{"id":11993,"date":"2010-06-14T00:00:00","date_gmt":"2010-06-14T03:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/o-padre-e-sua-cidade\/"},"modified":"2010-06-14T00:00:00","modified_gmt":"2010-06-14T03:00:00","slug":"o-padre-e-sua-cidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/o-padre-e-sua-cidade\/","title":{"rendered":"O padre e sua cidade"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify\">No dia 9 de junho, a Igreja Cat\u00f3lica recorda o bem-aventurado Jos\u00e9 de Anchieta, nascido em Tenerife, nas Can\u00e1rias, em 19 de mar\u00e7o de 1534. Com apenas 14 anos de idade, foi estudar humanidades em Coimbra, mas acabou entrando na rec\u00e9m fundada Companhia de Jesus. Queria ser padre. As cartas de S.Francisco Xavier, um dos primeiros companheiros de In\u00e1cio de Loyola, sobre as miss\u00f5es no extremo Oriente, e as dos jesu\u00edtas do Brasil, despertaram nele grande interesse e o desejo de ser mission\u00e1rio tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>  <!--more-->  <\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Ainda novi\u00e7o, desembarcou em Salvador em julho de 1553 e foi destinado \u00e0 miss\u00e3o de S\u00e3o Paulo, no planalto de Piratininga; ali, junto com o padre N\u00f3brega e outros companheiros jesu\u00edtas, edificou uma capelinha e uma escola para os filhos dos ind\u00edgenas e dos portugueses. Tudo conforme orienta\u00e7\u00f5es recebidas do fundador da Companhia de Jesus. Podiam eles imaginar que a humilde aldeia, nascida \u00e0 sombra da capela e do col\u00e9gio, viria a ser \u201ca paulic\u00e9ia desvairada\u201d, nossa vibrante e complexa metr\u00f3pole paulistana?!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Anchieta foi um homem din\u00e2mico e perspicaz. Vendo o interesse dos \u00edndios pelos cantos e dan\u00e7as dos meninos portugueses, tratou logo de aprender a l\u00edngua dos nativos, para apresentar-lhes a mensagem do Evangelho atrav\u00e9s da m\u00fasica e do teatro. Constatou tamb\u00e9m que, mais que ouvir contar hist\u00f3rias, os \u00edndios queriam v\u00ea-las acontecer. Escreveu, ent\u00e3o, pe\u00e7as de teatro em tupi, para serem encenadas pelos ind\u00edgenas; isso tornou-se parte de seu m\u00e9todo catequ\u00e9tico. N\u00e3o sem raz\u00e3o, pode ser considerado o primeiro teatr\u00f3logo do Brasil.\u00a0 \u00c9 autor tamb\u00e9m da primeira \u201cgram\u00e1tica da l\u00edngua mais falada na costa do Brasil\u201d, isto \u00e9, o tupi. E ainda escreveu um catecismo na mesma l\u00edngua.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Anchieta foi a alma do Col\u00e9gio, onde os filhos de ind\u00edgenas e brancos aprendiam a ler, escrever e cantar, al\u00e9m de assimilar a doutrina crist\u00e3. O atual P\u00e1teo do Col\u00e9gio conserva bem a mem\u00f3ria desse in\u00edcio da cidade de S\u00e3o Paulo, embora as edifica\u00e7\u00f5es ali existentes j\u00e1 n\u00e3o sejam as originais. Marcas indel\u00e9veis foram deixadas por ele tamb\u00e9m em outras numerosas cidades da costa brasileira, desde Canan\u00e9ia, na divisa de S\u00e3o Paulo com o Paran\u00e1, at\u00e9 Olinda. De fato, chegou a ser o respons\u00e1vel por todas as miss\u00f5es nessa \u00e1rea do Brasil, percorrendo-as e organizando novas iniciativas. Nas suas cartas ao superior geral da Companhia de Jesus,\u00a0 mostrou-se um observador atento das tradi\u00e7\u00f5es e costumes ind\u00edgenas, do clima, fauna e flora, da geografia e da natureza das regi\u00f5es percorridas. Suas informa\u00e7\u00f5es s\u00e3o fonte preciosa para a pesquisa sobre o Brasil do s\u00e9culo XVI.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Mas Anchieta foi, sobretudo, um homem de Deus, um mission\u00e1rio corajoso e dedicado ao bem dos povos ind\u00edgenas. Por eles arriscou a vida, na tentativa de pacificar os grupos em conflito entre si, ou com os portugueses. Na Confedera\u00e7\u00e3o dos Tamoios, enquanto o padre N\u00f3brega negociava a paz entre esses e os Tupis, Anchieta ofereceu-se como ref\u00e9m dos Tamoios, para demonstrar-lhes a sinceridade de seus esfor\u00e7os pacificadores. Ficou ref\u00e9m por longos tr\u00eas meses, enquanto via outros prisioneiros sendo sacrificados em ritos antropof\u00e1gicos. Ele mesmo tamb\u00e9m temeu pela sua vida. Foi naquelas circunst\u00e2ncias que invocou a prote\u00e7\u00e3o da M\u00e3e de Cristo e prometeu escrever-lhe um belo poema. E come\u00e7ou a faz\u00ea-lo, ainda prisioneiro, escrevendo nas areias da praia de Iperoig, hoje Ubatuba. Seu \u201cpoema \u00e0 Virgem Maria\u201d \u00e9 de rara beleza e inspira\u00e7\u00e3o po\u00e9tica, tamb\u00e9m revelando profundos conhecimentos teol\u00f3gicos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Uma vez libertado, o jovem mission\u00e1rio recebeu a ordena\u00e7\u00e3o sacerdotal. Mais do que nunca, continuou a falar de Deus, celebrando os sacramentos, visitando doentes e levando paz e conforto espiritual \u00e0s pessoas aflitas. Todos foram merecedores de sua aten\u00e7\u00e3o sacerdotal: ind\u00edgenas, brancos e negros. Tr\u00eas cartas suas atestam seu trabalho em prol dos negros traficados da Guin\u00e9, j\u00e1 naqueles anos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Foi um sacerdote incans\u00e1vel, como testemunha uma carta de 1560, escrita por ele ao superior geral da Companhia: \u201cQuase sem cessar, andamos visitando v\u00e1rias povoa\u00e7\u00f5es, assim de \u00edndios como de portugueses, sem fazer caso das calmas, das chuvas ou grandes enchentes de rios, muitas vezes de noite, por bosques mui escuros, a socorrer os enfermos, n\u00e3o sem grande trabalho, assim pela aspereza dos caminhos como pelo desconforto do tempo, sendo tantas essas povoa\u00e7\u00f5es, e t\u00e3o longe umas das outras, que n\u00e3o somos bastantes a acudir t\u00e3o v\u00e1rias necessidades. Soma-se a isso que n\u00f3s mesmos, que socorremos as necessidades dos outros, muitas vezes estamos mal dispostos e fatigados de dores, desfalecemos no caminho, de maneira que apenas o podemos acabar. Assim, n\u00e3o menos parecem ter necessidade de ajuda os m\u00e9dicos que os mesmos enfermos. Mas nada \u00e9 \u00e1rduo para os que t\u00eam por meta t\u00e3o somente a gl\u00f3ria de Deus e a salva\u00e7\u00e3o das almas, pelas quais n\u00e3o duvidar\u00e3o dar a pr\u00f3pria vida\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">A morte alcan\u00e7ou-o em plena miss\u00e3o, numa de suas visitas ao Esp\u00edrito Santo, no dia 9 de junho de 1597. O lugar leva hoje seu nome: Anchieta. Nos funerais, numerosos ind\u00edgenas e portugueses o aclamaram como \u201cap\u00f3stolo do Brasil\u201d. O papa Jo\u00e3o Paulo II o beatificou em 1980 e a causa de sua canoniza\u00e7\u00e3o est\u00e1 bem encaminhada. Conforme normas da Igreja, espera-se por um milagre, realizado por Deus atrav\u00e9s da intercess\u00e3o de Anchieta. Seria a confirma\u00e7\u00e3o do Alto sobre a santidade, vivida na Terra de Santa Cruz, por esse sacerdote extraordin\u00e1rio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Mesmo se os transeuntes apressados n\u00e3o reparem num monumento alto, debaixo das \u00e1rvores da Pra\u00e7a da S\u00e9, S\u00e3o Paulo nunca esque\u00e7a seu ber\u00e7o: uma escola e uma capelinha humilde, de onde um padre invocava b\u00ean\u00e7\u00e3os celestes sobre o povo do planalto de Piratininga. Que ele continue a interceder junto de Deus! A Metr\u00f3pole precisa!<\/p>\n<h4 style=\"text-align: right\">Cardeal Odilo Pedro Scherer<\/h4>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No dia 9 de junho, a Igreja Cat\u00f3lica recorda o bem-aventurado Jos\u00e9 de Anchieta, nascido em Tenerife, nas Can\u00e1rias, em 19 de mar\u00e7o de 1534. Com apenas 14 anos de idade, foi estudar humanidades em Coimbra, mas acabou entrando na rec\u00e9m fundada Companhia de Jesus. Queria ser padre. 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