{"id":11397,"date":"2010-03-15T00:00:00","date_gmt":"2010-03-15T03:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/economia-e-vida-uma-questao-etica\/"},"modified":"2010-03-15T00:00:00","modified_gmt":"2010-03-15T03:00:00","slug":"economia-e-vida-uma-questao-etica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/economia-e-vida-uma-questao-etica\/","title":{"rendered":"Economia e vida: uma quest\u00e3o \u00e9tica"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify\">A Campanha da Fraternidade \u00e9 promovida todos os anos no Brasil pela Igreja Cat\u00f3lica durante a Quaresma, per\u00edodo de 40 dias de prepara\u00e7\u00e3o para a P\u00e1scoa; neste ano, por\u00e9m, ela \u00e9 realizada de forma ecum\u00eanica, com a participa\u00e7\u00e3o de 5 Igrejas crist\u00e3s reunidas no Conselho Nacional de Igrejas Crist\u00e3s do Brasil (CONIC). O tema &#8211; economia e vida &#8211; aborda a quest\u00e3o crucial das atividades econ\u00f4micas, pelas quais passa a constru\u00e7\u00e3o da cultura da solidariedade.<\/p>\n<p>  <!--more-->  <\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">N\u00e3o \u00e9 inten\u00e7\u00e3o nem compet\u00eancia da Campanha da Fraternidade debater teorias e t\u00e9cnicas de gest\u00e3o econ\u00f4mica; ela prop\u00f5e uma reflex\u00e3o sobre aquilo que move, ou que deveria mover a economia: o servi\u00e7o \u00e0 vida. A quest\u00e3o \u00e9 atual e n\u00e3o interessa apenas aos te\u00f3ricos de sistemas econ\u00f4micos e seus estudiosos, nem somente aos gestores das pol\u00edticas econ\u00f4micas ou administrativas: Toda pessoa \u00e9 um agente econ\u00f4mico, quando trabalha, produz, consome,\u00a0 investe, ganha, compra, vende, gasta. A quest\u00e3o de fundo, posta pela Campanha da Fraternidade, \u00e9 \u00e9tica e pode ser traduzida nesta pergunta: A economia est\u00e1 a servi\u00e7o da vida, ou da morte?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Em 2009, Bento XVI levantava esta mesma quest\u00e3o na enc\u00edclica Caritas in Veritate (A caridade na verdade), refletindo sobre o desenvolvimento dos povos no contexto do mundo atual, sobretudo tendo em vista a recente crise econ\u00f4mica e financeira. Tamb\u00e9m Paulo VI, na famosa carta enc\u00edclica Populorum progressio (O desenvolvimento dos povos), j\u00e1 havia insistido que o desenvolvimento, para ser verdadeiro, deve ser integral e precisa beneficiar todas as pessoas e a pessoa inteira, em todas as suas dimens\u00f5es. Mais de 40 anos depois, quando a humanidade alcan\u00e7ou um alto grau de globaliza\u00e7\u00e3o, Bento XVI constata que\u00a0 estamos longe de alcan\u00e7ar este ideal; apesar de todos os avan\u00e7os cient\u00edficos e tecnol\u00f3gicos, ainda existem camadas sociais e povos inteiros vivendo na mis\u00e9ria, atingidos pela fome, doen\u00e7as end\u00eamicas e pelo analfabetismo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Hoje o n\u00famero dos deserdados do progresso \u00e9 bem maior do que nos anos sessenta. Aquilo que o papa observa, tamb\u00e9m n\u00f3s podemos constatar: A globaliza\u00e7\u00e3o dos mercados, dos sistemas financeiros e das comunica\u00e7\u00f5es sociais aproxima-nos cada vez mais, mas n\u00e3o nos faz mais irm\u00e3os (cf n.19). Os efeitos de morte da economia s\u00e3o constat\u00e1veis na perman\u00eancia da mis\u00e9ria e da fome de muita gente, na d\u00edvida externa impag\u00e1vel de pa\u00edses pobres, no uso irrespons\u00e1vel dos recursos naturais a ponto de causar a destrui\u00e7\u00e3o da natureza.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Por que acontece isso? Teoricamente, todos podem ter acesso \u00e0s mesmas oportunidades e tecnologias; todos est\u00e3o envolvidos pela mesma onda globalizante, mas alguns permanecem na mis\u00e9ria e outros se projetam para posi\u00e7\u00f5es privilegiadas, inating\u00edveis para o comum dos mortais. Por qual motivo o progresso tecnol\u00f3gico n\u00e3o realiza, por si s\u00f3, o bem comum de todos? Seriam as profundas desigualdades sociais e econ\u00f4micas reinantes no mundo uma fatalidade insuper\u00e1vel? Dever\u00edamos tranq\u00fcilizar-nos, concluindo que se trata de marca indel\u00e9vel da condi\u00e7\u00e3o humana, que nunca ser\u00e1 cancelada, sendo por isso in\u00fatil lutar por uma ordem econ\u00f4mica mais justa e uma sociedade mais fraterna e solid\u00e1ria? Se aceit\u00e1ssemos tal hip\u00f3tese, tamb\u00e9m estar\u00edamos negando, ipso facto, a dignidade b\u00e1sica comum de todos os seres humanos e abrir\u00edamos uma brecha c\u00f4moda\u00a0 para justificar todas as formas de discrimina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">A hip\u00f3tese da desigualdade social e econ\u00f4mica insuper\u00e1vel n\u00e3o pode ser aceita. Uma sociedade de classes estratificadas e imperme\u00e1veis seria aberrante, um verdadeiro choque para a consci\u00eancia. Da mesma forma, \u00e9 inaceit\u00e1vel a hip\u00f3tese de uma sociedade igualit\u00e1ria imposta pela for\u00e7a, mediante o cerceamento da liberdade pessoal. Experi\u00eancias hist\u00f3ricas recentes mostraram que o igualitarismo for\u00e7ado fere a dignidade humana, imp\u00f5e a todos o paternalismo de Estado e se torna causa de apatia geral, inibindo o dinamismo criativo das pessoas. Mas, certamente, existe a possibilidade de desenvolver rela\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas entre pessoas, sociedades e pa\u00edses, que se orientem pelo respeito \u00e0 vida e \u00e0 dignidade humana e por crit\u00e9rios de verdadeira justi\u00e7a e solidariedade, bem como pelo respeito \u00e0 natureza, de cujos recursos dependem a maioria das iniciativas econ\u00f4micas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">A Campanha da Fraternidade lembra um princ\u00edpio que nunca deveria ser esquecido: a pessoa e a promo\u00e7\u00e3o do bem comum t\u00eam a primazia sobre o lucro e o ac\u00famulo individualista e devem, por isso, estar no centro de toda atividade econ\u00f4mica. Vale uma verdadeira invers\u00e3o de posi\u00e7\u00f5es: N\u00e3o \u00e9 a pessoa que est\u00e1 a servi\u00e7o da economia mas, ao contr\u00e1rio, a economia\u00a0 deve estar a servi\u00e7o da pessoa. O ser humano \u00e9 o valor maior e sempre deve ocupar o primeiro lugar. O dinheiro e o lucro s\u00e3o necess\u00e1rios e, em si, n\u00e3o s\u00e3o um mal, mas o uso que deles se faz pode ser distorcido e mau. O\u00a0 papa Bento XVI, na enc\u00edclica j\u00e1 citada acima, recorda-nos que o lucro n\u00e3o deve o objetivo supremo e \u00faltimo da atividade econ\u00f4mica, mas um meio orientado para um fim, isto \u00e9, para a promo\u00e7\u00e3o do bem comum. O lucro, visado como fim exclusivo, pode destruir a riqueza e criar a pobreza (cf n. 21). Bastaria aqui analisar a origem e os efeitos da recente crise financeira e econ\u00f4mica mundial.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Uma economia a servi\u00e7o da vida, portanto, dever\u00e1 integrar a \u00e9tica da solidariedade e da responsabilidade social: n\u00e3o pode ser bom, do ponto de vista \u00e9tico, algo que seja vantajoso para mim, mas traga preju\u00edzo aos outros. Pensar, planejar e agir solidariamente. Os \u201coutros\u201d, neste caso, s\u00e3o todos os atuais ocupantes do nosso planeta, mas tamb\u00e9m as gera\u00e7\u00f5es que ainda vir\u00e3o depois de n\u00f3s; ficaria mal deixar-lhes apenas os ossos do banquete da vida&#8230;<\/p>\n<h4 style=\"text-align: right\">Card. Odilo P. Scherer<\/h4>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A Campanha da Fraternidade \u00e9 promovida todos os anos no Brasil pela Igreja Cat\u00f3lica durante a Quaresma, per\u00edodo de 40 dias de prepara\u00e7\u00e3o para a P\u00e1scoa; neste ano, por\u00e9m, ela \u00e9 realizada de forma ecum\u00eanica, com a participa\u00e7\u00e3o de 5 Igrejas crist\u00e3s reunidas no Conselho Nacional de Igrejas Crist\u00e3s do Brasil (CONIC). 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