{"id":12822,"date":"2011-02-11T00:00:00","date_gmt":"2011-02-11T02:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/o-mato-grosso-do-sul-e-seus-escravos\/"},"modified":"2011-02-11T00:00:00","modified_gmt":"2011-02-11T02:00:00","slug":"o-mato-grosso-do-sul-e-seus-escravos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/o-mato-grosso-do-sul-e-seus-escravos\/","title":{"rendered":"O Mato Grosso do Sul e seus escravos&#8230;"},"content":{"rendered":"<h4 style=\"text-align: right\">Dom Redovino Rizzardo<\/h4>\n<h4 style=\"text-align: right\">Bispo de Dourados &#8211; MS<\/h4>\n<p style=\"text-align: justify\">Foi no dia 13 de maio de 1888 que a princesa Isabel tentou acabar com a escravid\u00e3o no Brasil. Contudo, ao firmar o decreto conhecido como a \u201cLei \u00c1urea\u201d, ela assinou tamb\u00e9m a morte do Imp\u00e9rio e o advento da Rep\u00fablica. Sem prever as consequ\u00eancias, ela mexera num enxame de marimbondos: a medida subtra\u00eda das elites, das empresas e das fazendas nada menos do que 720.000 trabalhadores robustos e baratos \u2013 este o n\u00famero contabilizado pela \u201cMatr\u00edcula Geral de Escravos\u201d, a 30 de mar\u00e7o de 1887.<\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Infelizmente, a escravid\u00e3o no Brasil est\u00e1 longe de ter terminado. No dia 5 de janeiro de 2011, a imprensa comunicava que o Mato Grosso do Sul ocupa o terceiro lugar no ranking nacional da chamada \u201clista suja\u201d, que relaciona as empresas com trabalhadores em situa\u00e7\u00e3o de escravid\u00e3o. O ranking \u00e9 liderado pelo Par\u00e1 e pelo Maranh\u00e3o. Logo em seguida, vem o Estado em que resido, com a presen\u00e7a de 18 empresas \u201cescravocratas\u201d \u2013 em sua maioria, com atividades no ramo das carvoarias e das usinas sucroalcooleiras.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Desconhe\u00e7o o n\u00famero de negros que viviam no territ\u00f3rio do atual Mato Grosso do Sul em 1888. Certamente, eram uma minoria. Talvez apenas os que haviam conquistado a liberdade e um peda\u00e7o de terra por terem participado da Guerra do Paraguai (1864\/1870). Provavelmente, menos numerosos do que os nordestinos e os ind\u00edgenas \u2013 as duas categorias mais oprimidas hoje no Estado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">De acordo com os dados fornecidos pelo Minist\u00e9rio do Trabalho, em 2010, no Brasil, foram resgatados 2.327 trabalhadores em regime de escravid\u00e3o \u2013 n\u00famero que sobe para 38.000 unidades, se incluirmos todos os que foram libertados a partir de 1995.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">As 18 empresas investigadas no Mato Grosso do Sul est\u00e3o localizadas em 15 munic\u00edpios, alguns deles na Diocese que me cabe conduzir: Amambai, Iguatemi, Nova Alvorada do Sul e Dourados. Oxal\u00e1 sejam apenas esses!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Infelizmente, a escravid\u00e3o n\u00e3o \u00e9 coisa do passado. Ela continua atuando em v\u00e1rios pa\u00edses, e at\u00e9 mesmo na Reserva Ind\u00edgena de Dourados. De acordo com uma not\u00edcia veiculada pelo \u201cJornal Nacional\u201d no in\u00edcio de fevereiro de 2011, h\u00e1 \u00edndios que \u201cvendem\u201d suas filhas para sobreviver (ou para manter seus v\u00edcios!). No Haiti, 300.00 crian\u00e7as s\u00e3o mantidas em regime de escravid\u00e3o. Apesar de n\u00e3o se dispor de dados exatos, estima-se que sejam 30.000.000 os escravos hoje no mundo. O tr\u00e1fico de pessoas faz aproximadamente 800.000 v\u00edtimas por ano, sobretudo entre os imigrantes ilegais.\u00a0 No Sud\u00e3o, h\u00e1 tribos inteiras que, de uma hora para outra, s\u00e3o dizimadas e seus membros capturados e vendidos para tribos rivais e pa\u00edses vizinhos. Ou seja, exatamente como aconteceu com os 4.000.000 de negros chegados ao Brasil a partir de 1538, quando Jorge Lopes Bixorda trouxe os primeiros africanos para a Bahia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">A diferen\u00e7a \u2013 se \u00e9 que h\u00e1 diferen\u00e7a \u2013 \u00e9 que n\u00e3o estamos mais na Pr\u00e9-hist\u00f3ria ou na Idade M\u00e9dia, quando a escravid\u00e3o constitu\u00eda um fato corriqueiro e normal. A pr\u00f3pria Igreja Cat\u00f3lica contou em seu seio com crist\u00e3os que a toleravam e defendiam, e outros que a combateram tenazmente. Mas, em pleno s\u00e9culo XXI, numa \u00e9poca em que tanto se fala de direitos, de liberdade e de respeito pela pessoa humana, ela \u00e9 uma vergonha para todos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Sobre a escravid\u00e3o, S\u00e3o Paulo tem muito a ensinar. Em seu tempo, ningu\u00e9m se atrevia a proclamar que a escravid\u00e3o constitu\u00eda um pecado contra a dignidade humana. Nem ele! Mas, apesar disso, n\u00e3o ficou de bra\u00e7os cruzados! Em carta dirigida a Fil\u00eamon, um rico empres\u00e1rio, dono de muitos escravos, que acabara de se converter ao cristianismo, ele colocou as premissas que levariam a humanidade a repensar o assunto. On\u00e9simo, um escravo de Fil\u00eamon, abandonou o patr\u00e3o, n\u00e3o sem antes se apossar de alguns de seus bens. Preso no mesmo c\u00e1rcere em que estava S\u00e3o Paulo, acabou convertido por ele, que o mandou de volta ao \u201cpropriet\u00e1rio\u201d, com estas palavras: \u201cPenso que On\u00e9simo se afastou de ti por algum tempo para que o tenhas de volta para sempre. Agora o ter\u00e1s n\u00e3o mais como escravo, mas muito mais do que escravo: como um irm\u00e3o querido. Ele \u00e9 querido para mim e o ser\u00e1 muito mais para ti, seja como homem, seja como crist\u00e3o\u201d (Fm 15-16).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dom Redovino Rizzardo Bispo de Dourados &#8211; MS Foi no dia 13 de maio de 1888 que a princesa Isabel tentou acabar com a escravid\u00e3o no Brasil. Contudo, ao firmar o decreto conhecido como a \u201cLei \u00c1urea\u201d, ela assinou tamb\u00e9m a morte do Imp\u00e9rio e o advento da Rep\u00fablica. 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