{"id":234753,"date":"2020-03-09T11:53:03","date_gmt":"2020-03-09T14:53:03","guid":{"rendered":"http:\/\/www.cnbb.org.br\/?p=234753"},"modified":"2020-09-08T14:11:19","modified_gmt":"2020-09-08T17:11:19","slug":"o-meu-problema-sao-as-mulheres","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/o-meu-problema-sao-as-mulheres\/","title":{"rendered":"O meu problema s\u00e3o as mulheres"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right\"><strong>Dom Pedro Brito Guimar\u00e3es,<\/strong><br \/>\n<strong>Arcebispo de Palmas (TO)<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Sou testemunha ocular de que o papa Francisco ama, com imenso amor, as mulheres. E quem n\u00e3o as ama? Ele, no entanto, as ama com um amor preferencial e diferenciado. Durante o S\u00ednodo para a Amaz\u00f4nia, sempre assediado pelas 46 mulheres que dele participaram, sobretudo, nas horas das fotografias, disse, verbalmente: \u201co meu problema s\u00e3o as mulheres!\u201d Este \u00e9 o problema de todos n\u00f3s, homens. \u201cProblema\u201d aqui \u00e9 usado no sentido positivo e carinhoso e n\u00e3o pejorativamente. Se assim n\u00e3o fosse, a culpa recairia sempre sobre as mulheres. E n\u00e3o \u00e9 bem assim. Quem dera se, de fato, os problemas do papa fossem as mulheres.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">No referido S\u00ednodo, as mulheres tiveram um papel in\u00e9dito, na hist\u00f3ria passada e recente da Igreja. Nunca, como antes, se destacou com tanta propriedade e sem emotividade, o lugar delas na Igreja. Num mundo, como o nosso, cada vez mais desflorestado, as mulheres das florestas amaz\u00f4nicas reflorestaram e \u201camazonizaram\u201d os espa\u00e7os e os ambientes sagrados do S\u00ednodo para a Amaz\u00f4nia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">O cen\u00e1rio do S\u00ednodo mudou completamente com as presen\u00e7as dessas mulheres. Elas trouxeram cores, vozes, cantos, vestimentas, alegria e vida aos ambientes e aos espa\u00e7os sinodais. Suas vozes, suas vestes, suas cores e seus carismas ressoaram na Aula Sinodal como um unguento e um b\u00e1lsamo, suavizando e perfumando os rostos, as vozes e as almas dos padres sinodais. Seus pedidos se fizeram ouvir. Uma auditora fez este pedido ao papa: \u201csanto padre, vejo que aqui no Vaticano tem muitos padres. Mande-os para a Amaz\u00f4nia!\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Conviver com elas foi uma del\u00edcia; ouvi-las, ainda mais. Disse uma outra auditora: \u201co papa acredita na gente\u201d. Na Igreja, a minha voz, como as vozes das mulheres n\u00e3o s\u00e3o t\u00e3o fortes e nem tamb\u00e9m bem ouvidas como a voz do papa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">A pr\u00f3pria palavra \u201cAmaz\u00f4nia\u201d &#8211; palavra feminina &#8211; d\u00e1 nome ao imenso ber\u00e7o e santu\u00e1rio da vida. Amaz\u00f4nia tem nome de mulher. A Amaz\u00f4nia \u00e9 a par\u00e1bola do sonho eclesial do papa Francisco. As amazonas s\u00e3o fotografadas como mulheres guerreiras, com roupas longas, coloridas e vistosas, montadas em seus cavalos, com aljavas nas m\u00e3os, com suas for\u00e7as e seus dons, combatendo os conquistadores ib\u00e9ricos, na \u00e9poca da coloniza\u00e7\u00e3o. Trata-se, pois, de uma lenda, de uma alegoria, de um press\u00e1gio ou de uma profecia? Ser\u00e1 que as amazonas do passado traduzem bem as lutas das mulheres amaz\u00f4nidas do presente?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">De qualquer maneira, suas vozes hoje s\u00e3o clamores prof\u00e9ticos. E o que ficou, de registro, das presen\u00e7as substanciosas das mulheres no S\u00ednodo? No Documento Final do S\u00ednodo, as suas vozes foram registradas, sobretudo nos n\u00fameros 97 a 103. E na Exorta\u00e7\u00e3o Apost\u00f3lica P\u00f3s-Sinodal Querida Amaz\u00f4nia, suas vozes tamb\u00e9m foram registradas, sejam nos sonhos das mulheres, sejam nos sonhos do papa Francisco sobre as mulheres, nos n\u00fameros 99 a 103. Interessante que os n\u00fameros quase coincidem nos dois Documentos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Esta \u00e9 minha convic\u00e7\u00e3o pessoal, sem necessidade nenhuma de comprova\u00e7\u00e3o cient\u00edfica: quem quiser lutar pela vida tem que ter as mulheres como aliadas. Elas entendem mais de vida do que os homens. Elas existencialmente sentem e sofrem as dores da vida nos seus pr\u00f3prios corpos. A nossa maior dor \u00e9 ver a matan\u00e7a de quem mais entende de vida. Os altos \u00edndices de feminic\u00eddios est\u00e3o a\u00ed para comprovar. Neste contexto, os \u201cproblemas\u201d passam a ser mais os homens e n\u00e3o mais as mulheres.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Nos piores momentos da vida de Ester, como rainha, o rei Mardoqueu disse-lhe: \u201cquem sabe se por isto mesmo chegaste \u00e0 realeza, para que em tal situa\u00e7\u00e3o estivesses pronta para agir?\u201d (Est 4,14b). Quem sabe se nas crises, pelas quais passamos, as vozes das mulheres n\u00e3o precisam ser mais ouvidas?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Termino, parafraseando as s\u00e1bias palavras de Francisco: \u201co problema da Igreja na Amaz\u00f4nia n\u00e3o s\u00e3o as mulheres!\u201d<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dom Pedro Brito Guimar\u00e3es, Arcebispo de Palmas (TO) &nbsp; Sou testemunha ocular de que o papa Francisco ama, com imenso amor, as mulheres. E quem n\u00e3o as ama? 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