{"id":15164,"date":"2012-06-05T00:00:00","date_gmt":"2012-06-05T03:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/se-eu-tivesse-uma-camera-digital\/"},"modified":"2012-06-05T00:00:00","modified_gmt":"2012-06-05T03:00:00","slug":"se-eu-tivesse-uma-camera-digital","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/se-eu-tivesse-uma-camera-digital\/","title":{"rendered":"Se eu tivesse uma c\u00e2mera digital&#8230;"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right\"><strong><span style=\"font-size: 12pt\">Dom Murilo S.R. Krieger<br \/>\nArcebispo de Salvador e Primaz do Brasil<\/span><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Antes que uma alma generosa, lendo o t\u00edtulo acima, se apresse em presentear-me com uma c\u00e2mera digital, vou logo me explicando: tenho uma, pequena e simples, que pouco faz al\u00e9m de tirar fotos de sobrinhos e de paisagens. O problema \u00e9 que n\u00e3o a levo comigo por a\u00ed. Se a levasse, teria, nos \u00faltimos tempos, registrado cenas bel\u00edssimas. Lembro algumas: Na Catedral, um garoto de quatro ou cinco anos estava sentado no ch\u00e3o. Sua m\u00e3e, ajoelhada, com o rosto entre as m\u00e3os, rezava. Pelo filho? Ou era uma ora\u00e7\u00e3o de agradecimento? Ou louvava o Senhor, simplesmente porque Ele \u00e9 seu Senhor? Tamb\u00e9m o garoto rezava, s\u00f3 que a seu modo: olhava para o altar do Sant\u00edssimo e parecia n\u00e3o pensar ou n\u00e3o dizer nada. Simplesmente olhava. Tenho certeza de que, naquela tarde de s\u00e1bado, todas as ora\u00e7\u00f5es que se elevaram ao Senhor foram de seu agrado. Mas alguma coisa que me diz que nenhuma lhe agradou tanto como a daquele garoto. Uma ora\u00e7\u00e3o feita de sil\u00eancio. Feita simplesmente de um olhar. Do olhar de uma crian\u00e7a.<\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Faltando alguns minutos para o in\u00edcio de uma reuni\u00e3o, uma jovem colocou as cadeiras em ordem, limpou a lousa e ajeitou as flores no vaso. Pouco depois, come\u00e7ou a reuni\u00e3o. Todos se sentiam bem, pois o ambiente era agrad\u00e1vel. Ningu\u00e9m soube quem o havia preparado. E era preciso?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Chovia. Os degraus n\u00e3o eram muitos, mas perigosos. Uma senhora idosa come\u00e7ou a desc\u00ea-los com dificuldade. Um senhor se aproximou dela, falou-lhe baixinho e, segurando-a pelo bra\u00e7o, ajudou-a a descer. Quando chegaram embaixo, ele voltou a falar-lhe e desapareceu na rua movimentada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">A enfermeira acabou de tomar a press\u00e3o de um doente e lhe disse, animadamente: \u201cTudo bem!\u201d Bem que ela queria saber em que pensava aquele senhor de olhar distante. Parecia indiferente a tudo. Quantos pacientes ela j\u00e1 havia atendido at\u00e9 \u00e0quela hora? Doze? Quinze? Vinte e cinco? N\u00e3o importava. Cada um era \u00fanico. Cada um exigia dela uma aten\u00e7\u00e3o especial. Dessa vez, n\u00e3o recebeu nem um \u201cObrigado\u201d. Esperava, contudo, que seu gesto levasse um pouco de alegria e paz ao cora\u00e7\u00e3o daquele homem fechado em seu mist\u00e9rio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">O bispo estrangeiro falava da realidade que enfrentava cada dia, em seu pobre pa\u00eds: falta de recursos econ\u00f4micos, doentes que o procuravam como \u00faltima esperan\u00e7a, estradas t\u00e3o esburacadas que ele nunca sabia se chegaria a tempo para a celebra\u00e7\u00e3o eucar\u00edstica, igrejas necessitadas de uma reforma, poucas pessoas para ajud\u00e1-lo em seu trabalho&#8230; Os olhares de seus colegas bispos, o carinho com que o ouviam e as perguntas que lhe faziam demonstravam o desejo de participar de seus problemas. Sensibilizado, o bispo agradeceu-lhes muito: tinha certeza de que, dali para a frente, mesmo distante, poderia contar com a amizade e a ora\u00e7\u00e3o de todos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Reunidos no audit\u00f3rio \u2013 nome um tanto grandioso para a sala daquele humilde asilo \u2013 os idosos ouviam atentos aquele que lhes falava. Estavam felizes. Nem se lembravam mais que, se fosse alguns meses ou anos antes, estariam numa das ruas da cidade. N\u00e3o se lembravam de quem os levou para o lugar em que estavam; n\u00e3o se lembravam nem que, at\u00e9 chegar ali, n\u00e3o tinham identidade, nem dignidade, nem amor. Agora estavam ali, e sorriam. Tinha-se a impress\u00e3o de que sempre estiveram ali. Se algu\u00e9m lhes falasse de anjos, n\u00e3o entenderiam que se trata de \u201ccriaturas puramente espirituais, n\u00e3o-corp\u00f3reas, invis\u00edveis e imortais\u201d. Anjos, para aqueles idosos, s\u00e3o quem os acompanha no dia a dia; quem lhes garante o p\u00e3o na mesa; quem os abra\u00e7a com carinho e lhes pergunta: \u201cComo vai, vov\u00f3? Como est\u00e1, vov\u00f4?\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Foram cenas de uma semana qualquer. Por que eu n\u00e3o tinha comigo uma c\u00e2mera digital para registr\u00e1-las? Por que n\u00e3o pude perenizar aqueles olhares, sorrisos e gestos? Mas ser\u00e1 que alguma foto conseguiria captar a riqueza daqueles momentos? Antes, n\u00e3o acabaria banalizando aquelas situa\u00e7\u00f5es? Foram cenas revestidas de um valor imenso porque espont\u00e2neas e simples. O que n\u00e3o se pode esquecer \u2013 e isso \u00e9 que \u00e9 importante! \u2013, \u00e9 que, aos olhos do Pai, nenhum daqueles momentos se perdeu. Est\u00e3o todos registrados no Livro da Vida, com fotos tais que fot\u00f3grafo algum conseguiria tirar.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dom Murilo S.R. 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