{"id":11725,"date":"2010-04-30T00:00:00","date_gmt":"2010-04-30T03:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/atire-a-primeira-pedra\/"},"modified":"2010-04-30T00:00:00","modified_gmt":"2010-04-30T03:00:00","slug":"atire-a-primeira-pedra","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/atire-a-primeira-pedra\/","title":{"rendered":"Atire a Primeira Pedra"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify\">\u201cQuem n\u00e3o tiver pecado, atire a primeira pedra\u201d! O evangelista Jo\u00e3o, 8,1-11, narra o conhecido epis\u00f3dio quando Jesus foi para o Monte das Oliveiras e, de madrugada, voltou ao Templo, e todo o povo se reunira ao redor dele para ouvir os seus ensinamentos. Enquanto ensinava, os escribas e os fariseus trouxeram uma mulher apanhada em adult\u00e9rio.<\/p>\n<p>  <!--more-->  <\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">O di\u00e1logo entre Jesus e os seus interlocutores revela a inten\u00e7\u00e3o perversa destas pessoas buscando um motivo para condenar o Mestre que tanto os incomodava. Esperavam a condena\u00e7\u00e3o da mulher. Diante da insist\u00eancia deles, frisando que na Lei, Mois\u00e9s mandava apedrejar mulheres flagradas em adult\u00e9rio, Jesus ergueu-se e disse: \u201cQuem n\u00e3o tiver pecado, atire a primeira pedra!\u201d. Essa palavra remeteu, de maneira contundente, os conterr\u00e2neos de Jesus ao n\u00facleo mais rec\u00f4ndito de sua consci\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">\u00c9 central nesse epis\u00f3dio a seguinte cena: \u201cOuvindo isso, foram saindo um por um, a come\u00e7ar pelos mais velhos. E Jesus ficou sozinho com a mulher que estava no meio, em p\u00e9\u201d. Por que foram embora sem atirar pedras? As raz\u00f5es apresentadas para a condena\u00e7\u00e3o da mulher estavam afiadas na ponta da l\u00edngua. Mudaram de posi\u00e7\u00e3o quando foram remetidos ao espa\u00e7o sagrado da pr\u00f3pria consci\u00eancia, cuja luz deve iluminar a verdade da conduta de cada um e urgir posturas coerentes e balizadas na verdade do amor. Todos sa\u00edram, a come\u00e7ar pelos mais velhos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Sup\u00f5e-se que os mais velhos tenham se exercitado mais ami\u00fade, pelo tempo vivido e pelas oportunidades, na configura\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria consci\u00eancia que acusa, ilumina e indica a verdade de si \u2013 aquela que as apar\u00eancias at\u00e9 podem esconder. Foram embora sem atirar pedras, certamente, porque se confrontaram com a pr\u00f3pria fraqueza, levados a reconhecer sua fragilidade sem a pretens\u00e3o de parecer o que n\u00e3o \u00e9, e, at\u00e9 mesmo, de se defender, encobrindo-se com a condena\u00e7\u00e3o e desmoraliza\u00e7\u00e3o do outro.<br \/>Nesse mesmo horizonte se localiza aquela instigante hist\u00f3ria contada por Daniel no cap\u00edtulo treze do seu Livro, a hist\u00f3ria de Susana &#8211; uma mulher bonita e muito religiosa. Seus pais, muito corretos, tinham educado sua filha na Lei de Mois\u00e9s. Susana costumava passear no jardim de seu marido, Joaquim, homem muito rico e respeitado por todos. Dois anci\u00e3os viam Susana todos os dias e come\u00e7aram a cobi\u00e7\u00e1-la. Ambos estavam ca\u00eddos por ela, mas n\u00e3o contavam um ao outro a sua paix\u00e3o, com vergonha de revelar os seus desejos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Na tentativa de um enganar ao outro, se convidaram para ir embora por ser hora do almo\u00e7o. Cada um fez de conta ter ido embora, deu a volta e retornou, e se encontraram no mesmo lugar, tendo que confessar cada qual a sua paix\u00e3o. Combinaram, ent\u00e3o, procurar uma boa ocasi\u00e3o para pegar Susana sozinha. Chegou a oportunidade, quando ela se banhava, tendo solicitado \u00e0s suas servas que se retirassem. Os anci\u00e3os se aproximaram fazendo propostas indecorosas. Caso n\u00e3o aceitasse, espalhariam que ela havia sido vista com um rapaz. Susana n\u00e3o cedeu. Gritou e os da casa vieram.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Nesse momento, os anci\u00e3os contaram a sua est\u00f3ria. Os desdobramentos foram terr\u00edveis. Os anci\u00e3os planejaram arruinar Suzana. Testemunharam contra ela, acusando-a de um encontro amoroso com um rapaz. Daniel, o profeta, apareceu em cena, criticando a posi\u00e7\u00e3o de condena\u00e7\u00e3o sem o julgamento requerido, e apontou como falso o testemunho dos anci\u00e3os contra Susana. A apura\u00e7\u00e3o da acusa\u00e7\u00e3o revelou a mentira.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Sugestiva e forte \u00e9 a palavra de Daniel quando disse: \u201c\u00d3 homem envelhecido na mal\u00edcia, agora teus pecados v\u00e3o aparecer, tudo o que j\u00e1 vinhas praticando, ao dar senten\u00e7as injustas, condenando o inocente e deixando sair livre o culpado&#8230;\u201d Em quest\u00e3o, como fen\u00f4meno central deste tempo, no horizonte da sociedade contempor\u00e2nea, est\u00e1 o problema da consci\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Curiosamente, parece contracenar com uma permissividade que tem configurado a sociedade moderna com um anseio de moralidade. Ser\u00e1 mesmo anseio de moralidade a ira que se levanta atacando pessoas e institui\u00e7\u00f5es deposit\u00e1rias do compromisso e fidelidade nos princ\u00edpios morais? N\u00e3o pode ser simples orquestra\u00e7\u00e3o de ataques para diminuir o poder desfrutado por esta ou aquelas pessoas? A indigna\u00e7\u00e3o diante dos horrores da imoralidade,consequ\u00eancia nefasta de patologias ou de escolhas convenientes e esp\u00farias, remeta os indignados todos e a cada um ao mais rec\u00f4ndito da pr\u00f3pria consci\u00eancia. Este caminho poder\u00e1 ser o novo que precisa despontar para ordenar as contradi\u00e7\u00f5es e incoer\u00eancias que est\u00e3o tomando conta dos mais diversificados ambientes, institui\u00e7\u00f5es e situa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">A coragem de atirar pedras sup\u00f5e uma coer\u00eancia de vida com for\u00e7a para sustentar a autenticidade que o mundo est\u00e1 reclamando, sob pena de animaliza\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es interpessoais a ponto dos absurdos que v\u00e3o sendo colhidos aqui e acol\u00e1. Quem sabe est\u00e1 se abrindo um ciclo novo para a sociedade com a interpela\u00e7\u00e3o que nasce da ilumina\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria consci\u00eancia? N\u00e3o basta condenar os outros. \u00c9 preciso iluminar-se.<\/p>\n<h4 style=\"text-align: right\">Dom Walmor Oliveira de Azevedo<\/h4>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cQuem n\u00e3o tiver pecado, atire a primeira pedra\u201d! 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