{"id":12798,"date":"2011-02-04T00:00:00","date_gmt":"2011-02-04T02:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/casos-da-ditadura\/"},"modified":"2011-02-04T00:00:00","modified_gmt":"2011-02-04T02:00:00","slug":"casos-da-ditadura","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/casos-da-ditadura\/","title":{"rendered":"Casos da ditadura"},"content":{"rendered":"<h4 style=\"text-align: right\">Dom Benedicto de Ulhoa Vieira<\/h4>\n<p style=\"text-align: justify\">Leio nos jornais a revolta do povo eg\u00edpcio contra a ditadura do atual presidente do Egito \u2013 Mubarak, que est\u00e1 no poder h\u00e1 \u201capenas\u201d trinta anos. Se h\u00e1 algo antip\u00e1tico e revoltante \u00e9 a figura do ditador, cuja vontade se torna a lei suprema do pa\u00eds. Apesar de, at\u00e9 domingo passado, terem j\u00e1 72 mortos a revolta popular no Egito continuava.<\/p>\n<p>  <!--more-->  <\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">No passado n\u00f3s, brasileiros, j\u00e1 tivemos alguns per\u00edodos, de regime ditatorial, felizmente extintos. Os mais velhos n\u00e3o s\u00f3 se lembram de como eram as coisas e como a liberdade de falar e agir era r\u00edgida, restrita e perigosa. Gra\u00e7as a Deus isto passou e \u00e9 de esperar que tais dolorosas experi\u00eancias nunca mais voltem a nosso pa\u00eds. O \u00fanico regime que respeita a dignidade das pessoas \u00e9 o regime de verdadeira democracia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Durante o regime de 64, trabalhava eu na Universidade Cat\u00f3lica de S\u00e3o Paulo, onde \u2013 al\u00e9m de lecionar \u2013 ocupava o cargo de vice-reitor e, fora, o de \u201cp\u00e1roco dos universit\u00e1rios\u201d. N\u00e3o era uma par\u00f3quia territorial, mas pessoal.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">V\u00e1rios fatos eu vivi naquela triste \u00e9poca, de que n\u00e3o consigo esquecer-me. Um deles foi a greve de fome dos presos pol\u00edticos. N\u00e3o era o juiz que dava licen\u00e7a para a visita aos grevistas, mas o Comandante Militar que atendia no Quartel do Ibirapuera. Fui l\u00e1, ap\u00f3s receber resposta negativa do Juiz. Consegui falar com o General, homem dif\u00edcil e super autorit\u00e1rio, a quem expliquei minha fun\u00e7\u00e3o religiosa e pastoral. Consegui a licen\u00e7a, com a brutal conclus\u00e3o do General que gritou: \u201cPor motivo religioso, sim. Se for para fazer pol\u00edtica, n\u00e3o!\u201d. A greve de fome preocupava a todos, a ponto de o pr\u00f3prio N\u00fancio Apost\u00f3lico ter vindo do Rio, onde morava, a S\u00e3o Paulo para conversar com os grevistas e pedir-lhes que deixassem a greve. Tempos dif\u00edceis.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Outro fato: como bispo auxiliar fui ao quartel do Ibirapuera saber algo de pessoa presa e, ap\u00f3s demorada espera, fui atendido na portaria por um militar graduado, que ao dizer-lhe ser eu auxiliar de Dom Paulo Evaristo, o homem perdeu o respeito ao seu cargo e gritou na minha cara atacando Dom Paulo: \u201cEste homem \u00e9 comunista!\u201d. Lembrei-me neste momento de uma palestra do psiquiatra Bachir Aidar Jorge, na qual ele dizia que h\u00e1 certas ocasi\u00f5es em que o interlocutor s\u00f3 entende a coisa, quando a gente explica com grito e agressivamente. Gritei fortemente ao militar: \u201cO Sr. n\u00e3o tem o direito de dizer isto do Cardeal\u201d. Ele calou assustado e me disse com educa\u00e7\u00e3o: \u201cvamos \u00e0 minha sala para conversar\u201d. Fomos e ele ent\u00e3o me tratou com dignidade e educa\u00e7\u00e3o, chegando at\u00e9 a conversar confiadamente sobre pessoas da Igreja, com acusa\u00e7\u00f5es, evidentemente falsas de \u201ccomunistas\u201d (!), com inqu\u00e9ritos l\u00e1 na opera\u00e7\u00e3o Bandeirantes. \u00c9poca da ditadura&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Conto estes fatos, para exemplificar as dificuldades quando se vive sob regime ditatorial. Quem viveu no per\u00edodo ap\u00f3s 64, sabe por triste experi\u00eancia que o \u00fanico regime, que n\u00e3o agride a dignidade \u00e9 o democr\u00e1tico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Da\u00ed se pode entender a insatisfa\u00e7\u00e3o do povo do Egito, em querer \u2013 ap\u00f3s trinta anos do governo de Mubarak! \u2013 que se possa ter outro regime pol\u00edtico que tenha nome e lei democr\u00e1tica, respeitando a dignidade da pessoa humana e com altern\u00e2ncia de poder. Seria sonho ou direito? Est\u00e1 em jogo a dignidade humana o que \u00e9 totalmente imposs\u00edvel em qualquer regime ditatorial.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dom Benedicto de Ulhoa Vieira Leio nos jornais a revolta do povo eg\u00edpcio contra a ditadura do atual presidente do Egito \u2013 Mubarak, que est\u00e1 no poder h\u00e1 \u201capenas\u201d trinta anos. Se h\u00e1 algo antip\u00e1tico e revoltante \u00e9 a figura do ditador, cuja vontade se torna a lei suprema do pa\u00eds. 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