{"id":12132,"date":"2010-07-12T00:00:00","date_gmt":"2010-07-12T03:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/a-superacao-do-racismo\/"},"modified":"2010-07-12T00:00:00","modified_gmt":"2010-07-12T03:00:00","slug":"a-superacao-do-racismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/a-superacao-do-racismo\/","title":{"rendered":"A supera\u00e7\u00e3o do racismo"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify\">Apesar de ter conquistado espa\u00e7o, a Pastoral Afro no Brasil enfrenta resist\u00eancia mesmo naquelas quest\u00f5es que est\u00e3o de acordo com os documentos e com o magist\u00e9rio da Igreja. Essa \u00e9 a opini\u00e3o de dom Gilio Felicio, o primeiro negro a chegar ao episcopado na arquidiocese de Salvador, na Bahia, em 1998, onde criou a Pastoral Afro.<\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Poucos meses depois foi transferido para a cidade de Cruz das Almas, a 160 quil\u00f4metros da capital baiana. Ga\u00facho de Lageado, diocese de Santa Cruz do Sul, dom Gilio, em 2002 passou a ser o bispo de Bag\u00e9, RS. Desde a d\u00e9cada de 80 acompanha e participa do Movimento Negro Cat\u00f3lico junto aos Agentes Pastorais Negros. Em 1989 come\u00e7ou a participar do Instituto MARIAMA, uma articula\u00e7\u00e3o nacional de padres, bispos e di\u00e1conos negros, do qual foi presidente por dois mandatos. Foi at\u00e9 2007 o bispo coordenador da Pastoral Afro-Brasileira, na CNBB. Participando do XVI Congresso Eucar\u00edstico Nacional, realizado logo ap\u00f3s o t\u00e9rmino da 48\u00aa Asssembleia Geral da CNBB, em Bras\u00edlia, dom Gilio falou \u00e0 revista Miss\u00f5es.<\/p>\n<h4>Qual a sua avalia\u00e7\u00e3o sobre a \u00faltima Assembleia Geral dos Bispos do Brasil?<\/h4>\n<p style=\"text-align: justify\">Foi uma grande ben\u00e7\u00e3o para n\u00f3s, bispos, que pudemos nos encontrar e fazer um rica conviv\u00eancia em Bras\u00edlia pensando as coisas que s\u00e3o realizadas neste cora\u00e7\u00e3o do Brasil, que definem a vida e a miss\u00e3o do pa\u00eds para o dinamismo interno e as rela\u00e7\u00f5es internacionais. Evidentemente, a Igreja tem uma mensagem muito rica a apresentar para que de fato o pa\u00eds consiga formar uma comunidade, uma p\u00e1tria amada, humanamente equilibrada, espiritualmente forte, vocacionalmente fecunda e com um desenvolvimento integral para todos. Analisamos e procuramos apresentar nosso posicionamento diante desta proposta em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 defesa dos direitos humanos, reafirmando a posi\u00e7\u00e3o da Igreja. Ao mesmo tempo aprovamos encaminhamentos a respeito da considera\u00e7\u00e3o e atitude dos brasileiros diante do uso dos recursos que a natureza oferece. Lembramos a necessidade urgente da reforma agr\u00e1ria, da pol\u00edtica agr\u00edcola. Encaminhamos propostas para que a CNBB tenha na sua literatura elementos que far\u00e3o as comunidades refletirem, rezarem e ajudarem os governantes.<\/p>\n<h4 style=\"text-align: justify\">A Palavra de Deus na vida e na miss\u00e3o da Igreja e as CEBs tamb\u00e9m foram temas refletidos?<\/h4>\n<p style=\"text-align: justify\">A escolha de um grande tema priorit\u00e1rio \u00e9 para fazer com que as comunidades sejam conhecidas, estimadas e fortalecidas na miss\u00e3o important\u00edssima que t\u00eam, de ser centro de evangeliza\u00e7\u00e3o e ao mesmo tempo centros de fortalecimento da consci\u00eancia cidad\u00e3 e tamb\u00e9m uma fonte de garantia de uma constru\u00e7\u00e3o a partir dessas pequenas c\u00e9lulas de uma sociedade viva, justa e fraterna. Estas s\u00e3o comunidades que t\u00eam tamb\u00e9m a voca\u00e7\u00e3o de favorecer a partir da medita\u00e7\u00e3o da Palavra de Deus a ora\u00e7\u00e3o e o compromisso com os desafios, fortalecer a cultura vocacional. Isto \u00e9, na medida em que as dioceses forem favorecendo as pequenas comunidade, as CEBs e tamb\u00e9m as novas comunidades, n\u00f3s teremos um servi\u00e7o eficaz para o despertar das v\u00e1rias voca\u00e7\u00f5es que favore\u00e7am uma Igreja Povo de Deus toda ministerial.<\/p>\n<h4 style=\"text-align: justify\">Dizem que no Brasil n\u00e3o h\u00e1 racismo. Por que ent\u00e3o h\u00e1 t\u00e3o poucos padres e bispos negros brasileiros?<\/h4>\n<p style=\"text-align: justify\">Esta \u00e9 uma quest\u00e3o que de certa forma foi abordada e a Assembleia aconteceu enquanto o Brasil, de certa forma comemorou, mas tamb\u00e9m procurou mostrar o significado do 13 de maio, que oficialmente \u00e9 proclamado como o Dia da Aboli\u00e7\u00e3o da Escravatura. A CNBB elaborou um documento lembrando que na mem\u00f3ria de mais um anivers\u00e1rio da Aboli\u00e7\u00e3o deve-se fazer uma reflex\u00e3o muito grande. Em primeiro lugar, a Igreja precisa continuar essa caminhada bonita de liberta\u00e7\u00e3o dos condicionamentos que foram criados no tempo da escravid\u00e3o e, portanto, dos mecanismos de exclus\u00e3o dos valores africanos e afro-descendentes. Ao mesmo tempo, a Igreja, a partir do Documento de Aparecida, deve lutar para conhecer, assumir, estimar e promover os valores afro-descendentes. E, claro, colocar a sua miss\u00e3o crist\u00e3 a servi\u00e7o dos negros e negras que est\u00e3o necessitando de uma for\u00e7a, de auto-estima, do dom de Deus presente na negritude, necessitando de pol\u00edticas afirmativas, enfim, de serem atendidos nas suas car\u00eancias, em seus gritos por socorro, mas ao mesmo tempo, no sentido de poderem participar e oferecer, como dizia o papa Jo\u00e3o Paulo II, em Santo Domingo, os seus valores culturais para enriquecer a Igreja e a sociedade.<\/p>\n<h4 style=\"text-align: justify\">Como est\u00e1 organizada a Pastoral Afro no Brasil?<\/h4>\n<p style=\"text-align: justify\">No Brasil n\u00f3s temos um Secretariado de Pastoral Afro, que marca presen\u00e7a na sede da CNBB junto ao Conselho de Assessoria da A\u00e7\u00e3o Evangelizadora da Igreja. Este Secretariado acompanha e assessora a Pastoral Afro que est\u00e1 presente em quase todas as dioceses do pa\u00eds. Evidentemente, essa Pastoral est\u00e1 ligada ao Secretariado Latino-Americano e Caribenho de Pastoral Afro \u2013 SEPAFRO, do qual sou o respons\u00e1vel. Esse Secretariado seria a Se\u00e7\u00e3o Afro-Americana e faz parte do Departamento de Educa\u00e7\u00e3o e Cultura do Conselho Episcopal Latino-Americano \u2013 CELAM.<\/p>\n<h4 style=\"text-align: justify\">A Pastoral Afro encontra certa resist\u00eancia em algumas dioceses. Quais seriam as maiores dificuldades?<\/h4>\n<p style=\"text-align: justify\">V\u00e1rias dioceses ainda n\u00e3o iniciaram essa pastoral exatamente em virtude desses condicionamentos da \u00e9poca da escravid\u00e3o e da situa\u00e7\u00e3o que pesa ainda na sociedade e na Igreja, do racismo, da discrimina\u00e7\u00e3o racial e assim por diante. Percebemos na sociedade brasileira boa vontade com v\u00e1rios Centros e Entidades at\u00e9 em n\u00edvel ministerial que est\u00e3o trabalhando em favor da popula\u00e7\u00e3o negra. Mas h\u00e1 um longo caminho de supera\u00e7\u00e3o desse condicionamento racista. Tamb\u00e9m, uma das dificuldades que encontramos na Igreja \u00e9 a quest\u00e3o do di\u00e1logo ecum\u00eanico e inter-religioso. Nesse di\u00e1logo, n\u00f3s n\u00e3o podemos fugir dos interlocutores que pertencem \u00e0s religi\u00f5es de matrizes africanas. Quando se estabelecem os encaminhamentos, quando esses di\u00e1logos come\u00e7am, h\u00e1 uma resist\u00eancia bastante grande. Um sonho que a Igreja tem \u00e9 a incultura\u00e7\u00e3o da sua a\u00e7\u00e3o evangelizadora. Esse caminho tamb\u00e9m \u00e9 bastante espinhoso, com muitas incompreens\u00f5es. Evidentemente que a caminhada que se faz n\u00e3o \u00e9 perfeita, mas h\u00e1 uma resist\u00eancia mesmo naqueles passos que s\u00e3o dados e que est\u00e3o absolutamente de acordo com os documentos e com o magist\u00e9rio da Igreja.<\/p>\n<h4 style=\"text-align: justify\">Se a Eucaristia \u00e9 mist\u00e9rio t\u00e3o poderoso, para suscitar a Miss\u00e3o, o que enfraquece o dinamismo mission\u00e1rio de tantos crist\u00e3os?<\/h4>\n<p style=\"text-align: justify\">O pano de fundo \u00e9 exatamente o que diz o Documento de Aparecida quando fala da profundidade e da verdade do Encontro com o mist\u00e9rio de Jesus Cristo. Na medida em que isso acontece verdadeiramente, a A\u00e7\u00e3o Evangelizadora se torna eficaz. Vemos isso em outras confiss\u00f5es religiosas: mesmo n\u00e3o entendendo o mist\u00e9rio, as pessoas simples, entusiasmadas d\u00e3o um recado que toca o cora\u00e7\u00e3o da sociedade. Na medida em que os diversos minist\u00e9rios dentro da Igreja se entusiasmarem e se deixarem dinamizar pela for\u00e7a do Esp\u00edrito Santo na viv\u00eancia da vontade de Deus, concretizando a Boa Nova de Jesus Cristo, tranquilamente acontece muita coisa bonita. Eu tenho v\u00e1rias experi\u00eancias em periferias, nas quais muitas vezes o padre n\u00e3o vai, mas, alguma pessoa simples se entusiasma e vai deixando que esta luz toque o cora\u00e7\u00e3o da vizinhan\u00e7a e de repente surge uma Comunidade de Base ou um movimento eclesial que passa a estabelecer uma novidade, \u00e0s vezes transformando todo um edif\u00edcio numa comunidade. Nem sempre o minist\u00e9rio ordenado d\u00e1 conta da evangeliza\u00e7\u00e3o que deve acontecer. Os leigos t\u00eam um protagonismo que n\u00f3s n\u00e3o podemos desprezar, embora, na nossa tradi\u00e7\u00e3o cat\u00f3lica \u00e9 important\u00edssimo que tenhamos uma abund\u00e2ncia do minist\u00e9rio ordenado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><em>Jaime Carlos Patias, imc, \u00e9 diretor da revista Miss\u00f5es. Publicada na revista Miss\u00f5es, N. 7 Jul-Ago 2010.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Apesar de ter conquistado espa\u00e7o, a Pastoral Afro no Brasil enfrenta resist\u00eancia mesmo naquelas quest\u00f5es que est\u00e3o de acordo com os documentos e com o magist\u00e9rio da Igreja. 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