{"id":11496,"date":"2008-10-16T00:00:00","date_gmt":"2008-10-16T03:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/apontamentos-sobre-a-situacao-atual-da-fome-e-possiveis-solucoes\/"},"modified":"2008-10-16T00:00:00","modified_gmt":"2008-10-16T03:00:00","slug":"apontamentos-sobre-a-situacao-atual-da-fome-e-possiveis-solucoes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/apontamentos-sobre-a-situacao-atual-da-fome-e-possiveis-solucoes\/","title":{"rendered":"Apontamentos sobre a situa\u00e7\u00e3o atual da fome e poss\u00edveis solu\u00e7\u00f5es"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify\">Para o dia mundial da alimenta\u00e7\u00e3o<\/p>\n<div style=\"text-align: justify\">\n<ol>\n<li>Ap\u00f3s trinta anos de relativa estabilidade nos pre\u00e7os dos alimentos, fomos surpreendidos por not\u00edcias sobre a falta de alimentos no mundo. De fato, os pre\u00e7os subiram enormemente nos dois \u00faltimos anos, e os analistas apontam diversos fatores que se somaram para gerar esse aumento. Embora agravada por fatores clim\u00e1ticos localizados, trata-se indiscutivelmente de uma crise provocada pelo mercado e n\u00e3o por m\u00e1s condi\u00e7\u00f5es do clima, guerras ou doen\u00e7as, que sempre foram as grandes causadoras da fome em grande escala.   <!--more-->  <\/li>\n<li>Diante das declara\u00e7\u00f5es de Jos\u00e9 Maria Sumpsi, da FAO, afirmando que se trata de um problema de oferta e de demanda, devido ao aumento do consumo em pa\u00edses emergentes como \u00cdndia, China ou Brasil, h\u00e1 de se lembrar que nunca antes se havia produzido tamanha quantidade de alimentos no mundo. Hoje se produz tr\u00eas vezes mais que nos anos sessenta, enquanto a popula\u00e7\u00e3o mundial somente duplicou desde ent\u00e3o.<\/li>\n<li>N\u00e3o h\u00e1 uma crise de produ\u00e7\u00e3o de alimentos e sim uma impossibilidade de acesso aos mesmos por parte de amplas popula\u00e7\u00f5es que n\u00e3o podem pagar os pre\u00e7os atuais. A solu\u00e7\u00e3o n\u00e3o pode ser mais livre com\u00e9rcio porque, como se tem demonstrado, isso implica em mais fome e menor acesso aos alimentos. O mercado n\u00e3o pode resolver o problema dos alimentos. Como \u00e9 um problema pol\u00edtico, exigem-se medidas pol\u00edticas.<\/li>\n<li>A atual crise do pre\u00e7o dos alimentos \u00e9 reveladora desse limite do mercado. Basta pensar, por exemplo, no consumo de carnes e o desgaste que ele provoca ao transformar florestas e vegeta\u00e7\u00e3o do cerrado em pastagens, e por exigir enormes planta\u00e7\u00f5es de soja e milho (que entre outros danos ecol\u00f3gicos consomem grande quantidade de \u00e1gua na irriga\u00e7\u00e3o) para alimentar animais e aves criados em regime de reclus\u00e3o. Como, na l\u00f3gica do mercado, s\u00f3 se reduz a demanda pela eleva\u00e7\u00e3o dos pre\u00e7os \u2013 e n\u00e3o pela mudan\u00e7a de h\u00e1bitos alimentares, como uma dieta menos devastadora dos recursos naturais \u2013 sua \u00fanica sa\u00edda \u00e9 aumentar a produ\u00e7\u00e3o, ainda que isso implique antecipar a crise ecol\u00f3gica que j\u00e1 est\u00e1 no horizonte.<\/li>\n<li>Visto isso, chega-se a conclus\u00e3o que a atual crise de pre\u00e7os de alimentos est\u00e1 pedindo \u00e0s pessoas de boa-vontade uma s\u00e9ria e alentada reflex\u00e3o sobre o sistema de produ\u00e7\u00e3o e consumo baseado no mercado. Neste contexto, faz-se necess\u00e1rio um pensamento rigoroso e cr\u00edtico, que n\u00e3o se contente em propor corre\u00e7\u00f5es ao sistema de mercado, mas busque alternativas econ\u00f4micas vi\u00e1veis para a popula\u00e7\u00e3o.<\/li>\n<li>Para contribuir neste debate, a Santa S\u00e9, por meio do Conselho Pontif\u00edcio Justi\u00e7a e Paz, em nota publicada no dia 4 de junho de 2008 afirma que a atual crise alimentar mundial poder\u00e1, no longo prazo, supor uma oportunidade de crescimento para os pa\u00edses pobres se a comunidade internacional ajud\u00e1-los a promover seu desenvolvimento agr\u00edcola.<\/li>\n<li>Segundo a nota, este aumento dos pre\u00e7os foi provocado por v\u00e1rios fatores, uns de tipo conjuntural e outros estruturais. Entre os fatores conjunturais, destaca a escassez de colheitas provocada pela climatologia adversa em pa\u00edses como a China, Austr\u00e1lia e Vietn\u00e3, ao que \u00e9 preciso acrescentar a crise energ\u00e9tica, que n\u00e3o s\u00f3 encareceu o transporte, mas fez derivar os cultivos \u00e0 produ\u00e7\u00e3o de agrocombust\u00edveis ao inv\u00e9s de ao consumo aliment\u00edcio.<\/li>\n<li>Outro fator, segundo o Conselho pontif\u00edcio, \u00e9 \u201co comportamento dos investidores internacionais, que frente \u00e0 crise do mercado financeiro, est\u00e3o investindo neste setor e especulando com o futuro aumento dos pre\u00e7os\u201d.<\/li>\n<li>Entre os fatores estruturais, ao aumento da demanda se une a diminui\u00e7\u00e3o da oferta, provocada, segundo o Conselho Pontif\u00edcio, pela pol\u00edtica de subs\u00eddios \u00e0 produ\u00e7\u00e3o agr\u00edcola dos pa\u00edses ricos. Esta pol\u00edtica provocou que baixassem os pre\u00e7os durante d\u00e9cadas, e isso fez com o que os pa\u00edses pobres deixassem de produzir bens agr\u00edcolas pr\u00f3prios e dependessem das importa\u00e7\u00f5es. \u201cO resultado \u00e9 que a maior parte dos pa\u00edses pobres se converteu em importador de comida, com graves conseq\u00fc\u00eancias para sua capacidade produtiva e de inova\u00e7\u00e3o no setor agr\u00edcola\u201d.<\/li>\n<li>Esta crise alimentar resultante \u201cempobrece os setores mais fracos da popula\u00e7\u00e3o mundial, especialmente as \u00e1reas urbanas que gastam uma parte importante de seus recursos na compra de alimentos\u201d.  Se a situa\u00e7\u00e3o n\u00e3o melhorar, segundo o Conselho Pontif\u00edcio Justi\u00e7a e Paz, at\u00e9 o ano 2015 poder\u00e1 haver 1,2 bilh\u00f5es de famintos cr\u00f4nicos.<\/li>\n<li>O Conselho Justi\u00e7a e Paz afirma que sua miss\u00e3o n\u00e3o \u00e9 dar solu\u00e7\u00f5es t\u00e9cnicas, mas \u201cexortar os fi\u00e9is leigos e os homens e mulheres de boa vontade a buscar solu\u00e7\u00f5es adequadas \u00e0 crise, em nome do dever de solidariedade entre os membros da \u00fanica fam\u00edlia humana\u201d.<\/li>\n<li>Para o Conselho Pontif\u00edcio, a comunidade internacional n\u00e3o deveria responder s\u00f3 com medidas a curto prazo, com ajudas de emerg\u00eancia, mas com ajudas no longo prazo, que levem a superar as desigualdades estruturais.<\/li>\n<li>\u201cDe fato, o aumento dos pre\u00e7os dos alimentos poderia inclusive transformar-se em uma oportunidade de crescimento para os pa\u00edses pobres do mundo, sempre que a comunidade internacional e os governos nacionais se dediquem a promover eficazmente o desenvolvimento agr\u00edcola dos pa\u00edses mais pobres, promovendo sua capacidade de sustentar a popula\u00e7\u00e3o sem ter de depender excessivamente da ajuda exterior\u201d.<\/li>\n<li>Este desenvolvimento deveria unir-se tamb\u00e9m a uma Reforma Agr\u00e1ria nestes pa\u00edses, que permita aos camponeses chegarem \u00e0 propriedade das terras. Outra das propostas \u00e9 a de controlar a produ\u00e7\u00e3o dos agrocombust\u00edveis, de maneira que n\u00e3o se destinem recursos alimentares necess\u00e1rios para a popula\u00e7\u00e3o a esse tipo de energia.<\/li>\n<li>As conclus\u00f5es da Confer\u00eancia da FAO ocorrido em Roma, neste ano n\u00e3o indicam uma mudan\u00e7a de tend\u00eancia nas pol\u00edticas que v\u00eam sendo aplicadas nos \u00faltimos anos e que t\u00eam conduzido \u00e0 situa\u00e7\u00e3o de crise atual. O monop\u00f3lio de determinadas corpora\u00e7\u00f5es multinacionais de cada um dos trechos da cadeia de produ\u00e7\u00e3o de alimentos, desde as sementes passando pelos fertilizantes at\u00e9 a comercializa\u00e7\u00e3o e distribui\u00e7\u00e3o do que comemos, \u00e9 algo que n\u00e3o se tratou na Confer\u00eancia.<\/li>\n<li>Os resultados da Confer\u00eancia da FAO refletem o consenso alcan\u00e7ado entre a ONU, o Banco Mundial (BM) e o Fundo Monet\u00e1rio Internacional (FMI) para manter pol\u00edticas econ\u00f4micas e comerciais de depend\u00eancia Sul-Norte e de apoio \u00e0s multinacionais da agroalimenta\u00e7\u00e3o. As recomenda\u00e7\u00f5es lan\u00e7adas a favor de uma maior abertura dos mercados no Sul, de subsidiar as importa\u00e7\u00f5es de alimentos a partir da ajuda ao desenvolvimento e a aposta por uma nova revolu\u00e7\u00e3o verde apontam nesta dire\u00e7\u00e3o.<\/li>\n<li>Aqueles que trabalham e cultivam a terra, nas m\u00e3os de quem deveria estar nossa alimenta\u00e7\u00e3o, os camponeses e as camponesas, foram exclu\u00eddos do debate.<\/li>\n<li>As declara\u00e7\u00f5es de boas inten\u00e7\u00f5es e as promessas de milh\u00f5es de Euros para acabar com a fome no mundo realizadas por v\u00e1rios governantes n\u00e3o v\u00e3o p\u00f4r fim \u00e0s causas estruturais que t\u00eam gerado essa crise. Al\u00e9m disso, as propostas realizadas pelo Secret\u00e1rio Geral da ONU, Ban Ki-moon, de aumentar em 50% a produ\u00e7\u00e3o de alimentos e recha\u00e7ar as limita\u00e7\u00f5es impostas \u00e0 exporta\u00e7\u00e3o por parte de alguns pa\u00edses afetados parecem refor\u00e7ar mais as causas da crise do que conduzir a sa\u00eddas reais que garantam a seguran\u00e7a alimentar da maioria das popula\u00e7\u00f5es no Sul.<\/li>\n<li>Quem est\u00e1, de fato, preocupado em solucionar a quest\u00e3o da fome n\u00e3o pode se iludir com os paliativos propostos nessas reuni\u00f5es de c\u00fapula e nem imaginar que a humanidade pode se ver livre do fantasma da fome dentro dos marcos do capitalismo. Basta atentar para o fato de que no pa\u00eds capitalista mais rico do mundo, o governo, a fim de garantir renda aos produtores, subsidia os agricultores que deixam de cultivar parte de suas terras. Pois, mesmo com esse enorme potencial de produ\u00e7\u00e3o alimentar, graves defici\u00eancias nutricionais afetam porcentagem significativa de sua popula\u00e7\u00e3o e grandes filas de pessoas com fome formam-se diariamente nos &#8220;sop\u00f5es&#8221; da caridade.<\/li>\n<li>Acabar com a situa\u00e7\u00e3o de crise implica p\u00f4r um fim no modelo de agricultura e de alimenta\u00e7\u00e3o atual que coloca os interesses econ\u00f4micos de grandes multinacionais acima das necessidades alimentares de milh\u00f5es de pessoas. \u00c9 necess\u00e1rio abordar as causas estruturais: as pol\u00edticas neoliberais que v\u00eam sendo aplicadas de forma sistem\u00e1tica nos \u00faltimos 30 anos, promovidas pelo BM, FMI e OMC, com os Estados Unidos e a Uni\u00e3o Europ\u00e9ia \u00e0 frente. Pol\u00edticas que significam liberaliza\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica em escala global, abertura sem freio dos mercados, privatiza\u00e7\u00e3o de terras dedicadas ao abastecimento local e sua reconvers\u00e3o em monoculturas de exporta\u00e7\u00e3o, conduzindo-nos \u00e0 grave situa\u00e7\u00e3o de inseguran\u00e7a alimentar atual<\/li>\n<li>A sa\u00edda para a crise passa por regular e controlar o mercado e o com\u00e9rcio internacional; reconstruir as economias nacionais; devolver o controle da produ\u00e7\u00e3o de alimentos \u00e0s fam\u00edlias camponesas e garantir seu acesso livre \u00e0 terra, \u00e0s sementes, \u00e0 \u00e1gua; tirar a agricultura dos tratados de livre com\u00e9rcio e da OMC; e p\u00f4r um fim na especula\u00e7\u00e3o com a fome. N\u00e3o \u00e9 admiss\u00edvel que os alimentos que os alimentos tenham subido 50% s\u00f3 neste ano. Alimento n\u00e3o \u00e9 mercadoria, \u00e9 dom de Deus e direito de todos e de todas.<\/li>\n<\/ol>\n<\/div>\n<h4 style=\"text-align: right\">Dom Guilherme Ant\u00f4nio Werlang<\/h4>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Para o dia mundial da alimenta\u00e7\u00e3o Ap\u00f3s trinta anos de relativa estabilidade nos pre\u00e7os dos alimentos, fomos surpreendidos por not\u00edcias sobre a falta de alimentos no mundo. De fato, os pre\u00e7os subiram enormemente nos dois \u00faltimos anos, e os analistas apontam diversos fatores que se somaram para gerar esse aumento. Embora agravada por fatores clim\u00e1ticos &hellip;<\/p>\n<p class=\"read-more\"> <a class=\"\" href=\"https:\/\/www.cnbb.org.br\/apontamentos-sobre-a-situacao-atual-da-fome-e-possiveis-solucoes\/\"> <span class=\"screen-reader-text\">Apontamentos sobre a situa\u00e7\u00e3o atual da fome e poss\u00edveis solu\u00e7\u00f5es<\/span> Leia mais &raquo;<\/a><\/p>\n","protected":false},"author":83,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":""},"categories":[758],"tags":[],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/posts\/11496"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/users\/83"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/comments?post=11496"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/posts\/11496\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/media?parent=11496"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/categories?post=11496"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/tags?post=11496"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}