{"id":14359,"date":"2008-06-24T00:00:00","date_gmt":"2008-06-24T03:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/amazonia-que-temos-amazonia-que-queremos-2\/"},"modified":"2020-03-11T16:17:43","modified_gmt":"2020-03-11T19:17:43","slug":"amazonia-que-temos-amazonia-que-queremos-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/amazonia-que-temos-amazonia-que-queremos-2\/","title":{"rendered":"Amaz\u00f4nia que temos! Amaz\u00f4nia que queremos!"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify\">\n<p>A Amaz\u00f4nia para muitos ainda encerra o mito da terra liberta, sem males, pacifica e n\u00e3o subordinada \u00e0 l\u00f3gica capitalista e \u00e0s regras econ\u00f4micas <!--more--> liberais. O Brasil e o mundo, a n\u00e3o ser em curtos per\u00edodos hist\u00f3ricos, como o ciclo da borracha, caminharam ignorando a exist\u00eancia da Amaz\u00f4nia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Na solenidade da Ascens\u00e3o de Nosso Senhor, as Igrejas da Amaz\u00f4nia Oriental, reunidas no I Simp\u00f3sio sobre a Amaz\u00f4nia, sentem-se interpeladas para refletir sobre \u201ca Amaz\u00f4nia que temos e a Amaz\u00f4nia que queremos\u201d e se prop\u00f5em a testemunhar e anunciar o Evangelho da Vida, segundo o mandato de Jesus \u201cIde pelo mundo inteiro e anunciai a Boa Nova a toda criatura\u201d (Mc 16,15).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">A Amaz\u00f4nia que temos \u00e9 fruto do modelo de desenvolvimento alheio aos interesses do povo da regi\u00e3o. Sua inser\u00e7\u00e3o \u00e0 economia sempre ocorreu em condi\u00e7\u00f5es de subordina\u00e7\u00e3o e explora\u00e7\u00e3o. Os Planos de Desenvolvimento jamais consideraram a preserva\u00e7\u00e3o dos recursos naturais e as tradi\u00e7\u00f5es culturais dos povos da regi\u00e3o. O processo de ocupa\u00e7\u00e3o e explora\u00e7\u00e3o dilacerou a natureza e o homem amaz\u00f4nidas. Os grupos pol\u00edticos e econ\u00f4micos que criaram enclaves de desenvolvimento taparam os olhos diante dos vergonhosos enclaves de pobreza que proliferaram em sua volta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">A Amaz\u00f4nia que temos \u00e9 de muitos rostos. A diversidade cultural, as sociabilidades constru\u00eddas v\u00e3o desde a beira dos rios e o meio da floresta at\u00e9 aos centros e conglomerados de espig\u00f5es das suas metr\u00f3poles.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">A Amaz\u00f4nia que temos n\u00e3o abandonou as pr\u00e1ticas da hist\u00f3rica forma\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o brasileiro.\u00a0 Somente nos Estados do Par\u00e1 e Amazonas 58 milh\u00f5es de hectares de terra s\u00e3o oriundas da grilagem. O desmatamento atinge patamares nunca monitorados pelos sat\u00e9lites, colocando munic\u00edpios paraenses na lideran\u00e7a como \u00e9 o caso de S\u00e3o F\u00e9lix do Xingu, l\u00edder em desmatamento no Brasil, de trabalho escravo, de viol\u00eancia e de conflitos no campo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">A Amaz\u00f4nia que temos n\u00e3o abandonou as pr\u00e1ticas coronelistas. No Maraj\u00f3, a maior ilha fluvial do mundo, 80% das terras est\u00e3o concentradas nas m\u00e3os de poucas pessoas da velha oligarquia rural. Trabalho escravo, pirataria nas \u00e1guas, superexplora\u00e7\u00e3o do trabalho s\u00e3o realidades entre o povo marajoara. As condi\u00e7\u00f5es de vida s\u00e3o prec\u00e1rias. Crian\u00e7as morrem de fome em uma regi\u00e3o t\u00e3o rica em recursos naturais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">A Amaz\u00f4nia que temos tornou-se tristemente famosa pela viol\u00eancia, impunidade e os conflitos no campo e na cidade. Dos 772 assassinatos de trabalhadores rurais das \u00faltimas tr\u00eas d\u00e9cadas, em apenas tr\u00eas casos os mandantes dos crimes foram julgados: um deles cumpre a senten\u00e7a em pris\u00e3o domiciliar, os condenados de outros aguardam julgamento de recursos em liberdade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">A Amaz\u00f4nia que temos \u00e9 manchada com o sangue de seus m\u00e1rtires. O assassinato da Irm\u00e3 Dorothy Stang em 12 de fevereiro de 2005 chocou o Brasil e o mundo. A Irm\u00e3 de 73 anos, 40 deles dedicado ao Brasil e \u00e0 Amaz\u00f4nia, morreu porque defendia um paradigma de desenvolvimento baseado nas condi\u00e7\u00f5es de vida e tradi\u00e7\u00f5es culturais. Derramou seu sangue ao defender camponeses e os recursos da floresta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">A Amaz\u00f4nia que temos, com toda a sua riqueza tamb\u00e9m se esgota. A Amaz\u00f4nia Oriental \u00e9 a regi\u00e3o mais agredida pela explora\u00e7\u00e3o madeireira, pela pecu\u00e1ria, pela soja, pela minera\u00e7\u00e3o e pelo uso dos recursos h\u00eddricos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">A Amaz\u00f4nia que temos, saqueada e devastada, teve como principal agente impulsionador o Estado Brasileiro. O povo amaz\u00f4nida n\u00e3o \u00e9 consultado. O Estado permite que as pol\u00edticas neoliberais e capitalistas\u00a0 explorem todas as riquezas da regi\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">O povo da Amaz\u00f4nia sempre resistiu. A rapina ocorreu \u00e0 custa de muitos confrontos das comunidades tradicionais, (ribeirinhos, povos ind\u00edgenas, pescadores, extrativistas), do campesinato, do movimento social urbano. A Igreja na Amaz\u00f4nia se coloca decididamente ao lado dos pobres e exclu\u00eddos, daqueles que n\u00e3o t\u00eam voz nem vez, dos esquecidos e humilhados. As Comunidades Eclesiais de Base est\u00e3o na origem de muitos movimentos sociais, fomentando a resist\u00eancia dos povos dessa regi\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">A Amaz\u00f4nia que queremos deve preservar a hist\u00f3ria da resist\u00eancia negra, cabocla e ind\u00edgena, que coloca a pessoa humana e o mundo criado por Deus como centro e sujeito do desenvolvimento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">A Amaz\u00f4nia que queremos respeita os territ\u00f3rios ind\u00edgenas e quilombolas e exige a democratiza\u00e7\u00e3o da terra e dos espa\u00e7os urbanos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">A Amaz\u00f4nia que queremos gera emprego, disponibiliza moradia, zela pela educa\u00e7\u00e3o, sa\u00fade e condi\u00e7\u00f5es dignas de sobreviv\u00eancia para todos os seus filhos e filhas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">A Amaz\u00f4nia que queremos \u00e9 o cen\u00e1rio em que as Igrejas est\u00e3o abertas ao di\u00e1logo ecum\u00eanico e inter-religioso, onde valorizem a incultura\u00e7\u00e3o, a espiritualidade ecol\u00f3gica e as rela\u00e7\u00f5es de g\u00eanero.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Queremos uma Amaz\u00f4nia que seja verdadeiramente lar para seus povos!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Bel\u00e9m, 08 de maio de 2005.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Participantes do I Simp\u00f3sio Sobre Amaz\u00f4nia.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A Amaz\u00f4nia para muitos ainda encerra o mito da terra liberta, sem males, pacifica e n\u00e3o subordinada \u00e0 l\u00f3gica capitalista e \u00e0s regras econ\u00f4micas<\/p>\n","protected":false},"author":83,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":""},"categories":[925],"tags":[],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/posts\/14359"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/users\/83"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/comments?post=14359"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/posts\/14359\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/media?parent=14359"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/categories?post=14359"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/tags?post=14359"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}