma liga\u00e7\u00e3o entre aspecto humano e divindade caracteriza a compreens\u00e3o que Paulo d\u00e1 ao entendimento desta cristofania. Nesse sentido s\u00e3o muitos elementos que podem ser explicitados para se configurar tal compreens\u00e3o.\u00a0 No entanto, para se considerar a experi\u00eancia como convers\u00e3o se pode focalizar o elemento da descontinuidade na sua biografia. \u00c9 a refer\u00eancia \u00e0 passagem da sua condi\u00e7\u00e3o de perseguidor \u00e0quela de evangelizador. Esta \u00e9, de fato, uma mudan\u00e7a muito grande. O que para ele era uma grande honra, a LEI, torna-se lixo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">\u00c9 importante considerar que Paulo n\u00e3o se converte a uma doutrina ou a uma institui\u00e7\u00e3o. Mas ele se converte a uma pessoa, Cristo Jesus, estabelecendo com ele um relacionamento viv\u00edssimo e totalizante. Tudo \u00e9 Cristo: \u201cN\u00e3o sou eu mais que vivo, mas Cristo vive em mim\u201d (Gl 2,20). A pessoa de Cristo se torna, pois, a verdadeira raz\u00e3o de ser e passa a ser o \u00fanico e abrangente sentido de sua vida. Essa experi\u00eancia pessoal se torna o substrato essencial de seu pensar e do seu agir. N\u00e3o \u00e9 uma refer\u00eancia para comprovar seus argumentos cristol\u00f3gicos ou outros quaisquer. A cristofania vivida por ele fundamenta e comprova o sentido profundo do seu apostolado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">A experi\u00eancia de Paulo como convers\u00e3o tem no seu reverso o chamado. Assim como o chamado tem no seu reverso a convers\u00e3o. Isso significa dizer que o chamado inclui uma profunda experi\u00eancia de convers\u00e3o, dando sustento \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de uma fecunda miss\u00e3o evangelizadora. Compreende-se que a experi\u00eancia de convers\u00e3o do ap\u00f3stolo \u00e9 conseq\u00fc\u00eancia do seu chamado. O chamado exige intrinsecamente o processo de radical mudan\u00e7a. S\u00f3 esta radical mudan\u00e7a como processo de convers\u00e3o a Deus, constituindo o ap\u00f3stolo, um apaixonado por ele, d\u00e1 sustento e consist\u00eancia \u00e0 miss\u00e3o decorrente deste chamado. Distintas, a experi\u00eancia do chamado e a experi\u00eancia da convers\u00e3o s\u00e3o insepar\u00e1veis. S\u00f3 um chamado convertido sustenta a experi\u00eancia da miss\u00e3o na grandeza do seu sentido e no alcance de sua significa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<h4 style=\"text-align: right\">Dom Walmor Oliveira de Azevedo<br \/>Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte<\/h4>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A Cristologia Paulina tem como ponto de partida uma experi\u00eancia e n\u00e3o uma refer\u00eancia doutrinal. Quando Paulo passa a falar de Cristo n\u00e3o o faz por ter ouvido dizer a respeito dele. Mas porque o encontrou na experi\u00eancia singular vivida na estrada de Damasco. 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