{"id":11158,"date":"2008-11-17T00:00:00","date_gmt":"2008-11-17T02:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/semana-da-consciencia-negra-vinte-de-novembro\/"},"modified":"2008-11-17T00:00:00","modified_gmt":"2008-11-17T02:00:00","slug":"semana-da-consciencia-negra-vinte-de-novembro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/semana-da-consciencia-negra-vinte-de-novembro\/","title":{"rendered":"Semana da consci\u00eancia negra: vinte de novembro"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify\">Aos 20 de novembro do ano 1695, tombava Zumbi dos Palmares, o grande \u00edcone da resist\u00eancia do povo negro e da luta contra a escravid\u00e3o. [1]<\/p>\n<p>  <!--more-->  <\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Nascido aproximadamente quarenta anos antes, em um dos mocambos do quilombo de Palmares, o pequeno menino foi raptado no mesmo ano do seu nascimento pelo chefe da tropa de Br\u00e1s da Rocha Cardoso e levado para a freguesia do Porto Calvo, uma pequena vila do Recife, sendo entregue ao Padre Antonio Melo para que se encarregaria de sua cria\u00e7\u00e3o. [2]<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Poder\u00edamos perguntar: por que o Padre Melo n\u00e3o teve uma postura mais contundente, contr\u00e1ria \u00e0 escravid\u00e3o? Por que a Igreja, \u00e1rdua defensora dos ind\u00edgenas, n\u00e3o assumiu, naquela \u00e9poca, com o mesmo zelo, a luta contra esse odioso crime? Podemos aceitar a premissa de que a escravid\u00e3o n\u00e3o se constitu\u00eda uma op\u00e7\u00e3o dentro do Brasil, mas um imperativo do sistema implantado no pa\u00eds com a coloniza\u00e7\u00e3o portuguesa? [3] N\u00e3o podemos negar que a escravid\u00e3o era uma realidade profundamente arraigada, [4] , poucas eram as vozes que se levantavam para combat\u00ea-la. Entretanto, algumas com car\u00e1ter prof\u00e9tico ecoam at\u00e9 hoje. [5]<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Qual teria sido o destino daquele menino franzino caso tivesse ca\u00eddo\u00a0 nas m\u00e3os de um mero senhor de escravos? Seria Zumbi o mesmo l\u00edder se sua intelig\u00eancia e capacidade n\u00e3o fossem agu\u00e7adas? Podemos compartilhar da vis\u00e3o de que a forma\u00e7\u00e3o que ele recebeu do p\u00e1roco foi irrelevante para o desempenho de sua miss\u00e3o?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Neste momento de desafios em que nos perguntamos como viver o mandato evangelizador do Mestre Jesus, vale a pena sublinhar o papel fundamental do p\u00e1roco de Porto Calvo, Padre Antonio Melo, na educa\u00e7\u00e3o integral daquele menino batizado com o nome de Francisco. Al\u00e9m de educar essa crian\u00e7a na f\u00e9 cat\u00f3lica, iniciando-o no estudo das Sagradas Escrituras, ensinou-o a ler e escrever e ofereceu-lhe ainda no\u00e7\u00f5es de latim. [6]<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Atrevo-me a afirmar que a atitude daquele p\u00e1roco de aldeia, embora t\u00edmida para nossa sensibilidade contempor\u00e2nea, teve uma grandiosa for\u00e7a prof\u00e9tica. Ainda hoje, passados trezentos anos, tal atitude consegue ser um testemunho relevante para aqueles que acreditam que a repara\u00e7\u00e3o desse crime de lesa humanidade passa necessariamente por a\u00e7\u00f5es afirmativas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">E, justamente, neste momento, iluminados pela Confer\u00eancia de Aparecida, constatamos que a hist\u00f3ria dos afro-descendentes \u201ctem sido atravessada por uma exclus\u00e3o social, econ\u00f4mica, pol\u00edtica e, sobretudo, racial, onde a identidade \u00e9tnica \u00e9 fator de subordina\u00e7\u00e3o social\u201d [7]. Embora vivamos num novo tempo, numa nova \u00e9poca em que n\u00e3o se admitem etnocentrismos, xenofobismos e preconceitos, os afro-descendentes \u201cs\u00e3o discriminados na inser\u00e7\u00e3o do trabalho, na qualidade e conte\u00fado da forma\u00e7\u00e3o escolar, nas rela\u00e7\u00f5es cotidianas\u201d [8]. As conseq\u00fc\u00eancias dos 300 anos de escravid\u00e3o ainda n\u00e3o foram suficientemente reparadas. Os n\u00fameros estat\u00edsticos s\u00e3o n\u00edtidos: h\u00e1 \u201cum processo de ocultamento sistem\u00e1tico dos valores, da hist\u00f3ria e da cultura dos afro-descendentes. [9] A forma\u00e7\u00e3o superior, que deveria ser um direito garantido a todos, tem sido uma meta quase imposs\u00edvel de ser alcan\u00e7ada, dificultando ao negro o acesso \u00e0s esferas de decis\u00e3o na sociedade\u201d [10].<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Padre Melo percebeu, desde cedo, que aquele menino n\u00e3o era somente um \u201cneguinho\u201d que deveria ser cuidado, mas algu\u00e9m com grande capacidade de lideran\u00e7a e intelig\u00eancia. Os afro-descendentes \u201cemergem agora na sociedade\u201d [11] \u201cassumindo uma atitude mais protagonista\u201d conscientes do poder que t\u00eam nas m\u00e3os e da possibilidade de contribu\u00edrem na constru\u00e7\u00e3o de uma nova sociedade, justa e solid\u00e1ria [12].<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">O negro nunca aceitou pacificamente a escravid\u00e3o. A resist\u00eancia e a luta eram realidades bem presentes na sua vida. No s\u00e9culo XVII, negros fugidos dos engenhos de a\u00e7\u00facar fundaram na serra da Barriga o quilombo de Palmares, no atual territ\u00f3rio do Estado das Alagoas, terra da promiss\u00e3o e da liberdade, onde se viviam a partilha e a solidariedade, para\u00edso para todo negro escravizado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Zumbi, interpelado pela situa\u00e7\u00e3o em que viviam seus irm\u00e3os negros, compreendeu que o seu destino estava ligado \u00e0 resist\u00eancia e \u00e0 luta contra a escravid\u00e3o, e que n\u00e3o deveria limitar-se a viver tranq\u00fcilamente em Porto Calvo. Assim, em 1670, aos 15 anos de idade, n\u00e3o querendo mais ser escravo, foge e regressa a Palmares, tornando-se, aos poucos, um grande guerreiro; [13] conhece como ningu\u00e9m o modo adequado de defender e resistir \u00e0s tropas inimigas. Inteligente e astuto, quando o Governador da capitania de Pernambuco, Pedro de Almeida, prop\u00f4s ao chefe Ganga Zumba um acordo [14], Zumbi discorda, n\u00e3o aceitando fazer concess\u00f5es e n\u00e3o admitindo, pois, que uns negros ficassem libertos e outros continuassem escravos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">O quilombo dos Palmares [15] crescia a cada dia; para l\u00e1 se dirigiam, al\u00e9m dos negros, ind\u00edgenas e brancos pobres. No seu auge, chegou a ter mais de 1500 casas, contando com mais de 30 mil moradores. Transformou-se em estado aut\u00f4nomo, resistindo a ataques holandeses, luso-brasileiros, bandeirantes e paulistas. Foram mais de cem anos de resist\u00eancia. A organiza\u00e7\u00e3o e a estrutura do quilombo amedrontou tanto aos senhores de engenho como ao governo colonial. N\u00e3o faltaram apoio financeiro e forte artilharia para que Domingos Jorge Velho e Vieira de Mello, com suas tropas, atacassem e vencessem o Macaco, principal mocambo de Palmares. Os quilombolas palmarinos, embora lutando bravamente, n\u00e3o conseguiram resistir: a maioria morreu lutando. Zumbi, embora ferido, conseguiu fugir. Durante quase dois anos, ap\u00f3s a luta, continuou organizando escravos da regi\u00e3o e combatendo senhores de engenho e as for\u00e7as do governo colonial.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Contudo, em 20 de novembro de 1695, Zumbi, tra\u00eddo por um de seus principais comandantes \u2014 Ant\u00f4nio Soares, que trocou sua liberdade pela revela\u00e7\u00e3o do esconderijo \u2014 foi ent\u00e3o capturado e torturado. Jorge Velho matou o rei dos Palmares e o decapitou. A cabe\u00e7a do grande guerreiro ficou muito tempo na Pra\u00e7a do Carmo, em Recife<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">A morte de Zumbi n\u00e3o pode ser interpretada como um fracasso e sim entendida como conseq\u00fc\u00eancia l\u00f3gica de sua vida comprometida e doada. Nesta data significativa, fa\u00e7o minhas as palavras de Dom Helder, que neste 2008 completaria 100 anos de exist\u00eancia, o nosso grande profeta, no seu bel\u00edssimo MARIAMA: \u201cMariama, Nossa Senhora, M\u00e3e de Cristo e M\u00e3e dos homens, m\u00e3e dos homens de todas as ra\u00e7as, de todas as cores, de todos os cantos da terra. O importante, Mariama, \u00e9 que a CNBB, toda a Igreja, embarque de cheio na causa dos negros\u201d. <\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-size: 8pt\">[1] Cf. MATOS, Henrique C. J. Nossa Hist\u00f3ria. 500 anos de presen\u00e7a da Igreja Cat\u00f3lica no Brasil. Tomo 2 Ed. Paulinas,\u00a0 SP 2002, PP 142-143<br \/>2 Ibidem 143<br \/>3 Cf. Hoornaert, E, ; Azzi, R; Grijp, K; Brod, B. Hist\u00f3ria da Igreja no Brasil, Ed. Vozes, Petr\u00f3polis, 1977 pp264<br \/>4 Para compreender melhor a escravid\u00e3o no Brasil e o seu car\u00e1ter funcional leia\u00a0 Hoornaert, E, ; Azzi, R; Grijp, K; Brod, B. Hist\u00f3ria da Igreja no Brasil, Ed. Vozes, Petr\u00f3polis, 1977 pp 258.<br \/>5 O Pe. Jos\u00e9 Oscar Beozzo elenca algumas vozes discordantes ao sistema escravocrata no Brasil in Beozzo, O. org. Hist\u00f3ria da Igreja no Brasil, tomo II\/2.Ed. Vozes, Petr\u00f3polis, 1977 pp265<br \/>6 Alguns historiadores afirmam quem havia entre o Padre Melo e o l\u00edder de Palmares uma verdadeira amizade, cf MATOS, Henrique C. J. Nossa Hist\u00f3ria. 500 anos de presen\u00e7a da Igreja Cat\u00f3lica no Brasil. Tomo 2 Ed. Paulinas,\u00a0 SP 2002, PP 143<br \/>7 Documento de Aparecida 96<br \/>8 Ibid<br \/>9 Ibid 402<br \/>10 Ibid 533<br \/>11 Ibid 91<br \/>12 Ibid 75<br \/>13l Cf. MATOS, Henrique C. J. Nossa Hist\u00f3ria. 500 anos de presen\u00e7a da Igreja Cat\u00f3lica no Brasil. Tomo 2 Ed. Paulinas,\u00a0 SP 2002, pp 143.<br \/>14 A coroa portuguesa nunca permitia acordos entre africanos e colonizadores. A resposta do dia 7 de fevereiro de 1686 sobre o acordo com Palmares dizia o seguinte: \u201cos africanos foragidos vivem em pecado mortal, s\u00e3o revoltosos contra a vontade de Deus, e n\u00e3o se faz paz com inimigos de Deus\u201d, Beozzo, O. Org. Hist\u00f3ria da Igreja no Brasil, tomo II\/2.Ed. Vozes, Petr\u00f3polis, 1977 pp256.<br \/>15 Muito temido pelos colonizadores os quilombos significavam a esperan\u00e7a dos negros fugitivos e brancos pobres, uma alternativa de Brasil, um Brasil fraternal. Cf. MATOS, Henrique C. J. Nossa Hist\u00f3ria. 500 anos de presen\u00e7a da Igreja Cat\u00f3lica no Brasil. Tomo 2 Ed. Paulinas,\u00a0 SP 2002, pp 398.<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Aos 20 de novembro do ano 1695, tombava Zumbi dos Palmares, o grande \u00edcone da resist\u00eancia do povo negro e da luta contra a escravid\u00e3o. [1]<\/p>\n","protected":false},"author":83,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":""},"categories":[758],"tags":[],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/posts\/11158"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/users\/83"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/comments?post=11158"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/posts\/11158\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/media?parent=11158"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/categories?post=11158"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/tags?post=11158"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}