{"id":12557,"date":"2010-11-22T00:00:00","date_gmt":"2010-11-22T02:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/um-bilhao-de-famintos\/"},"modified":"2010-11-22T00:00:00","modified_gmt":"2010-11-22T02:00:00","slug":"um-bilhao-de-famintos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/um-bilhao-de-famintos\/","title":{"rendered":"Um bilh\u00e3o de famintos"},"content":{"rendered":"<h4 style=\"text-align: right\">Cardeal Odilo Pedro Scherer<\/h4>\n<p style=\"text-align: justify\">A Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas para o Desenvolvimento e a Agricultura (FAO) lan\u00e7ou recentemente uma campanha de ajuda aos cerca de um bilh\u00e3o de famintos, ou subalimentados no mundo, sobretudo na \u00c1frica e \u00c1sia, mas tamb\u00e9m na Am\u00e9rica Latina. \u00c9 muita gente! Ser\u00e1 pela falta de alimentos, ou porque a terra \u00e9 incapaz de produzi-los em quantidade suficiente?<\/p>\n<p>  <!--more-->  <\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Em \u00e1reas des\u00e9rticas ou semi-\u00e1ridas, \u00e9 prov\u00e1vel que essas duas hip\u00f3teses sejam verdadeiras. Mas olhando o mundo como um todo, n\u00e3o se pode afirmar que faltem alimentos, ou que a terra seja incapaz de produzi-los. H\u00e1 at\u00e9 sobra de alimentos e muita capacidade produtiva n\u00e3o aproveitada. Os verdadeiros problemas s\u00e3o outros e nos levam \u00e0 reflex\u00e3o sobre algumas quest\u00f5es b\u00e1sicas da conviv\u00eancia entre os povos, j\u00e1 abordadas em diversos Documentos da Doutrina Social da Igreja: A ado\u00e7\u00e3o de um adequado conceito de desenvolvimento e a revis\u00e3o dos par\u00e2metros das rela\u00e7\u00f5es entre os povos, para integrar novos crit\u00e9rios \u00e9ticos, sem os quais a fome, a pobreza, a viol\u00eancia e as injusti\u00e7as locais e internacionais n\u00e3o ser\u00e3o resolvidas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">No Dia Mundial da Alimenta\u00e7\u00e3o, 15 de outubro passado, em carta dirigida ao Diretor-Geral da FAO, Jacques Diouf, o papa Bento XVI recordou que o primeiro compromisso dos indiv\u00edduos, das Organiza\u00e7\u00f5es internacionais e dos Estados deve ser o de libertar da fome todos os membros da fam\u00edlia humana. E convidou a comunidade internacional a estar unida nesta luta. Infelizmente, n\u00e3o \u00e9 isso que se v\u00ea quando programas da agricultura voltada para a produ\u00e7\u00e3o de alimentos n\u00e3o recebem o apoio e est\u00edmulo, que s\u00e3o dados a setores mais rent\u00e1veis da ocupa\u00e7\u00e3o e da economia. Produ\u00e7\u00e3o e distribui\u00e7\u00e3o de alimentos deveriam merecer aten\u00e7\u00e3o priorit\u00e1ria, em vista do bem social que delas depende: O elementar direito \u00e0 alimenta\u00e7\u00e3o. Estes setores poderiam oportunizar trabalho a milh\u00f5es de desempregados e espa\u00e7o para o progresso tecnol\u00f3gico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Mas aqui se coloca outra quest\u00e3o de fundo: Que tipo de desenvolvimento e quais prioridades? Estimular setores tecnol\u00f3gicos da produ\u00e7\u00e3o de sup\u00e9rfluos, coisas interessantes, mas n\u00e3o indispens\u00e1veis, que trazem lucro mais r\u00e1pido e em maior volume, ou matar a fome do povo e satisfazer outras necessidades b\u00e1sicas como a moradia, sa\u00fade e educa\u00e7\u00e3o? Quest\u00e3o de escolha. \u00c9 espantoso que em certos pa\u00edses, como a \u00cdndia e o pr\u00f3prio Brasil, convivam setores tecnol\u00f3gicos de ponta com situa\u00e7\u00f5es da mais dura mis\u00e9ria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Na sua enc\u00edclica Caritas in Veritate (A Caridade na Verdade, 2009), o papa Bento XVI convida os povos e seus governantes a buscarem um aut\u00eantico desenvolvimento humano, baseado na id\u00e9ia de pessoa como unidade de corpo, alma e esp\u00edrito; a satisfa\u00e7\u00e3o das necessidades materiais com o acesso \u00e0 tecnologia e aos bens de consumo n\u00e3o \u00e9 tudo. O desenvolvimento humano integral vai al\u00e9m da posse de bens e se expressa na ades\u00e3o aos valores antropol\u00f3gicos e \u00e9ticos mais elevados, como a fraternidade, a solidariedade e o bem comum. Tais valores s\u00e3o sumamente importantes quando se trata de debelar a fome; quando o desenvolvimento econ\u00f4mico local e globalizado integra esses imperativos \u00e9ticos ele \u00e9 capaz de favorecer o bem comum mais que os interesses de parte; a constante afirma\u00e7\u00e3o dos interesses fechados de pa\u00edses, grupos e setores, conseguida pela press\u00e3o de quem j\u00e1 \u00e9 mais forte, at\u00e9 mesmo pelas armas, produziu o mundo que vemos: de um lado, mesas abarrotadas e gente superalimentada; de outro, multid\u00f5es famintas a se baterem por escassas migalhas. Tem jeito de mudar isso?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">O Papa indica mais quest\u00f5es do desenvolvimento humano integral: Somos parte de uma grande fam\u00edlia e precisamos superar a indiferen\u00e7a diante das necessidades do pr\u00f3ximo, seja ele pessoa, povo ou pa\u00eds. A humanidade \u00e9 uma \u00fanica fam\u00edlia e todos est\u00e3o no mesmo barco, para o bem e para o mal: Ou vai pra frente esse barco, com todos dentro, ou afundam todos juntos. O bem de um \u00e9 o bem de todos; a falta de paz de um \u00e9 a falta de paz de todos. Quando se levar a s\u00e9rio a consci\u00eancia dessa responsabilidade de uns pelos outros, de um povo pelo outro, dos fartos pelos famintos, ser\u00e1 poss\u00edvel combinar de forma nova as regras da conviv\u00eancia neste condom\u00ednio familiar maravilhoso que o Criador colocou \u00e0 nossa disposi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">A solu\u00e7\u00e3o para o problema da fome est\u00e1 menos na ro\u00e7a e nas m\u00e3os calejadas dos agricultores que nos gabinetes e f\u00f3runs das decis\u00f5es pol\u00edticas, econ\u00f4micas, financeiras e comerciais. A fome ser\u00e1 superada mais pela ponta da caneta do que pelo cabo da enxada. Uma renovada fraternidade e solidariedade s\u00e3o urgentes necessidades morais na fam\u00edlia humana, onde \u00e9 direito que os mais sadios e fortes olhem pelos mais fracos e doentes. N\u00e3o d\u00e1 para continuar a fazer de conta que o problema \u00e9 apenas dos outros. De fato, a atual migra\u00e7\u00e3o de milh\u00f5es de pessoas para pa\u00edses ricos ou regi\u00f5es mais desenvolvidas mostra que as pessoas v\u00e3o atr\u00e1s do p\u00e3o: Se o p\u00e3o n\u00e3o chega onde as pessoas est\u00e3o, elas v\u00e3o l\u00e1 onde o p\u00e3o se encontra. O problema \u00e9 de todos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">A elimina\u00e7\u00e3o da fome e da subalimenta\u00e7\u00e3o requer a supera\u00e7\u00e3o das barreiras do ego\u00edsmo, da insensibilidade e da indiferen\u00e7a, sinais preocupantes de um subdesenvolvimento humano e moral, e a abertura para uma fecunda gratuidade na rela\u00e7\u00e3o de pessoas, organiza\u00e7\u00f5es e povos. Gratuidade \u00e9 uma das mais nobres disposi\u00e7\u00f5es humanas e leva a pensar de modo desinteressado no bem do pr\u00f3ximo; \u00e9 express\u00e3o de fraternidade verdadeira na fam\u00edlia humana. Planos e programas continuam sendo necess\u00e1rios, assim como o respeito pelas regras e pela justi\u00e7a; mas tudo isso ser\u00e1 animado por disposi\u00e7\u00f5es novas, capazes de dar brilho a um bilh\u00e3o de olhares famintos no mundo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Cardeal Odilo Pedro Scherer A Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas para o Desenvolvimento e a Agricultura (FAO) lan\u00e7ou recentemente uma campanha de ajuda aos cerca de um bilh\u00e3o de famintos, ou subalimentados no mundo, sobretudo na \u00c1frica e \u00c1sia, mas tamb\u00e9m na Am\u00e9rica Latina. \u00c9 muita gente! 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