{"id":12708,"date":"2010-12-31T00:00:00","date_gmt":"2010-12-31T02:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/reflexoes-a-margem-do-tempo\/"},"modified":"2010-12-31T00:00:00","modified_gmt":"2010-12-31T02:00:00","slug":"reflexoes-a-margem-do-tempo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/reflexoes-a-margem-do-tempo\/","title":{"rendered":"Reflex\u00f5es \u00e0 margem do tempo&#8230;"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right\"><strong><em>Dom Redovino Rizzardo, cs<br \/>Bispo de Dourados-MS<br \/><\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Talvez n\u00e3o sejam muitos os estudantes atuais de filosofia que lembrem quem foi Her\u00e1clito de \u00c9feso. Sua exist\u00eancia abrange o per\u00edodo que vai do ano 540 a 470 antes de Cristo. Seu nome \u00e9 lembrado por uma senten\u00e7a que o imortalizou: \u201cPanta rei\u201d, ou seja, traduzida do grego, \u201ctudo corre, tudo flui, tudo passa\u201d. Para ele, o homem e a natureza est\u00e3o em constante movimento e mudan\u00e7a. Explicava seu pensamento com esta compara\u00e7\u00e3o: \u00abN\u00e3o nos banhamos duas vezes no mesmo rio\u00bb, j\u00e1 que nem o rio nem quem nele se banha s\u00e3o os mesmos em dois momentos diferentes da trajet\u00f3ria da vida e do tempo.<\/p>\n<p>  <!--more-->  <\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Lembrei-me de Her\u00e1clito quando percebi que estamos \u00e0s portas de mais um final e in\u00edcio de ano. Na verdade, o tempo corre veloz. S\u00e3o in\u00fameras as pessoas que, na tentativa de segur\u00e1-lo e par\u00e1-lo, se agarram a t\u00e1buas de salva\u00e7\u00e3o que n\u00e3o passam de miragens. Julgam que ser\u00e3o salvas e imortalizadas pelas coisas que possuem ou pelas obras que realizam. Era o que pensava o poeta romano Hor\u00e1cio, que se consolava diante da morte repetindo para si e para quem o cercava: \u00abN\u00e3o morrerei de todo, pois, com minhas poesias, constru\u00ed um monumento mais duradouro que o bronze\u00bb.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Significativas, para n\u00e3o dizer desesperadoras, s\u00e3o tamb\u00e9m as palavras de Cazuza, um dos \u00edcones da m\u00fasica brasileira na d\u00e9cada de 1980, ante a fugacidade \u2013 e, a seu parecer, a inutilidade \u2013 da vida: \u00abMinha metralhadora est\u00e1 cheia de m\u00e1goas. Eu sou um cara cansado de correr na dire\u00e7\u00e3o contr\u00e1ria. A tua piscina est\u00e1 cheia de ratos. Tuas ideias n\u00e3o correspondem aos fatos. O tempo n\u00e3o para. Eu vejo o futuro repetir o passado.\u00a0 O tempo n\u00e3o para. N\u00e3o para, n\u00e3o, n\u00e3o para\u00bb.<\/p>\n<p>Se todos t\u00eam o direito de se pronunciar sobre uma quest\u00e3o t\u00e3o importante, a B\u00edblia n\u00e3o podia permanecer indiferente e alheia. Dentre as in\u00fameras passagens\u00a0 em que trata do tema, cito apenas duas. A primeira \u00e9 do salmo 90: \u00abSenhor, para v\u00f3s, mil anos s\u00e3o como o dia de ontem que passou, uma vig\u00edlia dentro da noite. Eles passam como o sono da manh\u00e3, s\u00e3o iguais \u00e0 erva verde que cresce nos campos: de manh\u00e3 ela floresce vicejante, mas, \u00e0 tarde, \u00e9 cortada e logo seca. A nossa vida pode durar setenta anos; os mais fortes talvez cheguem a oitenta. A maior parte deles, por\u00e9m, \u00e9 ilus\u00e3o e sofrimento; passam depressa e n\u00f3s desaparecemos com eles. Ensinai-nos, Senhor, a bem contar os nossos dias para que tenhamos a sabedoria do cora\u00e7\u00e3o!\u00bb (Sl 90,4-6.10.12).<\/p>\n<p>A segunda passagem \u00e9 tirada do livro de Co\u00e9let, tamb\u00e9m conhecido como Eclesiastes: \u00abIlus\u00e3o das ilus\u00f5es, tudo \u00e9 ilus\u00e3o! Que proveito tira o homem de todo o trabalho com que se afadiga debaixo do sol? Uma gera\u00e7\u00e3o vai, uma gera\u00e7\u00e3o chega, e a terra permanece sempre a mesma. O sol se levanta e o sol se p\u00f5e, voltando depressa para o lugar de onde novamente se levantar\u00e1. A juventude e os cabelos negros s\u00e3o fugazes. Lembra-te do teu Criador nos dias de tua mocidade, antes que venham os dias tristes e cheguem os anos em que dir\u00e1s: \u201cN\u00e3o sinto mais prazer em nada!\u201d, e antes que se escure\u00e7am o sol e a luz, a lua e as estrelas!\u00bb (Ecl 1,2-5.12,1-2).<\/p>\n<p>\u00c0 primeira vista, tudo isso poderia gerar um pessimismo intrag\u00e1vel se n\u00e3o receb\u00eassemos de Deus a sabedoria do cora\u00e7\u00e3o, como pede o salmo 90 \u2013 gra\u00e7a que \u00e9 concedida a todos os que se deixam guiar pelo amor. \u00c9 o que atesta o maravilhoso segredo descoberto por Santa Teresa de \u00c1vila: \u00abNada te perturbe, nada te espante! Tudo passa: s\u00f3 Deus n\u00e3o passa. A paci\u00eancia tudo alcan\u00e7a. Quem tem a Deus, nada lhe falta. S\u00f3 Deus basta\u00bb.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Para S\u00e3o Jo\u00e3o, o ap\u00f3stolo que mais entendeu o cora\u00e7\u00e3o de Jesus, s\u00f3 n\u00e3o passa o que \u00e9 feito de acordo com a vontade e o projeto de Deus: \u00abN\u00e3o amemos o mundo nem o que h\u00e1 nele. Se algu\u00e9m ama o mundo, o amor do Pai n\u00e3o est\u00e1 nele. Pois tudo o que h\u00e1 no mundo \u2013 os instintos carnais, os olhos insaci\u00e1veis e a arrog\u00e2ncia do dinheiro \u2013 s\u00e3o coisas que n\u00e3o v\u00eam do Pai, mas do mundo. E o mundo passa com seus apetites insaci\u00e1veis.Mas quem faz a vontade de Deus, permanece para sempre\u00bb (1Jo 2,15-17).<\/p>\n<p>L\u00f3gica, portanto, a conclus\u00e3o a que chega Chiara Lubich: \u00ab\u201cComo o tempo passa depressa\u201d, dizemos perplexos, verificando a velocidade dos dias. \u201cComo o tempo permanece\u201d, deveria dizer a minha alma se conseguisse que cada hora e cada instante fossem gastos em cumprir a vontade de Deus\u00bb.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dom Redovino Rizzardo, csBispo de Dourados-MS Talvez n\u00e3o sejam muitos os estudantes atuais de filosofia que lembrem quem foi Her\u00e1clito de \u00c9feso. Sua exist\u00eancia abrange o per\u00edodo que vai do ano 540 a 470 antes de Cristo. 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