{"id":11792,"date":"2008-10-01T00:00:00","date_gmt":"2008-10-01T03:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/consciencia-negra\/"},"modified":"2008-10-01T00:00:00","modified_gmt":"2008-10-01T03:00:00","slug":"consciencia-negra","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/consciencia-negra\/","title":{"rendered":"Consci\u00eancia Negra"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify\">&#8220;Admoestamos os fi\u00e9is para que se abstenham do desumano tr\u00e1fico dos negros ou de quaisquer outros homens que sejam&#8221;(Papa Greg\u00f3rio XVI, 1839). Sorocaba celebrou, no dia 20 pr\u00f3ximo passado, o dia da Consci\u00eancia Negra. A prop\u00f3sito levo at\u00e9 o leitor os nomes de duas figuras de grande express\u00e3o da Igreja em Minas que deram significativa contribui\u00e7\u00e3o para a causa dos negros. S\u00e3o eles: Dom Ant\u00f4nio Ferreira Vi\u00e7oso, s\u00e9timo Bispo de Mariana ( 1844 &#8211; 1875) e Dom Silv\u00e9rio Gomes Pimenta, seu primeiro Arcebispo (1897 &#8211; 1922).<\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Dom Vi\u00e7oso, de origem portuguesa, foi um mission\u00e1rio especialmente dedicado aos pobres, sobretudo aos negros. Dom Silv\u00e9rio, de ascend\u00eancia africana, teve em Dom Vi\u00e7oso o amigo e padrinho que guiou seus passos desde a inf\u00e2ncia patrocinando sua entrada no semin\u00e1rio e acompanhando os in\u00edcios de sua vida sacerdotal. Recente publica\u00e7\u00e3o da Arquidiocese de Mariana, comemorativa dos seus cem anos, assim se refere \u00e0 atua\u00e7\u00e3o do Pe. Vi\u00e7oso: &#8220;o ent\u00e3o padre Vi\u00e7oso dedicou-se com zelo mission\u00e1rio \u00e0 quest\u00e3o da escravatura. Nunca se conformou com a crueldade com que eram tratados os homens, as mulheres e as crian\u00e7as negras que, ao serem arrancados de suas terras, deixavam para tr\u00e1s suas esperan\u00e7as para serem atirados \u00e0s deprimentes senzalas e for\u00e7ados a uma rotina de trabalho \u00e1rduo, quase sempre sob condi\u00e7\u00f5es desumanas. Em todas as suas andan\u00e7as por Minas, fez quest\u00e3o de tratar os negros como seres humanos e filhos de Deus, conduta ainda rara na \u00e9poca e que fazia dele um verdadeiro santo aos olhos da popula\u00e7\u00e3o negra.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Sua elei\u00e7\u00e3o para bispo de Mariana foi recebida por ele com profunda humildade e sua posse foi apote\u00f3tica tal o seu prest\u00edgio no meio do povo a quem servia como mission\u00e1rio. No dia seguinte \u00e0 sua posse, uma multid\u00e3o de negros foi at\u00e9 ele levando flores. Ele se juntou a eles, distribuiu pequenas estampas de Nossa Senhora e os aben\u00e7oou. S\u00e3o deles as palavras: &#8220;libertai esses pobres negros. Eles s\u00e3o homens como n\u00f3s. T\u00eam a alma imortal, \u00e0s vezes mais pura e santa que a de seus amos e senhores. Crime horroroso e vil! Na opress\u00e3o da ra\u00e7a negra est\u00e1 o triste resumo de toda a mis\u00e9ria e degrada\u00e7\u00e3o nacional&#8221;. Certa vez procurou-o um advogado que queria ser padre. Dom Vi\u00e7oso perguntou-lhe se ele tinha escravos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Diante de resposta positiva, DomVi\u00e7oso, percebendo que ele n\u00e3o se dispunha a libert\u00e1-los, negou-se a aceit\u00e1-lo como candidato ao sacerd\u00f3cio. A mentalidade escravista era, para Dom Vi\u00e7oso, empecilho para a ordena\u00e7\u00e3o. Contrariando a mentalidade e a vontade do imp\u00e9rio, ordenou dois negros Sua defesa dos negros, por disposi\u00e7\u00e3o da divina provid\u00eancia, frutificou na voca\u00e7\u00e3o do Pe. Francisco de Paulo Vitor &#8211; em processo de beatifica\u00e7\u00e3o &#8211; e de Pe. Silv\u00e9rio. Este, filho de uma humilde fam\u00edlia de ascend\u00eancia africana, com seus quatro irm\u00e3os, passou por especiais dificuldades, sobretudo depois do falecimento de seu pai. Um tio consegue que ele v\u00e1 estudar no col\u00e9gio dos padres lazaristas em sua terra natal, Gongonhas. Arrimo de fam\u00edlia, aos doze anos foi trabalhar em uma casa de com\u00e9rcio. Estudava \u00e0 noite, \u00e0 luz de lamparina. O col\u00e9gio onde estudava fechou. Silv\u00e9rio interrompe seus estudos e emprega-se me uma sapataria. Recorre ent\u00e3o a seu padrinho, Dom Vi\u00e7oso, que o leva para o semin\u00e1rio de Mariana, pois o desejo de ser padre e sua vida de piedade o recomendavam como um vocacionado de grande valor. Dotado de privilegiada intelig\u00eancia dedicou-se aos estudos e \u00e0 vida espiritual causando admira\u00e7\u00e3o em seus colegas e formadores. Por ser pobre, trabalhou como porteiro do semin\u00e1rio durante os sete anos que precederam sua ordena\u00e7\u00e3o. Feito sacerdote foi um dedicado colaborador de Dom Vi\u00e7oso e, depois, de Dom Benevides de quem foi Vig\u00e1rio Geral e Bispo Auxiliar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">A Diocese de Mariana era todo o Estado de Minas. Dom Silv\u00e9rio dedicou-se incansavelmente ao pastoreio, atrav\u00e9s das visitas pastorais. O ve\u00edculo era o lombo do animal. Mas sua atua\u00e7\u00e3o n\u00e3o se restringiu \u00e0 Arquidiocese de Mariana. Participou de uma Confer\u00eancia Episcopal em S\u00e3o Paulo, no in\u00edcio de s\u00e9culo XX, &#8220;tendo sido encarregado de redigir seu famoso &#8216;Catecismo&#8217;, obra completa e profunda, publicada em 1903 e adotada por mais de cinq\u00fcenta anos em dioceses do Brasil&#8221; e tamb\u00e9m em outros pa\u00edses. Homem de rara cultura, Dom Silv\u00e9rio promoveu em Minas a vida espiritual do povo e cuidou de criar col\u00e9gios para educa\u00e7\u00e3o da juventude. Desfrutava de grande prest\u00edgio em Roma que ele visitou por mais de uma vez. De Le\u00e3o XII ele ganhou uma foto com os dizeres: &#8220;Ao nosso vener\u00e1vel irm\u00e3o Silv\u00e9rio Gomes Pimenta, bispo de Mariana, cujos servi\u00e7os grandiosamente prestados \u00e0 Diocese nos s\u00e3o conhecidos, como penhor de nossa benevol\u00eancia, do \u00edntimo da alma lhe concedo a b\u00ean\u00e7\u00e3o apost\u00f3lica&#8221;. Dom Silv\u00e9rio morreu 1922 com fama de santidade. A todos os negros de nosso pa\u00eds nosso respeito, admira\u00e7\u00e3o e gratid\u00e3o.<\/p>\n<h4 style=\"text-align: right\">Dom Eduardo Benes de Sales Rodrigues<\/h4>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;Admoestamos os fi\u00e9is para que se abstenham do desumano tr\u00e1fico dos negros ou de quaisquer outros homens que sejam&#8221;(Papa Greg\u00f3rio XVI, 1839). Sorocaba celebrou, no dia 20 pr\u00f3ximo passado, o dia da Consci\u00eancia Negra. 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