{"id":11797,"date":"2008-11-27T00:00:00","date_gmt":"2008-11-27T02:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/a-coragem-de-rever\/"},"modified":"2008-11-27T00:00:00","modified_gmt":"2008-11-27T02:00:00","slug":"a-coragem-de-rever","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/a-coragem-de-rever\/","title":{"rendered":"A coragem de rever"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify\">Causou espanto em certos setores eclesiais o artigo de Clodovis Boff, publicado na REB, em outubro de 2007. Ao l\u00ea-lo, n\u00e3o me surpreendi. Reconhe\u00e7o nas reflex\u00f5es de Clodovis aquela vigil\u00e2ncia epistemol\u00f3gica por ele preconizada em \u201cA Teologia do Pol\u00edtico e suas Media\u00e7\u00f5es\u201d, tema de sua tese de doutorado. Tenho, nesse mesmo instante em que escrevo, diante dos olhos seu livro \u201cTeoria do M\u00e9todo Teol\u00f3gico\u201d onde com clareza meridiana ele j\u00e1 expunha as bases epistemol\u00f3gicas da ci\u00eancia teol\u00f3gica, fundamentado na melhor tradi\u00e7\u00e3o da escol\u00e1stica.<\/p>\n<p>  <!--more-->  <\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">O objeto material da teologia, seu assunto \u00e9, em primeiro lugar Deus e, em segundo toda realidade criada, na sua rela\u00e7\u00e3o com Deus. O objeto formal \u00e9 Deus enquanto se revela. Ao se revelar, Deus se revela como princ\u00edpio e fim de tudo. Tudo pode, pois, ser teologizado. Donde ser poss\u00edvel e necess\u00e1rio pensar teologicamente a sexualidade, a hist\u00f3ria, o trabalho, a liberta\u00e7\u00e3o. S\u00e3o \u201cenfoques novos\u201d, para ficar com a express\u00e3o de Clodovis. \u201cEsses novos enfoques se articulam com o enfoque teol\u00f3gico b\u00e1sico como \u2018enfoques segundos\u2019 em rela\u00e7\u00e3o ao \u2018enfoque primeiro\u2019. Portanto eles encontram seu fundamento \u00faltimo e sua justifica\u00e7\u00e3o radical somente quando se acrescentam \u00e1 perspectiva pr\u00f3pria da teologia \u2013 a luz da f\u00e9 \u2013 e operam no vigor da mesma. Essa perspectiva constitui o enfoque origin\u00e1rio, perene e insubstitu\u00edvel de todo e qualquer discurso que se quer teol\u00f3gico\u201d(cf TPT pags. 55 e 56). Esta distin\u00e7\u00e3o j\u00e1 estava elaborada na \u201cTeologia do Pol\u00edtico como Teologia I e teologia II. A ambig\u00fcidade \u2013 \u201cfunesta\u201d na express\u00e3o do autor &#8211; da TdL , est\u00e1 no fato de n\u00e3o manter a revela\u00e7\u00e3o de Deus no comando da reflex\u00e3o. Assim se exprime Clodovis: \u201cPor outro lado, que seja a f\u00e9 no Deus revelado o princ\u00edpio primeiro da teologia, isso \u00e9 aceito sem maiores problemas na TdL. Mas esse princ\u00edpio n\u00e3o opera a\u00ed para valer. Representa apenas um dado pressuposto, que ficou para tr\u00e1s, e n\u00e3o um princ\u00edpio operante, que continua sempre ativo. \u00c9 um artigo de f\u00e9 confessado, mas n\u00e3o uma perspectiva te\u00f3rica que d\u00e1 a cor dominante a todo o discurso libertador. Que d\u00ea alguma cor a esse discurso, \u00e9 inevit\u00e1vel, j\u00e1 que se trata de teologia, mas \u00e9 uma cor desbotada, para n\u00e3o dizer simples matiz\u201d. A consequ\u00eancia \u00e9 a invers\u00e3o e a instrumentaliza\u00e7\u00e3o da revela\u00e7\u00e3o para fins alheios \u00e0 sua natureza. Eis a invers\u00e3o: \u201cn\u00e3o \u00e9 mais Deus, mas o pobre, o primeiro princ\u00edpio operativo da teologia. Mas, uma invers\u00e3o dessas \u00e9 um erro de prioridade; por outras, \u00e9 um erro de princ\u00edpio e, por isso, de perspectiva. E isso \u00e9 grave, para n\u00e3o dizer fatal\u201d. Eis a instrumentaliza\u00e7\u00e3o: \u201cOra, quando o pobre adquire o estatuto de \u2018primum\u2019 epistemol\u00f3gico, o que acontece com a f\u00e9 e sua doutrina no n\u00edvel da teologia e tamb\u00e9m da pastoral? Acontece a instrumentaliza\u00e7\u00e3o da f\u00e9 em fun\u00e7\u00e3o do pobre. Cai-se no utilitarismo ou funcionalismo em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 Palavra de Deus e \u00e0 teologia em geral\u201d. O resultado: \u201co resultado inevit\u00e1vel \u00e9 a redu\u00e7\u00e3o da f\u00e9 e, em especial, sua politiza\u00e7\u00e3o. Fala\u2010se aqui tamb\u00e9m, criticamente, da transforma\u00e7\u00e3o da f\u00e9 em ideologia. Isso procede toda a vez que se d\u00e1 \u00e0 ideologia o sentido preciso que lhe d\u00e1 o Magist\u00e9rio: o de uma f\u00e9 que decai de seu n\u00edvel transcendente para a iman\u00eancia da pol\u00edtica\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">\u201cMas n\u00e3o v\u00ea que est\u00e1 a\u00ed confundindo dois sentidos de &#8220;ponto de partida&#8221;: como mero come\u00e7o (material, tem\u00e1tico, cronol\u00f3gico ou ainda pr\u00e1tico) e como princ\u00edpio (formal, hermen\u00eautico, epistemol\u00f3gico ou ainda te\u00f3rico). Ora, &#8220;pobre&#8221; pode ser &#8220;ponto de partida&#8221; como &#8220;come\u00e7o&#8221; (come\u00e7o de conversa), mas n\u00e3o como &#8220;princ\u00edpio&#8221; (crit\u00e9rio determinante)\u201d.\u00a0 Acrescento eu que o problema se agrava mais ainda quando de fato o pobre n\u00e3o \u00e9 o pobre concreto, sinal vivo de Cristo, mas o pobre ideologizado, transformado em \u201cclasse social\u201d, visto como a ant\u00edtese hist\u00f3rica necess\u00e1ria para operar a reden\u00e7\u00e3o da humanidade. Pela porta \u201cpobre\u201d entra ent\u00e3o na teologia e na pr\u00e1tica pastoral um elemento novo que passa a ser de fato o princ\u00edpio hermen\u00eautico, a chave de interpreta\u00e7\u00e3o do pr\u00f3prio conte\u00fado da f\u00e9. Esta invers\u00e3o vem muito bem descrita no artigo de Clodovis quando ele mostra que o antropocentrismo da modernidade exerceu forte influ\u00eancia tamb\u00e9m no pensamento teol\u00f3gico. Assim: \u201c Foi assim que a teologia se &#8220;modernizou&#8221;, antropologizando-se: o homem como o sol, e Deus, seu sat\u00e9lite. Omnia ad maiorem hominis gloriam, etiam Deus\u201d. E continua: \u201cnesse contexto \u00e9 compreens\u00edvel que tamb\u00e9m a TdL tenha embocado a rota antropocentrizante do esp\u00edrito moderno. S\u00f3 que para ela o centro n\u00e3o era mais simplesmente o homem, mas o homem pobre. O seu era o antropocentrismo &#8220;da liberta\u00e7\u00e3o&#8221;. Contudo, nela, tamb\u00e9m o novo centro tem\u00e1tico e persp\u00e9tico amea\u00e7ava suplantar o antigo e perene Centro da f\u00e9, de maneira que, aqui, o lema da modernidade ressoaria assim: omnia ad maiorem pauperis gloriam, etiam Deus\u201d. Inevit\u00e1vel n\u00e3o ver nesse processo o desdobramento da afirmativa de Feuerbach de que \u201co mist\u00e9rio da teologia \u00e9 a antropologia\u201d, enriquecida com a proposta de Marx\u00a0 de que o caminho da reden\u00e7\u00e3o do ser humano \u2013 sua desaliena\u00e7\u00e3o \u2013est\u00e1 na luta e organiza\u00e7\u00e3o dos pobres. \u201cA subst\u00e2ncia da f\u00e9 acaba em mero discurso, portanto, em qualquer coisa de irrelevante. Pois, como se ouve nos meios &#8220;liberacionistas&#8221;, o que importa n\u00e3o \u00e9 tanto a Igreja ou Cristo, quanto o Reino\u201d . Lembro-me da reflex\u00e3o de fundo de uma assembl\u00e9ia da PJ em que participei. A sociedade foi dividida em dois times. Em um dos\u00a0 lados do quadro negro estava o Time do Projeto Neoliberal e do outro o Time do reino de Deus.Estimulados pelos que orientavam a din\u00e2mica, depois de uma an\u00e1lise de conjuntura, onde teologia, economia e sociologia se misturavam, foram os jovens que formaram os times. O time do Reino era formado por grupos, movimentos sociais, pessoas e partidos da esquerda. Do outro lado os mais representativos da posi\u00e7\u00e3o contr\u00e1ria. Em dado momento n\u00e3o sabiam o que fazer com a Hierarquia da Igreja. As CEBs salvaram da dificuldade os orientadores da din\u00e2mica. Ainda bem que algo na Igreja estava do lado do reino. Fiz, na ocasi\u00e3o, uma interfer\u00eancia, mostrando que essa equa\u00e7\u00e3o \u201cReino versus Modelo Neoliberal\u201d era teologicamente insustent\u00e1vel, por se tratar de categorias de n\u00edveis distintos. O correto seria colocar, no lugar de \u201cReino\u201d, \u201cModelo Alternativo\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Este \u00e9 apenas\u00a0 um exemplo de como o discurso religioso pode se tornar apenas a tinta com a qual se escreve um discurso meramente pol\u00edtico. A categoria \u201creino\u201d \u00e9 preferida \u00e0 pessoa de Jesus Cristo Ressuscitado, uma vez que este pede amizade, adora\u00e7\u00e3o, convers\u00e3o pessoal profunda e permanente. O reino pode ser reduzido a valores &#8211; justi\u00e7a, solidariedade &#8211; e pode facilmente ser assimilado como ideologia pol\u00edtica de transforma\u00e7\u00e3o social. Isto aconteceu h\u00e1 alguns anos, mas aqui e acol\u00e1 sempre de novo encontramos a express\u00e3o reino com significado duvidoso do ponto de vista teol\u00f3gico. Assim: \u201ca causa de Jesus foi o reino, n\u00f3s devemos continuar sua luta\u201d. E imediatamente se passa a falar de movimentos sociais e quejandos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">A\u00ed est\u00e1, prezado leitor, um pouco das reflex\u00f5es de Clodovis Boff.\u00a0 Seu artigo nos coloca em estado de alerta. Lembro-me que alguns te\u00f3logos, a prop\u00f3sito do documento de Puebla, falavam de duas teologias do documento: uma expl\u00edcita &#8211; a Jo\u00e3o Paulo II- e a outra impl\u00edcita, presente nas pr\u00e1ticas pastorais da igreja reunida em Puebla. Esta seria a aut\u00eantica e a que melhor responderia aos desafios da \u00e9poca. H\u00e1 j\u00e1 aqueles que pretendem fazer uma leitura \u201cliberacionista\u201ddo documento de Aparecida para n\u00e3o reverem seus pontos de vistas herdados dos equ\u00edvocos apontados por Clodovis Boff. O artigo de Clodovis convoca-nos a todos n\u00f3s, sobretudo pastores e assessores de juventude, a uma s\u00e9ria revis\u00e3o de nossos processos formativos, \u00e0 luz do documento de Aparecida.\u00a0 Termino citando a palavra final de Clodovis Boff:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">\u201cQue a TdL possa continuar, mesmo incorporada organicamente na teologia sine addito, arvorando a etiqueta que a designa, isso pertence ao leg\u00edtimo pluralismo teol\u00f3gico. Poder\u00e1 assim lembrar a toda teologia seu dever de integrar sempre mais a dimens\u00e3o s\u00f3cio-libertadora da f\u00e9, protagonizada pelos pobres. \u00c9 assim tamb\u00e9m, ali\u00e1s, que subsistem, na harmonia do corpo eclesial, os grupos mais diversos, cada um privilegiando um carisma particular.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Mas \u00e9 tamb\u00e9m poss\u00edvel que parte da TdL resista e insista em se entender como uma teologia integral \u00e0 parte, constru\u00edda a partir de princ\u00edpios pr\u00f3prios. Mas ent\u00e3o ser\u00e1 dif\u00edcil evitar certa polariza\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 teologia em geral, quando nada porque a inevit\u00e1vel desambig\u00fciza\u00e7\u00e3o dessa corrente por\u00e1 em evid\u00eancia o car\u00e1ter apor\u00e9tico de seu m\u00e9todo. Pois o pobre n\u00e3o poder\u00e1 ag\u00fcentar por muito tempo nas costas o edif\u00edcio de uma teologia que o escolheu por base: ceder\u00e1, antes de ser esmagado por ela, como a hist\u00f3ria n\u00e3o se cansa de mostrar\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">O trecho que segue merece aten\u00e7\u00e3o especial:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">\u201cO certo \u00e9 que a evolu\u00e7\u00e3o te\u00f3rica da TdL n\u00e3o se dar\u00e1 de modo autom\u00e1tico, gra\u00e7as \u00e0 simples &#8220;for\u00e7a das coisas&#8221;. Pois nenhuma situa\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica resolve por si s\u00f3 problemas te\u00f3ricos. Problemas te\u00f3ricos se resolvem teoricamente. Quando se tenta resolve-los por mera remo\u00e7\u00e3o (mediante repress\u00e3o ou ent\u00e3o por simples descaso), reaparecem como erva daninha, cuja raiz foi deixada\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Da\u00ed tamb\u00e9m a raz\u00e3o e a inten\u00e7\u00e3o destas linhas. Buscando rigorizar a discuss\u00e3o sobre o estatuto epistemol\u00f3gico da TdL e procurando assim esclarecer e resolver sua problem\u00e1tica de fundo, talvez possam contribuir a dissolver a polariza\u00e7\u00e3o gerada por ela e favorecer, deste modo, a catolicidade sinf\u00f4nica da teologia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Isso s\u00f3 poder\u00e1 redundar na felicidade dos pobres, na gl\u00f3ria de Deus e na confus\u00e3o do diabo\u201d(cf.LG.17).<\/p>\n<h4 style=\"text-align: right\">Dom Eduardo Benes de Sales Rodrigues<\/h4>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Causou espanto em certos setores eclesiais o artigo de Clodovis Boff, publicado na REB, em outubro de 2007. Ao l\u00ea-lo, n\u00e3o me surpreendi. Reconhe\u00e7o nas reflex\u00f5es de Clodovis aquela vigil\u00e2ncia epistemol\u00f3gica por ele preconizada em \u201cA Teologia do Pol\u00edtico e suas Media\u00e7\u00f5es\u201d, tema de sua tese de doutorado. 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