{"id":12741,"date":"2011-01-12T00:00:00","date_gmt":"2011-01-12T02:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/o-que-teriam-dito-meu-pai-e-minha-mae\/"},"modified":"2011-01-12T00:00:00","modified_gmt":"2011-01-12T02:00:00","slug":"o-que-teriam-dito-meu-pai-e-minha-mae","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/o-que-teriam-dito-meu-pai-e-minha-mae\/","title":{"rendered":"O que teriam dito meu pai e minha m\u00e3e"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right\"><em><strong><span style=\"font-size: 10pt\">Dom Pedro Jos\u00e9 Conti<br \/> Bispo de Macap\u00e1<\/span><\/strong><\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">As anedotas sobre a vida do Papa Jo\u00e3o XXIII s\u00e3o muitas. Uma delas \u00e9 sobre o di\u00e1logo que se deu entre o Papa e o seu secret\u00e1rio, ap\u00f3s a solene coroa\u00e7\u00e3o na Bas\u00edlica de S\u00e3o Pedro. O Papa j\u00e1 estava nos seus aposentos e caminhava para frente e para tr\u00e1s com uma m\u00e3o no bolso e a outra contando as contas do ter\u00e7o. Andava pensativo e cabisbaixo. Vendo isto, o secret\u00e1rio se preocupou e perguntou:<\/p>\n<p>  <!--more-->  <\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">&#8211; O que o senhor tem? N\u00e3o est\u00e1 passando bem?<br \/>&#8211; N\u00e3o, estou bem, meu filho, estou s\u00f3 um pouco triste, de verdade, um pouco triste, respondeu o Papa.<br \/>&#8211; Mas por que, santidade? \u2013 retrucou o secret\u00e1rio \u2013 N\u00e3o deve; olhe pela janela, que dia magn\u00edfico, que alegria, que triunfo da f\u00e9!<br \/>&#8211; E o Santo Padre respondeu: tudo isso \u00e9 muito grande para mim, \u00e9 rico demais, \u00e9 luxuoso demais. Acredite, quando me carregaram naquela cadeira, me senti humilhado: sim, foi para mim uma humilha\u00e7\u00e3o ver-me levantado t\u00e3o alto! Olhei no meio do povo e pensei o que teriam dito de mim meu pai e minha m\u00e3e se tivessem me visto naquela situa\u00e7\u00e3o.\u00a0 Essas palavras do Papa Jo\u00e3o XXIII s\u00e3o um grande exemplo de humildade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Ele sabia muito bem que n\u00e3o podia confundir a responsabilidade do cargo que estava ocupando com a sua pobre realidade humana. A lembran\u00e7a das suas humildes origens, dos pais e dos irm\u00e3os camponeses, sempre o acompanhou. Em nenhum momento, nem na hora da coroa\u00e7\u00e3o, pensou em se considerar superior aos outros. Ao contr\u00e1rio, ficou triste por tanta imerecida exalta\u00e7\u00e3o. Nem o canto \u201cTu \u00e9s Pedro!\u201d mudou a consci\u00eancia dele.<\/p>\n<p>\u00c9 verdade que n\u00e3o podemos ler o evangelho deste domingo como um simples relato, mas devemos entend\u00ea-lo muito mais como uma declara\u00e7\u00e3o de f\u00e9 por parte de Jo\u00e3o Batista e, mais ainda, por parte do autor do quarto evangelho. Contudo podemos imaginar o que deve ter pensado Jesus ao ouvir dizer: \u201cEis o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo\u201d. O que devem ter pensado as pessoas ouvindo o testemunho de Jo\u00e3o: \u201ceste \u00e9 o Filho de Deus\u201d? A resposta talvez esteja nas palavras do hino que encontramos na carta aos Filipenses (2,6-8): \u201cEle, existindo em forma divina, n\u00e3o se apegou ao ser igual a Deus, mas despojou-se, assumindo a forma de escravo e tornando-se semelhante ao ser humano. E encontrado em aspecto humano, humilhou-se, fazendo-se obediente at\u00e9 a morte \u2013 e morte de cruz!\u201d Se houve exalta\u00e7\u00e3o na pessoa e na miss\u00e3o de Jesus foi pela sua obedi\u00eancia e o seu sacrif\u00edcio, oferecendo sua vida na cruz.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Essa \u00e9 a raz\u00e3o pela qual a Liturgia coloca esta p\u00e1gina do Evangelho no in\u00edcio deste tempo, que chamamos comum, e que separa o tempo do Natal do tempo da Quaresma. O Menino que contemplamos no Pres\u00e9pio, visitado e adorado pelos Magos \u00e9 sim o Filho de Deus, agora presente na hist\u00f3ria humana, tendo assumido a nossa natureza limitada no tempo e no espa\u00e7o. O \u201cVerbo\u201d que era Deus, desde sempre, nada perdeu da sua divindade, mas aceitou a natureza humana para ser \u201caquele que tira o pecado do mundo\u201d. Dessa vez Deus Pai, n\u00e3o falou e nem agiu mais por interm\u00e9dio de algu\u00e9m, mas pelo seu pr\u00f3prio Filho (cfr. Hebreus 1,1-6; segunda leitura da Missa do Dia de Natal). Sei que estou dizendo coisas dif\u00edceis para muitos que n\u00e3o est\u00e3o acostumados, mas a dificuldade em entender n\u00e3o est\u00e1 somente nas afirma\u00e7\u00f5es da nossa f\u00e9; est\u00e1, antes, em admitir a pr\u00f3pria \u201cencarna\u00e7\u00e3o\u201d, o rebaixamento ou humilha\u00e7\u00e3o do Filho de Deus ao assumir a natureza humana em Jesus. N\u00f3s vivemos num tempo onde a humildade \u00e9 considerada um defeito mais que uma virtude. Quantos de n\u00f3s nos consideramos superiores aos outros, simplesmente pelo cargo que ocupamos, pelo dinheiro que temos ou pela simples incapacidade de reconhecermos as nossas limita\u00e7\u00f5es e os nossos defeitos. N\u00e3o \u00e9 quest\u00e3o de auto-estima ou de algo parecido, infelizmente \u00e9 quest\u00e3o de orgulho. O eterno orgulho humano que se aninha em cada um de n\u00f3s e que transforma a nossa conviv\u00eancia em disputa pelo poder, em luta para aparecer, em frustra\u00e7\u00f5es por n\u00e3o conseguirmos ser sempre os primeiros.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Jesus \u00e9 e sempre ser\u00e1, para quem acredita, o nosso salvador. N\u00e3o por imposi\u00e7\u00e3o, por esmagar os inimigos, mas por am\u00e1-los at\u00e9 o fim; a todos: amigos e inimigos. No Calv\u00e1rio os que tinham assistido \u00e0 morte de Jesus como a um espet\u00e1culo, voltam batendo o peito. Se foi vit\u00f3ria, foi da humildade e do amor. \u00c9 bom come\u00e7ar o novo ano com mais simplicidade e mod\u00e9stia. Precisamos de projetos de paz e n\u00e3o de orgulho.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">O Papa Jo\u00e3o XXIII sabia muito bem que se, naquele dia, ele estava sendo carregado nos ombros dos outros era porque estava come\u00e7ando a carregar tamb\u00e9m uma cruz muito pesada: a responsabilidade de manter a Igreja unida e fiel. N\u00e3o o aguardava a soberba, mas o sacrif\u00edcio.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dom Pedro Jos\u00e9 Conti Bispo de Macap\u00e1 As anedotas sobre a vida do Papa Jo\u00e3o XXIII s\u00e3o muitas. Uma delas \u00e9 sobre o di\u00e1logo que se deu entre o Papa e o seu secret\u00e1rio, ap\u00f3s a solene coroa\u00e7\u00e3o na Bas\u00edlica de S\u00e3o Pedro. 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