{"id":11791,"date":"2008-10-01T00:00:00","date_gmt":"2008-10-01T03:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/a-intolerancia-laicista\/"},"modified":"2008-10-01T00:00:00","modified_gmt":"2008-10-01T03:00:00","slug":"a-intolerancia-laicista","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/a-intolerancia-laicista\/","title":{"rendered":"A intoler\u00e2ncia laicista"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify\">O Santo Padre, Bento XVI, n\u00e3o pronunciou a confer\u00eancia que, a convite do Reitor da Universidade &#8220;Sapienza&#8221;, de Roma, deveria ter apresentado no dia 17 de janeiro deste ano de 2008. A raz\u00e3o foi a rea\u00e7\u00e3o de alguns professores e l\u00edderes estudantis que prometiam manifesta\u00e7\u00f5es mais agressivas para a oportunidade. Sobre o epis\u00f3dio assim se pronunciou Fabio Mussi, ministro da Rep\u00fablica: &#8220;Eu n\u00e3o sou um crente. N\u00e3o perten\u00e7o \u00e0 Igreja Cat\u00f3lica. E n\u00e3o compreendo por que o Papa Bento XVI n\u00e3o possa hoje pronunciar pessoalmente o discurso que enviou por escrito a esta cerim\u00f4nia da &#8220;Sapienza&#8221; de Roma&#8230;\u00c9 um texto que merece ser ouvido e discutido. Eu falo da Universidade, n\u00e3o de outra coisa. A Universidade \u00e9 laica, isto \u00e9, livre, tolerante, aberta. Se existe um espa\u00e7o no qual a regra \u00e1 a palavra, a palavra de todos, este espa\u00e7o \u00e9 a Universidade&#8221;. Do prefeito de Roma, Walter Veltroni: &#8220;Quero dizer logo que o acontecido \u00e9, para um democrata, inaceit\u00e1vel. Quem ensina em uma universidade sabe bem que jamais pode acontecer, por nenhum motivo, que a intoler\u00e2ncia casse a palavra, que n\u00e3o se permita que uma opini\u00e3o seja expressa e escutada&#8221;&#8230;&#8221;Tive a oportunidade de ler o discurso do Papa nesta manh\u00e3. Um discurso aberto, inovador no horizonte do confronto e do di\u00e1logo&#8221;.<\/p>\n<p>  <!--more-->  <\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Sobre a alegada raz\u00e3o de que Bento XVI, em confer\u00eancia de 1990, teria se pronunciado contra Galileu, defendendo irracionalmente o processo contra ele, Giorgio Israel, professor de matem\u00e1tica da referida Universidade, afirma que a posi\u00e7\u00e3o dos professores que se opuseram \u00e0 presen\u00e7a do papa &#8220;\u00e9 unicamente express\u00e3o de um sentimento contra a pessoa mesma do Santo Padre&#8221;.\u00a0 O texto sobre Galileu, na confer\u00eancia de 1990, era cita\u00e7\u00e3o de um especialista em filosofia da ci\u00eancia, por sinal agn\u00f3stico, que afirmou ter &#8220;a Igreja permanecido mais fiel \u00e0 raz\u00e3o que o pr\u00f3prio Galileu&#8221;. O contexto dessa afirma\u00e7\u00e3o \u00e9 fundamental para entender seu sentido. Em seu artigo, Giorgio Israel afirma que as cr\u00edticas destes estudiosos ao pont\u00edfice se devem ao fato de n\u00e3o terem lido a confer\u00eancia completa. Para Giorgio Israel esta &#8220;leitura desatenta, superficial e descuidada&#8221; da confer\u00eancia do Papa, de 1990, deveria ser considerada &#8220;uma vergonha e um erro profissional&#8221;. Giorgio observa ainda que os autores do rep\u00fadio ao Papa &#8220;nunca disseram uma palavra cr\u00edtica contra o fundamentalismo isl\u00e2mico ou contra quem nega o Shoah (holocausto judaico)&#8221;. E continua: &#8220;esta \u00e9 apenas uma manifesta\u00e7\u00e3o da cultura secularista que n\u00e3o tem argumento, e, assim, demoniza, n\u00e3o argumenta como cultura verdadeiramente secular, mas cria monstros&#8221;&#8230;&#8221;Por isso a amea\u00e7a contra o papa \u00e9 uma trag\u00e9dia do ponto de vista cultural e c\u00edvico&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Mas, o(a) leitor(a)\u00a0 com raz\u00e3o deve se perguntar sobre o conte\u00fado da reflex\u00e3o de Bento XVI. O pr\u00f3prio papa se pergunta sobre o que deveria ele, como Papa, dizer na Universidade. Eis um de seus pensamentos: &#8220;O Papa fala como representante de uma comunidade crente &#8211; credente -, na qual durante os s\u00e9culos de sua exist\u00eancia amadureceu uma determinada sabedoria de vida; fala como representante de uma comunidade que guarda um tesouro de conhecimento e de experi\u00eancia \u00e9tica, que \u00e9 importante para toda a humanidade: neste sentido fala como representante de uma raz\u00e3o \u00e9tica&#8221;. E afirma: &#8220;diante de uma raz\u00e3o a-hist\u00f3rica que busca se auto-construir exclusivamente mediante uma racionalidade a-hist\u00f3rica, a sabedoria da humanidade como tal &#8211; a sabedoria das grandes tradi\u00e7\u00f5es religiosas &#8211; deve ser valorizada como realidade que n\u00e3o se pode impunemente jogar na cesta de lixo da hist\u00f3ria das id\u00e9ias&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">O papa continua sua reflex\u00e3o perguntando-se sobre o que \u00e9 uma universidade. Afirma que a Universidade tem sua origem na fome de conhecimento que caracteriza o ser humano. Este &#8220;quer saber sobre tudo o que o rodeia. Quer a verdade. Neste sentido se pode ver o interrogar-se de S\u00f3crates como o impulso do qual nasceu a universidade ocidental&#8221; Mas, vem a pergunta: o que \u00e9 a verdade? A verdade &#8220;puramente&#8221; cient\u00edfica sobre o &#8220;como do mundo&#8221;, com o poder tecnol\u00f3gico derivado, n\u00e3o responde ao apelo de verdade que mora no cora\u00e7\u00e3o do ser humano. E, ap\u00f3s citar Agostinho que afirmara que o simples conhecer nos torna tristes, explica; &#8220;de fato, quem v\u00ea e aprende apenas aquilo que se verifica no mundo, acaba por se tornar triste. A verdade, entretanto, significa mais que saber: o conhecimento da verdade tem como escopo o conhecimento do bem&#8221;. Eis ai: \u00e9 necess\u00e1ria uma ci\u00eancia do bem. A sociedade precisa do ordenamento jur\u00eddico que garanta que o agir das pessoas se constitua em verdadeiro bem para todos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">&#8220;Trata-se de dar justa forma \u00e0 liberdade humana que \u00e9 sempre liberdade na comunh\u00e3o rec\u00edproca: o direito \u00e9 o pressuposto da liberdade, n\u00e3o seu antagonista. Aqui emerge insistente a pergunta: como se individuam os crit\u00e9rios de justi\u00e7a que tornem poss\u00edvel uma liberdade vivida com os outros e que sirvam ao ser bom do homem? Citando Habermas, o papa diz haver consenso na atualidade sobre a legitimidade de um estatuto jur\u00eddico da sociedade: &#8220;a participa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica igualit\u00e1ria de todos os cidad\u00e3os e a forma racional com que se resolvem os contrastes pol\u00edticos&#8221;. Nesse ponto de sua reflex\u00e3o, ele faz notar, com Habermas, que essa forma racional n\u00e3o pode ser apenas uma luta por maioria aritm\u00e9tica, mas que deve se caracterizar como &#8216; um processo de argumenta\u00e7\u00e3o sens\u00edvel \u00e1 verdade&#8217; &#8220;.\u00a0 Donde n\u00e3o se poder detectar a verdade moral simplesmente por meio de plebiscitos e nem se pode delegar exclusivamente aos partidos pol\u00edticos o encaminhamento de quest\u00f5es relativas ao bem total do ser humano. Nesse contexto a Igreja, com a sabedoria acumulada atrav\u00e9s dos s\u00e9culos &#8211; bem como as grandes religi\u00f5es &#8211; tem uma contribui\u00e7\u00e3o a oferecer, que n\u00e3o pode impunemente ser desprezada. N\u00e3o seria racional n\u00e3o ouvi-la e n\u00e3o procurar entender suas raz\u00f5es. Nesse contexto o Santo Padre fala da import\u00e2ncia da Filosofia e da Teologia cuja contribui\u00e7\u00e3o \u00e9 definitiva para a solu\u00e7\u00e3o das quest\u00f5es relativas ao bem concreto do ser humano. H\u00e1 uma verdade moral a ser sempre de novo buscada pela humanidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Afirma o Papa: &#8220;o perigo do mundo ocidental &#8211; para falar somente deste &#8211; \u00e9 que o homem, precisamente em raz\u00e3o da grandeza de seu saber e poder, desista da quest\u00e3o da verdade. E isto significa ao mesmo tempo que a raz\u00e3o, no final, venha a se dobrar \u00e0 press\u00e3o dos interesses e \u00e0 sedu\u00e7\u00e3o da utilidade, obrigada a reconhec\u00ea-la como crit\u00e9rio \u00faltimo&#8221;. E acrescenta: &#8220;se a raz\u00e3o &#8211; apegada \u00e0 sua presumida pureza &#8211; se torna surda diante da grande mensagem que lhe vem da f\u00e9 crist\u00e3 e de sua sabedoria, ela se torna seca como uma \u00e1rvore cujas ra\u00edzes n\u00e3o alcan\u00e7am mais as \u00e1guas que lhe d\u00e3o vida&#8221;. E afirma que a cultura europ\u00e9ia, ciosa de sua laicidade, corre o risco de perder suas ra\u00edzes e, pois, sua vitalidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">E termina: &#8220;Com isso volto ao ponto de partida. O que tem o papa a fazer ou a dizer na universidade? Seguramente n\u00e3o deve tentar impor aos outros de modo autorit\u00e1rio, a f\u00e9, que s\u00f3 pode se dar na liberdade&#8221;. E afirma ser sua miss\u00e3o manter a sensibilidade pela verdade, convidando a raz\u00e3o a sempre de novo procurar o bem e acolher as luzes que o cristianismo fez emergir na hist\u00f3ria. Cristo \u00e9 a Luz do Mundo!<\/p>\n<h4 style=\"text-align: right\">Dom Eduardo Benes de Sales Rodrigues<\/h4>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Santo Padre, Bento XVI, n\u00e3o pronunciou a confer\u00eancia que, a convite do Reitor da Universidade &#8220;Sapienza&#8221;, de Roma, deveria ter apresentado no dia 17 de janeiro deste ano de 2008. A raz\u00e3o foi a rea\u00e7\u00e3o de alguns professores e l\u00edderes estudantis que prometiam manifesta\u00e7\u00f5es mais agressivas para a oportunidade. 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