{"id":16959,"date":"2010-02-01T00:00:00","date_gmt":"2010-02-01T02:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/irma-rosangela-relata-drama-vivido-no-haiti-e-fala-da-perda-da-dro-zilda-arns\/"},"modified":"2010-02-01T00:00:00","modified_gmt":"2010-02-01T02:00:00","slug":"irma-rosangela-relata-drama-vivido-no-haiti-e-fala-da-perda-da-dro-zilda-arns","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/irma-rosangela-relata-drama-vivido-no-haiti-e-fala-da-perda-da-dro-zilda-arns\/","title":{"rendered":"Irm\u00e3 Ros\u00e2ngela relata drama vivido no Haiti e fala da perda da Dr\u00aa Zilda Arns"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify\">Durante a reuni\u00e3o da equipe de coordena\u00e7\u00e3o nacional das CEBs, realizada em Bras\u00edlia, de 28 a 31 de janeiro, a religiosa Ros\u00e2ngela Maria Alto\u00e9, da Congrega\u00e7\u00e3o Imaculada Concei\u00e7\u00e3o relatou sua experi\u00eancia vivida com o terremoto no Haiti, do qual saiu com vida. Irm\u00e3 Rosangela \u00e9 secret\u00e1ria internacional da Pastoral da Crian\u00e7a e estava com a Dr\u00aa Zilda Arns no momento da trag\u00e9dia. Leia a abaixo a entrevista.<\/p>\n<p>  <!--more-->  <\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><strong>Como a senhora descreve o terremoto?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Foi uma coisa de segundos. Aconteceu um estrondo muito grande e, a partir da\u00ed, o pr\u00e9dio come\u00e7ou a balan\u00e7ar e tudo come\u00e7ou a cair. Eu estava ao lado da Dr\u00aa Zilda. Ela conversava com o padre e nesse momento come\u00e7ou o estrondo, ela saiu correndo em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 escada. Foi a\u00ed que ela foi atingida e caiu. Eu ca\u00ed do outro lado, numa laje, e fui escorregando. Quando eu consegui um momento de equil\u00edbrio, fiquei em p\u00e9 e a parede que estava na minha frente caiu pra fora. Ent\u00e3o eu pulei e ca\u00ed em cima dos escombros. Fui tentando me salvar algumas pessoas ca\u00edam. Foi assim que consegui sobreviver. N\u00e3o tive tempo e n\u00e3o consegui olhar o que tinha acontecido com a Dr\u00aa Zilda. Quando me dei conta, tudo j\u00e1 estava no ch\u00e3o. Realmente foi um momento de pavor para toda popula\u00e7\u00e3o que estava ali. A gente viveu um grande medo. Foi uma situa\u00e7\u00e3o bastante apavoradora mesmo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><strong>Qual foi sua primeira a\u00e7\u00e3o? Tentar socorrer algu\u00e9m?<\/strong><\/p>\n<p>Em princ\u00edpio, quando fiquei em p\u00e9 em cima dos escombros eu vi debaixo de mim um rapaz. Ent\u00e3o, primeiro tentei pular, para ver se eu conseguia tirar a laje, mas eu n\u00e3o tinha for\u00e7as para mover aquilo, era muito pesado. Sa\u00ed para ver se ele conseguia empurrar dali ele mesmo. Gra\u00e7as a Deus o rapaz conseguiu for\u00e7as para sair. Depois eu fui procurar a doutora Zilda entre as pessoas que estavam na rua. Todos desesperados corriam de um lado para o outro. Eu n\u00e3o consegui enxergar a doutora Zilda Arns. Nesse momento aconteceu outro tremor de terras, a\u00ed eu tive muito medo. Os pr\u00e9dios come\u00e7aram a cair por cima dos sobreviventes na rua.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Foi um momento de extrema ang\u00fastia. A gente sabia que tinha pessoas soterradas; N\u00f3s ouv\u00edamos gritos das crian\u00e7as ao lado de uma escola que tinha ru\u00eddo. Eu me senti totalmente impotente para fazer qualquer coisa, at\u00e9 porque o tamanho dos escombros era muito grande e s\u00f3 podia ser removido com m\u00e1quinas. Realmente foi uma sensa\u00e7\u00e3o de total impot\u00eancia.<\/p>\n<p><strong>E os dias que voc\u00eas ficaram l\u00e1 antes de voltar ao Brasil?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Eu fiquei instalada na Base Militar a pedido do Tenente que comandava a base e tamb\u00e9m da Embaixatriz. Eu percebi que a cada momento iam chegando feridos para serem tratados nos hospitais da base. O que eu fiz nos dois dias seguintes que permaneci no Haiti foi ajudar a cuidar dos beb\u00eas das m\u00e3es feridas que chegavam na base. Fiz tudo o que era poss\u00edvel, pois n\u00e3o tenho nenhuma forma\u00e7\u00e3o de enfermagem. Havia muitos feridos, desde ferimentos leves at\u00e9 muito graves.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><strong>Voc\u00eas estavam no Haiti para criar a Pastoral da Crian\u00e7a? <\/strong><\/p>\n<p>N\u00f3s est\u00e1vamos l\u00e1 exatamente para essa primeira miss\u00e3o, que era estabelecer contatos com os religiosos. Foram eles que nos chamaram. Queriam que a Pastoral da Crian\u00e7a se estabelecesse por l\u00e1. A ideia era tamb\u00e9m conversar com o arcebispo, com organismos internacionais, como Unicef, Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade (OMS), Minist\u00e9rio da Sa\u00fade do Haiti, entre outros. A inten\u00e7\u00e3o era articular todas as pessoas com quem normalmente a Pastoral da Crian\u00e7a trabalha e desenvolve sua metodologia comunit\u00e1ria de f\u00e9 e vida. A gente conseguiu apenas fazer o primeiro contato, que foi com o N\u00fancio Apost\u00f3lico. A Dr\u00aa Zilda conversou por uma hora com ele depois da missa a qual ela participou e com esse grupo de religiosos. Ela nem chegou a proferir a palestra para a qual foi chamada que era para as confer\u00eancias religiosas nacionais caribenhas que estavam reunidas l\u00e1.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><strong>Como foi o seu retorno ao Brasil trazendo o corpo da Dr\u00aa Zilda? <\/strong><\/p>\n<p>Para mim foi uma experi\u00eancia bastante dura, at\u00e9 porque foi a primeira vez que eu sa\u00ed com a Dr\u00aa Zilda. Eu j\u00e1 havia sa\u00eddo do Brasil, em outros momentos, para encontros da Congrega\u00e7\u00e3o, mas com a Dr\u00aa Zilda, em miss\u00e3o da Pastoral da Crian\u00e7a, foi a primeira vez. Sair e voltar com ela morta pra mim foi muito duro. A gente nunca sai pensando que vai acontecer alguma coisa assim. Eu sa\u00ed muito feliz com ela para essa miss\u00e3o. Quando a gente estava no auge daqueles tremores, todo mundo gritava sem parar: \u201cDeus salva\u201d. Eles diziam em franc\u00eas, mas a gente ia acompanhando os gritos. Muitos deles rezavam alto. E eu fico pensando: \u00c9 o povo haitiano crucificado junto com Jesus! Acho que \u00e9 um processo de identifica\u00e7\u00e3o muito grande. A cena foi forte, ver tudo no ch\u00e3o e s\u00f3 o crucifixo ali de p\u00e9. Isso fala mais do que muitas palavras.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><strong>Como a senhora se sente hoje?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">N\u00e3o vou dizer que \u00e9 f\u00e1cil. Eu tenho muita f\u00e9; converso com Deus o tempo todo porque eu sei que Ele est\u00e1 dentro de mim. Ele me ilumina, \u00e9 minha fonte, \u00e9 minha luz e Ele me d\u00e1 for\u00e7a para eu ir superando a cada momento. Mas n\u00e3o d\u00e1 pra esquecer as imagens vividas; tudo aquilo que eu escutei naqueles dias. S\u00e3o imagens e sons que voltam o tempo todo. Elas v\u00eam como um filme e em muitos momentos provocam medo, pavor, aumento de press\u00e3o. Nesses momentos, volto a me colocar diante de Deus e conversar com Ele sobre toda essa situa\u00e7\u00e3o. \u00c9 a maneira que eu vou encontrando de superar e ao mesmo tempo de acolher e integrar tudo isso que veio de uma forma t\u00e3o inesperada na minha vida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><strong>Qual seria a melhor forma de ajudar o povo haitiano neste momento?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Eu acredito que tem muitas formas de ajuda. De imediato, precisa muito de pessoas que tenham conhecimento t\u00e9cnico para locomover escombros, ajudar no processo de reconstru\u00e7\u00e3o, atender os feridos. Acredito tamb\u00e9m que nesse momento \u00e9 importante ainda uma solidariedade financeira, doa\u00e7\u00e3o de roupa, comida, material de higiene porque eles n\u00e3o t\u00eam nada. Perderam tudo. Em longo prazo, seria importante e necess\u00e1ria a presen\u00e7a de pessoas que soubessem fazer um trabalho de escuta, porque as marcas s\u00e3o e ser\u00e3o muito fortes de agora em diante. Com certeza, mais do que nunca, agora ser\u00e1 necess\u00e1ria a implanta\u00e7\u00e3o da Pastoral da Crian\u00e7a. Se existe um povo que precisa de ajuda urgente, esse povo \u00e9 do Haiti.<\/p>\n<div style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-size: 10pt\"><em>Por Dirceu Beninc\u00e1, com colabora\u00e7\u00e3o de Gustavo de Almeida Silva<\/em><\/span><br \/><span style=\"font-size: 10pt\"><\/span><\/div>\n<p><span style=\"font-size: 10pt\"><em>Revista Miss\u00f5es<\/em><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Durante a reuni\u00e3o da equipe de coordena\u00e7\u00e3o nacional das CEBs, realizada em Bras\u00edlia, de 28 a 31 de janeiro, a religiosa Ros\u00e2ngela Maria Alto\u00e9, da Congrega\u00e7\u00e3o Imaculada Concei\u00e7\u00e3o relatou sua experi\u00eancia vivida com o terremoto no Haiti, do qual saiu com vida. 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