{"id":11481,"date":"2008-08-19T00:00:00","date_gmt":"2008-08-19T03:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/evangelizacao-comunidade-missionaria-para-a-humanidade\/"},"modified":"2008-08-19T00:00:00","modified_gmt":"2008-08-19T03:00:00","slug":"evangelizacao-comunidade-missionaria-para-a-humanidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/evangelizacao-comunidade-missionaria-para-a-humanidade\/","title":{"rendered":"Evangeliza\u00e7\u00e3o: Comunidade mission\u00e1ria para a humanidade"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify\">A humanidade pergunta a n\u00f3s, comunidade mission\u00e1ria, que \u201crecebeu a miss\u00e3o de anunciar o Reino de Cristo e de Deus\u201d (LG 6): \u201cO que significa o an\u00fancio deste Reino para os grandes problemas que amea\u00e7am a humanidade? Qual \u00e9 a contribui\u00e7\u00e3o (relev\u00e2ncia) da comunidade mission\u00e1ria para a solu\u00e7\u00e3o desses problemas? E n\u00f3s, comunidade mission\u00e1ria, nos perguntamos: \u201cQuais s\u00e3o esses problemas e qual \u00e9 a solu\u00e7\u00e3o que podemos oferecer ao mundo, \u00e0 humanidade e, sobretudo aos pobres? Esses problemas t\u00eam solu\u00e7\u00e3o? O qu\u00ea significa \u201clevar o an\u00fancio da pessoa de Jesus, de Seu Evangelho, como luz de Deus e paradigma de humanidade (&#8230;) por meio das a\u00e7\u00f5es salv\u00edficas da Igreja\u201d, como o \u201cInstrumento de Trabalho\u201d (IdT 18) desse Congresso afirma? Como transformar a nossa proposta numa linguagem secular, para que o s\u00e9culo XXI a entenda como sua, mordente, enraizada em seus contextos e, ao mesmo tempo, aberta ao transcendente, de onde \u201cmanifestou-se a bondade de nosso Salvador e Seus amor aos homens\u201d (Ti 3,4; DdT 19)?<\/p>\n<p>  <!--more-->  <\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">De uma maneira semelhante perguntou, no fim do segundo s\u00e9culo, um pag\u00e3o ilustre, conhecido com o nome de Diogneto, \u00e0 comunidade crist\u00e3: Quem \u00e9 esse Deus e qual \u00e9 a sua Boa Nova em que os crist\u00e3os depositam a sua confian\u00e7a? Qual \u00e9 a proposta de voc\u00eas crist\u00e3os, disc\u00edpulos-mission\u00e1rios, para um mundo que n\u00e3o tem mais muitas propostas que valem para todos? Qual \u00e9 seu projeto? Qual \u00e9 o seu segredo? E o autor desconhecido dessa Carta catequ\u00e9tica a Diogneto responde: Os crist\u00e3os n\u00e3o habitam cidades \u00e0 parte, n\u00e3o empregam idioma diverso dos outros (&#8230;). Moram na pr\u00f3pria p\u00e1tria, mas como peregrinos. Enquanto cidad\u00e3os, de tudo participam, por\u00e9m tudo suportam como estrangeiros. Toda terra estranha \u00e9 p\u00e1tria para eles e toda p\u00e1tria, terra estranha. (&#8230;) Os crist\u00e3os residem no mundo, mas n\u00e3o s\u00e3o do mundo. (&#8230;) S\u00e3o eles que seguram o cosmos (A Carta a Diogneto, n. 1-7).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">O qu\u00ea significa \u201csegurar o cosmos?\u201d Certamente significa \u201czelar\u201d pela vida no mundo, \u201ccarregar\u201d todos aqueles, cuja vida est\u00e1 amea\u00e7ada, nas costas, \u201clutar\u201d pela justi\u00e7a da ressurrei\u00e7\u00e3o e \u201cconfiar\u201d naquele Deus que se encarnou nesse mundo para que tenha \u201cvida em abund\u00e2ncia\u201d (Jo 10,10).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">O tema, que me foi confiado, \u00e9 o da miss\u00e3o universal da Igreja. Quando hoje na Igreja falamos de \u201cmiss\u00e3o\u201d, distinguimos \u2013 em vista dos destinat\u00e1rios e dos agentes \u2013 sete ou oito dimens\u00f5es diferentes. Miss\u00e3o pode significar \u201ctestemunho no mundo\u201d, \u201cpastoral mission\u00e1ria\u201d, \u201cnova evangeliza\u00e7\u00e3o\u201d, \u201creevangeliza\u00e7\u00e3o\u201d, \u201cecumenismo\u201d, \u201cdi\u00e1logo inter-religioso\u201d, \u201cmiss\u00e3o ad gentes\u201d, \u201cmiss\u00e3o inter gentes\u201d e \u201cmiss\u00e3o al\u00e9m-fronteiras\u201d. Todas estas atividades mission\u00e1rias, no seu conjunto, configuram \u201ca miss\u00e3o da Igreja no mundo\u201d. S\u00e3o pedrinhas que constituem o mosaico da miss\u00e3o universal da Igreja. \u201cA comunidade mission\u00e1ria para a humanidade\u201d, a \u201cmiss\u00e3o ad humanitatem\u201d, \u00e9 dirigida a todos os credos, inclusive ao pr\u00f3prio, porque \u201ca Evangeliza\u00e7\u00e3o dirige-se tamb\u00e9m \u00e0 pr\u00f3pria Igreja\u201d, segundo o \u201cInstrumento de Trabalho\u201d (n. 20). Nossa miss\u00e3o se dirige a todas as culturas, na\u00e7\u00f5es, classes sociais e faixas et\u00e1rias.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Poder\u00edamos perguntar: Esse tema n\u00e3o \u00e9 amplo demais? Essa amplitude n\u00e3o nos faz esquecer os nossos problemas espec\u00edficos? Onde fica a nossa identidade cat\u00f3lica, onde a op\u00e7\u00e3o pelos pobres, a defesa dos povos ind\u00edgenas, onde a Igreja local com suas Comunidades Eclesiais de Base, onde os minist\u00e9rios, os leigos e o di\u00e1logo ecum\u00eanico e inter-religioso? Certamente todas essas partes e seus eixos transversais (cf. IdT 1 e 13) ser\u00e3o trabalhados nos grupos e em outras exposi\u00e7\u00f5es desse congresso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Neste momento, por\u00e9m, me parece devo mostrar que os quebra-cabe\u00e7as eclesiais t\u00eam sua relev\u00e2ncia, ou como o Papa disse em sua Enc\u00edclica \u201cSobre a esperan\u00e7a crist\u00e3\u201d (Spe salvi), sua \u201cmais-valia do c\u00e9u\u201d (SpS 35), para toda a humanidade. Essa \u201cmais-valia\u201d envolve a gra\u00e7a de Deus, como dom, e a a\u00e7\u00e3o nossa como dever e resposta. As \u201cDiretrizes Gerais da A\u00e7\u00e3o Evangelizadora da Igreja no Brasil\u201d, de 2008, advertem, que a sensibilidade do disc\u00edpulo mission\u00e1rio para as quest\u00f5es espec\u00edficas da realidade particular das nossas Igrejas \u201cn\u00e3o o exime de voltar sua aten\u00e7\u00e3o para as grandes quest\u00f5es que dizem respeito a toda humanidade. Num mundo globalizado, em que as a\u00e7\u00f5es e suas conseq\u00fc\u00eancias ultrapassem fronteiras, \u00e9 imposs\u00edvel fechar os olhos para aspectos que atingem (&#8230;) em especial os marcados pela pobreza, pela exclus\u00e3o, pela viol\u00eancia e pela persegui\u00e7\u00e3o (DGAE 207).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">O amor a Deus e ao pr\u00f3ximo \u00e9 insepar\u00e1vel. Ao que me parece, a minha tarefa, \u00e9 costurar aquele fio que d\u00e1 conta de um mundo humano e de uma responsabilidade mission\u00e1ria em expans\u00e3o, como o pr\u00f3prio cosmo.1 Vou apresentar tr\u00eas dimens\u00f5es desse largo caminho da nossa responsabilidade mission\u00e1ria entre o contexto local e os confins do mundo: (1) A relev\u00e2ncia da comunidade mission\u00e1ria para a humanidade brota da \u201cnatureza mission\u00e1ria da Igreja\u201d. (2) Pedras preciosas e pedras de trope\u00e7o no caminhar da comunidade mission\u00e1ria ao encontro da humanidade. (3) Nosso compromisso com a humanidade.<\/p>\n<h4 style=\"text-align: justify\">1. Nossa responsabilidade<\/h4>\n<p style=\"text-align: justify\">O argumento da \u201cnatureza mission\u00e1ria\u201d \u00e9 um argumento interno da Igreja que afirma a necessidade e continuidade permanente do paradigma mission\u00e1rio. Depois de Aparecida, a Igreja convoca novamente os batizados para assumirem seu discipulado em regime de urg\u00eancia (DA 289, 368, 518). Essa mobiliza\u00e7\u00e3o mission\u00e1ria n\u00e3o deve ser considerada algo extraordin\u00e1rio, nem como prerrogativa de uma ou outra Igreja local ou de setores pastorais ou movimentos espec\u00edficos. Segundo o Vaticano II, a natureza mission\u00e1ria faz parte da normalidade e da raz\u00e3o de ser eclesial: \u201cA Igreja peregrina \u00e9 por sua natureza mission\u00e1ria. Pois ela se origina da miss\u00e3o do Filho e da miss\u00e3o do Esp\u00edrito Santo, segundo o des\u00edgnio de Deus Pai\u201d (AG 2).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Depois do Conc\u00edlio, o magist\u00e9rio latino-americano retomou essa afirma\u00e7\u00e3o fundamental em v\u00e1rias ocasi\u00f5es (cf. SD 12, DA 347). Aparecida, na \u201cTerceira Parte\u201d de seu texto conclusivo, dedicado ao agir pastoral, desenha uma Igreja que vive \u201cem estado de miss\u00e3o\u201d (DA 213). Tamb\u00e9m as \u201cDiretrizes Gerais da A\u00e7\u00e3o Evangelizadora da Igreja no Brasil 2008-2010\u201d colocaram na sua parte central o sonho do discipulado mission\u00e1rio \u201cnuma Igreja em estado permanente de miss\u00e3o\u201d (DGAE 47-101). Os textos insistem em devolver a cotidianidade mission\u00e1ria \u00e0 Igreja em todas as suas inst\u00e2ncias. Tamb\u00e9m o discurso teol\u00f3gico deve ser marcado pela natureza mission\u00e1ria da Igreja, e representa n\u00e3o uma disciplina entre outras, mas uma teologia da miss\u00e3o que permeia todas as mat\u00e9rias teol\u00f3gicas. A Teologia da Miss\u00e3o \u00e9, ao mesmo tempo, teologia fundamental e pastoral, discurso nuclear de radia\u00e7\u00e3o, discurso \u201c`performativo\u00b4 e n\u00e3o somente \u00b4informativo\u00b4\u201d (SpS 4), ou seja, um discurso que poder\u00e1 transformar a nossa vida e a dos outros.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">De que se trata nessa \u201cnatureza mission\u00e1ria\u201d? A compreens\u00e3o do termo \u201cnatureza\u201d tem uma longa hist\u00f3ria da qual captamos o essencial para responder a pergunta. A partir da f\u00e9, os crist\u00e3os compreendem o mundo como cria\u00e7\u00e3o divina que permeia uma ordem natural marcada por racionalidade e sentido. Mas a f\u00e9 nos adverte tamb\u00e9m que mundo, natureza e humanidade s\u00e3o envolvidos numa \u201cqueda\u201d ou \u201cquebra\u201d da racionalidade original; s\u00e3o marcados pelo pecado que n\u00e3o permite mais, sem os esclarecimentos da Revela\u00e7\u00e3o, considerar o natural (\u201ca natureza\u201d) simplesmente como bom, racional e \u00e9tico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">A \u201cnatureza mission\u00e1ria\u201d tem seus fundamentos na ordem da cria\u00e7\u00e3o e da reden\u00e7\u00e3o; ela est\u00e1 ligada \u00e0 cria\u00e7\u00e3o, porque se trata na \u201cnatureza mission\u00e1ria\u201d de uma \u201cnatureza\u201d que coincide com a \u201cess\u00eancia\u201d e o \u201cser\u201d da natureza criada, da qual a humanidade faz parte; ela est\u00e1 ligada \u00e0 reden\u00e7\u00e3o, que os crist\u00e3os interpretam como recria\u00e7\u00e3o, porque se baseia, segundo a revela\u00e7\u00e3o, na natureza redimida pela nova ordem do ressuscitado que envia seus disc\u00edpulos como mission\u00e1rios aos \u201cconfins do mundo\u201d. A natureza mission\u00e1ria, \u00e0s vezes tamb\u00e9m chamada de \u201cess\u00eancia mission\u00e1ria\u201d, \u00e9 vivida por pessoas redimidas pela gra\u00e7a, por\u00e9m, que continuam pecadores.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">A \u201cnatureza mission\u00e1ria\u201d da Igreja n\u00e3o \u00e9 uma \u201cquest\u00e3o disputada\u201d ou negoci\u00e1vel. Em seus desdobramentos, em sua media\u00e7\u00e3o e pr\u00e1tica hist\u00f3rica, por\u00e9m, ela \u00e9 sujeita a discernimentos, discuss\u00f5es e negocia\u00e7\u00f5es como \u00e9 facilmente verific\u00e1vel, se compararmos, por exemplo, os chamados Col\u00f3quios, de 1524, nos quais os doze franciscanos exp\u00f5em aos l\u00edderes religiosos ind\u00edgenas, sobreviventes da conquista do M\u00e9xico, a nova ordem crist\u00e3, com o Documento de Puebla (1979) ou os escritos de um Jos\u00e9 Anchieta com o di\u00e1rio de um Vicente Ca\u00f1as, martirizado, em 1987, como defensor do povo Enawene-Nawe, no rio Juruena\/MT. A \u201cnatureza mission\u00e1ria\u201d \u00e9 \u201cess\u00eancia\u201d num sentido metaf\u00f3rico, porque \u00e9 \u201cprinc\u00edpio\u201d e como tal, faz, ontologicamente, parte das origens, mas pertence ao tempo da Igreja e \u00e9 historicamente vivida. Por ser das origens e por n\u00e3o excluir ningu\u00e9m, se dirige como responsabilidade universal a todos com o projeto de Jesus, o Reino de Deus.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">As m\u00faltiplas afirma\u00e7\u00f5es da \u201cnatureza mission\u00e1ria\u201d da Igreja em documentos recentes n\u00e3o permitem a conclus\u00e3o que essa natureza foi esquecida. Ela foi, em v\u00e1rias \u00e9pocas e regi\u00f5es do mundo, escurecida pela proximidade da Igreja ao poder. O poder seja express\u00e3o de regimes coloniais, imperiais, ditatoriais ou at\u00e9 democr\u00e1ticos, procurou sempre transformar a miss\u00e3o em ideologia e neutralizar a presen\u00e7a da Igreja junto aos pobres cuja exist\u00eancia denuncia a viola\u00e7\u00e3o de seus direitos e culturas pelos respectivos regimes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Segundo a f\u00e9 crist\u00e3, origem e natureza mission\u00e1ria nos foram reveladas por Jesus Cristo. A miss\u00e3o tem a sua origem na miss\u00e3o do Deus trinit\u00e1rio (\u201cmiss\u00e3o de Deus\u201d) e sua finalidade na salva\u00e7\u00e3o da humanidade: \u201cPara que tenham a vida e a tenham em abund\u00e2ncia\u201d (Jo 10,10). E essa miss\u00e3o se prolonga pelo envio dos disc\u00edpulos por Jesus ressuscitado no Esp\u00edrito Santo: \u201cComo tu (Pai) me enviaste ao mundo, tamb\u00e9m eu os enviei ao mundo\u201d (Jo 17,18).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">A identidade entre Jesus hist\u00f3rico e Jesus ressuscitado \u00e9 marcada pelas suas chagas nas m\u00e3os e em seu lado aberto pela lan\u00e7a. O Ressuscitado \u201cmostrou-lhes as m\u00e3os e o lado, e os disc\u00edpulos exultaram por verem o Senhor\u201d (Jo 20,20). Jesus de Nazar\u00e9, o \u201cEnviado do Pai\u201d (Jo 20,21), \u201cassumiu toda a natureza humana\u201d (AG 3). A natureza mission\u00e1ria da Igreja encontra a sua identidade nessa origem do envio de Deus e da assun\u00e7\u00e3o da natureza humana. A identidade de Jesus pr\u00e9 e p\u00f3s-pascal aponta para a identidade da miss\u00e3o dos disc\u00edpulos e para a natureza mission\u00e1ria da Igreja que, segundo S. Paulo, tem como n\u00facleo querigm\u00e1tico o esc\u00e2ndalo e a loucura de \u201cCristo crucificado\u201d (1Co 1.23). Pobres sinais marcam a trajet\u00f3ria da comunidade mission\u00e1ria: o vazio, a abertura, a partilha, a ruptura, a caminhada, a cruz e a h\u00f3stia sagrada. O pres\u00e9pio e o sepulcro est\u00e3o vazios; a porta do cen\u00e1culo est\u00e1 aberta, a genealogia de Jesus, interrompida pelo Esp\u00edrito Santo. A Igreja \u00e9 serva, peregrina, h\u00f3spede, instrumento, sinal.<\/p>\n<h4 style=\"text-align: justify\">2. Nosso encontro<\/h4>\n<p style=\"text-align: justify\">A Igreja peregrina e mission\u00e1ria, fundada na festa de Pentecostes, festa do dom da Lei no Sinai para os judeus, e para os crist\u00e3os, festa do dom do mandamento novo, portanto, de uma \u00e9tica e pr\u00e1tica nova. Nesta festa os disc\u00edpulos e disc\u00edpulas foram enviados em miss\u00e3o na unidade do Esp\u00edrito Santo. A partir de Pentecostes, a comunidade eclesial aprendeu que sua tarefa \u00e9 de formar, convocar e enviar servos do Reino e testemunhas da ressurrei\u00e7\u00e3o. Mas, os disc\u00edpulos estavam ainda muitos presos \u00e0 Jerusal\u00e9m, ao Templo, \u00e0 tradi\u00e7\u00e3o herdada dos judeus, aos seus familiares. A\u00ed aconteceu algo inesperado, a destrui\u00e7\u00e3o de Jerusal\u00e9m pelos Romanos, no ano 70. Pentecostes, destrui\u00e7\u00e3o e expuls\u00e3o de Jerusal\u00e9m marcam o in\u00edcio da miss\u00e3o universal da Igreja que deste aquele tempo n\u00e3o tem mais p\u00e1tria, nem cultura pr\u00f3prias.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">No Esp\u00edrito Santo, a comunidade mission\u00e1ria \u00e9 enviada para articular universalmente os povos e as culturas numa grande &#8220;rede&#8221; (cf. Jo 21,11) de solidariedade, diversidade e unidade. Do envio nascem comunidades pascais que procuram contextualizar a utopia do primeiro dia da nova cria\u00e7\u00e3o. Das comunidades nasce o envio. A miss\u00e3o \u00e9 o cora\u00e7\u00e3o da Igreja. E esse cora\u00e7\u00e3o tem dois movimentos, envio e convoca\u00e7\u00e3o; envio \u00e0 periferia do mundo e convoca\u00e7\u00e3o, a partir dessa periferia, para a liberta\u00e7\u00e3o do centro. Sob a senha do Reino prop\u00f5e um mundo sem periferia e sem centro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Mas quem \u00e9 esse destinat\u00e1rio da comunidade mission\u00e1ria? Quem \u00e9 esse \u201cmundo\u201d, quem essa \u201chumanidade\u201d, hoje, no ano 2008? Quais s\u00e3o seus problemas e qual \u00e9 a nossa boa not\u00edcia que vale a pena de deixar pai e m\u00e3e, casa e p\u00e1tria, e que podemos oferecer, talvez n\u00e3o sempre como \u201ca solu\u00e7\u00e3o\u201d, mas como um olhar novo que d\u00e1 sentido aquilo que encontramos, enxergamos e vivemos? Como ser feliz no meio de um mundo sofrido? Ou, como nosso cantor Gonzaguinha canta:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;padding-left: 60px\">Viver!<br \/>E n\u00e3o ter a vergonha<br \/>De ser feliz (&#8230;).<br \/>Ah meu Deus!<br \/>Eu sei, eu sei,<br \/>Que a vida devia ser<br \/>Bem melhor e ser\u00e1.<br \/>Mas isso n\u00e3o impede<br \/>Que eu repita,<br \/>\u00c9 bonita, \u00e9 bonita<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">O nosso otimismo mission\u00e1rio n\u00e3o foge da realidade, do sofrimento e dos pobres, v\u00edtimas das cinco grandes crises do nosso planeta terra que s\u00e3o a crise do modelo econ\u00f4mico, a crise social, a crise ecol\u00f3gica, a crise cultural e a crise democr\u00e1tica. Os problemas centrais da humanidade que emergem dessas crises m\u00faltiplas e conectadas, neste in\u00edcio do s\u00e9culo 21, s\u00e3o os seguintes:<\/p>\n<div style=\"text-align: justify\">\n<ol type=\"a\">\n<li>A polariza\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica da sociedade mundial, numa concorr\u00eancia feroz, onde n\u00e3o aquele ganha, que \u00e9 mais humano, mas aquele, que produz mais barato. Crescimento e expans\u00e3o se tornaram duas palavras m\u00e1gicas, apoiadas por tecnologias cada vez mais sofisticadas a servi\u00e7o da substitui\u00e7\u00e3o de trabalhadores.<\/li>\n<li>Aquele que produz mais barato \u00e9 aquele que se submete a condi\u00e7\u00f5es de um trabalho penoso, que a m\u00e1quina e os computadores ainda n\u00e3o conseguem resolver. O trabalho penoso e de curta dura\u00e7\u00e3o acompanha um sal\u00e1rio indigno, sem garantia de direitos sociais, de educa\u00e7\u00e3o dos filhos ou aposentadoria. Os destinat\u00e1rios privilegiados do querigma mission\u00e1rio s\u00e3o os pobres, os mal empregados e os desempregados, os migrantes, os que morrem antes do tempo por n\u00e3o terem um servi\u00e7o de sa\u00fade que os ampare.<\/li>\n<li>A explora\u00e7\u00e3o irracional atinge n\u00e3o s\u00f3 nosso irm\u00e3o oper\u00e1rio, ind\u00edgena ou migrante, mas tamb\u00e9m a nossa irm\u00e3 natureza. A responsabilidade dessa dilapida\u00e7\u00e3o da natureza, da devasta\u00e7\u00e3o de nossas florestas e da biodiversidade \u201ccoloca em perigo a vida de milh\u00f5es de pessoas\u201d, em especial a vida dos \u201ccamponeses e ind\u00edgenas, que s\u00e3o expulsos para as terras improdutivas e para as grandes cidades para viverem amontoados nos cintur\u00f5es de mis\u00e9ria\u201d (DA 473).<\/li>\n<li>A crise cultural se manifesta, por um lado, como crise de sentido e, por outro lado, como fundamentalismo com suas ramifica\u00e7\u00f5es nas grandes religi\u00f5es e nas ideologias filos\u00f3ficas e pol\u00edticas. A dissolu\u00e7\u00e3o do sentido da hist\u00f3ria humana numa mera hist\u00f3ria natural e a afirma\u00e7\u00e3o do sentido \u00fanico como nega\u00e7\u00e3o do reconhecimento do outro e do pensamento diferente, que recebe apenas um estatuto de fato, mas n\u00e3o de jure, ou vice-versa, representam um potencial permanente de guerra e viol\u00eancia.<\/li>\n<li>Depois de se ter feito guerras para a implanta\u00e7\u00e3o da democracia, hoje essa democracia liberal est\u00e1 numa profunda crise estrutural pela confus\u00e3o dos poderes (executivo, legislativo e judici\u00e1rio) e pela \u00e9tica. A democracia liberal n\u00e3o permite a participa\u00e7\u00e3o satisfat\u00f3ria do povo, sobretudo dos pobres e dos exclu\u00eddos. Os que t\u00eam o poder econ\u00f4mico conseguiram reduzir o Estado a um estado m\u00ednimo que n\u00e3o interfere nos seus interesses. Este Estado m\u00ednimo favorece as elites, n\u00e3o consegue controlar a acumula\u00e7\u00e3o do capital na m\u00e3o de poucos, nem a corrup\u00e7\u00e3o nem os meios de comunica\u00e7\u00e3o que divulgam a ideologia do \u201ccusto-benef\u00edcio\u201d como se fosse o primeiro mandamento de um c\u00f3digo eticamente correto.<\/li>\n<li>A justi\u00e7a dos nossos pa\u00edses tornou-se uma justi\u00e7a formal, morosa e car\u00edssima, que atua, muitas vezes, longe dos lugares onde acontecem as injusti\u00e7as, e n\u00e3o permite aos pobres, que desconhecem os tr\u00e2mites legais e n\u00e3o conseguem pagar advogados competentes, alcan\u00e7ar o seu direito b\u00e1sico (falar da Ir. Dorothy!).<\/li>\n<\/ol>\n<\/div>\n<p style=\"text-align: justify\">Diante dessa montanha de problemas, cada sociedade, estado e governo precisa resolver ou equilibrar cinco tarefas:<\/p>\n<div style=\"text-align: justify\">\n<ol>\n<li>Criar ou sustentar um certo bem-estar econ\u00f4mico (material) de todos seus cidad\u00e3os. As d\u00favidas da humanidade cresceram (inclusive do Banco Mundial e do FMI) at\u00e9 o ponto de ter certeza que n\u00e3o existe a possibilidade de cumprir essa exig\u00eancia com o prefixo de capitalismo neoliberal.<\/li>\n<li>Promover a coes\u00e3o e solidariedade social interna, que \u00e9 atropelada pela concorr\u00eancia do mercado globalizado que vive da exclus\u00e3o e n\u00e3o da integra\u00e7\u00e3o dos cidad\u00e3os. Exclus\u00e3o, redistribui\u00e7\u00e3o, integra\u00e7\u00e3o social pelo trabalho e participa\u00e7\u00e3o do lucro se tornaram, como direitos humanos, novos problemas para o poder judici\u00e1rio, despreparado para tal tarefa.<\/li>\n<li>Garantir o reconhecimento cultural (\u00e9tnico, religi\u00e3o, g\u00eanero, faixa et\u00e1ria) do outro num pacto de toler\u00e2ncia, que tem a sua base n\u00e3o s\u00f3 nos fatos, mas nos direitos (direitos humanos, dignidade humana).<\/li>\n<li>Zelar pela liberdade e participa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica de todos num sistema democr\u00e1tico cujo funcionamento n\u00e3o depende do tr\u00e1fico de influ\u00eancia do grande capital.<\/li>\n<li>Finalmente precisa-se instalar um sistema jur\u00eddico que garante a aplica\u00e7\u00e3o da lei para todos e inibe a corrup\u00e7\u00e3o em todas as inst\u00e2ncias, inclusive no pr\u00f3prio aparelho de justi\u00e7a. N\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil incorporar o chamado clientelismo, uma heran\u00e7a do sistema patriarcal, na base dos cl\u00e3s familiares (veja o problema da corrup\u00e7\u00e3o, tamb\u00e9m na \u00c1frica!) \u00e0s regras de um Estado moderno.<\/li>\n<\/ol>\n<\/div>\n<p style=\"text-align: justify\">Admitimos com realismo que o equil\u00edbrio entre essas tarefas \u00e9 dif\u00edcil, o equil\u00edbrio, por exemplo, entre o bem-estar econ\u00f4mico, a solidariedade social e um sistema verdadeiramente democr\u00e1tico. N\u00e3o existe nenhum governo no mundo que, por um tempo prolongado, tivesse conseguido esse equil\u00edbrio. Existem alguns modelos pol\u00edticos que conseguem enfatizar apenas um destes aspectos e que, periodicamente, entram em crise:<\/p>\n<div style=\"text-align: justify\">\n<ul>\n<li>o modelo anglo-sax\u00f4nico, que incorporou a ideologia neoliberal e favorece a expans\u00e3o e o bem-estar econ\u00f4mico para uma faixa consider\u00e1vel dos seus cidad\u00e3os, reduziu, por\u00e9m, a solidariedade institucional para pobres;<\/li>\n<li> o modelo socialista que enfatiza a igualdade e o bem-estar social dos cidad\u00e3os, em detrimento de uma economia pr\u00f3spera e das liberdades pol\u00edticas;<\/li>\n<li> o modelo asi\u00e1tico (os chamados tigres asi\u00e1ticos, Singapura), que consegue prosperidade econ\u00f4mica e social pelo pre\u00e7o de um encolhimento democr\u00e1tico e um dirigismo pol\u00edtico;<\/li>\n<li> o modelo ind\u00edgena e campesino talvez seja o modelo que melhor consegue equilibrar a quest\u00e3o do territ\u00f3rio (coletivo e familiar), que \u00e9 terra para viver e n\u00e3o para tirar grandes lucros, e do poder pol\u00edtico como servi\u00e7o \u00e0 comunidade; pode-se muito aprender das sociedades ind\u00edgenas, por\u00e9m n\u00e3o se pode copi\u00e1-las. As nossas sociedades nacionais e transnacionais s\u00e3o muito mais complexas pela industrializa\u00e7\u00e3o e pela grande multid\u00e3o de pessoas que nelas procuram viver.<\/li>\n<li> Por um momento, no in\u00edcio da segunda metade do s\u00e9culo passado, parecia ser poss\u00edvel domar o capitalismo no interior de um sistema democr\u00e1tico e social nos pa\u00edses centrais. Mas este equil\u00edbrio era pago pelo pre\u00e7o da terceiriza\u00e7\u00e3o da mis\u00e9ria desses pa\u00edses \u00e0 periferia do mundo industrializado. Surgiu um muro entre Primeiro e Terceiro Mundo. Constatado o fracasso desse equil\u00edbrio e descoberta essa artimanha de os pa\u00edses centrais viverem \u00e0 custa dos pa\u00edses perif\u00e9ricos, se instalaram movimentos, sobretudo no ent\u00e3o chamado Terceiro Mundo, que procuravam equilibrar os tr\u00eas p\u00f3los, dando mais \u00eanfase \u00e0 solidariedade social em detrimento da liberdade pol\u00edtica. Em seu conjunto fracassaram igualmente.<\/li>\n<\/ul><\/div>\n<p style=\"text-align: justify\">Agora, no mundo globalizado sem fronteiras geogr\u00e1ficas e pol\u00edticas, n\u00e3o tem mais aonde exportar a mis\u00e9ria. Todos os pa\u00edses reproduzem o Primeiro e o Terceiro Mundo no interior das suas pr\u00f3prias fronteiras. Isso nos possibilita e obriga tamb\u00e9m a globalizar a solidariedade e a busca comum de alternativas. O nosso pr\u00f3prio 3o Congresso Mission\u00e1rio Americano CAM 3 \u2013 Comla 8 \u00e9 express\u00e3o desta vontade de colaborar mais no eixo Norte-Sul, de globalizar a esperan\u00e7a e de afirmar que existem alternativas. Os problemas levantados n\u00e3o s\u00e3o naturais. Foram criados pela pr\u00f3pria humanidade, o que nos d\u00e1 a esperan\u00e7a, que a pr\u00f3pria humanidade pode conseguir a sua solu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Acreditamos que um outro mundo \u00e9 poss\u00edvel, porque o trip\u00e9 entre crescimento econ\u00f4mico, seguran\u00e7a social e democracia pol\u00edtica n\u00e3o funciona, nem oferece uma perspectiva universal. O equil\u00edbrio entre acumula\u00e7\u00e3o capitalista (crescimento), integra\u00e7\u00e3o social e legitima\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica, passada pela peneira do c\u00e1lculo de custo-benef\u00edcio e de investimento-lucro, n\u00e3o pode funcionar. E n\u00e3o devemos entrar no jogo de alternativas perversas: democracia com fome e mis\u00e9ria, ou bem-estar material sem participa\u00e7\u00e3o, sem liberdade pol\u00edtica e sem horizonte de sentido, ou prosperidade econ\u00f4mica do pa\u00eds com ditadura e fome (o pa\u00eds vai bem, o povo mal), ou prosperidade pol\u00edtica e econ\u00f4mica para as elites e mis\u00e9ria para o povo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Nos discursos pol\u00edticos hoje, poucos governantes t\u00eam a aud\u00e1cia de prometer a integridade de estruturas sociais e as promessas da democracia moderna contra a mercantiliza\u00e7\u00e3o da sociedade mundial. Essa sociedade-mercadoria devora os recursos naturais para produzir sempre novos produtos desnecess\u00e1rios, e devora pela concorr\u00eancia estrutural os recursos morais da democracia que se deveria alimentar da solidariedade coletiva.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">A vis\u00e3o de uma sociedade transnacional de cidad\u00e3os que n\u00e3o se subjuga aos imperativos do mercado das sempre novas mercadorias e da concorr\u00eancia eliminat\u00f3ria, mas que forja uma democr\u00e1tica participativa para regenerar a solidariedade em escala mundial, representa o desafio da \u00e9poca. A \u00fanica arma de curar as feridas da modernidade \u00e9 a pr\u00f3pria modernidade. Precisamos do veneno destilar a vacina contra o veneno. Contra as falhas graves das nossas democracias, do sistema jur\u00eddico, da economia desregulada, do n\u00e3o-reconhecimento do outro n\u00e3o existem receitas m\u00e1gicas. N\u00e3o podem ser corrigidas pela pr\u00e9 nem pela p\u00f3s-modernidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">N\u00f3s disc\u00edpulos-mission\u00e1rios: O que podemos fazer? O que podemos propor? Diante da gravidade desses problemas, todos somos aprendizes. N\u00e3o temos uma receita pronta ou um outro mundo que poder\u00edamos escolher para nossa miss\u00e3o, a n\u00e3o ser este que podemos percorrer com sempre novas atitudes, com a luz do Evangelho e a raz\u00e3o de nossa esperan\u00e7a.<\/p>\n<h4 style=\"text-align: justify\">3. Nosso compromisso<\/h4>\n<p style=\"text-align: justify\">As v\u00edtimas das l\u00f3gicas de expropria\u00e7\u00e3o e exclus\u00e3o n\u00e3o nos cobram solu\u00e7\u00f5es t\u00e9cnicas, mas participa\u00e7\u00e3o na gesta\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria a\u00e7\u00e3o mission\u00e1ria da Igreja, que poderia tornar-se um ensaio para transforma\u00e7\u00f5es mais amplas; nos cobram sinais de justi\u00e7a e raz\u00f5es de esperan\u00e7a. A nossa tarefa de disc\u00edpulo-mission\u00e1rio \u00e9 a do profeta peregrino, que denuncia e anuncia, que vive outros valores (partilha, solidariedade, gratuidade) e procura apontar para o outro mundo poss\u00edvel, que para n\u00f3s tem a sua matriz no Reino de Deus. Os nossos sonhos, a nossa vis\u00e3o do mundo e a nossa esperan\u00e7a t\u00eam um impacto sobre o mundo universal, porque atrav\u00e9s deles \u2013 sonho, vis\u00e3o, esperan\u00e7a \u2013 somos capazes, como lemos na Carta a Diogneto, de \u201csegurar o cosmos\u201d. Para fortalecer os nossos ombros para tal tarefa, precisamos cuidar da nossa identidade. S\u00e3o quatro esteios que nos podem ajudar a segurar o cosmo da nossa natureza mission\u00e1ria. Vivemos essa natureza universalmente contextualizados, na unidade plural do Esp\u00edrito Santo, na gratuidade e na esperan\u00e7a dos e com os pobres.<\/p>\n<h4 style=\"text-align: justify\">3.1. Universalmente contextualizados<\/h4>\n<p style=\"text-align: justify\">Como se situar nesse mundo entre isolamento e aggiornamento, entre despojamento e enriquecimento? Como traduzir os artigos de f\u00e9, os sinais de justi\u00e7a, as imagens de esperan\u00e7a e as pr\u00e1ticas de solidariedade para os interlocutores do mundo moderno? A contextualidade da miss\u00e3o tem seu fundamento teol\u00f3gico na proximidade de Deus ao longo de toda a hist\u00f3ria de salva\u00e7\u00e3o e no seguimento de Jesus, que em virtude da encarna\u00e7\u00e3o se aproximou da humanidade (cf. GS 22). O Deus da hist\u00f3ria da salva\u00e7\u00e3o judeu-crist\u00e3 \u00e9 um Deus pr\u00f3ximo ao seu povo. No dizer de Santo Irineu, Deus est\u00e1 pr\u00f3ximo de cada pessoa humana atrav\u00e9s de suas duas m\u00e3os estendidas, que s\u00e3o o Filho e o Esp\u00edrito Santo.2 A media\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica e contextual do projeto de Deus faz da hist\u00f3ria e do contexto um sacramento de sua presen\u00e7a. A miss\u00e3o inserida no cora\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria e cultura de cada povo \u201c\u00e9 um imperativo do seguimento de Jesus e \u00e9 necess\u00e1ria para restaurar o rosto desfigurado do mundo\u201d (SD 13b). A analogia entre a encarna\u00e7\u00e3o de Jesus de Nazar\u00e9 e a proximidade contextual fez a reflex\u00e3o missiol\u00f3gica cunhar o paradigma da incultura\u00e7\u00e3o. Com a incultura\u00e7\u00e3o, a Igreja se torna \u201cum sinal mais transparente\u201d e \u201cum instrumento mais apto\u201d (RM 52) para anunciar o Evangelho, n\u00e3o como uma alternativa \u00e0s culturas, mas como a sua realiza\u00e7\u00e3o profunda. Vivemos a incultura\u00e7\u00e3o universalmente contextualizados.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Existem duas dimens\u00f5es opostas da universalidade: a universalidade da opress\u00e3o e a universalidade da liberta\u00e7\u00e3o. A universalidade como hegemonia, pela qual um poder pol\u00edtico, econ\u00f4mico ou cultural se sobrep\u00f5e sobre os outros, se op\u00f5e a universalidade das causas dos pobres e dos outros que se procuram libertar dessa hegemonia. A alian\u00e7a dos outros com os pobres \u00e9 anti-hegem\u00f4nica. A universalidade como hegemonia produz a exclus\u00e3o de grandes parcelas da humanidade do progresso e bem-estar social. A universalidade das causas e alian\u00e7as visa \u00e0 participa\u00e7\u00e3o de todos na gesta\u00e7\u00e3o dos bens da humanidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Por sua universalidade, todas as causas  do Reino representam os desafios de uma comunica\u00e7\u00e3o intercultural com os diferentes: com saberes populares e laicos, com experi\u00eancias religiosas, com temporalidades diferentes (tempos lineares e circulares), com geografias diferentes (projetos locais, regionais, internacionais), com hierarquias diferentes (ancestrais, patriarcais, comunit\u00e1rias, funcionais, democr\u00e1ticas), com vis\u00f5es e valores diferentes face \u00e0 produtividade econ\u00f4mica. S\u00f3 com um adeus a uma vis\u00e3o teol\u00f3gica monocultural, regional e descontextualizada se consegue dar conta dessa complexidade da natureza mission\u00e1ria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">\u00c9 importante com a universalidade (n\u00e3o-exclus\u00e3o, participa\u00e7\u00e3o de todos, confins do mundo) n\u00e3o esquecer as diferen\u00e7as dos contextos. N\u00e3o existe algo mais contextualizado e mais universal que o sofrimento dos pobres. No equil\u00edbrio articulado entre o universal e o contextual est\u00e1 a possibilidade de uma comunica\u00e7\u00e3o em favor das m\u00faltiplas causas embutidas na causa do Reino. A solidariedade, que \u00e9 universal, deve ser constru\u00edda a partir do rio e da rua do pr\u00f3prio vilarejo. O projeto hegem\u00f4nico, que imp\u00f5e valores, objetivos e horizontes regionais, \u00e9 o inimigo da universalidade contextual. A universalidade contextual dos pobres pressup\u00f5e o longo caminho da constru\u00e7\u00e3o de um projeto comum. Sem esse projeto, mediado por valores universalmente concordados como justi\u00e7a, solidariedade, igualdade, liberdade, participa\u00e7\u00e3o e toler\u00e2ncia, tamb\u00e9m os projetos hist\u00f3ricos de cada grupo \u00e9tnico-social perdem a caracter\u00edstica de uma &#8220;causa&#8221; que pode ser defendida por todos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">O universal \u201ctanto mais promove e exprime a unidade do g\u00eanero humano quanto melhor respeita as particularidades das diversas culturas\u201d (GS 54). A universalidade cresce com a proximidade que \u00e9 &#8220;cognitiva&#8221; em sua mem\u00f3ria, &#8220;sensitiva&#8221; em seu olhar e em sua escuta, e &#8220;emocional&#8221; em sua compaix\u00e3o. Universalidade e proximidade estruturam os paradigmas da incultura\u00e7\u00e3o e da liberta\u00e7\u00e3o. A meta da incultura\u00e7\u00e3o \u00e9 a liberta\u00e7\u00e3o, e o caminho da liberta\u00e7\u00e3o \u00e9 a incultura\u00e7\u00e3o. O paradigma da liberta\u00e7\u00e3o visa \u00e0 n\u00e3o-exclus\u00e3o, portanto a participa\u00e7\u00e3o de todos, a universalidade da justi\u00e7a, da solidariedade e do amor. Os esfor\u00e7os pela liberta\u00e7\u00e3o ganham profundidade com seu enraizamento contextual. A universalidade do horizonte das causas do Reino pode ser entendida como alternativa aos grandes discursos e projetos que emergem da globaliza\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica (competividade, lucro-benef\u00edcio, consumismo), como articula\u00e7\u00e3o de m\u00faltiplos projetos de vida, que une a responsabilidade universal, pelo conjunto da humanidade e do planeta Terra. O an\u00fancio e a pr\u00e1tica universal do amor maior e o an\u00fancio do Reino como &#8220;liberta\u00e7\u00e3o do cativeiro da corrup\u00e7\u00e3o&#8221; (Rm 8,21; LG 9), por ser anti-sist\u00eamico, \u00e9 para todos.<\/p>\n<h4 style=\"text-align: justify\">3.2. Unidade na diversidade<\/h4>\n<p style=\"text-align: justify\">O Vaticano II permitiu, atrav\u00e9s de novos t\u00f3picos como \u201cIgreja local\u201d, \u201ccontextualiza\u00e7\u00e3o\u201d, \u201cinser\u00e7\u00e3o\u201d (incultura\u00e7\u00e3o), \u201cdi\u00e1logo\u201d, repensar muitos pressupostos da universalidade da Igreja. A unidade da miss\u00e3o \u00e9 uma unidade na diversidade do Esp\u00edrito Santo. As m\u00faltiplas respostas das culturas n\u00e3o s\u00e3o um acidente de percurso, mas devem ser positivamente interpretadas como participa\u00e7\u00e3o na cria\u00e7\u00e3o do mundo. E, nesse mundo, povos e indiv\u00edduos defendem sua identidade sempre em contraste com a alteridade. Desse contraste nasce o imperativo da pluralidade em unidade. Essa unidade n\u00e3o \u00e9 a da metaf\u00edsica ou ontologia do g\u00eanero humano, mas a unidade constru\u00edda atrav\u00e9s da raz\u00e3o, da verdade, do sentido \u00faltimo presentes em m\u00faltiplos projetos de vida que se manifestam em m\u00faltiplas vozes. A vida \u00e9 gerada n\u00e3o no encontro consigo mesmo, mas no encontro com os outros.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">O pluralismo cultural tem seus desdobramentos no pluralismo religioso. O reconhecimento expl\u00edcito da liberdade religiosa pelo Vaticano II, atrav\u00e9s da Declara\u00e7\u00e3o Dignitatis humanae, \u00e9 um dos pressupostos da miss\u00e3o. Na maioria das Igrejas e entre uma maioria dos fi\u00e9is, h\u00e1 um consenso de que a alteridade religiosa \u00e9 irredut\u00edvel. E essa alteridade religiosa remete ao di\u00e1logo inter-religioso. O di\u00e1logo, como instrumento de compreens\u00e3o, respeito e conviv\u00eancia pac\u00edfica, no interior de um pluralismo qualquer, tem \u201csempre um car\u00e1ter de testemunho, dentro do m\u00e1ximo respeito \u00e0 pessoa e \u00e0 identidade do interlocutor\u201d (Puebla 1114).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">O pluralismo e o di\u00e1logo como instrumento transdisciplinar de comunica\u00e7\u00e3o t\u00eam um horizonte universal, convidativo e respons\u00e1vel diante dos n\u00e3o-participantes do respectivo di\u00e1logo. Todos devem participar das discuss\u00f5es das grandes causas da humanidade (justi\u00e7a, igualdade, solidariedade e paz). A unidade \u00e9 o varejo da universalidade. Construir a unidade significa derrubar \u201cmuros da separa\u00e7\u00e3o\u201d (cf. Ef 2,14). \u201cAnunciar Boa-Nova aos pobres\u201d significa derrubar um dos muitos muros de separa\u00e7\u00e3o que a sociedade permitiu construir n\u00e3o s\u00f3 entre pa\u00edses, mas tamb\u00e9m no interior de cada Estado e pessoa. Ao contar a par\u00e1bola do bom samaritano (Lc 10,25ss), respondendo \u00e0 pergunta sobre o que se deve fazer para obter a vida eterna, Jesus prop\u00f5e derrubar n\u00e3o s\u00f3 o muro \u00e9tnico entre samaritanos e judeus, entre mesti\u00e7os impuros e judeus puros, o muro clerical entre sacerdotes e leigos, mas tamb\u00e9m o muro entre seita marginalizada e religi\u00e3o oficial, entre justos e pecadores, entre discurso e pr\u00e1xis, entre verdade e amor. Seguir a \u201cfalsa\u201d religi\u00e3o dos samaritanos n\u00e3o impede, segundo a par\u00e1bola, fazer o certo diante de Deus. O certo e decisivo para a vida eterna n\u00e3o \u00e9 a perten\u00e7a ao grupo certo, mas se chama pr\u00e1tica da justi\u00e7a maior e da caridade, articula\u00e7\u00e3o da diversidade n\u00e3o-excludente e supera\u00e7\u00e3o de diferen\u00e7as exclusivas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Derrubar muros, marcados pela \u201ccorrup\u00e7\u00e3o do pecado\u201d, significa recuperar a imagem de Deus nos rostos humanos e a comunica\u00e7\u00e3o livre entre iguais e diferentes. Nesse processo que religa a ordem da reden\u00e7\u00e3o \u00e0 ordem da cria\u00e7\u00e3o, Jesus hist\u00f3rico e p\u00f3s-pascal se coloca ao lado da samaritana, do migrante, do leproso, do pobre, da outra e do pecador. Ele constr\u00f3i unidade a partir da assun\u00e7\u00e3o e da articula\u00e7\u00e3o da humanidade mutilada em seus contextos e nos confins dos seus mundos. Diante das \u201cfei\u00e7\u00f5es sofredoras de Cristo\u201d nas fei\u00e7\u00f5es da humanidade em \u201csitua\u00e7\u00e3o de extrema pobreza\u201d (Puebla 31ss), onde o despojamento da encarna\u00e7\u00e3o e reden\u00e7\u00e3o assume sua relev\u00e2ncia hist\u00f3rica e salv\u00edfica, caem todos os muros. \u00c9 bom lembrar, Jesus n\u00e3o foi pedreiro. N\u00e3o construiu muros. Ele foi carpinteiro, fez portas e janelas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">O Vaticano II nos fala de uma maneira nova da perten\u00e7a \u00e0 \u201ccat\u00f3lica unidade do povo de Deus\u201d: \u201cA ela pertencem ou s\u00e3o ordenados de modos diversos quer os fi\u00e9is cat\u00f3licos, quer os outros crentes em Cristo, quer enfim todos os homens em geral, chamados \u00e0 salva\u00e7\u00e3o pela gra\u00e7a de Deus\u201d (LG 13d). A miss\u00e3o colabora com tarefas espec\u00edficas nesses tr\u00eas n\u00edveis. Ad intra trabalha a identidade da f\u00e9 e a perten\u00e7a dos fi\u00e9is cat\u00f3licos \u00e0 Igreja Cat\u00f3lica. O trabalho ad intra se desdobra na pr\u00e1tica de sua responsabilidade ad extra, que n\u00e3o visa \u00e0 integra\u00e7\u00e3o corporativista dos outros na Igreja Cat\u00f3lica, mas a partilha dos dons que cada um recebeu a servi\u00e7o dos outros (cf. LG 13c) e da constru\u00e7\u00e3o da paz universal. O pluralismo religioso \u00e9 express\u00e3o da \u201ccat\u00f3lica unidade do povo de Deus\u201d, que \u00e9 unidade no Esp\u00edrito Santo. Ele \u00e9 o \u201cprinc\u00edpio de unidade\u201d (LG 13a). A Igreja Cat\u00f3lica faz parte da \u201ccat\u00f3lica unidade\u201d, mas n\u00e3o \u00e9 id\u00eantica \u00e0 ela. Tamb\u00e9m os outros crentes em Cristo e a humanidade pertencem a essa \u201ccat\u00f3lica unidade\u201d. A justi\u00e7a da ressurrei\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 privil\u00e9gio de uma ou outra denomina\u00e7\u00e3o crist\u00e3. Pela vontade salv\u00edfica universal de Deus \u201cdevemos admitir que o Esp\u00edrito Santo oferece a todos a possibilidade de se associarem, de modo conhecido por Deus, a este mist\u00e9rio pascal\u201d (GS 22). A alteridade n\u00e3o \u00e9 complementar \u00e0 identidade, mas a sua condi\u00e7\u00e3o de ser.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">A unidade definitiva entre os crist\u00e3os e a humanidade como um todo deve ser vista num horizonte escatol\u00f3gico. \u201cQuem apostar em uma unifica\u00e7\u00e3o das religi\u00f5es como resultado do di\u00e1logo inter-religioso, s\u00f3 poder\u00e1 decepcionar-se. Essa unifica\u00e7\u00e3o dificilmente se realizar\u00e1 dentro do nosso tempo hist\u00f3rico. Talvez n\u00e3o seja nem desej\u00e1vel\u201d3, escreveu o ent\u00e3o cardeal Ratzinger alguns anos atr\u00e1s. O que era ontem considerado \u201cidolatria\u201d, \u201cheresia\u201d, \u201cfetichismo\u201d ou \u201cperf\u00eddia\u201d, hoje, no interior da Igreja Cat\u00f3lica, \u00e9 cortejado como religi\u00e3o com \u201clampejos daquela Verdade que ilumina a todos os homens\u201d (NA 2b). Em outros textos do Vaticano II, as religi\u00f5es n\u00e3o-crist\u00e3s s\u00e3o consideradas uma \u201cprepara\u00e7\u00e3o evang\u00e9lica\u201d (LG 16, cf. EN 53), \u201cpedagogia para Deus\u201d (AG 3a) ou \u201csementes do Verbo\u201d (AG 11b, LG 17). Os t\u00f3picos da prepara\u00e7\u00e3o do Evangelho nas culturas n\u00e3o-crist\u00e3s e da proced\u00eancia nelas de tudo o que \u00e9 bonito, bom e verdadeiro do Esp\u00edrito Santo \u00e9 lugar comum na tradi\u00e7\u00e3o cat\u00f3lica (cf. AG 15; 17; GS 22,5; 26,4; 38; 41,1; 57,4). Transit\u00f3rias n\u00e3o s\u00e3o as religi\u00f5es n\u00e3o-crist\u00e3s, mas a nossa compreens\u00e3o delas. \u201cA ortodoxia\u201d, afirmou a Comiss\u00e3o Teol\u00f3gica Internacional ainda em 1972, \u201cn\u00e3o \u00e9 um consentimento a um sistema, mas a participa\u00e7\u00e3o de uma caminhada da f\u00e9\u201d.4 Quando nos assalta a vontade de arrancar todo joio da hist\u00f3ria, o Evangelho nos lembra do horizonte escatol\u00f3gico da colheita (cf. Mt 13,24-30).<\/p>\n<h4 style=\"text-align: justify\">3.3. Gratuidade<\/h4>\n<p style=\"text-align: justify\">No mundo competitivo e excludente, onde tudo vale somente pelo seu pre\u00e7o de mercado, a miss\u00e3o est\u00e1 vinculada \u00e0 derrota do reino da necessidade (\u201ccusto-benef\u00edcio\u201d) e \u00e0 recupera\u00e7\u00e3o de um espa\u00e7o e projeto alternativos de n\u00e3o-mercado e gratuidade. A comunidade mission\u00e1ria confia na atra\u00e7\u00e3o de seu testemunho gratuito. Seu &#8220;marketing&#8221; dispensa propaganda e armas. Os espa\u00e7os de gratuidade inerentes ao cristianismo s\u00e3o espa\u00e7os de resist\u00eancia contra espa\u00e7os feitos territ\u00f3rios de lucro. O lucro particulariza e privatiza. O mercado n\u00e3o \u00e9 para todos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Em Aparecida, a Igreja se autodenominou \u201ccasa dos pobres\u201d (DA 8, 524). Seu espa\u00e7o \u00e9 um espa\u00e7o alternativo que est\u00e1 configurado pela gratuidade da cruz de Jesus de Nazar\u00e9 e da experi\u00eancia pascal dos seus disc\u00edpulos. Essa gratuidade da cruz n\u00e3o \u00e9 o pref\u00e1cio da hist\u00f3ria de liberta\u00e7\u00e3o e emancipa\u00e7\u00e3o, mas seu eixo permanente: \u201cO amor de doa\u00e7\u00e3o plena, como solu\u00e7\u00e3o para o conflito, deve ser o eixo cultural `radical` de uma nova sociedade\u201d (DA 543). \u201cNa generosidade dos mission\u00e1rios se manifesta a generosidade de Deus, na gratuidade dos ap\u00f3stolos aparece a gratuidade do Evangelho\u201d (DA 31). A Igreja \u201ccasa dos pobres\u201d \u00e9 uma Igreja pobre. Dos pobres recebe o dom da gratuidade e a proximidade do Esp\u00edrito Santo, que \u00e9 \u201cpai dos pobres\u201d (Seq\u00fc\u00eancia de Pentecostes) e \u201cprotagonista da miss\u00e3o\u201d (RM 21b).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Nos tr\u00e2mites da justi\u00e7a, a Igreja n\u00e3o \u00e9 ju\u00edza entre as partes, mas \u201cadvogada da justi\u00e7a dos pobres\u201d (DA 395, 533). Ela \u00e9 parcial. Defende uma parte do processo. Essa \u00e9 a sua miss\u00e3o pneumatol\u00f3gica, ser \u201cconsoladora\u201d, \u201cintercessora\u201d e \u201cadvogada\u201d: introduzir e representar o \u201cEsp\u00edrito da Verdade\u201d (Jo 14,17) que vem do Pai, e d\u00e1 testemunho contra \u201co pai da mentira\u201d, que perturba a ordem social. O Esp\u00edrito Santo \u00e9 Esp\u00edrito da Verdade, n\u00e3o por causa de uma doutrina certa, uma lei perfeita ou uma moral superior, mas porque nele acontece a verdade na gera\u00e7\u00e3o da vida: na pr\u00e1tica do novo mandamento e da justi\u00e7a maior em favor dos pobres.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Desde o Vaticano II, a Igreja Cat\u00f3lica teceu um fio condutor para sua a\u00e7\u00e3o mission\u00e1ria, que esclarece a dimens\u00e3o mais profunda de sua \u201cnatureza mission\u00e1ria\u201d: a op\u00e7\u00e3o preferencial pelos pobres. Essa op\u00e7\u00e3o \u00e9 preferencial porque deve \u201catravessar todas as nossas estruturas e prioridades pastorais\u201d (DA 396). A \u201cnatureza mission\u00e1ria\u201d tem a sua origem na \u201cMiss\u00e3o de Deus\u201d, que \u00e9 miss\u00e3o do Verbo encarnado, \u201cque esvaziou-se a si mesmo, e assumiu a condi\u00e7\u00e3o de servo\u201d (Fl 2,7), e do Esp\u00edrito Santo enviados aos pobres: \u201cTudo o que tenha rela\u00e7\u00e3o com Cristo tem rela\u00e7\u00e3o com os pobres e tudo o que est\u00e1 relacionado com os pobres clama por Jesus Cristo\u201d (DA 393). No Esp\u00edrito Santo, o filho do carpinteiro foi confirmado \u201cFilho bem-amado\u201d, por ocasi\u00e3o de seu batismo no Jord\u00e3o. Por ele foi conduzido \u201cao deserto para preparar-se para sua miss\u00e3o\u201d (cf. Mc 1,12s; DA 149). Nele foi ungido Messias \u201cpara evangelizar os pobres\u201d (Lc 4,18). Depois de sua ressurrei\u00e7\u00e3o, Jesus enviou seus disc\u00edpulos para pregar, na for\u00e7a do Esp\u00edrito, a Boa Nova do Reino (cf. DA 276). Todo envio em miss\u00e3o acontece no Esp\u00edrito Santo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Faz 40 anos, que o Papa Paulo VI, que procurou transformar os documentos do Vaticano II em realidade pastoral, declarou na abertura da II Confer\u00eancia Geral do Episcopado Latino-Americano de Medell\u00edn:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">a Igreja se encontra hoje diante da voca\u00e7\u00e3o da Pobreza de Cristo. (&#8230;) A indig\u00eancia da Igreja, com a decorosa simplicidade de suas formas, \u00e9 um testemunho de fidelidade evang\u00e9lica; \u00e9 condi\u00e7\u00e3o, algumas vezes imprescind\u00edvel, para dar cr\u00e9dito \u00e0 pr\u00f3pria miss\u00e3o; (&#8230;) representa um exerc\u00edcio, que aumenta a for\u00e7a da miss\u00e3o do ap\u00f3stolo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">A estrutura dessa Igreja dos pobres \u00e9 trinit\u00e1ria. Ela, que \u00e9 \u201cPovo de Deus\u201d, \u201cCorpo do Senhor\u201d e \u201cTemplo do Esp\u00edrito Santo\u201d (LG 17), nasce e renasce nas comunidades pelo impulso do Esp\u00edrito Santo e \u201cse edifica como Igreja de Deus quando coloca no centro de suas preocupa\u00e7\u00f5es n\u00e3o a si mesma, mas o Reino que ela anuncia como liberta\u00e7\u00e3o de todos\u201d (DGAE\/1995, n. 64). Na mem\u00f3ria eucar\u00edstica, a comunidade crist\u00e3 lembra a gratuidade de sua salva\u00e7\u00e3o e atualiza, na mem\u00f3ria do lava-p\u00e9s, as raz\u00f5es de seu servi\u00e7o, que se insere numa l\u00f3gica que subverte as rela\u00e7\u00f5es de domina\u00e7\u00e3o (cf. Mc 10,42ss). Agradecer na consci\u00eancia da liberta\u00e7\u00e3o recebida como d\u00e1diva e servir no cumprimento da nova ordem (\u201centre voc\u00eas seja diferente\u201d!) s\u00e3o dimens\u00f5es estruturantes de sua miss\u00e3o. O dom n\u00e3o dispensa o pr\u00f3prio esfor\u00e7o e os nossos esfor\u00e7os n\u00e3o dispensam a gra\u00e7a: \u201cA vida \u00e9 presente gratuito de Deus, dom e tarefa que devemos cuidar (&#8230;)\u201d (DA 464).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">A gratuidade impulsiona necessariamente \u00e0 simplicidade institucional. Somente estruturas leves permitem pensar em gratuidade. Estruturas pesadas s\u00e3o muito caras. Uma Igreja a caminho \u00e9 uma Igreja simples e transparente. O caminhar no Esp\u00edrito \u00e9 um caminhar desarmado e despojado. Convers\u00e3o e transforma\u00e7\u00e3o aut\u00eanticas tornam as pessoas mais simples. E a simplicidade representa tamb\u00e9m uma resposta \u00e0 complexidade cada vez mais especializada do mundo. \u201cQuando vos mandei sem bolsa, sem mochila e sem cal\u00e7ado, faltou-vos, porventura, alguma coisa?\u201d (Lc 22,35).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">A gratuidade, microestruturalmente vivida na contra-m\u00e3o do sistema capitalista, aponta para a possibilidade de um mundo para todos, mas tamb\u00e9m para desconex\u00f5es sist\u00eamicas, mudan\u00e7as de mentalidade e estruturas eclesiais. O Esp\u00edrito Santo, que \u00e9 dom e que d\u00e1 vida, vive no Verbo encarnado, na Palavra cumprida na cruz e na ressurrei\u00e7\u00e3o. Ele, que \u00e9 a vida do Verbo, vive tamb\u00e9m conosco na Palavra de Deus cumprida na fidelidade \u00e0 sua miss\u00e3o na partilha do pouco que temos e nas causas do Reino que defendemos.<\/p>\n<h4 style=\"text-align: justify\">3.4. Raz\u00f5es da nossa esperan\u00e7a<\/h4>\n<p style=\"text-align: justify\">Os discursos dominantes hoje afirmam que n\u00e3o h\u00e1 alternativa ao capitalismo, que as utopias n\u00e3o fazem mais sentido e que a hist\u00f3ria chegou ao se ponto final. S\u00e3o discursos de auto-salva\u00e7\u00e3o e desespero dirigidos contra os pobres. Geram pessimismo e depress\u00e3o. A esperan\u00e7a nasce quando as v\u00edtimas come\u00e7am a falar, agir, organizar-se por pr\u00f3pria conta; quando os disc\u00edpulos-mission\u00e1rios se fazem presentes no meio do povo, rejeitam o pr\u00f3prio protagonismo e abrem m\u00e3o das vantagens de sua classe social, acompanham os processos de organiza\u00e7\u00e3o, ajudam a expulsar o sentimento da incapacidade e se empenham em transformar os desejos alienantes, que esperam tudo da provid\u00eancia de Deus ou das promessas dos pol\u00edticos, em esperan\u00e7a hist\u00f3rica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">A esperan\u00e7a \u00e9 uma mensagem central da f\u00e9 b\u00edblica (cf. SpS 2). A mensagem do Reino e da ressurrei\u00e7\u00e3o de Jesus, que \u00e9 promessa da justi\u00e7a definitiva, \u00e9 promessa a ser cumprida na ressurrei\u00e7\u00e3o dos mortos, quando \u201ctodos reviver\u00e3o em Cristo\u201d (1Cor 15,22). Cremos no ressuscitado e anunciamos seu Reino no horizonte da plenitude escatol\u00f3gica de \u201cum c\u00e9u novo e uma nova terra\u201d (Ap 21,1). O Deus conosco \u00e9 sempre o Deus que caminha \u00e0 nossa frente e ao nosso encontro. Ele \u00e9 o futuro absoluto para a humanidade. A esperan\u00e7a, que \u00e9 a for\u00e7a interior da f\u00e9, permite confiar no Deus sempre maior e no futuro prometido por Ele. Pela esperan\u00e7a somos capazes de compreender o inc\u00f3gnito de Deus n\u00e3o como aus\u00eancia ou abandono, mas como a sua condi\u00e7\u00e3o de ser e como centro do mundo, nos rostos dos migrantes e refugiados, dos desempregados e dos que vivem na rua das grandes cidades, dos agricultores e ind\u00edgenas sem terra e dos afro-descendentes que lutam por seu reconhecimento em sociedades racistas (cf. DA 58, 65, 72, 88ss, 402, 427, 439, 454). O grito dessa gente nos lembra diariamente da presen\u00e7a de Deus e da injusti\u00e7a humana, que domina o mundo como um c\u00e2ncer maligno. Deus ouve o grito de seu povo. Ele n\u00e3o s\u00f3 olhou para o sofrimento do povo, mas participou desse sofrimento. Ele est\u00e1 no grito de seu povo. Deus \u00e9 o grito dos pobres. Deus n\u00e3o sofre mais por n\u00f3s, mas tem compaix\u00e3o de n\u00f3s. E n\u00f3s podemos nos expor ao sofrimento dos outros porque neles experimentamos a compaix\u00e3o de Deus.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Reconhecer Deus como sujeito e ator da hist\u00f3ria e da miss\u00e3o alivia o peso da missionariedade, sem eximir de responsabilidade. Ele \u00e9 o bom pastor dos disc\u00edpulos-mission\u00e1rios. Portanto, devemos pedir a Deus n\u00e3o isso ou aquilo, mas o dom que ele mesmo \u00e9. Pedir a Deus, Deus, significa pedir ouvidos abertos, m\u00e3os estendidas, uma vida que se doa, e uma voz prof\u00e9tica que n\u00e3o se cala.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Deus, que ouve o grito dos pobres, que est\u00e1 conosco no centro dos conflitos, nos envia em miss\u00e3o. Ao envio precede a convoca\u00e7\u00e3o ao \u00eaxodo. Ele nos chama a sair da escravid\u00e3o. Essa escravid\u00e3o se desdobra em m\u00faltiplas formas de servid\u00e3o e submiss\u00e3o. Na origem de cada servid\u00e3o est\u00e1 o seq\u00fcestro da mem\u00f3ria dos pobres. A experi\u00eancia do \u00eaxodo e a recupera\u00e7\u00e3o da mem\u00f3ria s\u00e3o fundamentais para o an\u00fancio mission\u00e1rio. A miss\u00e3o que se prop\u00f5e ser e anunciar \u201cboa not\u00edcia aos pobres\u201d procura, necessariamente, desintegrar-se do sistema que produz o sofrimento dos pobres, procura desintegrar o sistema e, positivamente, recuperar a mem\u00f3ria dos oprimidos. Deus, que convida ao \u00eaxodo, tamb\u00e9m p\u00f5e fim ao ex\u00edlio. Zacarias (\u201co Senhor \u00e9 mem\u00f3ria\u201d), o profeta p\u00f3s-ex\u00edlico, promete libertar \u201cos cativos da esperan\u00e7a (&#8230;) da cisterna onde n\u00e3o h\u00e1 \u00e1gua\u201d (Zc 9,11s). Os cativos da esperan\u00e7a ser\u00e3o areia nas entranhas do sistema alicer\u00e7ado na exclus\u00e3o, explora\u00e7\u00e3o e nos privil\u00e9gios de poucos (cf. DA 62).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Quem sai de sua terra, como Abra\u00e3o, ou da terra dos outros, onde foi escravizado, como Mois\u00e9s, n\u00e3o sabe para onde vai. Em \u00faltima inst\u00e2ncia, a esperan\u00e7a \u00e9 confian\u00e7a em Deus, \u00e9 utopia, lugar inexistente, promessa absoluta. Uma primeira sa\u00edda est\u00e1 na sa\u00edda, no \u00eaxodo. A miss\u00e3o vive e prop\u00f5e esse \u00eaxodo em dire\u00e7\u00e3o de um mundo novo que acolhemos na met\u00e1fora do Reino de Deus. A esperan\u00e7a nos d\u00e1 as raz\u00f5es e a for\u00e7a para decidir entre o presente acomodado e sofrido, e o \u00eaxodo para um futuro imprevis\u00edvel e arriscado. Viver na esperan\u00e7a tem seus perigos e riscos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">A ruptura sist\u00eamica n\u00e3o depende da Igreja, mas \u00e9 fact\u00edvel com ela. Seus gestos significativos \u2013 sinais de justi\u00e7a e imagens de esperan\u00e7a \u2013 perpassam todos os seus setores (forma\u00e7\u00e3o, teologia, catequese, minist\u00e9rios, liturgias, pastorais), e articula\u00e7\u00f5es com setores que ultrapassam o \u00e2mbito eclesial. A Igreja, atrav\u00e9s de seus agentes, est\u00e1 presente nos diversos movimentos sociais que acreditam na possibilidade de um outro mundo. Sua miss\u00e3o \u00e9 \u201cdespertar esperan\u00e7a em meio \u00e0s situa\u00e7\u00f5es mais dif\u00edceis, porque, se n\u00e3o h\u00e1 esperan\u00e7a para os pobres, n\u00e3o haver\u00e1 para ningu\u00e9m\u201d (DA 395).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Precisamos novamente descer ao ch\u00e3o do povo pobre e ferido para formar lideran\u00e7as em seu meio e em suas lutas, onde \u201co pr\u00f3prio Cristo se faz peregrino e caminha ressuscitado\u201d (DA 259). O ressuscitado \u00e9 o crucificado. A cruz n\u00e3o pertence \u00e0 pr\u00e9-hist\u00f3ria das lutas pela liberta\u00e7\u00e3o. Pertence \u00e0 sua hist\u00f3ria permanente. E nessa hist\u00f3ria definimos etapas, prioridades e metas de um outro mundo poss\u00edvel. Alimentar a esperan\u00e7a dos pobres exige presen\u00e7a, vis\u00e3o e interven\u00e7\u00e3o de disc\u00edpulos-mission\u00e1rios como atores sociais. O ap\u00f3stolo nos exorta a \u201cestar sempre prontos a dar a raz\u00e3o da nossa esperan\u00e7a, (&#8230;) com mansid\u00e3o e respeito\u201d (cf. Pd 3,15s). Contudo, n\u00e3o somos n\u00f3s que produzimos o novo, mas o novo n\u00e3o ser\u00e1 jogado aos nossos p\u00e9s, sem nossa participa\u00e7\u00e3o. Tampouco podemos prognosticar o mundo novo que esperamos. Assumimos com os pobres, que s\u00e3o arautos da esperan\u00e7a, a pobreza do nosso saber a respeito da forma concreta do futuro esperado. Em todo caso sabemos que as transforma\u00e7\u00f5es, que inspiram a esperan\u00e7a, come\u00e7am com a participa\u00e7\u00e3o dos pobres-outros na constru\u00e7\u00e3o do mundo novo e da Igreja, com redistribui\u00e7\u00e3o dos bens acumulados por poucos, com o reconhecimento do diferente e com a gratuidade vivida pela comunidade mission\u00e1ria<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">A Igreja da Am\u00e9rica Latina e do Caribe est\u00e1 diante de tr\u00eas alternativas: (a) amedrontada, enterrar os muitos talentos que recebeu (Mt 25,14ss), (b) se inserir ao sistema capitalista e propor pequenas melhorias ou (c) intervir com sinais de justi\u00e7a no mundo injusto e lan\u00e7ar as sementes do Reino. A Igreja de Aparecida assumiu essa interven\u00e7\u00e3o e ruptura como servi\u00e7o aos pobres. Ela prometeu n\u00e3o apenas ser advogada dos pobres, mas a sua casa. Como casa dos pobres, a Igreja ser\u00e1 casa de esperan\u00e7a.<span style=\"font-size: 10pt\"><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-size: 10pt\">1 No dia 16 de junho de 2008 foi divulgada a not\u00edcia da descoberta pelo telesc\u00f3pio \u201cLa Silla\u201d, instalado no Chile, de tr\u00eas \u00b4super`planetas que medem 4,2, 6,7 e 9,4 vezes o tamanho da Terra.<br \/>2 Cf. IRINEU DE LI\u00c3O. Contra as heresias. S\u00e3o Paulo: Paulus, 1997, V, 6,1.<br \/>3 RATZINGER, Joseph Cardeal, Der Dialog der Religionen und das j\u00fcdisch-christliche Verh\u00e4ltnis. Primeira vez publicado in: Internationale Katholische Zeitschrift Communio 26 (1997) 419-429. Tamb\u00e9m in: IDEM, Die Vielfalt der Religionen und der Eine Bund, 3. ed., Bad T\u00f6lz: Urfeld, 2003, p. 117.<br \/>4 Cf. L\u2019unit\u00e9 de la foi et le pluralisme th\u00e9ologique, l.c., Preposi\u00e7\u00e3o IV.<\/span><\/p>\n<h4 style=\"text-align: right\">Dom Erwin Kr\u00e4utler<\/h4>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A humanidade pergunta a n\u00f3s, comunidade mission\u00e1ria, que \u201crecebeu a miss\u00e3o de anunciar o Reino de Cristo e de Deus\u201d (LG 6): \u201cO que significa o an\u00fancio deste Reino para os grandes problemas que amea\u00e7am a humanidade? Qual \u00e9 a contribui\u00e7\u00e3o (relev\u00e2ncia) da comunidade mission\u00e1ria para a solu\u00e7\u00e3o desses problemas? 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