{"id":11781,"date":"2009-06-01T00:00:00","date_gmt":"2009-06-01T03:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/deus-existe-aproveite-a-vida\/"},"modified":"2009-06-01T00:00:00","modified_gmt":"2009-06-01T03:00:00","slug":"deus-existe-aproveite-a-vida","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/deus-existe-aproveite-a-vida\/","title":{"rendered":"Deus existe, aproveite a vida"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify\">Circula em alguns \u00f4nibus de cidades da Europa o slogan: \u201cprovavelmente Deus n\u00e3o existe, deixe de preocupar-se e aproveite a vida\u201d. Ser\u00e1 que eliminando Deus do horizonte da exist\u00eancia, poder-se-\u00e1 eliminar a culpa por uma vida vazia de valores? Ou a no\u00e7\u00e3o de dever \u00e9 um imperativo \u00ednsito na pr\u00f3pria natureza do ser humano? Ser\u00e1 Deus um estorvo ou \u00e9 Ele nossa origem e nosso destino? N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel n\u00e3o tomar posi\u00e7\u00e3o diante destas quest\u00f5es.<\/p>\n<p>  <!--more-->  <\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Na Roma pag\u00e3 os deuses n\u00e3o eram empecilhos para o \u201caproveite a vida\u201d. Era assim a vida no Olimpo, morada dos deuses, um lugar de desfrute e de disputa pelo poder. Donde imperar na cultura e na vida da sociedade daquele tempo o \u201ccarpe diem\u201d,express\u00e3o latina que tem o mesmo sentido. Entretanto, mesmo antes da chegada do cristianismo, na Gr\u00e9cia houve fil\u00f3sofos que entenderam que mais vale a pr\u00e1tica da virtude do que a satisfa\u00e7\u00e3o dos sentidos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">O pr\u00f3prio Epicuro, ao propor o prazer como sumo bem, se refere ao prazer do s\u00e1bio, entendido como quietude da mente e o dom\u00ednio sobre as emo\u00e7\u00f5es e, portanto, sobre si mesmo. \u00c9 o prazer da justa-medida e n\u00e3o dos excessos. Epicuro valoriza, pois, os prazeres morais e n\u00e3o identifica a felicidade com o prazer imediato.\u00c9 de Epicuro a afirma\u00e7\u00e3o: \u201cDe todos os bens que a sabedoria nos faculta como meio de obter a nossa felicidade, o da amizade \u00e9 de longe o maior\u201d. Mas vigora no paganismo romano, com origens filos\u00f3ficas na Gr\u00e9cia, o hedonismo que faz do prazer imediato o sentido da vida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">O slogan afixado nos \u00f4nibus de algumas cidade da Europa se situa na linha do hedonismo, modo de pensar que sustenta a propaganda consumista que todos os dias invade nossas salas de TV. Para Arist\u00f3teles, por\u00e9m,\u00a0 o fim supremo da vida humana \u00e9 a felicidade. Mas a felicidade n\u00e3o est\u00e1 no prazer imediato, est\u00e1 na pr\u00e1tica da virtude e na paz social. Donde a import\u00e2ncia da \u00c9tica, no pensamento de Arist\u00f3teles, bem como da Pol\u00edtica como lugar por excel\u00eancia da viv\u00eancia das virtudes, maxime da justi\u00e7a. Ele tinha clareza de que\u00a0 a felicidade s\u00f3 pode existir plenamente atrav\u00e9s de uma ordem social justa. Ora, uma ordem social justa exige das pessoas a busca do bem comum acima dos interesses individuais. Donde ser o hedonismo uma proposta que em \u00faltima an\u00e1lise destroi a possibilidade de viver com prazer, com alegria. Como viver com prazer numa sociedade em que cada um busca seu interesse imediato? Para os homens religiosos n\u00e3o h\u00e1 alegria maior do que a de estar com Deus. J\u00e1 neste mundo \u00e9 feliz quem desfruta da amizade com Deus.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">O destino final da exist\u00eancia humana \u00e9 o infinito prazer da comunh\u00e3o plena com Deus, depois desta vida, comunh\u00e3o entendida como uni\u00e3o amorosa, esponsais m\u00edsticos. A proposta do \u201cslogan\u201d acima servir\u00e1 por algum tempo para algumas pessoas como forma de driblar a ang\u00fastia existencial que mora em n\u00f3s pelo fato de sermos mortais. A filosofia do prazer \u00e9 a vers\u00e3o mascarada da filosofia do desespero. Em um momento de crise existencial mais aguda, essa postura ensejar\u00e1 o suic\u00eddio. Quando n\u00e3o se puder mais \u201caproveitar a vida\u201d, restar\u00e1 o suic\u00eddio como sa\u00edda. Ali\u00e1s, em nosso mundo j\u00e1 h\u00e1 os que defendem a eutan\u00e1sia. Para outras pessoas, o referido slogan \u00e9 uma mensagem cheia de cinismo, pois veicula desprezo pela vida dos que n\u00e3o podem goz\u00e1-la e se torna assim um horroroso convite ao desespero. Imagine, prezado(a) leitor(a), esse slogan afixado, n\u00e3o nos \u00f4nibus, mas na entrada de hospitais, nas escolas onde estudam nossas crian\u00e7as, nos bairros miser\u00e1veis da \u00c1frica ou nos casebres de nossos bols\u00f5es de pobreza. Mas Deus existe. Mais ainda: Ele veio at\u00e9 n\u00f3s e assumiu nossa condi\u00e7\u00e3o, nossas enfermidades e nossas iniquidades, como profetizou Isaias.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">O amor o sustentou. Ele afirmou: \u201co Pai me ama e Eu amo o Pai\u201d; \u201cvim trazer vida e vida em abund\u00e2ncia\u201d;\u00a0 \u201ca minha, vida eu a dou\u201d;. \u201cEu sou o gr\u00e3o de trigo\u201d que aceita morrer para dar vida;\u00a0 tudo o que desejo \u201c\u00e9 que minha alegria esteja em v\u00f3s\u201d; \u201cpara isso aceito morrer\u201d. O prazer e a\u00a0 dor por si mesmos n\u00e3o t\u00eam nenhum sentido. O prazer passa. A dor tamb\u00e9m. Do s\u00f3 prazer sobra o vazio que pede mais prazer, ao qual segue mais vazio. O prazer e a dor s\u00f3 t\u00eam sentido quando s\u00e3o assumidos no amor e dele se tornam express\u00e3o. \u00c9 o amor que d\u00e1 sentido ao nosso viver. A vida, esse espa\u00e7o de tempo que vai de nossa concep\u00e7\u00e3o at\u00e9 nossa morte, \u00e9 para ser vivida no amor. Quem assim a vive, vai construindo sua identidade, e, ao morrer entrar\u00e1 definitivamente na plenitude da vida, deixando na hist\u00f3ria as marcas de sua passagem.\u00a0 Aproveite, portanto, irm\u00e3o(\u00e3) a vida, gastando-a no amor, pois Deus existe, Ele \u00e9 amor, caminha com voc\u00ea e o espera para um maravilhoso encontro de amor, sem fim.<\/p>\n<h4 style=\"text-align: right\">Dom Eduardo Benes de Sales Rodrigues<\/h4>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Circula em alguns \u00f4nibus de cidades da Europa o slogan: \u201cprovavelmente Deus n\u00e3o existe, deixe de preocupar-se e aproveite a vida\u201d. Ser\u00e1 que eliminando Deus do horizonte da exist\u00eancia, poder-se-\u00e1 eliminar a culpa por uma vida vazia de valores? Ou a no\u00e7\u00e3o de dever \u00e9 um imperativo \u00ednsito na pr\u00f3pria natureza do ser humano? 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