{"id":12737,"date":"2011-01-10T00:00:00","date_gmt":"2011-01-10T02:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/liberdade-religiosa-e-paz\/"},"modified":"2011-01-10T00:00:00","modified_gmt":"2011-01-10T02:00:00","slug":"liberdade-religiosa-e-paz","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/liberdade-religiosa-e-paz\/","title":{"rendered":"Liberdade religiosa e paz"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right\"><strong><em><span style=\"font-size: 10pt\">Cardela Dom Odilo P. Scherer,<br \/> Arcebispo de S\u00e3o Paulo<\/span><\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Na sua recente mensagem para o Dia Mundial da Paz, comemorado cada ano pela Igreja Cat\u00f3lica no dia 1\u00b0 de janeiro, o papa Bento XVI abordou um tema de grande atualidade: \u201cliberdade religiosa como caminho para a paz\u201d. A persegui\u00e7\u00e3o religiosa e o cerceamento \u00e0 livre manifesta\u00e7\u00e3o da f\u00e9 s\u00e3o fatos constantes na hist\u00f3ria da humanidade; e n\u00e3o faltam na atualidade ataques e inc\u00eandios a templos, vexa\u00e7\u00f5es a grupos religiosos e at\u00e9 massacres por causa da identidade religiosa, como aconteceu no Natal, na \u00c1frica, na \u00c1sia e, um pouco antes, na catedral siro-cat\u00f3lica de Bagdad. No pr\u00f3prio dia 1\u00ba de janeiro aconteceu outro atentado a crist\u00e3os coptas numa igreja de Alexandria, com mortos e feridos.<\/p>\n<div style=\"text-align: justify\">  <!--more-->  <\/div>\n<p style=\"text-align: justify\">N\u00e3o faltam pa\u00edses onde pessoas que professam determinada religi\u00e3o s\u00e3o discriminadas, t\u00eam seus direitos civis negados ou sofrem o desprezo p\u00fablico; ainda h\u00e1 pris\u00f5es e assassinatos em repress\u00e3o \u00e0 f\u00e9 professada. Mas h\u00e1 tamb\u00e9m formas sutis de preconceito religioso, como a atribui\u00e7\u00e3o f\u00e1cil de todos os males \u00e0 religi\u00e3o; sem esquecer da pretens\u00e3o, bastante em voga, de excluir dos espa\u00e7os p\u00fablicos os s\u00edmbolos religiosos, fruto de preconceito ou intoler\u00e2ncia; tais atitudes, por vezes, aparecem envoltas em argumenta\u00e7\u00f5es nada convincentes sobre a laicidade do Estado. O desrespeito \u00e0 liberdade religiosa coloca em risco a paz no conv\u00edvio social e mesmo entre os povos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">O Pont\u00edfice recorda que a liberdade religiosa \u00e9 a fina express\u00e3o da dignidade e da liberdade do ser humano; na busca religiosa, e at\u00e9 na angustiosa nega\u00e7\u00e3o da transcend\u00eancia, o homem mostra que n\u00e3o se reduz \u00e0 sua dimens\u00e3o corp\u00f3rea e material, mas \u00e9 necessitado de se transcender e capaz de indagar sobre o sentido da vida, a verdade e os valores que devem orientar a exist\u00eancia; ele revela, assim, sua alt\u00edssima dignidade e a abertura ao sobrenatural e para o di\u00e1logo com Deus.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Negar ou, de alguma forma, cercear a liberdade religiosa seria cultivar uma vis\u00e3o redutiva e depauperada da pessoa humana; desprezar a fun\u00e7\u00e3o p\u00fablica da religi\u00e3o seria privar o conv\u00edvio social e a cultura de princ\u00edpios orientadores basilares. \u201cO respeito a elementos essenciais da dignidade do homem, como o direito \u00e0 vida e \u00e0 liberdade religiosa, \u00e9 condi\u00e7\u00e3o de legitimidade moral para toda norma social e jur\u00eddica\u201d, afirma Bento XVI (n. 2). De fato, esse requisito b\u00e1sico da dignidade e dos direitos humanos, reconhecido tamb\u00e9m pela Declara\u00e7\u00e3o Universal dos Direitos Humanos (ONU, 1948), \u00e9 garantia de pleno respeito entre as pessoas. H\u00e1 uma rela\u00e7\u00e3o estreita entre liberdade e respeito; cada pessoa ou grupo, no exerc\u00edcio dos pr\u00f3prios direitos, n\u00e3o pode deixar de levar em conta iguais direitos nos outros e seus pr\u00f3prios deveres em rela\u00e7\u00e3o aos demais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Bento XVI acena para uma quest\u00e3o que lhe \u00e9 cara e que aparece com freq\u00fc\u00eancia em suas reflex\u00f5es: \u201cUma liberdade hostil ou indiferente a Deus acaba por negar a si mesma e n\u00e3o garante o pleno respeito ao outro\u201d (n. 3). Ilus\u00e3o seria buscar no indiferentismo religioso e no relativismo moral a chave para uma conviv\u00eancia pac\u00edfica; essas, ao contr\u00e1rio, seriam base para a nega\u00e7\u00e3o da dignidade do ser humano e para a divis\u00e3o entre as pessoas. S\u00e3o inerentes \u00e0 pessoa a dimens\u00e3o social e a religiosa. Por isso, como afirmou o mesmo Papa perante a Assembl\u00e9ia das Na\u00e7\u00f5es Unidas (18.04.2008), \u201c\u00e9 inconceb\u00edvel que os crentes tenham que suprimir uma parte de si mesmos \u2013 a sua f\u00e9 -, para serem aceitos como cidad\u00e3os: nunca deveria ser necess\u00e1rio renegar a Deus para ter os pr\u00f3prios direitos reconhecidos\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Por\u00e9m, entendamos bem: o Papa n\u00e3o reinvindica privil\u00e9gios para esta ou aquela religi\u00e3o, nem que os Estados tenham uma religi\u00e3o oficial. Pelo contr\u00e1rio, os Estados n\u00e3o devem impor a religi\u00e3o, nem discriminar cidad\u00e3os por causa dela, mas assegurar-lhes plena liberdade religiosa; tamb\u00e9m \u00e0queles que n\u00e3o t\u00eam f\u00e9. A Igreja Cat\u00f3lica, embora estimule a todos na procura corajosa da verdade e na abertura para Deus, ensina que a consci\u00eancia da pessoa deve ser sempre respeitada; a f\u00e9 e a religi\u00e3o n\u00e3o devem ser impostas a ningu\u00e9m. Menos ainda, pelo Estado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Fanatismo e fundamentalismo n\u00e3o combinam com o pleno respeito \u00e0 liberdade religiosa; ambos instrumentalizam a religi\u00e3o em fun\u00e7\u00e3o de interesses ocultos, como poderiam ser a subvers\u00e3o da ordem constitu\u00edda, a manuten\u00e7\u00e3o do poder sobre outros ou a explora\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica da f\u00e9 e da credulidade das pessoas. A religi\u00e3o, transformada em ideologia pol\u00edtica ou estrat\u00e9gia econ\u00f4mica, torna-se um problema e pode causar enormes danos \u00e0 sociedade. S\u00e3o pr\u00e1ticas contr\u00e1rias \u00e0 dignidade humana, jamais s\u00e3o justific\u00e1veis em nome de Deus ou da religi\u00e3o. A garantia da liberdade religiosa \u00e9 condi\u00e7\u00e3o para a busca da verdade, que n\u00e3o se imp\u00f5e pela viol\u00eancia, mas pela for\u00e7a da pr\u00f3pria verdade (n. 7).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Aprende-se o respeito \u00e0 liberdade religiosa atrav\u00e9s da educa\u00e7\u00e3o j\u00e1 na inf\u00e2ncia, assim como o preconceito e a discrimina\u00e7\u00e3o religiosa; os pais podem formar os filhos para a valorizarem as pr\u00f3prias convic\u00e7\u00f5es religiosas, mas tamb\u00e9m para o respeito \u00e0s convic\u00e7\u00f5es alheias. Tamb\u00e9m educadores e formadores de opini\u00e3o t\u00eam muito a contribuir para uma cultura respeitosa e tolerante em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s convic\u00e7\u00f5es religiosas e \u00e0\u00a0 contribui\u00e7\u00e3o positiva das religi\u00f5es para a civiliza\u00e7\u00e3o, a cultura. A liberdade religiosa pode ajudar muito para a paz pois\u00a0 valoriza e faz frutificar as qualidades mais profundas da pessoa, capazes de tornar o mundo melhor e de alimentar a esperan\u00e7a num futuro de justi\u00e7a e de paz.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Cardela Dom Odilo P. Scherer, Arcebispo de S\u00e3o Paulo Na sua recente mensagem para o Dia Mundial da Paz, comemorado cada ano pela Igreja Cat\u00f3lica no dia 1\u00b0 de janeiro, o papa Bento XVI abordou um tema de grande atualidade: \u201cliberdade religiosa como caminho para a paz\u201d. 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