{"id":11776,"date":"2009-09-11T00:00:00","date_gmt":"2009-09-11T03:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/a-violencia\/"},"modified":"2009-09-11T00:00:00","modified_gmt":"2009-09-11T03:00:00","slug":"a-violencia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/a-violencia\/","title":{"rendered":"A viol\u00eancia"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify\">A palavra \u201cviol\u00eancia\u201d nos lembra for\u00e7a bruta que arromba, fere, viola, desrespeita a dignidade de pessoas ou de realidades sagradas. A viol\u00eancia est\u00e1 presente no mundo desde suas origens. Vem na B\u00edblia expressa no assassinato de Abel, inocente e justo, perpretado por seu irm\u00e3o, Caim. Ela \u00e9 conseq\u00fcente \u00e0 tentativa, por parte do homem, de apoderar-se da condi\u00e7\u00e3o divina: \u201csereis como deuses\u201d, acima do bem e do mal, absolutos senhores do pr\u00f3prio destino e legisladores para si mesmos de acordo com as pr\u00f3prias vontades, ou caprichos. S\u00f3 que Deus n\u00e3o \u00e9 assim. Deus \u00e9 amor que se d\u00e1. Dele n\u00f3s n\u00e3o podemos nos apoderar por um ato de conquista, de for\u00e7a. Podemos, sim, acolher seu amor como filhos, reconhecidos e agradecidos. A viol\u00eancia come\u00e7a quando o ser humano desconfia de Deus e n\u00e3o o reconhece mais como um Pai amoroso e generoso que se doa todo ao filho, mas come\u00e7a a v\u00ea-lo como um poderoso d\u00e9spota temeroso de que o filho lhe venha tomar o lugar. Foi essa a insinua\u00e7\u00e3o da serpente, s\u00edmbolo do \u00f3dio, do ressentimento e da inveja do inimigo: \u201cOh, n\u00e3o! Voc\u00eas n\u00e3o morrer\u00e3o. Deus sabe que vossos olhos se abrir\u00e3o quando comerdes dela &#8211; da \u00e1rvore do conhecimento do bem e do mal &#8211; e sereis como deuses, versados no bem e no mal(G\u00ean 3,4s.)\u201d. \u00c9 assim que o ser humano tenta apropriar-se, por um ato de viol\u00eancia, da prerrogativa divina de ser para a humanidade o caminho da vida. Freud tentou explicar essa condi\u00e7\u00e3o de \u00f3dio ao pai, e de culpa, com o mito de um parric\u00eddio nas origens. Pensou assim substituir a concep\u00e7\u00e3o crist\u00e3 do pecado original. A luta pelo poder entre os irm\u00e3os se torna inevit\u00e1vel com a morte do pai: quem haver\u00e1 de se banquetear com sua carne? A conviv\u00eancia entre os seres humanos vai, seguindo essa l\u00f3gica, tornar-se uma guerra permanente onde cada um tentar\u00e1 impor aos outros sua pr\u00f3pria vontade como lei universal. O pr\u00f3ximo se torna o concorrente que deve se submeter ou ser eliminado. Quando n\u00e3o se sabe ser filho n\u00e3o se sabe tamb\u00e9m ser irm\u00e3o. Quando se desacredita do pai como crer no outro que dele veio? O outro s\u00f3 importa na conspira\u00e7\u00e3o. Depois se torna tamb\u00e9m inimigo.<\/p>\n<p>  <!--more-->  <\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">H\u00e1, por\u00e9m, caminho de volta, por mais distantes que andem os filhos dispersos. Houve um algu\u00e9m, de nossa ra\u00e7a, que foi s\u00f3 e plenamente filho: Jesus Cristo. Aquele ser humano concreto, Jesus de Nazar\u00e9, estava totalmente tomado pela filia\u00e7\u00e3o divina: era o Filho, plenamente identificado com o Pai, revela\u00e7\u00e3o de seu amor que n\u00e3o desistiu de seu projeto de envolver em seu infinito afeto a humanidade inteira com todo o universo. Em seus l\u00e1bios a Ep\u00edstola aos Hebreus coloca essas palavras: \u201ceis-me aqui &#8211; no rolo do livro est\u00e1 escrito a meu respeito &#8211; eu vim, \u00f3 Deus, para fazer tua vontade\u201d(Heb 10,8). No evangelho de Jo\u00e3o, Jesus declara: \u201cmeu alimento \u00e9 fazer a vontade daquele que me enviou\u201d (Jo 4,34). E essa \u00e9 tamb\u00e9m sua alegria, porque o amor infinito do Pai inunda-lhe o ser: \u201ceu estou no Pai e o Pai est\u00e1 em mim\u201d(Jo 14,11), alegria que Ele deseja seja nossa: \u201ca fim de que em si tenham minha plena alegria\u201d(Jo 17,13). Um Filho assim sabe como \u00e9 Deus e sabe que Deus \u00e9 puro amor para toda a humanidade. Sua miss\u00e3o \u00e9 restaurar no cora\u00e7\u00e3o dos irm\u00e3os a confian\u00e7a no Pai, refazer neles a imagem de Deus estragada pelo \u00f3dio e pela desobedi\u00eancia. Por isso ensina-nos a Ep\u00edstola aos Hebreus: \u201canunciarei o teu nome a meus irm\u00e3os, em plena assembl\u00e9ia eu te louvarei; e mais: porei n\u2019Ele a minha confian\u00e7a; e ainda: eis-me aqui com os filhos que Deus me deu\u201d(2,12-13). Jesus \u00e9 o nosso irm\u00e3o, identificado com o Pai, que nos revela seu amor, amando-nos at\u00e9 a morte e morte de Cruz e se dando a n\u00f3s no banquete &#8211; n\u00e3o o tot\u00eamico -, na mesa da eucaristia. A lei de seu Deus \u00e9: amar at\u00e9 morrer. O caminho \u00e9 reconhecer Deus como Pai, buscar sua vontade em tudo e re-introduzir no mundo a din\u00e2mica do amor, banindo definitivamente a concorr\u00eancia e a luta pelo poder. Eis a lei do Pai, o ensinamento que salva: \u201cassim como o Pai me amou, tamb\u00e9m eu vos amei&#8230;Este \u00e9 meu mandamento: amai-vos uns aos outros assim como eu vos amei&#8230;\u201d(Jo 15,9 e 12).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">\u00c8 claro que s\u00e3o necess\u00e1rias urgentes e inteligentes medidas de seguran\u00e7a para evitar a onda de viol\u00eancia que nos assusta a todos e que ceifa tantas vidas inocentes. A viol\u00eancia precisa ser coibida. Tenho lido e tenho ouvido reflex\u00f5es e propostas nesse sentido e pe\u00e7o a Deus que se tornem realidade para o bem da sociedade e defesa do povo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Extirpar suas ra\u00edzes, entretanto, s\u00f3 atrav\u00e9s de um retorno \u00e0s fontes do amor que est\u00e3o em Deus.\u00a0 Ghandi, inspirado na tradi\u00e7\u00e3o hindu\u00edsta e no evangelho de Jesus, tamb\u00e9m ensinava: \u201cviol\u00eancia, nem em pensamento\u201d. Penso que uma pessoa que, como Francisco de Assis, consegue tirar do pr\u00f3prio cora\u00e7\u00e3o todo sentimento de destrui\u00e7\u00e3o, estar\u00e1 contribuindo generosamente para eliminar a viol\u00eancia do mundo.<\/p>\n<h4 style=\"text-align: right\">Dom Eduardo Benes de Sales Rodrigues<\/h4>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A palavra \u201cviol\u00eancia\u201d nos lembra for\u00e7a bruta que arromba, fere, viola, desrespeita a dignidade de pessoas ou de realidades sagradas. 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