{"id":11052,"date":"2008-09-12T00:00:00","date_gmt":"2008-09-12T03:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/repercussoes-hermeneuticas-da-cristologia-paulina\/"},"modified":"2008-09-12T00:00:00","modified_gmt":"2008-09-12T03:00:00","slug":"repercussoes-hermeneuticas-da-cristologia-paulina","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/repercussoes-hermeneuticas-da-cristologia-paulina\/","title":{"rendered":"Repercuss\u00f5es hermen\u00eauticas da Cristologia Paulina"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify\">A f\u00e9 em Jesus Cristo \u00e9 a refer\u00eancia hermen\u00eautica determinante da experi\u00eancia e do sentido de compromisso do ap\u00f3stolo Paulo bem como de sua teologia. Na mesma perspectiva, como j\u00e1 referido, Paulo rel\u00ea a tradi\u00e7\u00e3o b\u00edblica e judaica \u00e0 luz da f\u00e9 em Jesus Cristo. \u00c9 da f\u00e9 em Jesus Cristo que ele extrai os crit\u00e9rios para elabora\u00e7\u00e3o dos seus ensinamentos e as intui\u00e7\u00f5es para a concretiza\u00e7\u00e3o da miss\u00e3o crist\u00e3. N\u00e3o se trata de um processo meramente te\u00f3rico de elabora\u00e7\u00e3o. Na verdade, suas atividades mission\u00e1rias e de evangelizador constituem o contexto pr\u00f3prio de sua elabora\u00e7\u00e3o e configura\u00e7\u00e3o do seu entendimento a respeito da experi\u00eancia crist\u00e3.<\/p>\n<p>  <!--more-->  <\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">O uso da Sagrada Escritura \u00e9 abundante na elabora\u00e7\u00e3o teol\u00f3gica que Paulo produz, seja para a configura\u00e7\u00e3o da \u00e9tica crist\u00e3, seja para delinear o sentido da esperan\u00e7a escatol\u00f3gica. O cumprimento das refer\u00eancias messi\u00e2nicas em Jesus Cristo leva o ap\u00f3stolo a reler com uma nova ilumina\u00e7\u00e3o um conjunto grande de textos b\u00edblicos.\u00a0 Conhecedor da tradi\u00e7\u00e3o midr\u00e1schica como m\u00e9todo rab\u00ednico para leitura atualizante\u00a0 da B\u00edblia, bem como pesher da escola qumr\u00e2nica , facilita a Paulo esta configura\u00e7\u00e3o de uma nova perspectiva hermen\u00eautica para a leitura e atualiza\u00e7\u00e3o dos textos da Escritura. Nessa nova perspectiva hermen\u00eautica, a ilumina\u00e7\u00e3o determinante vem da pessoa de Jesus Cristo. Essa f\u00e9 cristol\u00f3gica, de for\u00e7a hermen\u00eautica determinante, n\u00e3o significa para Paulo um conhecimento meramente te\u00f3rico ou de simples car\u00e1ter hist\u00f3rico. A este tipo de conhecimento ele qualifica de \u2018conhecimento segundo a carne (IICor 5,16) O que conta para Paulo \u00e9 o encontro com Jesus Cristo \u201cconstitu\u00eddo Filho de Deus\u201d, ressuscitado dentre os mortos (Rm 1,3). \u00c9 a ressurrei\u00e7\u00e3o que, naturalmente, determina e configura essa for\u00e7a pr\u00f3pria da pessoa de Cristo como crit\u00e9rio hermen\u00eautico insubstitu\u00edvel para a releitura e compreens\u00e3o dos textos da escritura e da pr\u00f3pria vida. A morte de Cristo, seguida de sua ressurrei\u00e7\u00e3o, \u00e9 a fonte inesgot\u00e1vel do amadurecimento da Cristologia de Paulo, tornando-se o n\u00facleo central do querigma\/k\u00e9rygma que ele recebeu e anuncia como fundamento de sua f\u00e9 crist\u00e3. \u00c9 a morte de Cristo Ressuscitado que tem a propriedade de configura\u00e7\u00e3o de sua perspectiva de f\u00e9. Assim, sua f\u00e9 cristol\u00f3gica \u00e9 configurada a partir de muitos t\u00edtulos atribu\u00eddos a Cristo, como \u2018Senhor\u2019, \u2018Filho\u2019, \u2018Salvador\u2019. Na ep\u00edstola a Tito, ele sublinha que os crist\u00e3os vivem na espera da vinda do \u201cnosso grande Deus e Salvador, Jesus Cristo\u201d (Tt 2,13), reafirmando o seu papel \u00fanico e insubstitu\u00edvel de mediador, evitando qualquer tipo de favorecimento de compreens\u00e3o e pr\u00e1ticas sincr\u00e9ticas. Essa media\u00e7\u00e3o \u00fanica e insubstitu\u00edvel de Cristo o localiza tamb\u00e9m numa rela\u00e7\u00e3o \u00fanica com Deus. Usando emprestada a linguagem da B\u00edblia, em refer\u00eancia \u00e0 sabedoria criadora e reveladora que \u00e9 chamada de \u2018imagem\u2019 de Deus, Paulo apresenta Cristo como \u2018imagem de Deus\u2019 e o \u2018primog\u00eanito\u2019 (cf. IICor 4,4; Rm 8,29; Cl 1,15). N\u00e3o menos importante \u00e9 o uso que ele faz da tradi\u00e7\u00e3o crist\u00e3 primitiva para a formula\u00e7\u00e3o de sua f\u00e9 cristol\u00f3gica. Essa tradi\u00e7\u00e3o crist\u00e3 tem seu eco na invoca\u00e7\u00e3o de Jesus Cristo como Senhor, como aparece em ICor 16,22: \u201cSe algu\u00e9m n\u00e3o ama o Senhor, seja an\u00e1tema. Maran\u00e1 th\u00e1, vem, \u00f3 Senhor\u201d. Bem assim, Jesus \u00e9 proclamado Senhor no contexto da experi\u00eancia batismal, na liturgia eucar\u00edstica e batismal, um crit\u00e9rio determinante para reconhecer a autenticidade das manifesta\u00e7\u00f5es carism\u00e1ticas na comunidade de Corinto: \u201cNingu\u00e9m pode dizer \u2018Jesus \u00e9 Senhor\u2019, a n\u00e3o ser pelo Esp\u00edrito Santo\u201d ( ICor 12,3).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">\u00c9, pois, evidente que a cristologia paulina determina o horizonte de compreens\u00e3o e significa\u00e7\u00e3o de todas as demais perspectivas de sua teologia.<\/p>\n<h4 style=\"text-align: justify\">Do ponto de vista antropol\u00f3gico:<\/h4>\n<p style=\"text-align: justify\">Paulo tem uma concep\u00e7\u00e3o cuja caracteriza\u00e7\u00e3o se define a partir da rela\u00e7\u00e3o do ser humano com Jesus Cristo.\u00a0 Ele, Cristo, \u00e9 uma esp\u00e9cie de selo de autenticidade da exist\u00eancia crist\u00e3. Assim Paulo compreende que todos aqueles que est\u00e3o unidos a Cristo e com Ele formam um ser vivo \u00fanico, participando de sua condi\u00e7\u00e3o de Filho, s\u00e3o capacitados para tanto em raz\u00e3o de inser\u00e7\u00e3o batismal por meio da f\u00e9. Na condi\u00e7\u00e3o de batizados, inseridos em Cristo, compartilham com sua condi\u00e7\u00e3o de crucificado e ressuscitado. Tal intimidade traz ao crente a vit\u00f3ria sobre o pecado e, conseq\u00fcentemente, sobre a morte, o fruto do pecado. Paulo ensina, pois, que essa uni\u00e3o a Cristo concede aos crentes a condi\u00e7\u00e3o de viver a vida segundo um estatuto novo conduzido pelo dom do Esp\u00edrito. A vida do crente, pois, \u00e9 entendida como um contrato com Cristo. Um contrato que lhe garante a supera\u00e7\u00e3o e a vit\u00f3ria sobre a morte:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">\u201cSabemos que o nosso homem velho foi crucificado com Cristo, para que seja destru\u00eddo o corpo sujeito ao pecado, de maneira a n\u00e3o mais servirmos ao pecado. Pois, aquele que morreu est\u00e1 livre do pecado.\u201d (Rm 6,6-7)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">\u00c9 importante sublinhar que Paulo, ao focalizar que o corpo permanece por si vinculado ao regime do pecado e da morte, n\u00e3o est\u00e1 propondo uma antropologia de tipo dualista. A linguagem antropol\u00f3gica de Paulo nada tem a ver com o dualismo dos fil\u00f3sofos gregos. \u00c9 verdade que ele retoma alguns elementos da antropologia grega para indicar o ser humano total, como em ITs 5,23, \u201cesp\u00edrito, alma e corpo\u201d. Mas, ao associar as paix\u00f5es e os desejos do ser humano ao regime do pecado, Paulo entende a condi\u00e7\u00e3o do ser humano sob o dom\u00ednio do pecado enquanto um ser ou viver na carne. Por isso, ele fala dos desejos da carne que s\u00e3o contr\u00e1rios aos desejos do esp\u00edrito. Os desejos da carne conduzem \u00e0 morte; e os desejos do esp\u00edrito conduzem \u00e0 vida (Cf. Gl 5,16-23; Rm 8,5-8). Por isso tamb\u00e9m, Paulo, ao falar de imortalidade e de incorruptibilidade, ele atribui essas qualidades ao corpo dos ressuscitados, diferentemente dos fil\u00f3sofos gregos que o fazem em refer\u00eancia \u00e0 alma ou ao esp\u00edrito.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Assim, ele compreende que a presen\u00e7a e a\u00e7\u00e3o salv\u00edfica de Cristo \u00e9 determinante no dinamismo da justi\u00e7a e da vida na hist\u00f3ria humana. Assim como o primeiro Ad\u00e3o, com o pecado, introduziu a morte no mundo, Cristo, o Ad\u00e3o definitivo, \u00e9 a origem de uma nova humanidade. Essa perspectiva comprova sua compreens\u00e3o de Cristo, como aquele que \u00e9 solid\u00e1rio com todos os seres humanos:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">\u201cPor um s\u00f3 homem que pecou, a morte come\u00e7ou a reinar. Muito mais reinar\u00e3o na vida, pela media\u00e7\u00e3o de um s\u00f3, Jesus Cristo, os que recebem o dom gratuito e transbordante da justi\u00e7a.\u201d (Rm 5,17)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">\u00c9 forte e determinante, portanto, que Cristo Jesus \u00e9 a op\u00e7\u00e3o para o ser humano na viv\u00eancia dram\u00e1tica de sua condi\u00e7\u00e3o. Paulo, em Rm 7,18-13, descreve essa dramaticidade. Termina exclamando: \u201cInfeliz que eu sou! Quem me libertar\u00e1 deste corpo de morte?\u201d (Rm 7,24) A resposta a essa pergunta est\u00e1 na iniciativa de Deus Pai que mediante o envio de Jesus Cristo, o Filho, eliminou o pecado e assim tornou poss\u00edvel o que jamais a lei poderia alcan\u00e7ar, a plena realiza\u00e7\u00e3o da justi\u00e7a de Deus.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Essa radical mudan\u00e7a da situa\u00e7\u00e3o dos crentes, por meio de Cristo, \u00e9 o que Paulo entende como uma nova cria\u00e7\u00e3o. Por isso ele proclama: \u201cSer ou n\u00e3o ser circuncidado n\u00e3o tem import\u00e2ncia; o que conta \u00e9 ser nova criatura.\u201d (Gl 6,15)<\/p>\n<h4 style=\"text-align: justify\">Do ponto de vista da eclesiologia:<\/h4>\n<p style=\"text-align: justify\">A cristologia Paulina tamb\u00e9m configura o tecido da sua eclesiologia. A atividade apost\u00f3lica de Paulo, mediante o an\u00fancio do Evangelho de Jesus Cristo, d\u00e1 origem, nas grandes cidades da \u00c1sia e da Gr\u00e9cia, a pequenos grupos de crist\u00e3os que se re\u00fanem nas casas de pessoas abastadas. O tricl\u00ednium de uma casa romana do I s\u00e9culo comportava trinta a sessenta pessoas. Eram pequenas comunidades dom\u00e9sticas chefiadas por um casal crist\u00e3o. Tais comunidades se encontravam em assembl\u00e9ia para a celebra\u00e7\u00e3o da Ceia do Senhor, ou a solene ora\u00e7\u00e3o comum. Tudo celebrado em mem\u00f3ria da ressurrei\u00e7\u00e3o do Senhor ( I Cor 16,2). Paulo, ent\u00e3o, fala da \u201cIgreja de Deus\u201d, heran\u00e7a da tradi\u00e7\u00e3o b\u00edblica que designa o povo convocado por Deus no contexto da alian\u00e7a. \u00c9 o an\u00fancio do Evangelho de Jesus Cristo que convoca e configura\u00a0 a comunidade igreja. Na I Ts 1,1, Paulo fala da \u2018Igreja dos Tessalonicenses que est\u00e1 em Deus Pai e no Senhor Jesus\u2019.\u00a0 Paulo compreende que a Igreja \u00e9 convocada por iniciativa gratuita de Deus. Na medida em que se acolhe o Evangelho de Jesus Cristo por meio da f\u00e9 nasce a Igreja. Na sua linguagem eclesial Paulo inclui a express\u00e3o \u2018o corpo de Cristo\u2019 \/ \u2018o corpo do Senhor\u2019. Sua inten\u00e7\u00e3o \u00e9 indicar um horizonte que ajude a superar as diferen\u00e7as sociais e poss\u00edveis divis\u00f5es, nascidas da tend\u00eancia de privilegiar grupos que se re\u00fanem nas casas, presididos por pessoas carism\u00e1ticas ou de prest\u00edgio. \u00c9 uma advert\u00eancia para a import\u00e2ncia da comunh\u00e3o eclesial que n\u00e3o pode ser ferida. \u00c9 o que vem tratado na I Cor 11, 17-22, especialmente no contexto da Ceia do Senhor, quando n\u00e3o se privilegiam os mais pobres, respingando, como ele observa, na Igreja de Deus que corre o risco de perder a credibilidade. Ora, o ap\u00f3stolo recorda \u00e0 Igreja que a Ceia do Senhor \u00e9 a celebra\u00e7\u00e3o de sua mem\u00f3ria. Pois, quando se come deste p\u00e3o e se bebe deste c\u00e1lice, se est\u00e1 anunciando a morte do Senhor at\u00e9 que Ele venha. \u00c9 preciso, \u00e0 luz desta verdade, refletir sobre o pr\u00f3prio comportamento: \u201cExamine-se cada um a si mesmo, e assim, coma do p\u00e3o e beba do c\u00e1lice, pois quem come e bebe sem distinguir devidamente o corpo, come e bebe sua pr\u00f3pria condena\u00e7\u00e3o\u201d (ICor 11,28-29). Fica claro que para Paulo h\u00e1 uma \u00edntima interliga\u00e7\u00e3o entre o corpo do Senhor e a Igreja de Deus. Os pr\u00f3prios dons vividos e recebidos na Igreja t\u00eam a ver\u00a0 e s\u00e3o poss\u00edveis quando se professa e se vive a f\u00e9 como reconhecimento de que Jesus \u00e9 o Senhor.<\/p>\n<h4 style=\"text-align: justify\">Do ponto de vista da escatologia:<\/h4>\n<p style=\"text-align: justify\">A compreens\u00e3o escatol\u00f3gica na teologia Paulina se expressa bem com a figura do atleta que se lan\u00e7a na corrida. \u00c9 preciso viver para alcan\u00e7ar a meta. Seu testemunho significativo focaliza que foi agarrado por Jesus Cristo \u201cvisando ao pr\u00eamio ligado ao chamado que, do alto, Deus nos dirige em Jesus Cristo\u201d (Fl 3,14). Ele completa:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">\u201c N\u00f3s, ao contr\u00e1rio, somos cidad\u00e3os do c\u00e9u. De l\u00e1 aguardamos como Salvador o Senhor Jesus. Ele transformar\u00e1 o nosso corpo, humilhado, tornando-o semelhante ao seu corpo glorioso, gra\u00e7as ao poder que o torna capaz tamb\u00e9m de sujeitar a si todas as coisas\u201d (Fl 3,20-21).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">\u00c9 f\u00e1cil concluir que o entendimento escatol\u00f3gico de Paulo se localiza no contexto da f\u00e9 em Cristo Jesus, o Senhor Ressuscitado. Ele entende, pois, que a realidade \u00faltima \u00e9 a realiza\u00e7\u00e3o daquela rela\u00e7\u00e3o com o Senhor Jesus, rela\u00e7\u00e3o vivida agora por ele na f\u00e9. Os que cr\u00eaem e vivem essa f\u00e9 s\u00e3o associados a Cristo na sua vit\u00f3ria. A espera escatol\u00f3gica, a parusia, \u00e9 a experi\u00eancia m\u00e1xima desta realiza\u00e7\u00e3o de encontro.\u00c9 o momento definitivo da vit\u00f3ria sobre a morte porque os que est\u00e3o mortos ressuscitar\u00e3o para estarem todos e para sempre \u2018com o Senhor\u2019 (ITs 4,17; I Cor 15,52). Paulo gostaria de passar para a vida definitiva sem experimentar a morte, por ser esta um trauma e uma amea\u00e7a angustiante (cf. II Cor 5,1-5). Contudo, ele reconhece que o ser humano n\u00e3o est\u00e1 preparado agora para o reino de Deus. Por isso diz: \u201c\u00c9 necess\u00e1rio que este ser corrupt\u00edvel revista a incorruptibilidade, e que este ser mortal revista a imortalidade\u201d (I Cor 15,53). Esta \u00e9 a vit\u00f3ria definitiva de Cristo sobre a morte.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">\u00c9 \u00f3bvio, portanto, que a compreens\u00e3o escatol\u00f3gica de Paulo passou por mudan\u00e7as quando ele se tornou disc\u00edpulo de Jesus Cristo. Por exemplo, n\u00e3o \u00e9 evidente que a concep\u00e7\u00e3o judaica concebesse duas vindas do Messias. Mas Paulo cr\u00ea nessas duas vindas. Na verdade, Paulo passa a ler a hist\u00f3ria numa perspectiva de car\u00e1ter escatol\u00f3gico. Ora, a morte de Cristo tinha desarmado o mecanismo das for\u00e7as sobrenaturais do mal. O crente j\u00e1 n\u00e3o pode mais ser separado do amor de Deus por causa da morte redentora de Cristo. Ele afirma que a figura deste mundo passa (ICor 7,31), mas ainda n\u00e3o tinha passado. O crist\u00e3o era j\u00e1 uma nova criatura sem, contudo, ter experimentado fisicamente a ressurrei\u00e7\u00e3o, a plena reden\u00e7\u00e3o do corpo (Rm 8,21-22). A f\u00e9 cristol\u00f3gica de Paulo muda, alargando, sua compreens\u00e3o escatol\u00f3gica porquanto n\u00e3o havia nenhuma evid\u00eancia no Juda\u00edsmo primitivo expectativas de uma ressurrei\u00e7\u00e3o individual, menos ainda uma ressurrei\u00e7\u00e3o isolada do Messias antes da ressurrei\u00e7\u00e3o dos crentes. Ele faz, pois, uma \u00edntima conex\u00e3o entre a ressurrei\u00e7\u00e3o de Jesus e a ressurrei\u00e7\u00e3o dos crentes (ICor 15).<\/p>\n<h4 style=\"text-align: justify\">Do ponto de vista da Soteriologia:<\/h4>\n<p style=\"text-align: justify\">No \u00e2mbito da soteriologia tamb\u00e9m se constata uma nova configura\u00e7\u00e3o da compreens\u00e3o teol\u00f3gica paulina a partir da sua f\u00e9 cristol\u00f3gica. N\u00e3o existe at\u00e9 o momento nenhuma evid\u00eancia, por exemplo, de que houvesse expectativas nos judeus seus contempor\u00e2neos, da exist\u00eancia de um Messias crucificado. A hist\u00f3ria da morte e ressurrei\u00e7\u00e3o de Jesus leva Paulo a repensar como a salva\u00e7\u00e3o aconteceria. Ele mesmo diz que essa mensagem era um esc\u00e2ndalo para os judeus e tolice para os gregos (ICor 1,23).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Mesmo a significa\u00e7\u00e3o do Servo Sofredor de Is 53 n\u00e3o tem evid\u00eancias de ser entendido pelo Juda\u00edsmo primitivo como refer\u00eancia \u00e0 vinda do Messias, assim como foi aplicado ao minist\u00e9rio de Cristo. Nem mesmo o texto de Dt 21,23, ao falar da maldi\u00e7\u00e3o de ser pregado no madeiro, refere-se ao Messias sofredor. Paulo, ent\u00e3o, passa a compreender a salva\u00e7\u00e3o como um \u2018j\u00e1 e ainda n\u00e3o\u2019. Paulo trata amplamente tal quest\u00e3o em Rm 9-11, referindo-se particularmente ao plano de salva\u00e7\u00e3o de Deus para os judeus.<\/p>\n<h4 style=\"text-align: justify\">Outras observa\u00e7\u00f5es:<\/h4>\n<p style=\"text-align: justify\">A Cristologia Paulina, portanto, causou impacto mesmo fora do contexto crist\u00e3o primitivo. Por exemplo, \u00e9 grande sua influ\u00eancia na chamada Carta aos Hebreus, como no 4\u00ba. Evangelho. No 4\u00ba. Evangelho se encontra uma compreens\u00e3o de exalta\u00e7\u00e3o na morte sacrifical de Cristo, associando-o ao cordeiro pascal. Assim como a pneumatologia do 4\u00ba. Evangelho \u00e9 relacionada com a compreens\u00e3o da morte e ressurrei\u00e7\u00e3o de Cristo (Jo 14,18-21). Pode-se constatar sua influ\u00eancia na IPedro e na IIa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Um aspecto singular da Cristologia Paulina, como for\u00e7a de impacto, \u00e9 o uso da f\u00f3rmula \u2018em Cristo\u2019, para falar da uni\u00e3o espiritual profunda entre Cristo e os crist\u00e3os. Esse \u00e9 um conceito desenvolvido por Paulo sem paralelo no c\u00e2non do Novo Testamento. Essa \u00e9 uma singularidade do modo como Paulo v\u00ea a condi\u00e7\u00e3o daquele que cr\u00ea inserido em Cristo. \u00c9 a gra\u00e7a de Deus que realiza o processo de inser\u00e7\u00e3o e configura\u00e7\u00e3o do crente na morte e ressurrei\u00e7\u00e3o de Cristo. Assim, a uni\u00e3o do que crente com Cristo no seu corpo faz deste um em Esp\u00edrito com Cristo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Uma observa\u00e7\u00e3o importante \u00e9 que em Paulo n\u00e3o se encontra a refer\u00eancia de Jesus como o Filho do Homem, distinguindo-se dos Evangelhos. Paulo usa, na verdade, a tipologia do novo Ad\u00e3o. Portanto, Paulo se inspira mais no G\u00eanesis do que em Dn 7 ou Ezequiel. A cristologia do Filho do Homem n\u00e3o focaliza com a perspectiva do novo fundador da nova ra\u00e7a do ser humano. Nesse sentido, a teologia do novo Ad\u00e3o \u00e9 mais universal do que aquela do Filho do Homem. A teologia do novo Ad\u00e3o trabalha com o conceito de ser humano, abrindo espa\u00e7o para inclus\u00e3o tanto de judeus quanto de gentios, j\u00e1 que s\u00e3o humanos igualmente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">A Cristologia Paulina sempre impactou na hist\u00f3ria. Por isso mesmo, ela \u00e9 central, at\u00e9 mesmo eclipsando outras cristologias no Novo Testamento. \u00c9 uma cristologia complexa, desafiando a todo tipo de trabalho que tenta fazer um seu sum\u00e1rio. Suas partes n\u00e3o facilitam esta poss\u00edvel pretendida s\u00edntese. Para se compreender isso se diz que a Cristologia Paulina \u00e9 fundamentada na hist\u00f3ria sagrada de Cristo que, por sua vez, tem suas ra\u00edzes na hist\u00f3ria de Israel, como configura\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria de toda a ra\u00e7a humana.<\/p>\n<h4 style=\"text-align: right\">Dom Walmor Oliveira de Azevedo<br \/>Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte<\/h4>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A f\u00e9 em Jesus Cristo \u00e9 a refer\u00eancia hermen\u00eautica determinante da experi\u00eancia e do sentido de compromisso do ap\u00f3stolo Paulo bem como de sua teologia. Na mesma perspectiva, como j\u00e1 referido, Paulo rel\u00ea a tradi\u00e7\u00e3o b\u00edblica e judaica \u00e0 luz da f\u00e9 em Jesus Cristo. \u00c9 da f\u00e9 em Jesus Cristo que ele extrai os &hellip;<\/p>\n<p class=\"read-more\"> <a class=\"\" href=\"https:\/\/www.cnbb.org.br\/repercussoes-hermeneuticas-da-cristologia-paulina\/\"> <span class=\"screen-reader-text\">Repercuss\u00f5es hermen\u00eauticas da Cristologia Paulina<\/span> Leia mais &raquo;<\/a><\/p>\n","protected":false},"author":83,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":""},"categories":[758],"tags":[],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/posts\/11052"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/users\/83"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/comments?post=11052"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/posts\/11052\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/media?parent=11052"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/categories?post=11052"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/tags?post=11052"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}