{"id":12200,"date":"2008-08-06T00:00:00","date_gmt":"2008-08-06T03:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/doha-a-quem-doer\/"},"modified":"2008-08-06T00:00:00","modified_gmt":"2008-08-06T03:00:00","slug":"doha-a-quem-doer","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/doha-a-quem-doer\/","title":{"rendered":"\u201cDoha a quem doer\u201d"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify\">Mesmo que ningu\u00e9m de n\u00f3s tivesse passado procura\u00e7\u00e3o, nestes dias os grandes do mundo estavam negociando o nosso futuro. J\u00e1 \u00e9 um al\u00edvio saber que n\u00e3o fecharam neg\u00f3cio. Ao menos continuamos na nossa, embora sabendo que a situa\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 nada boa. Mas poderia ficar muito pior.<\/p>\n<p>  <!--more-->  <\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">De fato, os notici\u00e1rios informaram que fracassou mais uma rodada de negocia\u00e7\u00f5es, no \u00e2mbito da OMC, a \u201cOrganiza\u00e7\u00e3o Mundial do Com\u00e9rcio\u201d, que visava um novo e amplo acordo regulat\u00f3rio do com\u00e9rcio mundial, na alegada inten\u00e7\u00e3o de liberalizar as importa\u00e7\u00f5es e exporta\u00e7\u00f5es entre os pa\u00edses, tudo para\u00a0 proporcionar maior crescimento econ\u00f4mico para todos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Estas as inten\u00e7\u00f5es. Mas n\u00e3o foram capazes de produzir um consenso m\u00ednimo. Sinal de que ningu\u00e9m de fato acredita nelas. Quando se trata de neg\u00f3cios, a experi\u00eancia ensina que o fator determinante \u00e9 o interesse do mais forte, n\u00e3o a solidariedade para com os mais fracos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Conv\u00e9m saber um pouco mais desta hist\u00f3ria. At\u00e9 para ficarmos mais expertos, e n\u00e3o cair na ingenuidade que pode comprometer o futuro de nossos pa\u00edses.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Esta rodada de negocia\u00e7\u00f5es, patrocinada pela OMC, foi chamada de Rodada de Doha, porque iniciou ainda em 2001, na Quarta Confer\u00eancia da OMC, realizada em Doha, capital do Katar. Portanto, faz um bom tempo que est\u00e3o negociando, e o nome da rodada continua o mesmo para dizer que ainda n\u00e3o se chegou a um acordo sobre as propostas apresentadas em Doha. Depois houve outras confer\u00eancias, em Cancun, em Genebra, em Paris, em Hong Kong, e agora de novo em Genebra. E nada de acordo. Tudo indica que, finalmente, as negocia\u00e7\u00f5es v\u00e3o ser encerradas, com o reconhecimento do fracasso definitivo das propostas de Doha.<\/p>\n<h4 style=\"text-align: justify\">Que propostas?<\/h4>\n<p style=\"text-align: justify\">De um lado, os pa\u00edses ricos e desenvolvidos, representados pelo famoso G7, querem facilidades para vender seus produtos industriais e seus servi\u00e7os. De outro lado, os pa\u00edses em desenvolvimento querem maiores facilidades para vender os seus produtos agr\u00edcolas, as famosas \u201ccommodities\u201d.<\/p>\n<h4 style=\"text-align: justify\">Qual o impasse?<\/h4>\n<p style=\"text-align: justify\">Os pa\u00edses em desenvolvimento querem que os pa\u00edses ricos diminuam os enormes subs\u00eddios que estes d\u00e3o aos seus agricultores, dificultando com isto o acesso dos produtos agr\u00edcolas dos pa\u00edses pobres. Para se ter uma id\u00e9ia, a Uni\u00e3o Europ\u00e9ia destina trezentos bilh\u00f5es de d\u00f3lares por ano para subsidiar os seus agricultores. De tal modo, por exemplo, o a\u00e7\u00facar produzido na Europa sai sete vezes mais caro do que o a\u00e7\u00facar produzido no Brasil. Mas eles n\u00e3o querem mudar este sistema, com receio de desestabilizar os seus agricultores. Por outro lado, os pa\u00edses em desenvolvimento n\u00e3o querem deixar livre entrada para os produtos industriais e de servi\u00e7os, para n\u00e3o inviabilizar sua ind\u00fastria incipiente.<\/p>\n<h4 style=\"text-align: justify\">Quais os riscos?<\/h4>\n<p style=\"text-align: justify\">Os riscos maiores ficam por nossa conta. Pois a livre entrada de produtos tecnologicamente mais avan\u00e7ados tende a levar \u00e0 fal\u00eancia nossas ind\u00fastrias, aumentando o desemprego, e deixando-nos cada vez mais dependentes dos pa\u00edses evolu\u00eddos. E ainda pior, para pagar as contas com a venda de produtos agr\u00edcolas, que s\u00e3o mais baratos e n\u00e3o agregam muito valor, ter\u00edamos que produzir sempre mais, com o risco de esgotar os recursos naturais, tornando nossa economia ecologicamente insustent\u00e1vel.<\/p>\n<h4 style=\"text-align: justify\">Qual o problema?<\/h4>\n<p style=\"text-align: justify\">Falta solidariedade. A propalada \u201cliberaliza\u00e7\u00e3o\u201d da economia mundial acaba sendo, na verdade, um disfarce para encobrir a busca de interesses corporativistas, atropelando direitos coletivos. A liberdade total de com\u00e9rcio entre desiguais sempre serviu de pretexto para a domina\u00e7\u00e3o dos fortes sobre os fracos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">A OMC surgiu em 1995, no auge da \u201cd\u00e9cada do encanto neo liberal\u201d, substituindo o antigo GATT, o \u201cacordo geral de tarifas\u201d. O fracasso da rodada de Doha aponta para a urgente necessidade de mudan\u00e7as nos princ\u00edpios que regem a economia mundial. Ela precisa ser colocada a servi\u00e7o da vida de toda a humanidade, e n\u00e3o ficar prisioneira de interesses corporativistas, seja de na\u00e7\u00f5es privilegiadas ou de multinacionais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">J\u00e1 dizia Jesus: \u201cO s\u00e1bado foi feito para o homem, e n\u00e3o o homem para o s\u00e1bado\u201d.\u00a0 Parafraseando, \u201ca economia existe para a humanidade, e n\u00e3o a humanidade para a economia\u201d.<\/p>\n<h4 style=\"text-align: right\">Dom Luiz Dem\u00e9trio Valentini<\/h4>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Mesmo que ningu\u00e9m de n\u00f3s tivesse passado procura\u00e7\u00e3o, nestes dias os grandes do mundo estavam negociando o nosso futuro. J\u00e1 \u00e9 um al\u00edvio saber que n\u00e3o fecharam neg\u00f3cio. 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