{"id":12137,"date":"2010-07-14T00:00:00","date_gmt":"2010-07-14T03:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/um-politico-de-ficha-limpa\/"},"modified":"2010-07-14T00:00:00","modified_gmt":"2010-07-14T03:00:00","slug":"um-politico-de-ficha-limpa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/um-politico-de-ficha-limpa\/","title":{"rendered":"Um pol\u00edtico de ficha limpa"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify\">A campanha em favor da \u201cficha limpa\u201d mobilizou, em todo o Brasil, milh\u00f5es de pessoas que acreditaram na possibilidade da dec\u00eancia e da \u00e9tica na pol\u00edtica. Em Bras\u00edlia houve quem apostou que seria mais f\u00e1cil a vaca voar do que esse projeto de lei de iniciativa popular passar pelo Congresso Nacional. Surpresa! A vaca n\u00e3o voou, mas o projeto passou, a lei j\u00e1 foi sancionada e est\u00e1 em vigor. Agora \u00e9 vigiar e clamar pela sua aplica\u00e7\u00e3o correta. O Pa\u00eds agradece a tantos cidad\u00e3os que se empenharam para barrar, antes das urnas, pretendentes a mandatos pol\u00edticos que n\u00e3o podem ostentar idoneidade moral para governar ou legislar. Ser\u00e1 bom para o Brasil. Muito bom.<\/p>\n<p>  <!--more-->  <\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Mas, sejamos justos. Nem todos os pol\u00edticos foram ou s\u00e3o \u201cfichas sujas\u201d. Muitos desempenharam com dignidade e grandeza a sua miss\u00e3o. No passado e no presente. Quero lembrar um deles, Tom\u00e1s Morus, um pol\u00edtico ingl\u00eas. N\u00e3o \u00e9 que faltem exemplos tamb\u00e9m entre n\u00f3s, mas porque esse \u00e9 emblem\u00e1tico. Nasceu em Londres, em 1478; estudou Direito em Oxford, casou, teve 3 filhas e um filho. Homem de vasta cultura, amigo de not\u00e1veis protagonistas do Renascimento, escreveu v\u00e1rios livros sobre a arte de governar e em defesa da religi\u00e3o &#8211; era cat\u00f3lico fervoroso. Em 1504 foi eleito para o Parlamento e o rei Henrique VIII confiou-lhe importantes miss\u00f5es diplom\u00e1ticas e comerciais; chegou a ser membro do Conselho da Coroa, vice-tesoureiro do Reino e, em 1523, presidente da C\u00e2mara dos Comuns. Em 1529 foi nomeado chanceler de Sua Majestade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Quando o soberano, n\u00e3o atendido pelo papa em sua pretens\u00e3o de div\u00f3rcio, resolveu ser, ele mesmo, o chefe na Igreja da Inglaterra, separando-a de Roma, o fiel chanceler come\u00e7ou a ter problemas. N\u00e3o aprovando a inger\u00eancia do rei na Igreja e n\u00e3o aderindo \u00e0 sua pol\u00edtica discriminat\u00f3ria contra os cat\u00f3licos, Tom\u00e1s Morus renunciou ao cargo e retirou-se da vida p\u00fablica, para sofrer, com sua fam\u00edlia, o ostracismo e a pobreza. Foi encarcerado na Torre de Londres e submetido a v\u00e1rias formas de press\u00e3o para prestar juramento de fidelidade ao rei. Preferiu permanecer fiel \u00e0 sua consci\u00eancia e, com firmeza, denunciou no tribunal o despotismo do soberano. Condenado \u00e0 morte por \u201cinfidelidade ao rei\u201d, foi decapitado no dia 6 de julho de 1535.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Da pris\u00e3o, escreveu \u00e0 filha Margarida: \u201cFica tranquila, minha filha, e n\u00e3o te preocupes com o que possa me acontecer neste mundo. (&#8230;) At\u00e9 agora, Deus me deu a gra\u00e7a de tudo desprezar, do fundo do cora\u00e7\u00e3o \u2013 riquezas, rendimentos e a pr\u00f3pria vida \u2013 ao inv\u00e9s de jurar contra minha consci\u00eancia\u201d. E manteve esta posi\u00e7\u00e3o com serena firmeza. N\u00e3o traiu a consci\u00eancia por vantagens, poder, riquezas, prest\u00edgio, nem passou por cima da verdade e da dec\u00eancia, mesmo para salvar a pr\u00f3pria vida. Permaneceu \u201cficha limpa\u201d, sabendo que isso lhe custava a cabe\u00e7a. Literalmente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Em 1935, quatro s\u00e9culos depois de seu mart\u00edrio, o papa Pio XI declarou-o \u201csanto\u201d e, no ano 2000, Jo\u00e3o Paulo II proclamou-o patrono dos governantes e pol\u00edticos. De fato, v\u00e1rios chefes de Estado e de Governo, numerosos dirigentes pol\u00edticos, al\u00e9m de Confer\u00eancias Episcopais, haviam apresentado sugest\u00e3o ao papa, nesse sentido. Tom\u00e1s Morus foi um pol\u00edtico comprometido com a verdade e com os valores \u00e9ticos. O que mais impressiona nesse grande homem p\u00fablico \u00e9 a retid\u00e3o e a inflex\u00edvel fidelidade \u00e0 pr\u00f3pria consci\u00eancia. Colaborou com a Autoridade e as institui\u00e7\u00f5es, enquanto eram leg\u00edtimas; exerceu o poder na medida da justi\u00e7a, como servi\u00e7o ao povo e a seu pa\u00eds. Mas sua grande firmeza de car\u00e1ter e sua s\u00f3lida estatura moral n\u00e3o lhe permitiram cair na tenta\u00e7\u00e3o de usar o poder para sua vantagem e ganhos pessoais. Colocou sua atua\u00e7\u00e3o p\u00fablica ao servi\u00e7o dos mais pobres e desprotegidos, promoveu a paz social, a educa\u00e7\u00e3o integral da juventude, a defesa da pessoa e da fam\u00edlia. Diante das lisonjas do poder, das honrarias e das riquezas, conservou uma serena jovialidade, inspirada no sensato conhecimento da natureza humana e da futilidade do sucesso. Manteve o bom humor, mesmo diante da imin\u00eancia da morte.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Tom\u00e1s Morus harmonizou, de forma extraordin\u00e1ria, sua intensa vida p\u00fablica com suas convic\u00e7\u00f5es interiores. Um bom pol\u00edtico, de fato, n\u00e3o pode separar-se da verdade, nem dissociar sua a\u00e7\u00e3o da moral. A dignidade dos homens p\u00fablicos \u00e9 certificada por uma boa consci\u00eancia. Como explicar, diante do povo, vantagens desonestas, sem afundar ainda mais no charco da mentira e da desonestidade? A vida de Tom\u00e1s Morus \u00e9 um belo exemplo de \u00e9tica na pol\u00edtica. Coisas que ficaram no passado? N\u00e3o creio. \u00c9 o mesmo anseio manifestado, ainda hoje, pelos milh\u00f5es de brasileiros que apoiaram o projeto de lei de iniciativa popular \u201cficha limpa\u201d. O futuro confirmar\u00e1, com toda a certeza, que esta lei ter\u00e1 contribu\u00eddo muito para melhorar o n\u00edvel \u00e9tico da pol\u00edtica brasileira.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Estamos num ano eleitoral e o povo brasileiro \u00e9 convidado, mais uma vez, a fazer um discernimento acurado sobre candidatos e partidos, para escolher e votar. Esta \u00e9 mais uma boa chance dos cidad\u00e3os para deixar claro quais rumos querem ver na pol\u00edtica do nosso Pa\u00eds. Tom\u00e1s Morus tem algo a ensinar e nos lembra, sobretudo, que a verdade e a \u00e9tica s\u00e3o inegoci\u00e1veis. N\u00e3o t\u00eam pre\u00e7o. Tamb\u00e9m alerta que a corrup\u00e7\u00e3o da consci\u00eancia \u00e9 uma vilania que pode levar ao despotismo e \u00e0s maiores injusti\u00e7as. Com freq\u00fc\u00eancia, clama-se por reformas profundas para melhorar a pol\u00edtica do Pa\u00eds e elas, certamente, s\u00e3o necess\u00e1rias. Por\u00e9m, mais necess\u00e1rios ainda, na condu\u00e7\u00e3o da vida pol\u00edtica de um povo s\u00e3o os pol\u00edticos \u00edntegros. Chegou a hora de conhec\u00ea-los e de votar neles.<\/p>\n<h4 style=\"text-align: right\">Cardeal Odilo Pedro Scherer<\/h4>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A campanha em favor da \u201cficha limpa\u201d mobilizou, em todo o Brasil, milh\u00f5es de pessoas que acreditaram na possibilidade da dec\u00eancia e da \u00e9tica na pol\u00edtica. 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