{"id":236014,"date":"2020-03-27T10:09:13","date_gmt":"2020-03-27T13:09:13","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/?p=236014"},"modified":"2020-09-08T14:10:26","modified_gmt":"2020-09-08T17:10:26","slug":"ambivalencias-e-dilemas-emergentes-a-busca-do-maior-bem-possivel","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/ambivalencias-e-dilemas-emergentes-a-busca-do-maior-bem-possivel\/","title":{"rendered":"Ambival\u00eancias e dilemas emergentes: a busca do maior bem poss\u00edvel"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right\"><em><strong>Dom Luiz Antonio Lopes Ricci<br \/>\n<\/strong><\/em><strong>Bispo Auxiliar de Niter\u00f3i<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">\n<p style=\"text-align: justify\">A vida sempre tem a primazia! Diante da atual pandemia, governantes e autoridades sanit\u00e1rias do mundo todo fundamentam a dif\u00edcil e complexa decis\u00e3o de isolamento social coletivo pelos imperativos de \u201csalvar vidas\u201d e de \u201cn\u00e3o colapsar o sistema p\u00fablico e privado de sa\u00fade\u201d. J\u00e1 no Antigo Testamento, temos um imperativo de Mois\u00e9s ao povo, na travessia do deserto: \u201cEscolhe, pois, a vida, para que vivas tu e tua descend\u00eancia\u201d (Dt 30,19). Estamos nesse momento de travessia e, n\u00e3o obstante os \u201cefeitos colaterais\u201d de tal escolha, precisamos fazer um pacto pela vida. Somos chamados ao \u201csacrif\u00edcio\u201d- deixar algo bom por algo melhor, visando o bem maior: \u201co que chamamos de amor \u00e9 essencialmente respeito pela vida\u201d (E. Schockenhoff). Aqui emerge o princ\u00edpio da defesa da vida f\u00edsica: \u201crefere-se ao respeito pela vida, \u00e0 sua defesa e promo\u00e7\u00e3o e representa o primeiro imperativo \u00e9tico do homem para consigo mesmo e para com os outros. A vida humana tem um valor em si mesma e por si mesma. E esse valor constitui a base para qualquer outro valor\u201d (F. Correia).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Parece-nos oportuno recordar, para iluminar o discernimento pessoal e daqueles (as) que t\u00eam o poder de decis\u00e3o, um princ\u00edpio \u00e9tico que pode ser perfeitamente aplicado ao dram\u00e1tico cen\u00e1rio atual. Princ\u00edpios s\u00e3o regras gerais do agir e o objetivo destes \u00e9 oferecer uma refer\u00eancia pr\u00e1tica e conceitual \u00e0queles (as) que devem tomar decis\u00f5es nos diversos campos do agir humano. Cabe recordar que toda a\u00e7\u00e3o boa deve ter uma teoria que a fundamenta. Est\u00e1 em jogo a vida humana confiada \u00e0 nossa responsabilidade e cuidados. \u00a0O fil\u00f3sofo Kant assim se expressou: \u201cOs pensamentos sem conte\u00fado s\u00e3o vazios, as intui\u00e7\u00f5es sem conceitos s\u00e3o cegas\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Neste cen\u00e1rio complexo n\u00e3o h\u00e1 mais espa\u00e7o para manique\u00edsmos e contraposi\u00e7\u00f5es entre vida ou economia. O modo de pensar mais adequado \u00e9 o multidisciplinar, que acolhe as inevit\u00e1veis ambival\u00eancias e dilemas, buscando o maior bem poss\u00edvel. Situa\u00e7\u00e3o complexa n\u00e3o se resolve com medidas simples, tampouco com declara\u00e7\u00f5es inconsequentes, presun\u00e7\u00e3o, medidas isoladas e fechamento ao di\u00e1logo. A maioria dos casos n\u00e3o s\u00e3o preto\u00a0<u>ou<\/u>\u00a0branco, s\u00e3o cinzentos: preto\u00a0<u>e<\/u>\u00a0branco. Enquanto o manique\u00edsmo valoriza o \u201cou-ou\u201d, o modelo dial\u00f3gico privilegia o \u201ce-e\u201d. Esse modo de pensar e agir se aproxima daquilo que E. Mounier chamou de \u201cotimismo dram\u00e1tico\u201d que acolhe as tens\u00f5es e busca super\u00e1-las com sabedoria e serenidade. No caso atual, precisamos especialmente de celeridade, para que as decis\u00f5es cheguem aos destinat\u00e1rios, sobretudo aos pobres, desempregados, sem trabalho e sem moradia. Milh\u00f5es de brasileiros (as), muitas vezes invis\u00edveis para o Mercado e Estado agora se tornam vis\u00edveis. \u00c9 hora de adotar, com urg\u00eancia, iniciativas de transfer\u00eancia de renda, como alguns pa\u00edses j\u00e1 o fizeram, para amenizar os danos dessa crise mundial e garantir a sobreviv\u00eancia dos pobres e empobrecidos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Diante da recorrente afirma\u00e7\u00e3o de que \u201co rem\u00e9dio n\u00e3o pode ser pior que a doen\u00e7a\u201d, o que fazer? Como salvar vidas sem prejudicar a economia, o emprego e a renda? Qualquer decis\u00e3o ter\u00e1 um duplo efeito! Pessoas \u00e9ticas e que buscam sempre o bem convivem, frequentemente, com dilemas \u00e9ticos \u2013 situa\u00e7\u00f5es embara\u00e7osas com duas sa\u00eddas dif\u00edceis e penosas, e com as ambival\u00eancias \u2013 coexist\u00eancia de aspectos, sentimentos e resultados antag\u00f4nicos. Na verdade, n\u00e3o h\u00e1 a\u00e7\u00e3o neutra! O discernimento \u00e9tico \u00e9 um imperativo na busca do maior bem poss\u00edvel e o princ\u00edpio do duplo efeito pode nos ajudar na delibera\u00e7\u00e3o. Trata-se de uma a\u00e7\u00e3o que produz dois efeitos insepar\u00e1veis: um bom e outro nocivo. O primeiro resultado \u00e9 leg\u00edtimo e aquele que queremos atingir; o segundo \u00e9 mau e n\u00e3o desejado, mas \u00e9 insepar\u00e1vel do primeiro. Surge a quest\u00e3o ag\u00f4nica: devemos procurar o bem e tolerar o mal? Para lidar com este dilema foi formulado este princ\u00edpio do duplo efeito. Ele nos permite realizar a a\u00e7\u00e3o boa que tem consequ\u00eancias m\u00e1s, desde que as quatro condi\u00e7\u00f5es sejam, integralmente, respeitadas (Cf. L. Pessini \u2013 C. Barchifontaine, M. Faggioni):<\/p>\n<ol style=\"text-align: justify\">\n<li>A) A a\u00e7\u00e3o em si n\u00e3o deve ser nociva; o ato deve ser bom. Afirma-se dessa forma o princ\u00edpio \u00e9tico fundamental de que n\u00e3o devemos fazer o mal;<\/li>\n<li>B) O mal n\u00e3o pode ser o meio para produzir um efeito bom. Este \u00e9 o princ\u00edpio \u00e9tico tradicional: n\u00e3o podemos partir de um mal para se chegar a um bem;<\/li>\n<li>C) O efeito danoso n\u00e3o \u00e9 desejado. A inten\u00e7\u00e3o do agente est\u00e1 somente voltada para o efeito bom, enquanto o efeito mau \u00e9 somente tolerado ou permitido. A inten\u00e7\u00e3o primeira \u00e9 atingir o efeito bom. Esta condi\u00e7\u00e3o esclarece que podemos fazer o bem, mesmo prevendo que alguma consequ\u00eancia n\u00e3o desejada coincida ou seja posterior \u00e0 a\u00e7\u00e3o;<\/li>\n<li>D) Deve existir uma propor\u00e7\u00e3o adequada entre efeito bom e efeito mau, uma raz\u00e3o proporcional para executar a a\u00e7\u00e3o apesar das consequ\u00eancias que ela traz. Quando colocado na balan\u00e7a o bem deve ser maior que o mal. Esta avalia\u00e7\u00e3o da proporcionalidade dos efeitos e valores em jogo abre um grande leque de problemas e dilemas, contudo deve ser feita se queremos proceder com responsabilidade e escolher a vida.<\/li>\n<\/ol>\n<p style=\"text-align: justify\">Acreditamos que este princ\u00edpio \u00e9tico, unido \u00e0s orienta\u00e7\u00f5es cientificamente fundamentadas, justifica o desejo de \u201csalvar vidas\u201d por meio do isolamento social coletivo e de outras amargas decis\u00f5es do poder p\u00fablico e autoridades sanit\u00e1rias. Estamos todos apreensivos diante do cen\u00e1rio de incertezas e preocupa\u00e7\u00e3o. Como vamos superar as consequ\u00eancias negativas, j\u00e1 sentidas por todos e todas, sobretudo pelos mais pobres e necessitados? Mesmo diante de tal ang\u00fastia, precisamos escolher a vida e garantir a justi\u00e7a distributiva e a prote\u00e7\u00e3o social dos mais atingidos e vulnerados. Com boa vontade, bom senso, equil\u00edbrio, di\u00e1logo e sabedoria vamos, a humanidade e n\u00f3s, encontrar o melhor caminho\u2026 depois de uma escolha extrema, o natural \u00e9 que, no momento certo, o p\u00eandulo volte para o meio\u2026 e oxal\u00e1, para algo melhor do que antes. A orienta\u00e7\u00e3o dada a Paulo \u00e9 muito atual, para n\u00f3s e para o poder p\u00fablico: \u201cO que nos recomendaram foi somente que nos lembr\u00e1ssemos dos pobres. E isso procurei fazer sempre, com solicitude\u201d (Gl 2, 10). O que podemos e devemos fazer?<\/p>\n<p>&nbsp;    \t<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dom Luiz Antonio Lopes Ricci Bispo Auxiliar de Niter\u00f3i A vida sempre tem a primazia! Diante da atual pandemia, governantes e autoridades sanit\u00e1rias do mundo todo fundamentam a dif\u00edcil e complexa decis\u00e3o de isolamento social coletivo pelos imperativos de \u201csalvar vidas\u201d e de \u201cn\u00e3o colapsar o sistema p\u00fablico e privado de sa\u00fade\u201d. 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