{"id":13029,"date":"2011-04-18T00:00:00","date_gmt":"2011-04-18T03:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/quanta-violencia-por-que\/"},"modified":"2011-04-18T00:00:00","modified_gmt":"2011-04-18T03:00:00","slug":"quanta-violencia-por-que","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/quanta-violencia-por-que\/","title":{"rendered":"Quanta viol\u00eancia! Por que?"},"content":{"rendered":"<h4 style=\"text-align: right\">Card. Odilo P. Scherer<\/h4>\n<h4 style=\"text-align: right\">Arcebispo de S\u00e3o Paulo &#8211; SP<\/h4>\n<p style=\"text-align: justify\">Not\u00edcias chocantes sobre atos violentos multiplicaram-se nas \u00faltimas semanas: \u00e9 filho que degola os pais, jovem que chega ao bar, ferindo e matando porque algu\u00e9m mexeu com a namorada, mulher que mata a filhinha do amante, motorista que lan\u00e7a o carro sobre ciclistas em passeata pela rua; s\u00e3o adolescentes que matam a coleguinha rival no primeiro amor&#8230; E os casos poderiam continuar, \u00e9 s\u00f3 seguir os notici\u00e1rios de cada dia.<\/p>\n<p>  <!--more-->  <\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">N\u00e3o se trata da viol\u00eancia da guerra, de grupos de exterm\u00ednio ou do crime organizado: \u00e9 viol\u00eancia comum, da vida privada, por motivos f\u00fateis. E nem \u00e9 porque h\u00e1 muita arma de fogo na m\u00e3o do povo: um ve\u00edculo, uma faca de cozinha e at\u00e9 um cadar\u00e7o podem virar armas letais, quando a vontade \u00e9 assassina! A a\u00e7\u00e3o das autoridades de seguran\u00e7a e os rigores da lei n\u00e3o assustam nem impedem os crimes; muita tens\u00e3o nas rela\u00e7\u00f5es sociais e motivos banais levam a perder a cabe\u00e7a, a fazer justi\u00e7a com as pr\u00f3prias m\u00e3os e a cometer as maiores viol\u00eancias contra o pr\u00f3ximo. E corremos todos o risco de habituar-nos com not\u00edcias e imagens brutais, com a mesma indiferen\u00e7a sonolenta com que assistimos a cenas de um filme. A realidade funde-se com a fic\u00e7\u00e3o e mal ca\u00edmos na conta de que, nesses casos, a morte e a dor s\u00e3o reais. Como explicar tanta viol\u00eancia no conv\u00edvio social?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Deixemos aos estudiosos do comportamento humano a an\u00e1lise do fen\u00f4meno; desejo refletir sobre algo que me parece estar na base desses fen\u00f4menos. Os fatos denotam uma radical desconsidera\u00e7\u00e3o pela dignidade da pessoa humana, pelos seus mais elementares direitos e pelos valores \u00e9ticos que devem orientar as decis\u00f5es na vida. O violento, ferindo ou matando uma pessoa, tamb\u00e9m legitima a viol\u00eancia, de modo impl\u00edcito, tamb\u00e9m contra a si pr\u00f3prio, pois ela pode voltar-se contra o autor dessa a\u00e7\u00e3o. E, se isso n\u00e3o lhe importa, significa que ele n\u00e3o tem considera\u00e7\u00e3o pela sua dignidade pessoal nem amor pela pr\u00f3pria vida. Ou tem a presun\u00e7\u00e3o de levar sempre a melhor, e a\u00ed estar\u00edamos diante do est\u00e1gio mais primitivo do desenvolvimento humano, em plena lei da selva. A viol\u00eancia \u00e9 dos brutos e denota uma lament\u00e1vel inconsci\u00eancia diante da dignidade da pessoa, dos seus direitos fundamentais; \u00e9 aus\u00eancia de sensibilidade, ou desprezo pelos valores b\u00e1sicos da conduta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Algu\u00e9m logo apontar\u00e1 para a urg\u00eancia de um rigor maior da lei e para a a\u00e7\u00e3o mais eficaz das autoridades que a representam e aplicam. Todos esperam, certamente, que os respons\u00e1veis cumpram seu dever e as leis sejam mais conhecidas e respeitadas; por\u00e9m, n\u00e3o \u00e9 por falta de leis que os crimes acontecem. E, se a grande garantia para a inibi\u00e7\u00e3o do crime fosse a autoridade que representa a lei, estar\u00edamos muito mal e n\u00e3o haveria policiais em n\u00famero suficiente para vigiar todos os potenciais criminosos. A aus\u00eancia da autoridade encarregada da aplica\u00e7\u00e3o lei n\u00e3o legitima o crime.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">O alastrar-se da viol\u00eancia est\u00e1 sinalizando para uma desorienta\u00e7\u00e3o cultural, onde h\u00e1 pouca ades\u00e3o a referenciais \u00e9ticos compartilhados, ou mesmo, a falta deles. Valores altamente apreci\u00e1veis, como a vida humana, a dignidade da pessoa, o bem comum, a justi\u00e7a, a liberdade e a honestidade caem por terra quando outros \u201cvalores\u201d lhes s\u00e3o sobrepostos, como a vantagem individual a qualquer custo, a satisfa\u00e7\u00e3o das paix\u00f5es cegas, como o \u00f3dio, a avareza, a lux\u00faria, a vaidade egoc\u00eantrica&#8230; Princ\u00edpios \u00e9ticos t\u00e3o elementares quanto essenciais, como \u201cn\u00e3o fa\u00e7as aos outros o que n\u00e3o queres que te fa\u00e7am\u201d, ou os da inviolabilidade da vida humana, do respeito pela pessoa, do senso da justi\u00e7a e da responsabilidade compartilhada perdem cada vez mais seu espa\u00e7o para algo que se poderia qualificar como \u201cpragmatismo individualista sem princ\u00edpios\u201d. Se cada um elabora os referenciais para seu agir de acordo com os impulsos das paix\u00f5es, as conveni\u00eancias ou ganhos do momento, perdemos os referenciais comuns da conduta no conv\u00edvio social.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Chegamos a isso por muitos fatores, mas alguns me parecem importantes. A conduta reta, ou o seu contr\u00e1rio, depende da educa\u00e7\u00e3o; virtude e v\u00edcio t\u00eam mestres e curr\u00edculos pr\u00f3prios. Valores e princ\u00edpios s\u00e3o ensinados e apreendidos; e a intelig\u00eancia humana \u00e9 capaz de reconhec\u00ea-los, de distinguir entre o que \u00e9 bom e o que \u00e9 mau. Por sua vez, a consci\u00eancia pessoal e a vontade, quando bem esclarecidas e motivadas, inclinam-se para o bem e rejeitam o mal. A lei exterior, por si, \u00e9 constritiva, porque vem acompanhada pela amea\u00e7a, n\u00e3o muito eficaz, do castigo e da pena. Efic\u00e1cia maior da lei \u00e9 garantida pela ades\u00e3o interna e livre ao valor protegido por ela. \u00c9 a lei moral inscrita no cora\u00e7\u00e3o, da qual fala o fil\u00f3sofo Emanuel Kant. E j\u00e1 falava a B\u00edblia (cf Sl 37,31; Jr 31,33).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Creio que aqui h\u00e1 muito para se fazer. Sabemos que, atualmente, os tradicionais agentes de educa\u00e7\u00e3o, como a fam\u00edlia, a escola e as organiza\u00e7\u00f5es religiosas, est\u00e3o conseguindo fazer isso de maneira muito limitada e seu papel na educa\u00e7\u00e3o \u00e9 at\u00e9 dificultado, quando se dedicam a faz\u00ea-lo. Por outro lado, h\u00e1 uma progressiva desconstru\u00e7\u00e3o dos referenciais \u00e9ticos da conduta pessoal e coletiva. E contribuem para a eros\u00e3o dos valores e para a desorienta\u00e7\u00e3o da \u00e9tica no conv\u00edvio social a exalta\u00e7\u00e3o dos \u201cher\u00f3is bandidos\u201d e do \u201cvalent\u00e3o-mau-car\u00e1ter\u201d; a espetaculariza\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia, o mau exemplo que vem do alto, a impunidade, que leva a crer que o crime compensa; e tamb\u00e9m a explora\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica da corrup\u00e7\u00e3o dos costumes e a capitula\u00e7\u00e3o do poder constitu\u00eddo diante do crime organizado, que ganha muito dinheiro com o com\u00e9rcio letal da droga. O alastrar-se da viol\u00eancia gratuita \u00e9 uma conseq\u00fc\u00eancia natural.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><em>Artigo publicado em O ESTADO DE S\u00c3O PAULO, Ed. de 12.03.2011<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Card. Odilo P. 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