{"id":12914,"date":"2011-03-17T00:00:00","date_gmt":"2011-03-17T03:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/a-voz-da-mae\/"},"modified":"2011-03-17T00:00:00","modified_gmt":"2011-03-17T03:00:00","slug":"a-voz-da-mae","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/a-voz-da-mae\/","title":{"rendered":"A voz da m\u00e3e"},"content":{"rendered":"<h4 style=\"text-align: right\">Dom Pedro Jos\u00e9 Conti<\/h4>\n<h4 style=\"text-align: right\">Bispo de Macap\u00e1<\/h4>\n<p style=\"text-align: justify\">Um homem, depois de muito andar pelo mundo, encontrou no deserto um pequeno o\u00e1sis. Acabou ficando ali, com sua fam\u00edlia e as suas cabras, feliz da vida. No meio do o\u00e1sis tinha uma nascente: \u00e0s vezes dava somente um fiozinho de \u00e1gua, \u00e0s vezes jorrava com mais abund\u00e2ncia, conforme as esta\u00e7\u00f5es do ano. \u00c0 mesma fonte, de noite, aproximavam-se os animais do deserto para satisfazer a sua sede. De dia a \u00e1gua era a alegria das crian\u00e7as e o conforto para o cansa\u00e7o de todos. Um dia, o homem pensou que se tivesse cavado um po\u00e7o teria encontrado mais \u00e1gua, assim poderia plantar mais palmeiras e comprar mais cabras. Cavou o po\u00e7o, encontrou \u00e1gua e se tornou ganancioso. Multiplicou o n\u00famero das palmeiras e das cabras.<\/p>\n<p>  <!--more-->  <\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Depois cavou outro po\u00e7o. Dessa vez, teve que aprofundar mais o buraco para encontrar a \u00e1gua, muito mais do que a primeira vez. Com a nova \u00e1gua aumentou o seu poder. Comprou alguns escravos e come\u00e7ou a comercializar nas aldeias mais pr\u00f3ximas. Juntou muito dinheiro. Durante um ver\u00e3o, por\u00e9m, n\u00e3o choveu nem no o\u00e1sis nem na regi\u00e3o toda. A \u00e1gua come\u00e7ou a ficar escassa. O homem mandou os escravos cavar mais um po\u00e7o. Antes de encontrar \u00e1gua teve que descer quase no cora\u00e7\u00e3o da terra. A esta altura, a mulher dele, humilde e s\u00e1bia, disse-lhe: \u201cN\u00e3o manda cavar mais po\u00e7os. A terra d\u00e1 somente a \u00e1gua que tem\u201d. Mas o homem n\u00e3o lhe deu ouvido. Logo que o tempo normalizou, multiplicou as palmeiras, as cabras e os escravos. Tinha sempre uma grande movimenta\u00e7\u00e3o no o\u00e1sis, de dia e de noite. Os animais selvagens n\u00e3o tinham mais coragem de se aproximar para beber da \u00e1gua da nascente. Os ossos deles, ressequidos, brilhavam \u00e0 luz do sol espalhados pela areia do deserto. No entanto, chegava para o o\u00e1sis todo tipo de inseto e de animal nojento que fazia a festa com toda aquela \u00e1gua. Em compensa\u00e7\u00e3o o homem tinha ficado muito rico e se livrava dos insetos inc\u00f4modos, abanando-se com um leque de ouro. O tempo passou e chegou mais um ver\u00e3o de seca total. Depois, mais um e mais outro. O tempo tamb\u00e9m tem as suas id\u00e9ias e n\u00e3o eram as mesmas do homem cobi\u00e7oso. Ele mandou cavar um po\u00e7o enorme. Precisaram muitos dias de trabalho, e a fadiga dos escravos foi grande demais. O po\u00e7o era t\u00e3o fundo que dava medo olhar da borda. Finalmente um fiozinho de \u00e1gua apareceu na escurid\u00e3o. Aconteceu, por\u00e9m, o inevit\u00e1vel: a nascente e todos os outros po\u00e7os secaram imediatamente. Ficou somente um \u00fanico po\u00e7o, t\u00e3o profundo, que parecia a boca do inferno. Este po\u00e7o existe, ainda hoje, e d\u00e1 um pouquinho de \u00e1gua ou, \u00e0s vezes, ela jorra com fartura, acompanhando as esta\u00e7\u00f5es do ano. Aquele homem n\u00e3o mora mais l\u00e1. O o\u00e1sis est\u00e1 \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o de quem o quer. Pode se viver bem, mas com a condi\u00e7\u00e3o de que, quem morar l\u00e1, n\u00e3o mecha na nascente e toda a noite se ajoelhe na beira do po\u00e7o para aprender a escutar, no murm\u00fario da \u00e1gua, uma voz que lhe pede respeito: parece a voz de um homem, mas \u00e9 a voz da m\u00e3e dele, a natureza.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Pe\u00e7o desculpa pela hist\u00f3ria um pouco mais cumprida que as outras vezes. Talvez sirva, como uma par\u00e1bola, para compreender o sentido da Campanha da Fraternidade deste ano. Falar e refletir sobre a ecologia e, portanto, sobre as condi\u00e7\u00f5es de vida e de sobreviv\u00eancia no planeta Terra, pode parecer uma moda desses \u00faltimos anos. No entanto pode ser, tamb\u00e9m, que todos n\u00f3s estejamos, aos poucos, tomando consci\u00eancia da responsabilidade que temos com a nossa vida e de todos os seres que povoam este recanto do universo. Reconhecer que o ser humano est\u00e1 profundamente ligado \u00e0 realidade do planeta, significa assumir para valer a nossa miss\u00e3o de zeladores dessas riquezas e n\u00e3o simplesmente de consumidores e exploradores. A humanidade toda \u00e9 muito mais parceira da natureza do que dominadora e manipuladora. O fato de sermos inteligentes n\u00e3o justifica o abuso do poder humano. Ao contr\u00e1rio, deveria nos conduzir ao respeito e ao reconhecimento humilde da depend\u00eancia que nos une aos demais seres vivos e a tudo o que existe e que n\u00e3o \u00e9 obra humana: o ar que respiramos, a \u00e1gua necess\u00e1ria para a vida e todos os recursos minerais que foram se formando ao longo dos mil\u00eanios.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Como crist\u00e3o n\u00f3s temos uma responsabilidade ainda maior, porque acreditamos n\u00e3o ser por acaso ou por uma simples cadeia evolucionista que estamos neste planeta com estas exatas condi\u00e7\u00f5es de vida. Temos uma miss\u00e3o a cumprir: continuar a obra da cria\u00e7\u00e3o para que esta n\u00e3o perca a beleza, a harmonia e a variedade que s\u00e3o riquezas inimit\u00e1veis e insubstitu\u00edveis. Se a tecnologia e a ci\u00eancia nos fascinam e exaltam, a natureza nos encanta e nos ensina novamente a simplicidade e a transitoriedade das coisas. Afinal, n\u00e3o somos t\u00e3o poderosos como pensamos. Somos simples peregrinos neste planeta, que n\u00e3o ajudamos a construir. Podemos melhor\u00e1-lo ou, ao menos, fazer que seja uma \u201ccasa\u201d digna para as gera\u00e7\u00f5es futuras. Tamb\u00e9m quem n\u00e3o acredita em Deus e pensa que n\u00e3o ter\u00e1 que prestar conta a ningu\u00e9m dos seus atos, bons ou maus, sente, por\u00e9m, a responsabilidade \u00e9tica com a humanidade presente e a que h\u00e1 de vir.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Vamos unir as for\u00e7as para amarmos mais esta \u201ccasa\u201d que \u00e9 de todos e deve continuar a abrigar a todos. A natureza tem os seus ritmos e os seus tempos. N\u00e3o pode nos dar o que n\u00e3o tem. Precisamos respeit\u00e1-la mais. Dever\u00edamos contempl\u00e1-la mais para aprender com ela a paci\u00eancia, a generosidade e a teimosia. Temos ainda muito para descobrir. \u00c9 a m\u00e3e Terra que nos fala e \u00e0s vezes grita. \u201cSer\u00e1 de parto esta dor ou simplesmente agonia? Vai depender s\u00f3 de n\u00f3s\u201d, diz o hino da Campanha deste ano. N\u00e3o dar ouvidos a este grito pode ter conseq\u00fc\u00eancias grav\u00edssimas para todos n\u00f3s agora e para sempre.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dom Pedro Jos\u00e9 Conti Bispo de Macap\u00e1 Um homem, depois de muito andar pelo mundo, encontrou no deserto um pequeno o\u00e1sis. Acabou ficando ali, com sua fam\u00edlia e as suas cabras, feliz da vida. 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