{"id":16994,"date":"2012-07-19T00:00:00","date_gmt":"2012-07-19T03:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/dom-leonardo-concede-entrevista-a-folha-de-sao-paulo\/"},"modified":"2012-07-19T00:00:00","modified_gmt":"2012-07-19T03:00:00","slug":"dom-leonardo-concede-entrevista-a-folha-de-sao-paulo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/dom-leonardo-concede-entrevista-a-folha-de-sao-paulo\/","title":{"rendered":"Dom Leonardo trata de temas relevantes para o Brasil em entrevista \u00e0 Folha de S\u00e3o Paulo"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify\">Secret\u00e1rio geral da CNBB, dom Leonardo Steiner, conversou, nesta quarta-feira, 18 de julho, com o jornalista da Folha de S\u00e3o Paulo e da TV UOL, Fernando Guimar\u00e3es sobre v\u00e1rios assuntos relevantes do momento pol\u00edtico e social que o Brasil se encontra. Confira a \u00edntegra da entrevista que foi publicada nesta quinta-feira pelo jornal paulista.<\/p>\n<div style=\"text-align: justify\"><\/div>\n<p><!--more--><\/p>\n<div style=\"text-align: justify\">\n<p>Leia abaixo transcri\u00e7\u00e3o da entrevista.<\/p>\n<p><strong>Narra\u00e7\u00e3o de abertura:<\/strong> Dom Leonardo Ulrich Steiner tem 61 anos. \u00c9 o secret\u00e1rio-geral da Confer\u00eancia Nacional dos Bispos do Brasil, a CNBB, e tamb\u00e9m \u00e9 bispo auxiliar de Bras\u00edlia. Dom Leonardo nasceu em Forquilhinha, em Santa Catarina. Entrou para a Igreja Cat\u00f3lica em 1972 na Ordem dos Frades Menores, fundada por S\u00e3o Francisco de Assis. Em 2005, dom Leonardo substituiu dom Pedro Casald\u00e1liga como bispo de S\u00e3o F\u00e9lix do Araguaia, no Mato Grosso. Em 2011 foi eleito secret\u00e1rio-geral da CNBB e mudou-se para Bras\u00edlia. Cabe a ele se pronunciar em nome da entidade. Em 2012, por conta das elei\u00e7\u00f5es, dom Leonardo dever\u00e1 emitir opini\u00f5es dos bispos sobre temas importantes para o mundo da pol\u00edtica.<\/p>\n<p><strong>Folha\/UOL:<\/strong> Ol\u00e1 internauta. Bem-vindo a mais um &#8220;Poder e Pol\u00edtica &#8211; Entrevista&#8221;.<\/p>\n<p>Este programa \u00e9 uma realiza\u00e7\u00e3o do jornal Folha de S.Paulo e do portal UOL. E a grava\u00e7\u00e3o \u00e9 sempre realizada aqui no est\u00fadio do Grupo Folha em Bras\u00edlia. O entrevistado desta edi\u00e7\u00e3o do Poder e Pol\u00edtica \u00e9 dom Leonardo Steiner, secret\u00e1rio-geral da CNBB.<\/p>\n<p><strong>Ol\u00e1, Dom Leonardo. Muito obrigado pela sua presen\u00e7a. Eu come\u00e7o perguntando sobre o dado do censo que foi divulgado recentemente a respeito da perda de fi\u00e9is da Igreja Cat\u00f3lica na \u00faltima d\u00e9cada. A Igreja Cat\u00f3lica perdeu, segundo o censo, 1 milh\u00e3o e 670 mil fi\u00e9is do ano 2000 at\u00e9 2010. Nesse per\u00edodo, em contrapartida, as igrejas evang\u00e9licas ganharam, aproximadamente, 16 milh\u00f5es de novos fi\u00e9is. Como o sr. e a CNBB avaliam esses dados?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Dom Leonardo:<\/strong> Em primeiro lugar, obrigado pelo convite e pela oportunidade de estar aqui com voc\u00eas e, ao mesmo tempo, estar em contato com tantos internautas. Que Deus aben\u00e7oe a todos voc\u00eas, o trabalho e o servi\u00e7o que prestam \u00e0 nossa sociedade, ao Brasil.<\/p>\n<p>N\u00f3s, em primeiro lugar, nos questionamos sobre o m\u00e9todo usado [pelo censo]. N\u00f3s n\u00e3o sabemos o m\u00e9todo da pesquisa e isso \u00e9 muito importante para n\u00f3s. Isso n\u00e3o quer dizer que n\u00e3o nos preocupamos com os dados que chegaram \u00e0s nossas m\u00e3os e que foram publicados. Os dados s\u00e3o importantes. Os dados mostram uma realidade. S\u00f3 gostar\u00edamos de poder ter mais elementos para podermos fazer uma boa an\u00e1lise. Que haja uma perda de fi\u00e9is n\u00e3o \u00e9 uma novidade. Se bem que tenha diminu\u00eddo muito, tenha diminu\u00eddo muito as sa\u00eddas. Por outro lado, n\u00f3s sabemos tamb\u00e9m que muitos que t\u00eam deixado a Igreja Cat\u00f3lica n\u00e3o s\u00e3o pessoas ativas dentro da Igreja Cat\u00f3lica. N\u00e3o s\u00e3o aquelas pessoas que participam ativamente das nossas comunidades, que participam das nossas celebra\u00e7\u00f5es, que participam dos servi\u00e7os dentro da Igreja. Por outro lado, n\u00f3s temos tamb\u00e9m o dado nosso, da nossa pesquisa.<\/p>\n<p><strong>Folha\/UOL: Qual \u00e9 ele?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Dom Leonardo:<\/strong> Do anu\u00e1rio cat\u00f3lico. Que ele tem mostrado o crescimento do n\u00famero de par\u00f3quias. Voc\u00ea s\u00f3 aumenta par\u00f3quias se h\u00e1 um aumento de fi\u00e9is. N\u00f3s temos um dado do IBGE em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 popula\u00e7\u00e3o brasileira. Mas o anu\u00e1rio cat\u00f3lico mostra que n\u00f3s temos tamb\u00e9m um aumento no n\u00famero de fi\u00e9is ligado aos filhos que v\u00eam, eles s\u00e3o batizados, eles participam da vida da Igreja. N\u00e3o s\u00f3 no n\u00famero de par\u00f3quias, mas n\u00f3s temos um aumento de dioceses. N\u00f3s fomos de 18 mil, em torno de 18 mil sacerdotes. E hoje n\u00f3s temos em torno de 22 mil.<\/p>\n<p><strong>Folha\/UOL: De quando para quando?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Dom Leonardo:<\/strong> Isso s\u00e3o agora, nos \u00faltimos quatro anos, essa mudan\u00e7a. Ela \u00e9 muito significativa.<\/p>\n<p><strong>Folha\/UOL: De 18 mil para 22 mil?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Dom Leonardo:<\/strong> 22 mil nos \u00faltimos dez anos. Esse \u00e9 um dado muito significativo. Ent\u00e3o, o que, digamos assim, preocupa mais a CNBB e a Igreja Cat\u00f3lica \u00e9 o n\u00famero de pessoas que se dizem sem religi\u00e3o. Isso preocupa mais. Isso porque algu\u00e9m que se diz sem religi\u00e3o, ele tem outra perspectiva, tem outro horizonte de leitura da pr\u00f3pria exist\u00eancia.<\/p>\n<p>E depois, tamb\u00e9m, a migra\u00e7\u00e3o que n\u00f3s sentimos de uma igreja evang\u00e9lica para outra, porque esse fen\u00f4meno n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 da Igreja Cat\u00f3lica, mas de todas as igrejas chamadas &#8220;hist\u00f3ricas&#8221;. Esse fen\u00f4meno de sa\u00edda. Mas, eu creio que isso tudo tem nos levado tamb\u00e9m a um esp\u00edrito mission\u00e1rio muito maior dentro da pr\u00f3pria Igreja Cat\u00f3lica.<\/p>\n<p><strong>Folha\/UOL: No caso do censo do IBGE, o sr. acredita que os n\u00fameros, pelo que o sr. est\u00e1 dizendo, possam n\u00e3o ser exatamente esses, \u00e9 isso?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Dom Leonardo:<\/strong> Porque n\u00e3o s\u00e3o todas as resid\u00eancias visitadas. N\u00f3s, da CNBB, n\u00e3o fomos visitados. Ent\u00e3o, n\u00f3s sabemos que se visita um determinado n\u00famero de resid\u00eancia e depois se faz um determinado c\u00e1lculo. Ent\u00e3o esse dado n\u00f3s gostar\u00edamos de ter em m\u00e3os para podermos ter, assim, isso at\u00e9 nos ajudaria muito na avalia\u00e7\u00e3o desses dados e mesmo, tamb\u00e9m, de como n\u00f3s&#8230; refletirmos, de como estudarmos e, mesmo talvez, como projetar alguma a\u00e7\u00e3o evangelizadora.<\/p>\n<p><strong>Folha\/UOL: Mas o sr. concebe que, de fato, deve ter ocorrido uma redu\u00e7\u00e3o do n\u00famero de fi\u00e9is da Igreja Cat\u00f3lica nesses \u00faltimos dez anos?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Dom Leonardo:<\/strong> Em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 popula\u00e7\u00e3o brasileira, sim.<\/p>\n<p><strong>Folha\/UOL: Foi a primeira vez a rigor&#8230; Porque o censo, \u00e9 claro que sempre h\u00e1 algumas resid\u00eancias que n\u00e3o s\u00e3o visitadas, \u00e9 uma pesquisa, \u00e9 um levantamento muito amplo. Foi a primeira vez que o censo apontou uma queda no n\u00famero de cat\u00f3licos no pa\u00eds. Ent\u00e3o, em certa medida, tem uma metodologia que vem sendo seguida h\u00e1 d\u00e9cadas e a expectativa, segundo os dados projetados pelo censo, \u00e9 que talvez em 20 ou 30 anos a maioria dos brasileiros tenha prefer\u00eancia pelas religi\u00f5es evang\u00e9licas. O sr. acredita que essa proje\u00e7\u00e3o \u00e9 correta?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Dom Leonardo:<\/strong> N\u00e3o acredito que isso aconte\u00e7a. N\u00f3s teremos o fen\u00f4meno, que n\u00f3s chamamos, muitas vezes, de um fen\u00f4meno europeu. N\u00f3s temos o fen\u00f4meno que alcan\u00e7a as grandes cidades no Brasil que \u00e9 o n\u00famero crescente de pessoas que se dizem sem religi\u00e3o. Esse \u00e9 um fen\u00f4meno, na Europa, marcante. A Igreja l\u00e1 tem refletido e tentado enfrentar essa quest\u00e3o. E n\u00f3s, certamente, no Brasil, cresceremos nessa linha. Mas eu sinto tamb\u00e9m que a CNBB, com as suas diretrizes de evangeliza\u00e7\u00e3o, foi a primeira confer\u00eancia episcopal a pensar uma estrat\u00e9gia, pensar diretrizes, pensar em um plano de pastoral. Ela tamb\u00e9m saber\u00e1 enfrentar esse momento e n\u00f3s temos tido, tivemos agora o terceiro Congresso Mission\u00e1rio em Palmas, semana passada, e foi impressionante a participa\u00e7\u00e3o dos leigos. Hoje, n\u00f3s temos no Brasil, gra\u00e7as \u00e0 Deus, uma igreja onde os leigos s\u00e3o muitos ativos. E os leigos se sentem protagonistas como mission\u00e1rios, como mission\u00e1rias, as visitas \u00e0s fam\u00edlias, a leitura da palavra de Deus. Ent\u00e3o n\u00e3o creio que, no futuro, a maioria seja evang\u00e9lica. N\u00f3s chegaremos a uma estabilidade. Mas o fen\u00f4meno europeu tamb\u00e9m chegar\u00e1 ao Brasil. N\u00f3s sabemos disso.<\/p>\n<p><strong>Folha\/UOL: Nos n\u00fameros aqui, de acordo sempre com o censo do IBGE, em 1980, 89% dos brasileiros se diziam cat\u00f3licos. Hoje seriam 64%. E os evang\u00e9licos hoje est\u00e3o, segundo censo sempre, com 22%. O sr. acredita que, ent\u00e3o, o sr. acabou de me dizer n\u00e3o deve haver \u00e9 esse avan\u00e7o daqueles que tem prefer\u00eancia pelas denomina\u00e7\u00f5es evang\u00e9licas? Acredita que agora h\u00e1 uma estabiliza\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Dom Leonardo:<\/strong> Nem mesmo porque, tamb\u00e9m, os dados tem mostrado que algumas dessas igrejas evang\u00e9licas j\u00e1 tem perdido um grande n\u00famero de pessoas tamb\u00e9m.<\/p>\n<p><strong>Folha\/UOL: Quais, o sr. diria, s\u00e3o as medidas principais que a Igreja Cat\u00f3lica toma, ou deveria tomar, para evitar que ocorra uma perda maior de fi\u00e9is?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Dom Leonardo:<\/strong> A preocupa\u00e7\u00e3o principal n\u00e3o deveria ser em termos de perda, de n\u00famero. N\u00f3s nos preocupamos n\u00e3o apenas com a perda de n\u00famero, mas com perda de pessoas. Quer dizer, se numa fam\u00edlia falta algu\u00e9m \u00e0 mesa, n\u00f3s sentimos falta. Eu creio que esse elemento dentro da Igreja Cat\u00f3lica deveria pesar muito. N\u00f3s batizamos. Eles fizeram parte da nossa comunidade, ao menos pelo batismo, muitas vezes tamb\u00e9m pela crisma e, depois, deixaram a mesa da fam\u00edlia onde nasceram. Ent\u00e3o isso nos preocupa. Mas eu penso que as \u00faltimas diretrizes da a\u00e7\u00e3o evangelizadora j\u00e1 indicam um pouco o caminho que n\u00f3s dever\u00edamos percorrer. Em primeiro lugar, l\u00e1 n\u00f3s elencamos cinco urg\u00eancias e a primeira urg\u00eancia colocada \u00e9 que n\u00f3s dever\u00edamos ser uma igreja mais mission\u00e1ria. Uma igreja que n\u00e3o pode mais ficar s\u00f3 esperando os seus fi\u00e9is. Uma igreja que precisa sair. Uma igreja que precisa ir ao encontro das pessoas. Uma igreja que visita as fam\u00edlias, Uma igreja que vai ao encontro das pessoas nos hospitais, nas pris\u00f5es. Uma igreja cada vez mais envolvida tamb\u00e9m com as pessoas de rua. As pastorais sociais terem mais for\u00e7a do que j\u00e1 tem. As nossas pastorais sociais tem uma for\u00e7a muito grande, mas creio que ainda poder\u00edamos ser muito mais engajados nesse sentido. E um elemento muito importante \u00e9, segundo a urg\u00eancia que \u00e9 ali colocada, \u00e9 a inicia\u00e7\u00e3o a vida crist\u00e3. Eu creio que n\u00f3s, como Igreja Cat\u00f3lica, prepar\u00e1vamos as pessoas para a primeira eucaristia, para a crisma. A t\u00f4nica colocada de n\u00e3o prepararmos para uma inicia\u00e7\u00e3o \u00e0 vida sacramental, mas \u00e0 vida crist\u00e3. O que significa, realmente, viver como viveu Jesus Cristo. O que significa dar testemunho de Jesus Cristo. O que significa anunciar o Reino de Deus. Eu creio que aqui n\u00f3s temos dois elementos muito importantes que nos ajudar\u00e3o no futuro a sermos uma igreja mais ativa e tamb\u00e9m, at\u00e9 diria assim, conforme n\u00f3s estamos celebrando os 50 anos do Conc\u00edlio, mas uma igreja, conforme o Conc\u00edlio, muito atuante dentro da realidade social em que n\u00f3s vivemos.<\/p>\n<p><strong>Folha\/UOL: Um aspecto muito vis\u00edvel da Igreja Cat\u00f3lica para a popula\u00e7\u00e3o geral tem sido a atua\u00e7\u00e3o dos chamados &#8220;padres cantores&#8221; ou &#8220;artistas&#8221; como F\u00e1bio de Melo, da Ordem do Sagrado Cora\u00e7\u00e3o, Marcelo Rossi, da Renova\u00e7\u00e3o Carism\u00e1tica. O sr. acha que eles contribuem para a inser\u00e7\u00e3o da Igreja Cat\u00f3lica na sociedade e, se sim, como?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Dom Leonardo:<\/strong> Eu n\u00e3o diria que seria uma inser\u00e7\u00e3o na sociedade. Ajuda a visibilizar, digamos assim, a Igreja Cat\u00f3lica. Ajuda a mostrar o rosto da Igreja Cat\u00f3lica no sentido de que um padre tamb\u00e9m pode ser cantor e, atrav\u00e9s do canto, levar a mensagem do Evangelho, testemunhar o Evangelho. Os padres, que \u00e0s vezes at\u00e9 chamamos de &#8220;padres midi\u00e1ticos&#8221;, eles ajudam a evangelizar celebrando nas comunidades. Muitos dos cantos deles s\u00e3o tamb\u00e9m cantados nas nossas comunidades. E tamb\u00e9m, digamos assim, certos momentos da Igreja em que existe um grande n\u00famero de pessoas reunidas. Eu n\u00e3o quero usar a palavra massa porque ela n\u00e3o \u00e9 conveniente nesse caso, porque \u00e9 sempre uma assembleia. Quando \u00e9 uma missa \u00e9 sempre uma assembleia que se re\u00fane, n\u00e3o \u00e9 uma massa, n\u00e3o \u00e9 um aglomerado, apenas, de pessoas. Isso tamb\u00e9m ajuda. S\u00e3o manifesta\u00e7\u00f5es p\u00fablicas que n\u00f3s somos uma Igreja. Uma manifesta\u00e7\u00e3o de um n\u00famero maior de pessoas, como no caso aqui de Bras\u00edlia que fizemos no Corpus Christi, na festa de Nossa Senhora de Aparecida. Isso visibiliza um pouco e tamb\u00e9m n\u00f3s sentimos que traz um \u00e2nimo para as pessoas que pertencem \u00e0 Igreja Cat\u00f3lica.<\/p>\n<p><strong>Folha\/UOL: Um aspecto do ponto de vista comportamental, social, sempre mencionado a respeito da Igreja Cat\u00f3lica \u00e9 que a sociedade vem demandando atitudes mais liberais e a Igreja Cat\u00f3lica tem seus dogmas, suas cren\u00e7as, suas posi\u00e7\u00f5es e n\u00e3o abre m\u00e3o delas. O sr. imagina que pode haver flexibiliza\u00e7\u00e3o no futuro ou a Igreja Cat\u00f3lica vai se manter ainda por muitos anos como sempre esteve a respeito de aborto, uso de contraceptivos e, por exemplo, casamento entre pessoas do mesmo sexo?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Dom Leonardo:<\/strong> A Igreja sempre tem procurado compreender a sua a\u00e7\u00e3o a partir do Evangelho. A Igreja, e a pr\u00f3pria CNBB, n\u00e3o tira da sua pr\u00f3pria cabe\u00e7a alguns elementos. Ela se deixa inspirar no Evangelho. O Evangelho sempre ser\u00e1 o Evangelho da vida. Ent\u00e3o, assuntos como, por exemplo, o aborto e a eutan\u00e1sia n\u00e3o t\u00eam como n\u00f3s voltarmos atr\u00e1s e fazermos concess\u00f5es. N\u00f3s temos a n\u00edtida sensa\u00e7\u00e3o que com o passar do tempo, todas essas quest\u00f5es que devagar querem fazer entrar, fazem com que o ser humano se torne descart\u00e1vel. Ent\u00e3o a finitude humana n\u00e3o quer mais ser abra\u00e7ada. A finitude humana significa tamb\u00e9m ter um filho excepcional, [o que] traz dificuldades. Ent\u00e3o n\u00f3s estamos muitas vezes assim, na propens\u00e3o hoje, do descarte de tudo aquilo que n\u00e3o \u00e9 do meu agrado, que n\u00e3o \u00e9 da minha concep\u00e7\u00e3o, que n\u00e3o facilita, digamos assim, as minhas rela\u00e7\u00f5es e, com isso, tamb\u00e9m, muitas vezes descartar essas dificuldades, essa finitude humana nos leva a viver de uma maneira que n\u00e3o matura. N\u00f3s sabemos pelo cristianismo e n\u00f3s pregamos tamb\u00e9m Jesus Cristo crucificado e ressuscitado que a finitude humana que nos matura como pessoas. Os embates da vida que nos maturam como pessoas. N\u00e3o \u00e9 uma vida que vamos levando de qualquer jeito que nos matura. Ent\u00e3o, esse debate, apesar de muitas vezes sermos acusados de n\u00e3o sermos modernos o suficiente, eu muitas vezes me pergunto: Que modernismo \u00e9 esse que come\u00e7a a descartar a pessoa humana, especialmente onde existe mais limite?<\/p>\n<p><strong>Folha\/UOL: Tem um aspecto espec\u00edfico que \u00e9 com rela\u00e7\u00e3o a contraceptivos, que antes eram s\u00f3 contraceptivos e hoje tamb\u00e9m s\u00e3o instrumentos de sa\u00fade p\u00fablica, sobretudo para grupos de risco de contrair Aids. Nesses casos dos contraceptivos qual \u00e9 a posi\u00e7\u00e3o atual da Igreja Cat\u00f3lica aqui no Brasil?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Dom Leonardo:<\/strong> N\u00f3s temos uma declara\u00e7\u00e3o muito importante do santo padre a respeito disso, falando da necessidade de saber distinguir de quando realmente existe o que voc\u00ea chama de grupo de risco. Ent\u00e3o esses contraceptivos seriam poss\u00edveis. O que a Igreja sempre defende \u00e9 que n\u00e3o se pode sempre usar contraceptivos sem mais e sem menos porque as rela\u00e7\u00f5es, elas precisam sempre estar abertas \u00e0 vida. Sempre abertas \u00e0 vida. E depois tamb\u00e9m muitas vezes os contraceptivos s\u00e3o colocados em rela\u00e7\u00e3o a uma n\u00e3o facilita\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es, sejam as rela\u00e7\u00f5es mais \u00edntimas, que s\u00e3o as rela\u00e7\u00f5es mais afetivas, como s\u00e3o as rela\u00e7\u00f5es sexuais. Elas tamb\u00e9m precisam de respeito, elas precisam tamb\u00e9m do seu tempo. Ent\u00e3o muitas vezes se quer facilitar o prazer simplesmente pelo prazer e \u00e0s vezes os contraceptivos v\u00e3o pouquinho nessa linha. Mas em rela\u00e7\u00e3o aos grupos de risco, no sentido do cuidado da pessoa humana, tem uma declara\u00e7\u00e3o do santo padre muito interessante. At\u00e9 se fez um alarde nos meios de comunica\u00e7\u00e3o dizendo que o papa agora seria a favor. Mas era justamente colocando essa quest\u00e3o da vida humana de novo, da sa\u00fade humana, da pessoa humana como um todo.<\/p>\n<p><strong>Folha\/UOL: Queria falar um pouco de pol\u00edtica com o sr. como tem sido a rela\u00e7\u00e3o da CNBB, da Igreja Cat\u00f3lica, com a presidente Dilma Rousseff?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Dom Leonardo:<\/strong> Uma rela\u00e7\u00e3o, diria, normal. Uma rela\u00e7\u00e3o de muita liberdade. A presidente tem nos dado muita liberdade de dizer o que pensamos. Isso \u00e9 sinal de maturidade. A CNBB n\u00e3o tem se furtado em levar ao governo os problemas. Tamb\u00e9m n\u00e3o tem se furtado de dizer o que pensa atrav\u00e9s das notas. Mas tamb\u00e9m, na interlocu\u00e7\u00e3o do governo, n\u00f3s temos procurado levar a quest\u00e3o, por exemplo, a quest\u00e3o ind\u00edgena, a quest\u00e3o da viol\u00eancia, a quest\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s fam\u00edlias, a quest\u00e3o dos jovens. Mas a presidente tem nos dado muita liberdade e creio que existe um respeito. E tamb\u00e9m da pr\u00f3pria presidente n\u00f3s sentimos um desejo de nos ouvir. Eu creio que \u00e9 uma rela\u00e7\u00e3o de respeito, uma rela\u00e7\u00e3o madura.<\/p>\n<p><strong>Folha\/UOL: O sr. assumiu seu posto na CNBB recentemente, em 2011. Mas seria poss\u00edvel comparar como era a rela\u00e7\u00e3o da Igreja Cat\u00f3lica com governos e presidentes anteriores? Se melhorou, piorou ou est\u00e1 igual?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Dom Leonardo:<\/strong> Eu n\u00e3o saberia fazer essa avalia\u00e7\u00e3o. Mas, a sensa\u00e7\u00e3o que eu tenho&#8230; Tamb\u00e9m n\u00e3o sou bispo h\u00e1 tempo, n\u00e9? Eu sou bispo, agora, h\u00e1 oito anos. A sensa\u00e7\u00e3o que eu tenho \u00e9 que os governos sempre procuraram ouvir a CNBB. E a CNBB nunca se furtou de levar ao governo as quest\u00f5es das popula\u00e7\u00f5es, sejam elas ind\u00edgenas, dos quilombolas, dos ribeirinhos. Mas h\u00e1 outras quest\u00f5es tamb\u00e9m sociais que dizem a respeito da popula\u00e7\u00e3o brasileira. E \u00e0s vezes at\u00e9 com notas que alguns consideram um pouco duras. Mas faz parte. Eu tenho a impress\u00e3o que no per\u00edodo que estamos vivendo de democracia, os governos tem procurado ouvir. Naturalmente, n\u00f3s sentimos tamb\u00e9m, n\u00e3o quer dizer isso no primeiro escal\u00e3o, mas temos sentido tamb\u00e9m alguma dificuldade de rela\u00e7\u00e3o, dada a quest\u00e3o que se chama, tem se dado o nome de &#8220;o Estado laico&#8221;. Dizer que a Igreja n\u00e3o deve interferir em determinados&#8230;<\/p>\n<p><strong>Folha\/UOL: O sr. tem sentido uma dificuldade de que ordem?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Dom Leonardo:<\/strong> \u00c0s vezes, a n\u00edvel, por exemplo, de participa\u00e7\u00e3o nossa nos conselhos. O sr. sabe que a CNBB participa em diversos conselhos, tem seus representantes, por exemplo, na [\u00e1rea da] sa\u00fade n\u00f3s temos representante, a CNBB tem representante. E nem sempre aquilo que n\u00f3s n\u00e3o estamos l\u00e1 para fazer uma prega\u00e7\u00e3o, digamos assim. A nossa participa\u00e7\u00e3o como CNBB, \u00e9 claro, a partir dos princ\u00edpios do Evangelho, \u00e9 ajudarmos a melhorar a sa\u00fade da popula\u00e7\u00e3o, melhorar a seguran\u00e7a da popula\u00e7\u00e3o, darmos uma assist\u00eancia maior.<\/p>\n<p><strong>Folha\/UOL: Mas h\u00e1 algum impedimento para que a CNBB participe?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Dom Leonardo:<\/strong> Existe uma esp\u00e9cie de resist\u00eancia, sim. De que n\u00e3o \u00e9 muito tarefa religiosa ou uma tarefa da Igreja.<\/p>\n<p><strong>Folha\/UOL: Isso, por parte, o sr. est\u00e1 dizendo, o sr. citou o caso da sa\u00fade. No caso do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade, seria?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Dom Leonardo:<\/strong> N\u00e3o. No Minist\u00e9rio da Sa\u00fade, gra\u00e7as a Deus, somos muito bem recebidos.<\/p>\n<p><strong>Folha\/UOL: Seriam em alguns conselhos, \u00e9 isso?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Dom Leonardo:<\/strong> Em um ou outro conselho.<\/p>\n<p><strong>Folha\/UOL: O sr. poderia citar especificamente?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Dom Leonardo:<\/strong> Isso n\u00e3o \u00e9 muito conveniente [risos]..<\/p>\n<p><strong>Folha\/UOL: Mas tem havido isso?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Dom Leonardo:<\/strong> Eu sinto isso. Eu sinto uma certa resist\u00eancia, sim.<\/p>\n<p><strong>Folha\/UOL: Isso seria o qu\u00ea? Do governo como um todo?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Dom Leonardo:<\/strong> N\u00e3o, n\u00e3o sinto que seja do governo porque a interlocu\u00e7\u00e3o que temos tido com os srs. ministros tem sido muito positiva. Nenhum ministro se recusou a me receber, por exemplo, quando eu pedi audi\u00eancia. E mesmo n\u00f3s temos ministros que t\u00eam vindo aos encontros, \u00e0s reuni\u00f5es da CNBB para debater.<\/p>\n<p><strong>Folha\/UOL: Ser\u00e1 que a CNBB n\u00e3o deixou passar muito tempo em rela\u00e7\u00e3o a ter uma presen\u00e7a mais marcante na pol\u00edtica. Por que eu pergunto isso? Algumas igrejas apressaram-se e hoje t\u00eam partidos que s\u00e3o muito relacionados a elas, sobretudo as igrejas evang\u00e9licas. \u00c9 not\u00f3ria, por exemplo, a liga\u00e7\u00e3o da Igreja Universal do Reino de Deus com o partido PRB [Partido Republicano Brasileiro], uma rela\u00e7\u00e3o muito pr\u00f3xima, s\u00e3o muito ligados. Agora apareceu um novo partido, o 30\u00ba que \u00e9 o Partido Ecol\u00f3gico Nacional e que tamb\u00e9m tem uma rela\u00e7\u00e3o pr\u00f3xima com uma igreja. A CNBB e Igreja Cat\u00f3lica deveriam ter uma atua\u00e7\u00e3o mais direta na pol\u00edtica, na sua opini\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Dom Leonardo:<\/strong> N\u00f3s temos uma atua\u00e7\u00e3o muito pol\u00edtica. N\u00f3s temos na CNBB, inclusive, uma Escola de F\u00e9 e Pol\u00edtica para prepararmos os leigos. Agora, a CNBB nunca vai querer fundar um partido. N\u00f3s acreditamos que nossos irm\u00e3os que professam o Evangelho, que aceitam o Evangelho e que vivem na Igreja Cat\u00f3lica, eles ser\u00e3o as pessoas que podem levar ao Congresso Nacional e mesmo em outras inst\u00e2ncias no Judici\u00e1rio, por exemplo. Tamb\u00e9m, n\u00f3s temos muitas pessoas que s\u00e3o da Igreja Cat\u00f3lica e defendem os princ\u00edpios. N\u00f3s pensamos muito mais nesse tipo de presen\u00e7a do que de partido pol\u00edtico. Partido pol\u00edtico come\u00e7a muitas vezes a reivindicar para si alguns elementos. Eu penso que o Evangelho \u00e9 muito mais abrangente do que um partido pol\u00edtico. A Igreja Cat\u00f3lica \u00e9 muito mais abrangente. Ela poderia, como partido pol\u00edtico, come\u00e7ar a trabalhar em benef\u00edcio de si mesma ou CNBB em benef\u00edcio de si mesma, direito para si mesma.<\/p>\n<p><strong>Folha\/UOL: O sr. acha que isso ocorre, talvez, com esses outros partidos?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Dom Leonardo:<\/strong> Eu n\u00e3o poderia fazer essa an\u00e1lise, mas \u00e0s vezes, dada uma ou outra declara\u00e7\u00e3o, temos um pouco essa impress\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Folha\/UOL: Recentemente houve uma pol\u00eamica sobre uma proposta que o Governo teria de vetar o aluguel de espa\u00e7o em emissoras de televis\u00e3o. Esse aluguel de espa\u00e7o que \u00e9, em geral, muito usado por v\u00e1rias igrejas. As igrejas evang\u00e9licas protestaram. Para a Igreja Cat\u00f3lica faria alguma diferen\u00e7a?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Dom Leonardo:<\/strong> N\u00f3s n\u00e3o protestamos assim como fizeram as igrejas evang\u00e9licas, mas tamb\u00e9m demonstramos a nossa posi\u00e7\u00e3o. Quer dizer, n\u00f3s temos essas emissoras, elas s\u00e3o estatais, mas n\u00f3s n\u00e3o podemos esquecer que elas s\u00e3o da sociedade. O que \u00e9 um Estado? O Estado, pelo Estado, n\u00e3o existe. O Estado s\u00f3 existe porque existem pessoas. Quer dizer, o Estado existe porque existe uma popula\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o essa vontade de querer garantir ao Estado est\u00e1 garantindo a quem, de novo? Est\u00e1, \u00e0s vezes, a um determinado grupo que pensa o Estado daquela forma. Ent\u00e3o, nesse sentido que n\u00f3s tamb\u00e9m acabamos nos pronunciando, nos manifestando n\u00e3o assim, publicamente, com essa veem\u00eancia toda.<\/p>\n<p><strong>Folha\/UOL: Dom Leonardo, e essas elei\u00e7\u00f5es municipais deste ano 2012 que ocorrem agora em outubro? A CNBB planeja se manifestar de alguma forma a respeito de como os seus fi\u00e9is devem atuar nessas elei\u00e7\u00f5es?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Dom Leonardo:<\/strong> N\u00f3s j\u00e1 nos manifestamos na nossa assembleia celebrada em Aparecida [SP]. N\u00f3s emitimos uma nota at\u00e9 bastante longa e temos tamb\u00e9m um pequeno subs\u00eddio de orienta\u00e7\u00e3o que n\u00e3o foi publicado diretamente pela CNBB mas pela Escola de F\u00e9 e Pol\u00edtica da CNBB.<\/p>\n<p><strong>Folha\/UOL: Como o sr. resumiria a diretriz da CNBB a respeito das elei\u00e7\u00f5es municipais deste ano?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Dom Leonardo:<\/strong> Votem em ficha limpa. Votem em ficha limpa. Foi uma longa batalha, na qual a CNBB se engajou, a Igreja toda se engajou, tantos seguimentos da sociedade se engajaram. Diversos organismos se engajaram. N\u00f3s n\u00e3o podemos voltar atr\u00e1s, n\u00f3s sabemos que as elei\u00e7\u00f5es municipais, elas s\u00e3o sempre mais tensas, s\u00e3o mais localizadas, elas s\u00e3o naquele \u00e2mbito mais familiar, mais pr\u00f3ximo. Ent\u00e3o normalmente as elei\u00e7\u00f5es municipais elas s\u00e3o mais disputadas, s\u00e3o mais tensas e tamb\u00e9m por nossa parte existe o desejo de darmos uma orienta\u00e7\u00e3o da boa escolha daqueles que h\u00e3o de cuidar do munic\u00edpio, h\u00e3o de cuidar da nossa cidade.<\/p>\n<p><strong>Folha\/UOL: Embora sejam elei\u00e7\u00f5es municipais, \u00e0s vezes aparecem temas nacionais nessas elei\u00e7\u00f5es. Temas como, por exemplo, surgiram na elei\u00e7\u00e3o passada, que era mais ampla: aborto, casamento entre pessoas do mesmo sexo devem fazer parte tamb\u00e9m do debate das elei\u00e7\u00f5es municipais?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Dom Leonardo:<\/strong> Deve fazer parte do debate das elei\u00e7\u00f5es municipais sempre aquilo que diz respeito \u00e0 pessoa humana, ao direito da pessoa humana, ao cuidado da pessoa humana. Isso sempre deve entrar. Deve entrar no debate tamb\u00e9m o respeito \u00e0 pessoa humana, ent\u00e3o [deve entrar] a quest\u00e3o da corrup\u00e7\u00e3o. A quest\u00e3o da ficha limpa. Inclusive, \u00e9 um desejo do Tribunal Eleitoral [do Tribunal Superior Eleitoral] fazermos um trabalho em conjunto neste ano alertando a popula\u00e7\u00e3o para que realmente vote bem, n\u00e3o deixe comprar o seu voto, que \u00e9 um elemento importante, n\u00e3o deixar comprar o voto. N\u00e3o vender o voto. [N\u00e3o] vender a dignidade. Esses elementos, porque dizem respeito \u00e0 pessoa humana, sempre ter\u00e3o que entrar no debate [das elei\u00e7\u00f5es].<\/p>\n<p><strong>Folha\/UOL: \u00c9 leg\u00edtimo que um candidato a prefeito de uma cidade tamb\u00e9m apresente como tema de discuss\u00e3o, se ele ou seus advers\u00e1rios, t\u00eam posi\u00e7\u00f5es a respeito de liberalizar o aborto, por exemplo?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Dom Leonardo:<\/strong> Sempre o debate ele tem que ser livre. As pessoas podem e devem ter o direito de expressar suas concep\u00e7\u00f5es. O que infelizmente acontece muitas vezes \u00e9 que os candidatos realmente n\u00e3o expressam suas posi\u00e7\u00f5es e concep\u00e7\u00f5es, o que n\u00e3o ajuda o eleitor. O que n\u00e3o ajuda o eleitor. Ajuda muito o eleitor quando ele coloca as quest\u00f5es, se ele coloca a quest\u00e3o do aborto, se ele coloca a quest\u00e3o da corrup\u00e7\u00e3o. Mas n\u00e3o s\u00f3 para o momento para angariar voto, mas como uma quest\u00e3o realmente pol\u00edtica, como o cuidado pela cidade&#8230; A palavra &#8220;polis&#8221; do grego, pol\u00edtica. Esse cuidado pela popula\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o eu penso que seria muito positivo que os candidatos colocassem tamb\u00e9m as suas ideias quanto a isso, e os eleitores, ao menos os cat\u00f3licos, sabem [quais s\u00e3o] as orienta\u00e7\u00f5es dadas pelos bispos, pela Igreja Cat\u00f3lica.<\/p>\n<p><strong>Folha\/UOL: Em 2010 foi um debate muito acalorado a respeito de temas como esse na disputa presidencial. A ent\u00e3o candidata Dilma Rousseff, agora presidente da Rep\u00fablica, se manifestou, fez compromissos com grupos religiosos, inclusive com a Igreja Cat\u00f3lica. Ao longo do governo dela agora, que j\u00e1 tem mais de um ano e meio, alguns grupos religiosos acham que ela n\u00e3o est\u00e1 seguindo exatamente aquilo que prometeu durante a campanha. Qual \u00e9 a sua opini\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Dom Leonardo:<\/strong> Abertamente, n\u00e3o tem aparecido essa quest\u00e3o. Ela [a presidente] n\u00e3o tem se pronunciado abertamente. Naturalmente, a CNBB estranhou quando foi nomeada a ministra para os&#8230;<\/p>\n<p><strong>Folha\/UOL: Secretaria Especial das Mulheres. Eleonora Menicucci.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Dom Leonardo:<\/strong> Isso. N\u00f3s estranhamos. Houve, inclusive, manifesta\u00e7\u00e3o de um ou outro bispo. N\u00f3s, como CNBB, nos manifestamos atrav\u00e9s de uma carta dirigida \u00e0 presidente. Em p\u00fablico, n\u00e3o tem aparecido. O que tem aparecido \u00e9 o que foi decidido agora pelo Supremo [Supremo Tribunal Federal] da quest\u00e3o dos anenc\u00e9falos. E est\u00e1 parecendo essa quest\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o ao C\u00f3digo Penal. Ent\u00e3o n\u00f3s continuaremos a nos manifestar como CNBB como sempre nos manifestamos a favor da vida. No futuro, muito no futuro, certamente haver\u00e3o de reconhecer de que a CNBB defendeu aquilo que \u00e9 de mais precioso: a pessoa humana desde o in\u00edcio at\u00e9 ao fim.<\/p>\n<p><strong>Folha\/UOL: Sobre a atua\u00e7\u00e3o espec\u00edfica da presidente Dilma Rousseff. Ela deveria ser mais proativa a respeito desses temas e ter uma posi\u00e7\u00e3o mais conhecida? Uma a\u00e7\u00e3o mais espec\u00edfica?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Dom Leonardo:<\/strong> Talvez n\u00f3s gostar\u00edamos que assim fosse. Agora, n\u00e3o sei se a tarefa de algu\u00e9m que hoje est\u00e1 \u00e0 frente da na\u00e7\u00e3o brasileira, como governo, como presidente est\u00e1 se manifestando muito a respeito porque ela \u00e9 presidente de toda uma popula\u00e7\u00e3o. Ela \u00e9 a presidente do Brasil. E n\u00f3s sabemos da diversidade de pensamentos que existem. Ent\u00e3o, o que n\u00f3s podemos dizer das conversas que tivemos com ela \u00e9 de um respeito muito grande pela vida. E n\u00f3s sabemos tamb\u00e9m que, internamente, do governo tamb\u00e9m existem as tens\u00f5es que s\u00e3o normais.<\/p>\n<p><strong>Folha\/UOL: O sr. mencionou a decis\u00e3o recente do Supremo Tribunal Federal autorizando a pr\u00e1tica do aborto quando h\u00e1 comprova\u00e7\u00e3o de fetos anenc\u00e9falos. O Supremo Tribunal Federal tomou uma boa decis\u00e3o nesse caso?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Dom Leonardo:<\/strong> N\u00f3s tivemos a n\u00edtida sensa\u00e7\u00e3o de que come\u00e7amos a descartar a pessoa humana. E creio que tamb\u00e9m o enfoque dado n\u00e3o foi um enfoque muito coerente. Por exemplo, de achar que essas crian\u00e7as j\u00e1 est\u00e3o mortas no \u00fatero materno. Naturalmente, quando a crian\u00e7a morreu no \u00fatero materno n\u00f3s n\u00e3o estamos falando em aborto. N\u00f3s s\u00f3 estamos falando em aborto quando a crian\u00e7a \u00e9 viva, ela est\u00e1 viva. E n\u00f3s temos experi\u00eancias muito interessantes de que depois mesmo do parto ainda sobrevivem um determinado tempo. N\u00f3s j\u00e1 nos pronunciamos a esse respeito e, inclusive, nos manifestamos em nota e tamb\u00e9m j\u00e1 estivemos com alguns dos ministros onde depois conversamos com muita liberdade sobre o assunto, com muito respeito.<\/p>\n<p><strong>Folha\/UOL: C\u00f3digo florestal: o governo tem, de acordo com a sua compreens\u00e3o, atuado de maneira correta na condu\u00e7\u00e3o da aprova\u00e7\u00e3o do C\u00f3digo Florestal no Congresso?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Dom Leonardo:<\/strong> Pessoalmente, eu esperava mais do governo. Naturalmente, o jogo pol\u00edtico no Congresso n\u00e3o \u00e9 simples. As for\u00e7as que ali dentro est\u00e3o&#8230; N\u00e3o \u00e9 t\u00e3o simples. Mas n\u00f3s, como, CNBB n\u00f3s gostar\u00edamos que, realmente, n\u00f3s tiv\u00e9ssemos um C\u00f3digo Florestal.<\/p>\n<p>C\u00f3digo significa um modo de relacionamento com a natureza. N\u00f3s teremos leis, mas elas n\u00e3o garantem o nosso futuro. E o pior, no meu modo de ver, n\u00e3o garantem uma rela\u00e7\u00e3o nova, efetiva, equilibrada com a natureza. Ent\u00e3o, a sensa\u00e7\u00e3o que temos agora, ainda existem muitas discuss\u00f5es, de que provavelmente a proposta do Governo, que foi uma proposta, assim, tentando manter um determinado equil\u00edbrio deve passar, ao menos no Senado. Mas, o C\u00f3digo como est\u00e1, no meu modo pessoal de ver, agora eu n\u00e3o quero fazer nenhuma afirma\u00e7\u00e3o em nome da CNBB, \u00e9 insuficiente para o nosso futuro.<\/p>\n<p><strong>Folha\/UOL: No ano que vem, haver\u00e1 Jornada Mundial da Juventude, que ser\u00e1 no Rio de Janeiro com a presen\u00e7a, inclusive, do Papa Bento XVI. O Brasil est\u00e1 preparado para receber a Jornada Mundial da Juventude, do ponto de vista da infraestrutura do Rio para receber um evento desse porte?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Dom Leonardo:<\/strong> Ainda n\u00e3o est\u00e1 preparada.<\/p>\n<p><strong>Folha\/UOL: O que est\u00e1 faltando?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Dom Leonardo:<\/strong> Est\u00e1 faltando&#8230; Agora j\u00e1 temos a decis\u00e3o de onde ser\u00e1 a vig\u00edlia com o santo padre e tamb\u00e9m a missa com o santo padre. J\u00e1 est\u00e1 decidido. Precisa agora \u00e9 criar toda a infraestrutura do local. J\u00e1 come\u00e7amos agora no m\u00eas de julho as inscri\u00e7\u00f5es. Os grupos j\u00e1 podem se inscrever. S\u00f3 podem se inscrever grupos vindos dos outros pa\u00edses e tamb\u00e9m do Brasil. O que j\u00e1 est\u00e1 bastante bem organizado \u00e9 a peregrina\u00e7\u00e3o da cruz, que tamb\u00e9m faz parte do \u00edcone de Nossa Senhora, que faz parte da jornada. J\u00e1 est\u00e1 caminhando, j\u00e1 h\u00e1 meses, desde o ano passado. Caminhando bastante bem. Bastante bem n\u00e3o, est\u00e1 caminhando muito bem. O Rio de Janeiro e a Arquidiocese do Rio de Janeiro t\u00eam feito um esfor\u00e7o muito grande de organizar no Rio de Janeiro porque ser\u00e1 organiza\u00e7\u00e3o de hospedagem, de recep\u00e7\u00e3o, de transporte. O di\u00e1logo entre a diocese do Rio de Janeiro, a Arquidiocese do Rio, o governo estadual e a prefeitura caminha bem. Tamb\u00e9m com o Governo Federal. Mas ainda existem alguns gargalos, principalmente em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 infraestrutura, por exemplo, do meio de transporte do Rio at\u00e9 Santa Cruz, onde ser\u00e1 a celebra\u00e7\u00e3o. Naturalmente os jovens andar\u00e3o alguns quil\u00f4metros porque faz parte. A ideia \u00e9, realmente, de ser uma peregrina\u00e7\u00e3o. N\u00e3o s\u00f3 uma festa, um encontro. Creio que estamos caminhando muito bem, mas ainda faltam alguns elementos. Mas n\u00f3s ainda temos um tempo.<\/p>\n<p><strong>Folha\/UOL: Isso depende dos governos locais do Rio e da prefeitura do Rio, \u00e9 isso?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Dom Leonardo:<\/strong> Mas tamb\u00e9m de ajuda do Governo Federal. N\u00f3s sabemos que para Olimp\u00edada e Copa do Mundo nenhum governo estadual ou municipal dar\u00e1 conta, assim tamb\u00e9m [\u00e9] em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 Jornada.<\/p>\n<p><strong>Folha\/UOL: Dom Leonardo Steiner, muito obrigado pela sua entrevista \u00e0 Folha de S.Paulo e ao UOL.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Dom Leonardo:<\/strong> Eu que agrade\u00e7o a oportunidade e um bom trabalho.<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Secret\u00e1rio geral da CNBB, dom Leonardo Steiner, conversou, nesta quarta-feira, 18 de julho, com o jornalista da Folha de S\u00e3o Paulo e da TV UOL, Fernando Guimar\u00e3es sobre v\u00e1rios assuntos relevantes do momento pol\u00edtico e social que o Brasil se encontra. Confira a \u00edntegra da entrevista que foi publicada nesta quinta-feira pelo jornal paulista.<\/p>\n","protected":false},"author":83,"featured_media":16995,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":""},"categories":[869],"tags":[],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/posts\/16994"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/users\/83"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/comments?post=16994"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/posts\/16994\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/media\/16995"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/media?parent=16994"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/categories?post=16994"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/tags?post=16994"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}