{"id":11482,"date":"2008-08-06T00:00:00","date_gmt":"2008-08-06T03:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/os-povos-indigenas-do-xingu-e-a-hidreletrica-belo-monte\/"},"modified":"2008-08-06T00:00:00","modified_gmt":"2008-08-06T03:00:00","slug":"os-povos-indigenas-do-xingu-e-a-hidreletrica-belo-monte","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/os-povos-indigenas-do-xingu-e-a-hidreletrica-belo-monte\/","title":{"rendered":"Os povos ind\u00edgenas do Xingu e a hidrel\u00e9trica Belo Monte"},"content":{"rendered":"<h4 style=\"text-align: justify\">Uma hist\u00f3ria que n\u00e3o \u00e9 de hoje<\/h4>\n<p style=\"text-align: justify\">O Xingu \u00e9 um rio peculiar e \u00fanico. N\u00e3o d\u00e1 para compar\u00e1-lo com qualquer outro rio da Amaz\u00f4nia. S\u00f3 ele faz alian\u00e7a com o majestoso Amazonas atrav\u00e9s de um largo delta. Na foz, suas lindas \u00e1guas verdes-esmeralda se mesclam com as \u00e1guas barrentas do rio-mar no qual se perde finalmente acima do Forte de Santo Ant\u00f4nio de Gurup\u00e1. Percorreu 2045 km desde Mato Grosso onde nasce a 600 metros acima do n\u00edvel do mar na jun\u00e7\u00e3o da Serra do Roncador com a Serra Formosa.<\/p>\n<p>  <!--more-->  <\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">O Xingu \u00e9 misterioso. Seu nome at\u00e9 hoje n\u00e3o tem explica\u00e7\u00e3o etimol\u00f3gica. Alguns estudiosos querem traduzi-lo como \u201ccasa dos deuses\u201d ou melhor \u201cCasa de Deus\u201d, mas n\u00e3o se tem certeza qual seria a verdadeira raiz subjacente a este nome. Suas \u00e1guas ora s\u00e3o calmas e pac\u00edficas formando extensos lagos, ora furiosas e ind\u00f4mitas quando se estreitam em perigosas cachoeiras que j\u00e1 ceifaram muitas vidas de viajantes desavisados ou afoitos que teimaram em enfrent\u00e1-las. Pode ser que n\u00e3o seja a Casa de Deus, mas que \u00e9 um rio sagrado para os povos que habitam nas suas margens h\u00e1 milhares de anos, quem teria a ousadia de negar!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">O Xingu narra a hist\u00f3ria do para\u00edso de antanho e repete as palavras divinas \u201cE Deus viu tudo o que tinha feito: e era muito bom\u201d (Gn 1,31). Mas conta tamb\u00e9m a hist\u00f3ria da rebeli\u00e3o contra Deus, da prepot\u00eancia e arrog\u00e2ncia dos homens que queriam ser como deuses (cfr. Gn 3,5). Relata ainda a viol\u00eancia assassina que ceifou a vida do irm\u00e3o e brada pelos s\u00e9culos afora a palavra de Deus: \u201cQue fizeste! Ou\u00e7o o sangue de teu irm\u00e3o, do solo, clamar por mim!\u201d (Gn 4,10). Na realidade, as \u00e1guas do Xingu deveriam ter a cor do sangue por causa das in\u00fameras chacinas que se perpetraram ao longo dos s\u00e9culos passados. A f\u00faria anti-ind\u00edgena assassinou com armas de fogo a \u00edndios munidos apenas de arco e flecha e bordunas. Os invasores misturaram nas pra\u00e7as das aldeias com o barro vermelho tamb\u00e9m o sangue de indefesas m\u00e3es e mulheres gr\u00e1vidas, jovens e crian\u00e7as rec\u00e9m-nascidas. Milhares tombaram! E o mundo que se autodenomina de \u201ccivilizado\u201d fechou os olhos, mostrou indiferen\u00e7a diante do sangue ind\u00edgena bradando por justi\u00e7a, gritando pelo direito de viver, reclamando a p\u00e1tria que Deus criou para estes povos, defendendo o ch\u00e3o de seus mitos e ritos, chorando a terra onde sepultaram os antepassados. At\u00e9 hoje o \u00edndio \u00e9 chamado com desprezo de \u201csilv\u00edcola\u201d, um termo que insinua tratar-se apenas de algum b\u00edpede a mais, sem intelig\u00eancia e livre arb\u00edtrio. Grande parte da sociedade envolvente v\u00ea ainda os povos ind\u00edgenas como uma horda de malfeitores, de agressores hostis, selvagens, trai\u00e7oeiros, b\u00e1rbaros, cru\u00e9is, n\u00e3o-confi\u00e1veis.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">A hist\u00f3ria dos \u00edndios \u00e9 uma hist\u00f3ria de rios de sangue derramado. Assim, tudo que hoje acontece de desfavor\u00e1vel, de adverso faz emergir do inconsciente coletivo destes povos todo o sofrimento do passado, toda hostilidade de que foram v\u00edtimas desde que os europeus fincaram o p\u00e9 neste continente e os bandeirantes avan\u00e7aram em todas as dire\u00e7\u00f5es abrindo caminho a ferro e fogo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">N\u00e3o faz tanto tempo que o pr\u00f3prio \u00f3rg\u00e3o governamental encarregado de proteger os povos ind\u00edgenas, o Servi\u00e7o de Prote\u00e7\u00e3o ao \u00cdndio \u2013 SPI, participou de massacres. Foi extinto por causa da repercuss\u00e3o no exterior das escandalosas carnificinas e substitu\u00eddo pela FUNAI. Em 1967 veio \u00e0 tona o assim chamado \u201cMassacre do Paralelo 11\u201d que aconteceu em 1965. Um seringalista do Mato Grosso deu ordem para exterminar uma aldeia. Primeiro sobrevoaram o povoado e jogaram bombas, depois entraram na aldeia e mataram a todos. Eu mesmo vi uma fotografia que mostra uma mulher ind\u00edgena presa pelos p\u00e9s, de cabe\u00e7a para baixo, ladeado por dois homens brancos com fac\u00f5es. Esquartejaram a mulher. A mera lembran\u00e7a da foto me causa arrepios. Isso n\u00e3o aconteceu no tempo dos bandeirantes, mas h\u00e1 apenas pouco mais de quarenta anos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Naquela mesma d\u00e9cada de 60 outra agress\u00e3o bem planejada aconteceu no Xingu. A a\u00e7\u00e3o criminosa nunca foi investigada. Os criminosos n\u00e3o foram identificados e punidos por homic\u00eddio qualificado cometido em s\u00e9rie. Alguns pol\u00edticos queriam a todo custo tirar Altamira do ostracismo. A cidade precisava ser ligada atrav\u00e9s de uma estrada \u2013 mesmo que fosse apenas uma picada \u2013 com Santar\u00e9m, o portal a dar acesso ao mundo. O empecilho para concretizar o intento foram os \u00edndios arara que viviam na regi\u00e3o que hoje coincide com os munic\u00edpios de Medicil\u00e2ndia e Uruar\u00e1. Mas para n\u00e3o frear o progresso \u201cesses selvagens\u201d tinham que ser \u201celiminados\u201d. Se a expedi\u00e7\u00e3o avistasse um \u00edndio arara, a ordem era de execut\u00e1-lo. Imediatamente! N\u00e3o se sabe do n\u00famero exato de \u00edndios arara mortos naquele tempo. S\u00f3 se sabe que foram muitos. Morreram at\u00e9 eletrocutados quando se aproximaram do barraco da \u201cfor\u00e7a expedicion\u00e1ria\u201d circundado por uma cerca de arame conectada com um grupo gerador. Os \u00edndios queriam ver os \u201cbrancos\u201d, seguraram no arame e levaram choques de 220 volts. A hist\u00f3ria deste povo que vivia sossegado no meio da mata entre Altamira e Santar\u00e9m culminou em outra trag\u00e9dia durante a constru\u00e7\u00e3o da Transamaz\u00f4nica. A nova rodovia passava a tr\u00eas quil\u00f4metros da aldeia dos arara no igarap\u00e9 Penetecaua. Os \u00edndios foram at\u00e9 perseguidos por cachorros. A for\u00e7ada conviv\u00eancia com o mundo dos brancos trouxe doen\u00e7as como gripe, tuberculose, mal\u00e1ria. Outros tantos morreram! O mundo l\u00e1 fora, no Brasil e no exterior, nada soube desta desgra\u00e7a que desabou sobre um povo. Continuava a aplaudir \u201ca conquista deste gigantesco mundo verde\u201d, palavras que constaram da placa afixada no tronco de uma castanheira derrubada quando o presidente da Rep\u00fablica deu solenemente in\u00edcio aos trabalhos de constru\u00e7\u00e3o da Transamaz\u00f4nica. A que pre\u00e7o! Nunca me esque\u00e7o do dia em corria a not\u00edcia de que, finalmente, os \u201cterr\u00edveis \u00edndios arara\u201d haviam sido dominados. Como prova de que o \u201ccontato\u201d tinha sido um sucesso total, trouxeram uns representantes daquele povo que at\u00e9 ent\u00e3o vivia livre na selva xinguara. Nus, tremendo de medo em cima de uma carro\u00e7a, foram expostos \u00e0 curiosidade popular como se pertencessem a alguma rara esp\u00e9cie zool\u00f3gica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Vivemos em outros tempos. Pelo menos assim pensamos. Celebramos sessenta anos de promulga\u00e7\u00e3o da Carta Magna dos Direitos Humanos. Qualquer discrimina\u00e7\u00e3o racial \u00e9 condenada. \u00c9 proclamada a igualdade de povos e ra\u00e7as. No Brasil temos desde 1988 uma Constitui\u00e7\u00e3o Federal em que os direitos ind\u00edgenas s\u00e3o inscritos no Artigo 231. Foi abolida a tutela de um \u00f3rg\u00e3o estatal. Os ind\u00edgenas, outrora equiparados aos menores de idade e aos deficientes mentais, alcan\u00e7aram plena cidadania, n\u00e3o precisando mais ser tutelados. Tem todo o direito de ir e vir como qualquer brasileiro. Mesmo assim, enquanto j\u00e1 estamos festejando os vinte anos da Constitui\u00e7\u00e3o \u201ccidad\u00e3\u201d, parte da imprensa ainda n\u00e3o se inteirou desta novidade constitucional e h\u00e1 jornais insistindo que \u201da Pol\u00edcia Federal dever\u00e1 pedir explica\u00e7\u00f5es \u00e0 FUNAI (&#8230;) j\u00e1 que o \u00f3rg\u00e3o \u00e9 o tutor legal dos \u00edndios brasileiros\u201d[1].<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">O salto qualitativo da letra constitucional para o ch\u00e3o concreto da realidade em que os povos ind\u00edgenas vivem ainda n\u00e3o aconteceu. Se uma demarca\u00e7\u00e3o de \u00e1rea ind\u00edgena \u00e9 conclu\u00edda com a homologa\u00e7\u00e3o pelo presidente, prevista em lei, um clamor ensurdecedor se levanta pelo Brasil afora, reclamando que \u201dh\u00e1 muita terra para pouco \u00edndio\u201d. E o pior aconteceu h\u00e1 algumas semanas em Altamira. Uma r\u00e1dio local se desdobrou em berrar agress\u00f5es verbais contra os \u00edndios, insultos racistas que fazem inveja ao tratamento destinado aos judeus pelo regime nazista. Pens\u00e1vamos que tais excessos pertencessem a um passado long\u00ednquo e tivessem sido, h\u00e1 muito tempo, extirpados do vocabul\u00e1rio jornal\u00edstico. Infelizmente nos enganamos! A onda anti-ind\u00edgena assume novamente propor\u00e7\u00f5es alarmantes!<\/p>\n<h4 style=\"text-align: justify\">De Karara\u00f4 a Belo Monte.<\/h4>\n<p style=\"text-align: justify\">Muitos n\u00e3o recordam o tempo da ditadura militar e, j\u00e1 que a mem\u00f3ria tem fama de ser curta, poucas pessoas se lembram dos mandos e desmandos dos presidentes plenipotenci\u00e1rios daquela \u00e9poca. Um deles foi o General Em\u00edlio Garrastazu Medici. Tornou-se c\u00e9lebre pelo Projeto de Integra\u00e7\u00e3o Nacional e a constru\u00e7\u00e3o da Rodovia Transamaz\u00f4nica, inaugurada em setembro de 1972. Foi a d\u00e9cada do \u201cIntegrar para n\u00e3o entregar\u201d e de outro slogan que desencadeou uma migra\u00e7\u00e3o sem preced\u00eancia no Brasil. \u201cTerra sem homens para homens sem terra!\u201d exclamava euf\u00f3rico o general-presidente, o que n\u00e3o deixou de ser um tremendo insulto aos povos ind\u00edgenas que, h\u00e1 mil\u00eanios, habitam a Amaz\u00f4nia. O presidente simplesmente os ignorou, despojou-os da cidadania, negou-lhes a exist\u00eancia, considerou-os definitivamente mortos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Milhares de fam\u00edlias rumaram do Nordeste, Centro, Sudeste e Sul para a Amaz\u00f4nia. No entanto, o Projeto de Integra\u00e7\u00e3o Nacional previu tamb\u00e9m a constru\u00e7\u00e3o de barragens. A rodovia cortou os grandes rios nas proximidades das principais quedas d\u2019\u00e1gua. J\u00e1 em 1975 a Eletronorte contratou a firma CNEC (Cons\u00f3rcio Nacional de Engenheiros Consultores) para pesquisar e indicar o local exato de uma futura hidrel\u00e9trica. Em 1979 o CNEC terminou os estudos e declarou a viabilidade de constru\u00e7\u00e3o de cinco barragens no Xingu e uma no rio Iriri, maior afluente do Xingu. Ao povo do Xingu negou-se qualquer informa\u00e7\u00e3o mais detalhada. S\u00f3 se sabia que o Governo pretendia tocar a constru\u00e7\u00e3o o quanto antes poss\u00edvel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Os povos ind\u00edgenas reagiram pela primeira vez em 1989. Vieram uns 600 \u00edndios para Altamira e hospedaram-se no centro Bet\u00e2nia da Prelazia do Xingu. Vieram para protestar contra a decis\u00e3o do Governo de sacrificar o rio Xingu. O encontro que os \u00edndios chamaram de \u201cPrimeiro Encontro das Na\u00e7\u00f5es Ind\u00edgenas do Xingu\u201d realizou-se nos dias 20 a 25 de fevereiro de 1989 e alcan\u00e7ou uma enorme repercuss\u00e3o nacional e internacional. A foto que retratou a cena em que a \u00edndia kayap\u00f3 Tuyra encostou a l\u00e2mina de seu fac\u00e3o no rosto do ent\u00e3o presidente da Eletronorte e hoje presidente da Eletrobr\u00e1s, Jos\u00e9 Ant\u00f4nio Muniz Lopes, percorreu o mundo inteiro e virou a logomarca da oposi\u00e7\u00e3o ind\u00edgena ao projeto de hidrel\u00e9trica. Tuyra tornou-se a mulher mais famosa do mundo kayap\u00f3, m\u00e3e carinhosa com seus filhos e ao mesmo tempo guerreira intransigente quando se trata da defesa de sua terra e seu rio. Pouco depois daquele memor\u00e1vel encontro, o Banco Mundial negou o suporte financeiro e o projeto foi arquivado. Nunca, por\u00e9m, foi abandonado. J\u00e1 na d\u00e9cada de 90 foi desengavetado! Veio \u00e0 tona com mais for\u00e7a!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">No in\u00edcio do m\u00eas de junho de 2007, reuniram-se outra vez representantes de v\u00e1rios povos ind\u00edgenas do Xingu no Centro Bet\u00e2nia da Prelazia do Xingu e insistiram que colabor\u00e1ssemos com eles para promover um Encontro dos Povos Ind\u00edgenas semelhante \u00e0quele que aconteceu em 1989. Os \u00edndios pretendiam chamar a aten\u00e7\u00e3o do Brasil e do mundo, condenando o projeto fara\u00f4nico que amea\u00e7a imolar ao deus-progresso o rio Xingu que para eles \u00e9 sagrado, s\u00edmbolo da vida, d\u00e1diva de Deus.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">No dia 3 de junho de 2007, os participantes do encontro foram para a beira do rio, em Altamira, para uma manifesta\u00e7\u00e3o contra o projeto de hidrel\u00e9trica ressuscitado que recebeu o nome \u201cBelo Monte\u201d em substitui\u00e7\u00e3o \u00e0 denomina\u00e7\u00e3o anterior \u201cKarara\u00f4\u201d que equivale a um grito de guerra do povo kayap\u00f3. Mudou apenas o nome! O atual Governo o considera prioridade no Plano de Acelera\u00e7\u00e3o do Crescimento (PAC). O presidente Lula antes de ser eleito manifestou-se contra Belo Monte. Do mesmo jeito v\u00e1rios membros do Congresso Nacional, entre eles o deputado federal Z\u00e9 Geraldo, eleito pelas comunidades do Xingu, declararam-se visceralmente contr\u00e1rios, quando estavam em campanha eleitoral. Mas que surpresa para todos n\u00f3s: depois de eleitos mudaram de posi\u00e7\u00e3o. O que antes condenaram com veem\u00eancia, de repente, da noite para o dia, passaram a defender com unhas e dentes. O que estaria por tr\u00e1s dessa repentina metamorfose camale\u00f4nica?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Doravante, o povo do Xingu \u00e9 informado de que se trata apenas de uma Unidade Hidrel\u00e9trica (UHE) e n\u00e3o mais de um Complexo Hidrel\u00e9trico. N\u00e3o deixa de ser uma mentira deslavada que se propaga sem nenhum pudor, um artif\u00edcio empregado propositadamente para ludibriar o povo. Todo mundo sabe que seria um incalcul\u00e1vel desperd\u00edcio investir bilh\u00f5es de reais para uma usina que durante o ver\u00e3o tropical n\u00e3o tem condi\u00e7\u00f5es de funcionar plenamente quando o volume de \u00e1guas do Xingu diminui. \u00c9 a esta\u00e7\u00e3o em que extensas praias de areia branca e dourada emergem das \u00e1guas cristalinas transformando a regi\u00e3o numa paisagem deslumbrante. Mas os barrageiros n\u00e3o se deixam impressionar pela beleza ex\u00f3tica do Xingu. J\u00e1 baixaram a senten\u00e7a e fim de papo! O rio tem que ser sacrificado! \u00c9 o pre\u00e7o a pagar! Outras barragens ser\u00e3o necess\u00e1rias e est\u00e3o programadas! Para adiantar o servi\u00e7o, a Eletrobr\u00e1s j\u00e1 disp\u00f5e de todo o \u201cinvent\u00e1rio\u201d do Xingu com o respectivo mapa que prev\u00ea os barramentos e as \u00e1reas alagadas at\u00e9 acima da cidade de S\u00e3o F\u00e9lix do Xingu. Parece tratar-se de estudos clandestinos, pois n\u00e3o s\u00e3o acess\u00edveis ou revelados ao p\u00fablico, algo que deve estar levando o carimbo \u201cmat\u00e9ria altamente confidencial\u201d ou \u201csegredo de Estado\u201d. Por que todo esse sigilo?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">No mesmo dia 3 de junho de 2007 um cacique kayap\u00f3 subiu a um caminh\u00e3o estacionado na avenida que margeia o Xingu, pegou o microfone e indagou gritando: \u201cO que ser\u00e1 de nossas crian\u00e7as?\u201d e acrescentou: \u201cN\u00e3o permitimos que as sepulturas de nossos ancestrais v\u00e3o para o fundo!\u201d Enquanto empres\u00e1rios e comerciantes defendem Belo Monte na acalentada esperan\u00e7a de \u201cchuvas de dinheiro\u201d desabando sobre Altamira e n\u00e3o se preocupam em nenhum momento com as consequ\u00eancias perniciosas para a vida de milhares de pessoas, mormente a popula\u00e7\u00e3o das baixadas que ter\u00e1 suas casas e propriedades alagadas, enquanto os membros desse cons\u00f3rcio empresarial abertamente demonstram que n\u00e3o lhes causa nenhuma inquieta\u00e7\u00e3o se \u00e1reas ind\u00edgenas demarcadas e homologadas s\u00e3o alagadas e o povo ribeirinho prejudicado, enquanto essa gente que em sua grande maioria veio de outros Estados n\u00e3o tem nenhuma dor de consci\u00eancia diante de um programado desastre ecol\u00f3gico irrevers\u00edvel, um \u00edndio, at\u00e9 hoje considerado um sup\u00e9rfluo res\u00edduo da idade da pedra lascada, esse \u00edndio discriminado e tratado com desd\u00e9m ou desprezo, \u00e9 quem d\u00e1 uma li\u00e7\u00e3o a toda a sociedade. Esse cons\u00f3rcio \u201dcomercial, industrial e agropastoril\u201c s\u00f3 pensa em si. N\u00e3o mant\u00e9m la\u00e7os nem com o passado, nem os estabelece com as futuras gera\u00e7\u00f5es, n\u00e3o se relaciona nem com quem vivia antes nem com quem vem depois. \u201cApr\u00e9s moi le deluge!\u201d \u00c9 uma associa\u00e7\u00e3o de gente imediatista, interesseira e ego\u00edsta que aposta apenas em lucros fabulosos e declara guerra a quem tiver a petul\u00e2ncia de opor-se a sua ambi\u00e7\u00e3o e gan\u00e2ncia que n\u00e3o respeita nada e ningu\u00e9m. De repente, um \u00edndio chama a aten\u00e7\u00e3o para o direito das futuras gera\u00e7\u00f5es que tamb\u00e9m querem viver e estabelece ainda uma ponte com os antepassados, de quem herdamos este mundo que Deus criou. O \u00edndio teve a coragem de alertar para as consequ\u00eancias nefastas de um projeto megaloman\u00edaco. \u00c0 beira do rio, ind\u00edgenas e n\u00e3o-ind\u00edgenas se deram as m\u00e3os para selar o pacto de lutar contra a destrui\u00e7\u00e3o do rio e da vida: Xingu Vivo para Sempre!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Em 1989 os \u00edndios se manifestaram, em 2007 insistiram de novo num grande encontro e mostramo-nos sens\u00edveis ao pedido de todos os povos ind\u00edgenas da bacia do Xingu.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Por que representantes da Eletrobras ou Eletronorte nunca passaram por uma \u00fanica aldeia para ouvir os \u00edndios a respeito de Belo Monte? Por que n\u00e3o pediram ajuda de quem realmente entende do mundo kayap\u00f3 para manter contatos com esses povos que s\u00e3o os primeiros a habitar esta terra? Por que essa discrimina\u00e7\u00e3o, exclus\u00e3o, marginaliza\u00e7\u00e3o dos povos aut\u00f3ctones? Por que?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Nas audi\u00eancias chamadas \u201cp\u00fablicas\u201d n\u00e3o se fala a verdade nem existe real possibilidade para o povo manifestar as suas d\u00favidas, fazer indaga\u00e7\u00f5es e apresentar cr\u00edticas. Essas audi\u00eancias s\u00e3o apenas parte de um ritual em que os enviados da Eletrobras ou do Governo recitam o ros\u00e1rio de vantagens e benef\u00edcios. S\u00f3 vantagens! S\u00f3 benef\u00edcios! Parece terminantemente proibido criar no povo a sensa\u00e7\u00e3o de que possa haver alguma sequela negativa ou algum dano irrepar\u00e1vel. Se algu\u00e9m se atrever em insistir e opor-se ao discurso oficial, a resposta repetida, at\u00e9 criar n\u00e1useas, \u00e9 e ser\u00e1 sempre: &#8220;\u00c9 o pre\u00e7o a ser pago pelo progresso!&#8221; &#8220;\u00c9 a exig\u00eancia do desenvolvimento&#8221;. Instados a explicar o que entendem por desenvolvimento e progresso, recusam-se a responder. Dizem que n\u00e3o vieram para discutir quest\u00f5es \u201cideol\u00f3gicas\u201d. Fato \u00e9 que a Eletronorte sabe o que conv\u00e9m \u00e0 sociedade, n\u00e3o o z\u00e9-povinho. Causa realmente esp\u00e9cie a repeti\u00e7\u00e3o de slogans, chav\u00f5es prefabricados n\u00e3o com a inten\u00e7\u00e3o de esclarecer, mas de cooptar. Veja-se o caso da \u00edndia xipaia que est\u00e1 sendo aplaudida pelo pessoal do Cons\u00f3rcio e filmada, afirmando que est\u00e1 a favor de Belo Monte porque &#8220;o \u00edndio est\u00e1 no escuro&#8221;. Sei quem \u00e9 essa senhora. Ela mora h\u00e1 d\u00e9cadas na cidade e h\u00e1 luz na casa dela desde que h\u00e1 energia el\u00e9trica em Altamira. \u201cCIMI n\u00e3o d\u00e1 dinheiro! Dom Erwin n\u00e3o d\u00e1 dinheiro! Eletronorte d\u00e1 dinheiro, paga conta! Por isso somos a favor de Belo Monte!\u201d s\u00e3o frases que foram ouvidas na aldeia de determinado grupo que se distanciou dos outros povos ind\u00edgenas do Xingu e n\u00e3o participou mais de nenhum evento. Que maneira mais esdr\u00faxula de defender a &#8220;UHE Belo Monte&#8221;, cooptando \u00edndios menos avisados e ainda acenando com vantagens financeiras aos que prometem defender o projeto!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Obcecado pela id\u00e9ia de acelerar o crescimento da economia, o pr\u00f3prio presidente Lula identificou como &#8220;entraves&#8221; a esta medida a quest\u00e3o dos \u00edndios, dos quilombolas, dos ambientalistas e at\u00e9 do Minist\u00e9rio P\u00fablico. Considerou ainda &#8220;penduricalhos&#8221; os artigos da legisla\u00e7\u00e3o ambiental pois estes par\u00e2metros legais estariam travando o desenvolvimento do pa\u00eds. Por isso a ordem \u00e9 de desconsiderar ou, pelo menos, n\u00e3o dar tanta import\u00e2ncia a impactos sociais e ambientais. Caso contr\u00e1rio o Pa\u00eds estaria condenado \u00e0 estagna\u00e7\u00e3o. Mas, j\u00e1 que s\u00e3o exigidos estudos preliminares no caso de uma hidrel\u00e9trica, o Governo encarrega os primeiros interessados no projeto, os grandes empreendedores, de providenciar os estudos de viabilidade ou de impacto ambiental e social. Ter\u00e3o a seu dispor cientistas de sua inteira confian\u00e7a que na mais cega obedi\u00eancia aos ditames superiores corroborar\u00e3o a tese que j\u00e1 \u00e9 definida antes do estudo: o impacto ambiental e social ser\u00e1 m\u00ednimo ou praticamente nulo. Alega-se: \u201cO Brasil n\u00e3o pode esperar!\u201d Ou algu\u00e9m pensa que uma dessas empresas esteja interessada em apontar impactos ou danos sociais e ambientais? Isso equivaleria a cortar o galho em que est\u00e3o sentadas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">A pergunta chave \u00e9: A quem mesmo interessa Belo Monte? Ao Brasil? Vai melhorar o padr\u00e3o de vida dos paraenses, dos xinguaras, do povo de Altamira, Vit\u00f3ria do Xingu, Souzel, Anapu, da Transamaz\u00f4nica, do Baixo Xingu? A energia, a quem ser\u00e1 destinada? Todos sabemos que ser\u00e3o mais uma vez beneficiadas as multinacionais que vivem \u00e0s custas do Brasil com todas as mordomias fiscais e facilidades energ\u00e9ticas. O pre\u00e7o da energia para a fam\u00edlia brasileira \u00e9 escandaloso, \u00e9 exorbitante, mas as empresas transnacionais contam com a benevol\u00eancia magn\u00e2nima dos sucessivos Governos. O Par\u00e1, a Amaz\u00f4nia \u00e9 considerada mera \u201cprov\u00edncia\u201d energ\u00e9tica, mineral, madeireira, \u00faltima fronteira agr\u00edcola&#8230; Nunca saiu dessa categoria de \u201cprov\u00edncia\u201d! A metr\u00f3pole, o centro nevr\u00e1lgico das decis\u00f5es e delibera\u00e7\u00f5es, sempre se encontra alhures! Pouco interessa \u00e0 metr\u00f3pole se os povos da \u201cprov\u00edncia\u201d passam bem ou v\u00e3o de mal a pior. Algumas migalhas sempre caem, mais por descuido do que por amor aos pobres. E os nossos pol\u00edticos, em vez de questionar esse sistema in\u00edquo, de criticar estruturas prejudiciais aos povos da Amaz\u00f4nia, de exigir direitos e \u201droyalties\u201d, aplaudem de p\u00e9 e n\u00e3o hesitam em apelar at\u00e9 para a terminologia teol\u00f3gica quando falam em \u201csalva\u00e7\u00e3o\u201d, \u201creden\u00e7\u00e3o\u201d da regi\u00e3o, do Par\u00e1 e da Amaz\u00f4nia. Infelizmente nada entendem da m\u00e1xima do grande Santo Tom\u00e1s de Aquino: \u201cGratia supponit naturam\u201d (a gra\u00e7a pressup\u00f5e a natureza). No contexto da Amaz\u00f4nia: Jamais haver\u00e1 reden\u00e7\u00e3o se a cria\u00e7\u00e3o for arrasada, destru\u00edda, aniquilada! A\u00ed s\u00f3 vai sobrar a desgra\u00e7a, o caos, o apocalipse!<\/p>\n<h4 style=\"text-align: justify\">Xingu Vivo para Sempre<\/h4>\n<p style=\"text-align: justify\">No dia 19 de maio de 2008 tive o privil\u00e9gio de fazer a abertura do encontro Xingu Vivo para Sempre no Gin\u00e1sio Poliesportivo de Altamira. Mais de seiscentos ind\u00edgenas, mulheres, homens e crian\u00e7as, entraram solenemente no recinto, cantando e dan\u00e7ando, erguendo suas lan\u00e7as, bordunas e fac\u00f5es. Quem n\u00e3o se emocionou quando os \u00edndios kayap\u00f3 cantaram o Hino Nacional em sua l\u00edngua materna! A plat\u00e9ia aplaudiu entusiasmada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Apresentei todos os caciques das 24 etnias presentes e saudamos os outros participantes do evento chamando-os por munic\u00edpio. O ar foi festivo, animado, algo excepcional, pois n\u00e3o \u00e9 todo dia que se v\u00ea tantos ind\u00edgenas, pintados segundo suas tradi\u00e7\u00f5es, dan\u00e7ando de acordo com os seus ritos milenares e cantando num idioma ancestral enquanto se movimentam num ritmo t\u00e3o peculiar. Volta e meia, uma ou um kayap\u00f3 levanta para fazer sua dan\u00e7a individual erguendo um fac\u00e3o ou mostrando borduna e lan\u00e7a, os homens com seus bar\u00edtonos volumosos e fortes, as mulheres com vozes elevadas, incisivas, \u00e0s vezes at\u00e9 estridentes. A beleza ex\u00f3tica das express\u00f5es culturais comove e impressiona. A juventude, presente nas arquibancadas, vibra com as dan\u00e7as e aplaude com prolongadas salvas de palmas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Na manh\u00e3 do segundo dia continuou a apresenta\u00e7\u00e3o. Faz parte do ritual ind\u00edgena que cada cacique fale, mesmo que repita argumentos ou opini\u00f5es anteriormente j\u00e1 expressos por um parente. Ali\u00e1s, todos se entendem como parentes. A proced\u00eancia geogr\u00e1fica n\u00e3o conta, nem sequer a etnia ou o tronco lingu\u00edstico a que pertencem. Todos se tratam de \u201c\u00f5bikwa\u201d, familiares!\u00a0 Se um sofre ou \u00e9 agredido, todos se sentem atacados. Quando se apresentam, falam primeiro em sua l\u00edngua materna e depois traduzem, eles mesmos, a fala para o portugu\u00eas. Uns tem mais facilidade de expressar-se em portugu\u00eas, outros n\u00e3o conseguem faz\u00ea-lo de modo correto. Percebe-se a sua alegria, mas muitas vezes tamb\u00e9m a angustia ou indigna\u00e7\u00e3o por causa de alguma decis\u00e3o do Governo contr\u00e1ria a eles ou do avan\u00e7o de latifundi\u00e1rios, mineradoras, madeireiras, garimpeiros para as terras habitadas por eles desde tempos imemoriais. S\u00e3o muito sens\u00edveis a qualquer falta de considera\u00e7\u00e3o da parte da sociedade envolvente. N\u00e3o ocultam a sua decep\u00e7\u00e3o. \u201dJ\u00e1 estamos cansados de ouvir e n\u00e3o ser ouvidos. J\u00e1 estamos cansados de escutar amea\u00e7as de constru\u00e7\u00e3o de barragens na volta grande do Rio Xingu. N\u00e3o estamos s\u00f3 defendendo o Rio Xingu, mas os rios da Amaz\u00f4nia: moradia dos povos ind\u00edgenas\u201d reclama um dos caciques.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Ao t\u00e9rmino da apresenta\u00e7\u00e3o foi composta a mesa de trabalho para os debates. Foram chamados o Professor Oswaldo Sev\u00e1 Filho, da Universidade de Campinas (UNICAMP), o Engenheiro Paulo Fernando Viana Rezende, da Eletrobras, Roquivan Alves da Silva, do Movimento de Atingidos por Barragens (MAB), Jean Pierre Leroy, da Federa\u00e7\u00e3o de \u00d3rg\u00e3os para Assist\u00eancia Social e Educacional (FASE) e Glenn Switkes, diretor do Programa Latino-americano do International Rivers Network (IRD).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Oswaldo Sev\u00e1 \u00e9 conhecido nosso e dos ind\u00edgenas. Veio para mais uma vez alertar sobre as consequ\u00eancias dos projetos hidrel\u00e9tricos no Rio Xingu. Foi ele quem organizou o livro Tenot\u00e3-M\u00f5, lan\u00e7ado em 11 de agosto de 2005, uma colet\u00e2nea de artigos de especialistas de diversas \u00e1reas que pretendia provocar um amplo debate sobre as hidrel\u00e9tricas na Amaz\u00f4nia. Fui convidado a escrever o pref\u00e1cio para este livro. Para nossa total decep\u00e7\u00e3o, a Eletrobras nunca respondeu \u00e0s indaga\u00e7\u00f5es e cr\u00edticas da parte do mundo cient\u00edfico. Percebe-se nitidamente a arrog\u00e2ncia de alguns \u00f3rg\u00e3os do Governo. N\u00f3s apelamos para argumentos, eles para o \u201cpoder\u201d, ostensiva e cinicamente manifestado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Entrei no Gin\u00e1sio j\u00e1 no final da palestra do Professor Oswaldo Sev\u00e1. Chegou a vez do representante da Eletrobras, o engenheiro Paulo Rezende. Tive a impress\u00e3o de que n\u00e3o encontrou tempo para se preparar. Assim optou por uma sess\u00e3o \u201cPower Point\u201d como a Eletrobras costuma fazer quando \u00e9 solicitada por prefeitos, vereadores, comerciantes e empres\u00e1rios. Na tela apareceram n\u00fameros e estat\u00edsticas, dificilmente identific\u00e1veis por causa da claridade do ambiente. A plat\u00e9ia come\u00e7ou a ficar inquieta e reagiu quando o engenheiro desqualificou o professor Oswaldo Sev\u00e1, chamando-o de \u201cdesatualizado\u201d. As vaias se tornaram cada vez mais incisivas. Falei para a professora M\u00f4nica sentada ao meu lado: \u201cPor que esse homem n\u00e3o p\u00e1ra, com todas essas vaias!\u201d Pareciam antes estimular o engenheiro. Alteou a sua voz, elevando-a a um tom provocador.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">O engenheiro cumpriu seu papel dentro do ritual previsto. Nada de admitir que o projeto possa trazer tamb\u00e9m consequencias adversas, irrevers\u00edveis. Aulas de pedagogia n\u00e3o devem constar da grade curricular de uma faculdade de engenharia. Assim o engenheiro n\u00e3o teve nenhum preparo para lidar com situa\u00e7\u00f5es diferentes das que ele conhece no \u00e2mbito empresarial. N\u00e3o conseguiu envolver a plat\u00e9ia, de modo especial os ind\u00edgenas presentes. Perdeu as estribeiras e apelou para a arrog\u00e2ncia. Por que n\u00e3o fez uma exposi\u00e7\u00e3o mais simples para todo mundo entender? Por que n\u00e3o dividiu sua palestra em duas partes? Poderia, se assim o quisesse, falar primeiro das vantagens e dos benef\u00edcios que Belo Monte pode trazer. Em seguida abordaria com sinceridade e simplicidade as desvantagens, os preju\u00edzos que, sem d\u00favida, a hidrel\u00e9trica ir\u00e1 causar. Mas nada disso aconteceu. Faltava franqueza e imparcialidade. O engenheiro transmitiu \u00e0 plat\u00e9ia a sua convic\u00e7\u00e3o de que, haja oposi\u00e7\u00e3o ou n\u00e3o, Belo Monte vai sair de qualquer jeito!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Quando, ap\u00f3s a palestra do engenheiro, o representante do Movimento dos Atingidos por Barragens, iniciou sua fala dizendo que os \u00edndios ir\u00e3o defender o Xingu para proteg\u00ea-lo, ressoou de repente pelo gin\u00e1sio um terr\u00edvel grito de guerra. Os \u00edndios se levantaram e ergueram bordunas e fac\u00f5es e, em seguida, iniciaram uma dan\u00e7a movimentando-se em dire\u00e7\u00e3o ao engenheiro. Vi os \u00edndios gesticular com fac\u00f5es e bordunas. Simbolizaram um ataque. Do lugar, onde eu estava, n\u00e3o pude observar que um dos fa\u00e7\u00f5es resvalou no bra\u00e7o do engenheiro, ferindo-o. Quando consegui ficar mais pr\u00f3ximo, percebi o corte no bra\u00e7o direito do engenheiro. Vi tamb\u00e9m como ele derramou toda uma garrafa de \u00e1gua mineral sobre o corte que sofreu. A inten\u00e7\u00e3o que teve, foi sem d\u00favida a de limpar a ferida, mas o resultado foi uma imensa po\u00e7a d\u2019\u00e1gua misturada com sangue que causou a t\u00e9trica impress\u00e3o de que algu\u00e9m havia sido esquartejado ou guilhotinado naquele mesmo instante. In\u00fameras vezes esta mesma cena foi repetida nas reportagens de televis\u00e3o. Sangue espalhada por toda parte. O engenheiro foi encaminhado para o hospital. Levou seis pontos e recebeu alta. Padre Renato Trevisan que tem uma larga experi\u00eancia com o povo kayap\u00f3, al\u00e9m de falar muito bem seu idioma, solicitou a um cacique que apaziguasse, na l\u00edngua kayap\u00f3, os esp\u00edritos excitados. O cacique pegou prontamente o microfone e falou a seu povo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">N\u00f3s, da coordena\u00e7\u00e3o e respons\u00e1veis pelo evento, ficamos espantados, muito aflitos e angustiados ao extremo. Imagin\u00e1vamos logo a repercuss\u00e3o do acidente nos meios de comunica\u00e7\u00e3o. Havia gente nossa chorando convulsivamente. Ningu\u00e9m se conformara com o acontecido. Tudo estava correndo t\u00e3o bem, sem sobressaltos. E agora?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Afirmo com toda a \u00eanfase e convic\u00e7\u00e3o que o corte com o fac\u00e3o que o engenheiro sofreu foi acidental! Muito lament\u00e1vel, sem d\u00favida, mas jamais foi tentativa de homic\u00eddio, pois se os \u00edndios quisessem matar o engenheiro n\u00e3o o teriam atingido apenas no bra\u00e7o. Ali\u00e1s, o pr\u00f3prio engenheiro em entrevista gravada para o programa \u201cO Fant\u00e1stico\u201d da TV-Globo admitiu que foi um acidente. Repudio e rejeito, por uma quest\u00e3o de consci\u00eancia, a afirma\u00e7\u00e3o de que a agress\u00e3o foi premeditada ou programada. S\u00e3o as for\u00e7as anti-ind\u00edgenas que mais uma vez v\u00eam \u00e0 tona e agora se deleitam no macabro prazer de sustentar essa tese absurda.A coordena\u00e7\u00e3o do evento veio imediatamente a p\u00fablico e falou do incidente lastim\u00e1vel. Redigimos uma nota em que lamentamos profundamente o ocorrido. Fui procurado por jornalistas e dei v\u00e1rias entrevistas a diversos canais de televis\u00e3o. Mesmo assim, parte da m\u00eddia optou pela divulga\u00e7\u00e3o sensacionalista dos fatos o que engendrou todo tipo de coment\u00e1rio ao longo dos dias e semanas subsequentes. Condenaram sumariamente a Prelazia do Xingu e o seu bispo e as outras entidades coordenadoras do evento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Pens\u00e1vamos por alguns momentos at\u00e9 em encerrar o encontro, julgando que n\u00e3o houvesse mais clima para a continua\u00e7\u00e3o, mas, finalmente, decidimos de cancelar apenas a passeata pelas ruas da cidade de Altamira e substitui-la por uma manifesta\u00e7\u00e3o \u00e0 beira do rio Xingu.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">No dia 23 de maio representantes dos povos ind\u00edgenas e gente que vive ao longo do Xingu e seus afluentes, gente do campo e da cidade e representantes dos movimentos sociais se deram mais uma vez as m\u00e3os \u00e0 beira do rio Xingu. Mais uma vez os \u00edndios discursaram e dan\u00e7aram. As mulheres com as crian\u00e7as entraram n\u2019\u00e1gua para demonstrar como amam o rio e como dependem dele. Acabou o encontro Xingu Vivo para Sempre mas n\u00e3o acabou a luta em defesa desse rio maravilhoso e dos povos do Xingu. Foi lido o documento final em que os \u00edndios fazem quest\u00e3o de manifestar-se como \u201ccidad\u00e3os e cidad\u00e3s brasileiras\u201d. \u201cVimos a p\u00fablico comunicar &#8230; a nossa decis\u00e3o de fazer valer o nosso direito e o de nossos filhos e netos a viver com dignidade, manter nossos lares e territ\u00f3rios, nossas culturas e formas de vida, honrando tamb\u00e9m nossos antepassados, que nos entregaram um ambiente equilibrado. N\u00e3o admitiremos a constru\u00e7\u00e3o de barragens no Xingu e seus afluentes, grandes ou pequenas, e continuaremos lutando contra o enraizamento de um modelo de desenvolvimento socialmente injusto e ambientalmente degradante, hoje representado pelo avan\u00e7o da grilagem de terras p\u00fablicas, pela instala\u00e7\u00e3o de madeireiras ilegais, pelo garimpo clandestino que mata nossos rios, pela amplia\u00e7\u00e3o das monoculturas e da pecu\u00e1ria extensiva que desmatam nossas florestas\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">\u201cQueremos o Xingu vivo para sempre!\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-size: 10pt\">[1] Por exemplo \u201eO Liberal\u201d\u00a0 em sua edi\u00e7\u00e3o de 26 de maio de 2008<\/span><\/p>\n<h4 style=\"text-align: right\">Dom Erwin Kr\u00e4utler<\/h4>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Uma hist\u00f3ria que n\u00e3o \u00e9 de hoje O Xingu \u00e9 um rio peculiar e \u00fanico. 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