{"id":11811,"date":"2008-10-01T00:00:00","date_gmt":"2008-10-01T03:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/fundamentalismo-laicista-ii\/"},"modified":"2008-10-01T00:00:00","modified_gmt":"2008-10-01T03:00:00","slug":"fundamentalismo-laicista-ii","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/fundamentalismo-laicista-ii\/","title":{"rendered":"Fundamentalismo laicista II"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify\">O laicismo se caracteriza pelo desprezo da religi\u00e3o e das institui\u00e7\u00f5es religiosas. Pretende uma cultura totalmente secularizada. A religi\u00e3o deve ser confinada \u00e1 vida privada, devendo o espa\u00e7o p\u00fablico ser a-religioso. E a confus\u00e3o se acentua quando se julga que op\u00e7\u00f5es \u00e9ticas de origem religiosa s\u00e3o destitu\u00eddas de racionalidade. Santo Tom\u00e1s, ao reconhecer \u00e0 filosofia sua identidade pr\u00f3pria como esfor\u00e7o da raz\u00e3o, assinalou como sua prec\u00edpua miss\u00e3o clarear as bases racionais da f\u00e9, os chamados \u201cpraeambula fidei\u201d, ou seja, aquelas verdades de ordem natural sem as quais seria imposs\u00edvel sustentar a racionalidade do ato de crer.<\/p>\n<p>  <!--more-->  <\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">A modernidade, na medida em que construiu seu pensamento em oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 revela\u00e7\u00e3o crist\u00e3 de onde ela nasceu, acabou por esquecer o que de melhor existe no ser humano: sua abertura para o mist\u00e9rio. A autonomia da raz\u00e3o acabou por se transformar em auto-sufici\u00eancia fechando-a para uma poss\u00edvel revela\u00e7\u00e3o de Deus. Admite-se apenas um Deus domesticado, dentro dos limites da raz\u00e3o. Pensou-se em instituir uma religi\u00e3o natural nascida das exig\u00eancias da raz\u00e3o e que fosse o fundamento racional de uma ordem \u00e9tica elaborada pela humana intelig\u00eancia. Deus se tornou uma id\u00e9ia, um princ\u00edpio explicativo do universo e n\u00e3o mais um sujeito que entra em contato pessoal com o ser humano revelando-se a ele como o sentido \u00faltimo e definitivo de sua exist\u00eancia. Um Deus assim, n\u00e3o \u00e9 um Deus conosco, nem amigo, nem companheiro, nem irm\u00e3o, nem Pai, nem amor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">A raz\u00e3o humana, nesse contexto, passa a ter prerrogativas divinas. Os princ\u00edpios morais se imp\u00f5em em nome da raz\u00e3o t\u00e3o somente. Entretanto, uma raz\u00e3o sensata, sem nada perder de sua dignidade, abre-se para o mist\u00e9rio e acolhe com gratid\u00e3o a comunica\u00e7\u00e3o amorosa de Deus que se d\u00e1 a conhecer e convida o ser humano a saciar-se com sua verdade e vida abundante. Na luz dessa experi\u00eancia a raz\u00e3o corrige as inevit\u00e1veis distors\u00f5es de sua interpreta\u00e7\u00e3o da realidade e amplia para si seu horizonte de compreens\u00e3o. Sem Deus falta o fundamento \u00faltimo da realidade, a raz\u00e3o torna-se um sujeito absoluto e o ser humano n\u00e3o tem, para al\u00e9m de si mesmo, um valor ao qual entregar sua intelig\u00eancia e seu cora\u00e7\u00e3o. O risco inevit\u00e1vel \u00e9 que um indiv\u00edduo ou uma parcela da humanidade reivindique para si a prerrogativa de ser a express\u00e3o acabada da raz\u00e3o e queira impor aos outros sua verdade. Ou, ent\u00e3o, que a humanidade se torne uma babel. Mais que nunca a humanidade precisa de consenso em torno do como viver e construir a vida em sociedade e mais que nunca grassa por toda a parte um individualismo onde cada qual se sente no direito de viver e agir de acordo com seus interesses ou caprichos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">A pretens\u00e3o iluminista de se chegar pelas for\u00e7as de uma raz\u00e3o aut\u00f4noma a um consenso em torno de valores universais se exauriu e o desejo \u2013 a liberdade e a vontade de poder \u2013, livre dos entraves de uma raz\u00e3o universal, est\u00e1 a tomar conta da cultura. Cumpre-se assim a profecia de Nietsche: Deus morreu e com Ele morreram os valores. Donde a import\u00e2ncia das afirma\u00e7\u00f5es de Bento XVI, no discurso inaugural da Confer\u00eancia de Aparecida, a esse respeito: \u201cQuem exclui Deus do seu horizonte falsifica o conceito de \u2018realidade\u2019 e, por conseguinte, s\u00f3 pode terminar por caminhos equivocados e com receitas destruidoras\u201d. \u201cA primeira afirma\u00e7\u00e3o fundamental \u00e9, pois, a seguinte: somente quem reconhece Deus, conhece a realidade e pode corresponder-lhe de modo adequado e realmente humano.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">A verdade desta tese resulta evidente diante do fracasso de todos os sistemas que p\u00f5em Deus entre par\u00eanteses\u201d. \u201cOnde Deus est\u00e1 ausente, o Deus do rosto humano de Jesus Cristo estes valores n\u00e3o se mostram com toda a sua for\u00e7a, nem se produz um consenso sobre eles. N\u00e3o quero dizer que os n\u00e3o-crentes n\u00e3o podem viver uma moralidade elevada e exemplar; digo somente que uma sociedade na qual Deus est\u00e1 ausente n\u00e3o encontra o consenso necess\u00e1rio sobre os valores morais e a for\u00e7a para viver segundo a pauta destes valores, tamb\u00e9m contra os pr\u00f3prios interesses\u201d. N\u00f3s, crist\u00e3os, n\u00e3o podemos impor &#8211; temos a miss\u00e3o de propor &#8211; nossa f\u00e9 aos outros. No que se refere aos valores que devem vertebrar a vida da sociedade temos o direito e o dever, como cidad\u00e3os, de lutar para que se fa\u00e7am leis que respeitem e coloquem em pr\u00e1tica esses valores, aos quais a humana intelig\u00eancia pode chegar pela reflex\u00e3o, quando aberta e sens\u00edvel \u00e0 verdade O laicismo, na medida em que menospreza tudo o que vem da religi\u00e3o, \u00e9 preconceituoso, intolerante e nada razo\u00e1vel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Bento XVI nos lembrava: \u201cDiante duma raz\u00e3o a-hist\u00f3rica que procura autoconstruir-se somente numa racionalidade a-hist\u00f3rica, a sabedoria da humanidade como tal &#8211; a sabedoria das grandes tradi\u00e7\u00f5es religiosas &#8211; deve ser valorizada como realidade que n\u00e3o se pode impunemente jogar na cesta de lixo da hist\u00f3ria das id\u00e9ias\u201d.<\/p>\n<h4 style=\"text-align: right\">Dom Eduardo Benes de Sales Rodrigues<\/h4>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O laicismo se caracteriza pelo desprezo da religi\u00e3o e das institui\u00e7\u00f5es religiosas. 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