{"id":11802,"date":"2009-01-21T00:00:00","date_gmt":"2009-01-21T02:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/os-magos-e-herodes\/"},"modified":"2009-01-21T00:00:00","modified_gmt":"2009-01-21T02:00:00","slug":"os-magos-e-herodes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/os-magos-e-herodes\/","title":{"rendered":"Os magos e Herodes"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify\">O nascimento de Jesus, tal como vem descrito nos evangelhos, est\u00e1 cercado de mist\u00e9rio e de fatos que revelam seu significado profundo. A gruta, os pastores e o canto dos anjos misturam a pobreza desta terra com a beleza do c\u00e9u. Os pastores n\u00e3o sabem se foi a terra que subiu ou se foi o c\u00e9u que desceu. Foram envolvidos por uma alegria infinita quando as cores da luz se casaram com a beleza de uma can\u00e7\u00e3o jamais ouvida. Sem d\u00favida, os pobres, mais que todos, vivem a experi\u00eancia de que n\u00e3o s\u00e3o os senhores absolutos da vida e do mundo.<\/p>\n<p>  <!--more-->  <\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Est\u00e3o permanentemente desejosos da chegada e da manifesta\u00e7\u00e3o do Senhor da vida. S\u00e3o Lucas, em seu evangelho, narra o encontro dos pastores com Jesus que acabara de chegar e conclui: &#8220;os pastores retiraram-se, louvando a agradecendo a Deus por tudo o que tinham visto e ouvido, de acordo com o que lhes tinha sido dito&#8221;(Lc 2,20). H\u00e1 uma pobreza radical, ontol\u00f3gica, que \u00e9 constitutiva do ser humano. Felizes os que experimentam esta pobreza! Est\u00e3o na verdade. Tamb\u00e9m os ricos e os s\u00e1bios, se n\u00e3o mentirem para si mesmos, poder\u00e3o experiment\u00e1-la. Nem toda a riqueza desse mundo, nem a totalidade do conhecimento cient\u00edfico acumulado atrav\u00e9s das gera\u00e7\u00f5es respondem ao anseio que brota desta pobreza. Onde encontrar a verdade, fundamento e sentido definitivo da pr\u00f3pria exist\u00eancia? A verdade, pela qual aspira o esp\u00edrito humano, \u00e9 maior que o mundo e que a pr\u00f3pria raz\u00e3o. \u00c9 a pr\u00f3pria raz\u00e3o humana que o diz para si mesma ao navegar pelo interior de todos os entes e pressentir neles a presen\u00e7a de um mist\u00e9rio maior, fundamento transcendente de todo o existente. O epis\u00f3dio dos magos, que vieram de longe para adorar o menino, nos mostra que todos os seres humanos trazem dentro de si essa inquieta\u00e7\u00e3o que lhes brota das profundezas do pr\u00f3prio ser. O risco para o ser humano \u00e9 abafar, pela busca insaci\u00e1vel da riqueza ou do poder, o grito desta inquieta\u00e7\u00e3o. Os magos vieram de longe porque viram um misterioso e luminoso sinal, que haveria de conduzi-los \u00e0 verdade maior que eles pressentiam oculta para al\u00e9m das inumer\u00e1veis estrelas que enfeitavam o c\u00e9u. Buscavam uma verdade maior jamais encontrada. Cada descoberta da ci\u00eancia, cada boa e verdadeira novidade no conhecimento do universo &#8211; macro ou micro -, \u00e9 um sinal da presen\u00e7a da verdade maior, sempre velada, que \u00e9 Deus. A ci\u00eancia n\u00e3o pode, entretanto, desvel\u00e1-lo para dele se apossar. \u00c9 necess\u00e1rio deixar-se conduzir por uma estrela, que n\u00e3o \u00e9 fagulha desse universo, para encontrar a verdade maior que se insinua por entre as verdades que fazem a grande constela\u00e7\u00e3o do existir humano. \u00c9 quando o ser humano deixa a condi\u00e7\u00e3o de poderoso explorador do mundo para se colocar na humilde condi\u00e7\u00e3o de peregrino, guiado por outras m\u00e3os. A ci\u00eancia, na medida em que avan\u00e7a na tentativa de desvendar o mist\u00e9rio do universo, se descobre envolvida em mist\u00e9rio ainda maior.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Ela jamais atingir\u00e1 a origem radical e o destino definitivo da evolu\u00e7\u00e3o c\u00f3smica, pois sua origem e seu destino est\u00e3o para al\u00e9m de suas pr\u00f3prias fronteiras. A a\u00e7\u00e3o que est\u00e1 na origem do universo n\u00e3o \u00e9 empiricamente verific\u00e1vel, nem a a\u00e7\u00e3o que lhe d\u00e1 o sentido\u00faltimo. A estrela dos magos n\u00e3o era mais a raz\u00e3o investigativa, era a m\u00e3o de Deus a lhes apontar o caminho da Verdade definitiva. Esta, a verdade maior, fundamento e sentido de todas as verdades, saiu do seu ocultamento e se fez crian\u00e7a, pobre e humilde. No mist\u00e9rio daquela crian\u00e7a, tal como o fizeram os pastores, eles adoraram Deus. Os magos vieram de longe. A piedade popular deu-lhes o t\u00edtulo de reis, reis magos. Eram ricos, trouxeram presentes valiosos. Representavam todas as na\u00e7\u00f5es. Eram humildes, reconheciam sua car\u00eancia. Agarraram-se \u00e0 estrela que lhes aparecera repentinamente. Adoraram um menino, pobre e fr\u00e1gil. E nisto se despojaram de qualquer pretens\u00e3o de grandeza. Da verdade maior ningu\u00e9m pode se apoderar. Ela se revela e deve ser acolhida na adora\u00e7\u00e3o, na entrega e na gratid\u00e3o. Ela se oculta para os olhos dos que pensam tudo poder dominar. O ser humano, encastelado na ilus\u00e3o do poder, n\u00e3o tem olhos para v\u00ea-la. Qualquer lampejo de verdade para al\u00e9m de seu trono \u00e9 para ele uma amea\u00e7a a ser destru\u00edda.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">H\u00e1 na narrativa dos acontecimentos que compuseram o quadro da vinda de Jesus, um epis\u00f3dio, recheado de humana maldade, cujo desfecho \u00e9 assim narrado por Mateus: &#8220;quando Herodes percebeu que os magos o tinham enganado, ficou furioso. Mandou matar todos os meninos de Bel\u00e9m e de todo o territ\u00f3rio vizinho, de dois anos para baixo, de acordo com o tempo indicado pelos magos&#8221;(Mt 2,17). Herodes \u00e9 o oposto dos magos, vindos de longe. Est\u00e1 t\u00e3o perto e, ao mesmo tempo, t\u00e3o distante. Quando os magos chegaram perguntando onde devia nascer o Rei dos Judeus, Herodes ficou alarmado (cf. Mt 2,3).A fantasia do poderoso \u00e9 habitada tanto pelo sonho de mais poder como pelo receio de cair no anonimato pela sua perda. O poderoso n\u00e3o tem amigos, tem vassalos. Estes s\u00e3o adoradores do poder, felizes na subservi\u00eancia, contentam-se com o aquecer-se \u00e0 sombra do potentado. Os que n\u00e3o s\u00e3o vassalos s\u00e3o inimigos atuais ou em potencial.\u00a0 O poderoso vive arquitetando como garantir-se no poder e como controlar os que navegam pelas \u00e1guas de seu reino.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">O poderoso bem sucedido desenvolveu um esquema de rela\u00e7\u00e3o onde seu modo, sua express\u00e3o facial, o tom de sua voz, o dedo em riste, a argumenta\u00e7\u00e3o irretorqu\u00edvel, inibem a capacidade de reagir de seus s\u00faditos, condenando-os antecipadamente se outra posi\u00e7\u00e3o ousarem. Em geral sempre tem raz\u00e3o e raramente reconhece ter falhado. Jamais volta atr\u00e1s, seria confessar fraqueza, coisa que o poderoso n\u00e3o se permite ter. Herodes, o filho deste que assassinou os inocentes, mandou degolar Jo\u00e3o Batista para n\u00e3o voltar atr\u00e1s perante seus admiradores. Mas o poderoso costuma ser generoso, raz\u00e3o por que \u00e9 necess\u00e1rio ter muito dinheiro. Herodes, o filho, gostava de dar festas em seu pal\u00e1cio para seus &#8220;amigos&#8221; e lhes dava, imagino, tamb\u00e9m prote\u00e7\u00e3o. Estes se sentiam importantes junto dele e protegidos. Os magos vieram de longe. A piedade popular deu-lhes o t\u00edtulo de reis, reis magos. Eram ricos, trouxeram presentes valiosos. Representavam todas as na\u00e7\u00f5es. Eram humildes, reconheciam sua car\u00eancia. Agarraram-se \u00e0 estrela que lhes aparecera repentinamente. Adoraram um menino, pobre e fr\u00e1gil. E nisto se despojaram de qualquer pretens\u00e3o de grandeza. Eu devo escolher entre ser um dos magos ou Herodes.<\/p>\n<h4 style=\"text-align: right\">Dom Eduardo Benes de Sales Rodrigues<\/h4>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O nascimento de Jesus, tal como vem descrito nos evangelhos, est\u00e1 cercado de mist\u00e9rio e de fatos que revelam seu significado profundo. 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