{"id":236259,"date":"2020-04-01T09:58:57","date_gmt":"2020-04-01T12:58:57","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/?p=236259"},"modified":"2020-09-08T14:10:18","modified_gmt":"2020-09-08T17:10:18","slug":"meu-cristo-partido","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/meu-cristo-partido\/","title":{"rendered":"Meu Cristo partido"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right\"><strong>Dom Jos\u00e9 Francisco Rezende Dias<br \/>\n<\/strong><strong>Arcebispo de Niter\u00f3i<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Durante meus primeiros anos de semin\u00e1rio, \u201cO Meu Cristo Partido\u201d, do padre Ram\u00f3n Cue, fazia parte da medita\u00e7\u00e3o de todo seminarista para come\u00e7ar a entender a vida espiritual. \u201cO Meu Cristo Partido\u201d \u00e9 a hist\u00f3ria de um padre \u2013 a do pr\u00f3prio autor \u2013 que compra uma imagem de Cristo extremamente mutilada: sem rosto, sem um bra\u00e7o, sem uma perna, e sem cruz. Quando ele quis restaur\u00e1-la, o pr\u00f3prio Cristo se op\u00f4s, radicalmente, pois \u00e9 assim, segundo ele mesmo, partido e mutilado, que ele se identifica com os que sofrem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">O trecho mais conhecido da obra \u00e9 esse.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">\u201cVou mostrar-vos o meu Cristo. N\u00e3o \u00e9 verdade que \u00e9 muito belo? Mas, claro, falta-lhe o bra\u00e7o direito, o esquerdo est\u00e1 mal seguro no ombro e a m\u00e3o partida por ter sido arrancada violentamente do cravo. Tamb\u00e9m lhe falta a perna direita, cortada por meio da coxa. Conserva a esquerda, mas colada \u00e0 pressa e sem cuidado. E, al\u00e9m do mais, est\u00e1 sem cara. Partiram-lhe, totalmente. Cristo sem rosto. Cristo an\u00f4nimo. Cristo fantasma. \u00c9, por\u00e9m, muito belo, n\u00e3o \u00e9? Ainda que muito triste.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">\u2013 N\u00e3o me restaures.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">\u2013 Por que n\u00e3o queres que te restaure? N\u00e3o compreendes, Senhor, que ser\u00e1 para mim uma constante dor ver-te partido e mutilado, cada vez que te olhar? N\u00e3o compreendes que sinto d\u00f3?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">\u2013 \u00c9 isso que quero: que vendo-me partido, te lembres de tantos irm\u00e3os que convivem contigo, ignorados e distantes, e que est\u00e3o, como Eu, partidos, esmagados, indigentes, oprimidos, doentes, mutilados\u2026 Sem bra\u00e7os, porque n\u00e3o t\u00eam possibilidades nem meios de trabalho; sem p\u00e9s, porque lhes bloquearam os caminhos e n\u00e3o podem dar um passo em frente na vida; sem cara, porque lhes roubaram a honra, o m\u00e9rito, o prest\u00edgio. Todos os esquecem e voltam-lhes as costas\u2026 n\u00e3o me restaures! Talvez, vendo-me assim, te sirva de li\u00e7\u00e3o para entender a dor dos demais\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">O Cristo Partido \u00e9 a imagem perfeita do ser humano, da sociedade e da Igreja, dilacerados por interesses que j\u00e1 nem conv\u00e9m enumerar. Cada um sabe bem a dor do dilaceramento a que foi exposto, nas comunidades, fam\u00edlias, trabalho, amores, enfim, na realidade da vida que sempre insiste em ser cruel, porque, muitas vezes, n\u00e3o sabe ser de outra forma.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Na comunidade crist\u00e3, esse dilaceramento acontece, invariavelmente, dentro de grupos movidos por interesses que lhes s\u00e3o pr\u00f3prios, pessoais, singulares, demasiadamente, individuais. \u201cA minha par\u00f3quia\u201d, \u201co meu padre\u201d, \u201co meu santo de devo\u00e7\u00e3o\u201d, \u201co meu Jesus\u201d, o meu\u2026 o meu\u2026 o meu\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Algum dia, isso tudo ser\u00e1 \u201cnosso\u201d?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Essas patologias espirituais j\u00e1 aconteciam nas comunidades crist\u00e3s primitivas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">\u201cMeus irm\u00e3os, fui informado por alguns da casa de Clo\u00e9, de que h\u00e1 divis\u00f5es entre voc\u00eas. Com isso quero dizer que alguns de voc\u00eas afirmam: \u201cEu sou de Paulo\u201d; ou \u201cEu sou de Apolo\u201d; ou \u201cEu sou de Cefas\u201d; ou ainda \u201cEu sou de Cristo\u201d. (1\u00aa Cor\u00edntios 1,11-12).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">(Eu sou de Paulo, eu de Pedro\u2026 E voc\u00ea, de quem voc\u00ea \u00e9?)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Quanto mais descobrimos sobre Paulo e os cor\u00edntios, mais entendemos a relev\u00e2ncia da mensagem para os nossos dias. Corinto era a principal cidade grega, a porta de passagem entre o Ocidente e o Oriente. Importante cidade comercial, nela havia tudo do melhor e do pior de uma cidade vibrante e movimentada. Seus cidad\u00e3os cultivavam espiritualidade, ascetismo e aperfei\u00e7oamento est\u00e9tico. Mas esse crescimento n\u00e3o havia promovido o desenvolvimento \u00e9tico. Um sincretismo religioso de pr\u00e1ticas judaicas, romanas e gregas tendiam a reduzir qualquer valor a um res\u00edduo de misturas forjadas. Quando tudo pode, nada vale muita coisa, n\u00e3o \u00e9?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Paulo foi a Corinto na segunda viagem, por volta de 51 DC, e ficou por l\u00e1 1 ano e meio, mais tempo do que em outros lugares (At 18,11). A eloqu\u00eancia de Apolo, que havia pregado em Corinto, contrastava com o jeito de Paulo pregar: Paulo n\u00e3o era bom de fala. Mois\u00e9s tamb\u00e9m n\u00e3o era! E Corinto era boa no pendor de dividir-se internamente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Penso muito em como \u00e9 impressionante a voca\u00e7\u00e3o das comunidades crist\u00e3s para se dividirem! Nem falo das quebras externas, que geraram a quantidade de igrejas-irm\u00e3s separadas, \u00e0s vezes, mais separadas do que irm\u00e3s, mas das quebras internas, entre grupos e pastorais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Isso jamais deveria acontecer! Esse \u00e9 o nosso ponto fraco, o nosso esc\u00e2ndalo em n\u00e3o testemunhar a unidade de Cristo. \u00c9 assim, ali\u00e1s, que evidenciamos um sintoma de infantilidade pessoal e comunit\u00e1ria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">\u201cDei a voc\u00eas leite, e n\u00e3o alimento s\u00f3lido, pois voc\u00eas ainda n\u00e3o estavam em condi\u00e7\u00f5es de receb\u00ea-lo, e nem agora est\u00e3o, porque ainda s\u00e3o guiados pelo instinto. Porque, se h\u00e1 inveja e disc\u00f3rdia entre voc\u00eas, n\u00e3o estariam voc\u00eas sendo carnais e agindo como mundanos?\u201d\u00a0 (1\u00aa Cor\u00edntios 3,2-3).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">A pergunta \u00e9 forte, e Paulo pega pesado, por duas raz\u00f5es: primeiro, porque n\u00e3o era do costume dele pegar leve \u2013 quem n\u00e3o quisesse tinha toda liberdade de ir embora. Segundo, porque \u00e0 medida que o tempo passava, a ideia de Cristo edificar a sua Igreja ficava cada vez mais longe, e n\u00e3o por causa das grandes persegui\u00e7\u00f5es, mas por conta das pequenas manias de cada um. O que divide uma igreja n\u00e3o s\u00e3o as doutrinas, mas as personalidades, as pequenas invejas, as pequenas bobagens.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">\u00a0\u201cVisto que h\u00e1 inveja e disc\u00f3rdia entre voc\u00eas\u2026\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">A palavra \u201cinveja\u201d significa ver ao inverso. O invejoso n\u00e3o quer o que o outro tem, mas quer que ele n\u00e3o tenha; se poss\u00edvel, quer destruir o que ele tem. Trata-se um \u201cego\u00edsmo m\u00e1ximo\u201d, um desejo violento em promover suas pr\u00f3prias ideias, excluindo qualquer possibilidade de aceitar o que seja do outro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">A palavra \u201cdivis\u00e3o\u201d lembra um tecido rasgado, deixado em fiapos. A t\u00fanica incons\u00fatil de Cristo (Jo\u00e3o 19,23) \u2013 imagem perene da unidade da Igreja \u2013 que sequer os soldados rasgaram, termina em peda\u00e7os. E essa \u00e9 uma das nossas mais tristes realidades.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Esta era a situa\u00e7\u00e3o da Igreja em Corinto, uma igreja dividida e rasgada em partidos. Normalmente, esse desastre come\u00e7a, ou com pessoas que se acham \u201caltamente espirituais\u201d, ou com pessoas que s\u00e3o \u201caltamente ofendidas\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Essas \u00faltimas, as pessoas ofendidas, t\u00eam uma imensa capacidade de encontrar outras pessoas ofendidas. Da\u00ed, quando elas se juntam, e decidem que v\u00e3o promover seus pr\u00f3prios pensamentos e convic\u00e7\u00f5es, acabam excluindo qualquer outro do seu caminho. Isso n\u00e3o pode terminar em coisa boa e, geralmente, desenvolve a \u201cdisc\u00f3rdia\u201d. Cada grupo se transforma num partido pol\u00edtico com sua pr\u00f3pria plataforma e sua pr\u00f3pria agenda.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Irm\u00e3os, irm\u00e3s, a Quaresma \u00e9 a porta da P\u00e1scoa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Se todas as nossas pontas forem limadas, n\u00e3o machucaremos mais ningu\u00e9m, e nos apresentaremos a Cristo do jeito como ele nos sonhou: gente que ama e que perdoa, sete vezes, setenta vezes sete vezes, ao infinito do amor e do perd\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Conseguiremos?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">N\u00f3s, n\u00e3o! Cristo em n\u00f3s, sim. Ele ir\u00e1 unir os nossos cacos para que n\u00e3o estejamos mais partidos, mas inteiros, como ele nos quer.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Desejo a todos uma Santa Quaresma: a Quaresma da uni\u00e3o. Que, por nossa causa, jamais, o Cristo se parta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">\n<p>&nbsp;    \t<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dom Jos\u00e9 Francisco Rezende Dias Arcebispo de Niter\u00f3i &nbsp; Durante meus primeiros anos de semin\u00e1rio, \u201cO Meu Cristo Partido\u201d, do padre Ram\u00f3n Cue, fazia parte da medita\u00e7\u00e3o de todo seminarista para come\u00e7ar a entender a vida espiritual. \u201cO Meu Cristo Partido\u201d \u00e9 a hist\u00f3ria de um padre \u2013 a do pr\u00f3prio autor \u2013 que compra &hellip;<\/p>\n<p class=\"read-more\"> <a class=\"\" href=\"https:\/\/www.cnbb.org.br\/meu-cristo-partido\/\"> <span class=\"screen-reader-text\">Meu Cristo partido<\/span> Leia mais &raquo;<\/a><\/p>\n","protected":false},"author":85,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":""},"categories":[758],"tags":[],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/posts\/236259"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/users\/85"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/comments?post=236259"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/posts\/236259\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/media?parent=236259"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/categories?post=236259"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/tags?post=236259"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}