{"id":237587,"date":"2020-04-25T13:45:08","date_gmt":"2020-04-25T16:45:08","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/?p=237587"},"modified":"2020-09-08T14:09:40","modified_gmt":"2020-09-08T17:09:40","slug":"aprender-com-o-vazio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/aprender-com-o-vazio\/","title":{"rendered":"Aprender com o vazio"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right\"><strong><em>Dom Jo\u00e3o Justino de Medeiros Silva<br \/>\n<\/em><em>Arcebispo de Montes Claros<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 O ser humano \u00e9 dotado de desejos e necessidades, e busca saci\u00e1-los ao infinito. Nada aplaca sua sede e sua fome, suas car\u00eancias e vazios. Sabe-se que os beb\u00eas choram, principalmente, por dois inc\u00f4modos: fome e dor. \u00c0 medida que crescem chorar\u00e3o por outros motivos e aprender\u00e3o a fazer manhas. Foi assim com todos n\u00f3s, sem exce\u00e7\u00f5es. Boa parte do processo de socializa\u00e7\u00e3o e de educa\u00e7\u00e3o ser\u00e1 para introduzir aquela crian\u00e7a na cultura e na \u00e9tica. O seu querer dever\u00e1 ser conduzido por valores que garantam a conviv\u00eancia social. Para isso, ser\u00e1 fundamental o aprendizado de lidar com o vazio, com a falta, com a lacuna, ainda que seja tarefa dif\u00edcil, j\u00e1 que vivemos numa sociedade de mercado e para cada eventual vazio se produzem mercadorias e se criam necessidades.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Observa-se, h\u00e1 algum tempo, como \u00e0s crian\u00e7as foi imposto um ritmo de vida de adulto. Bem cedo, elas come\u00e7am a ter agendas para marcar seus compromissos e responsabilidades. Muitas delas, geralmente de fam\u00edlias com mais recursos, t\u00eam seu tempo ocupado com a escola e outras atividades educativas que v\u00e3o preenchendo todos os espa\u00e7os da jornada di\u00e1ria. Incute-se nelas a perspectiva de que est\u00e3o se preparando para o futuro. N\u00e3o \u00e9 uma inverdade, mas \u00e9 bem prov\u00e1vel que o futuro delas ser\u00e1 t\u00e3o ocupado que elas j\u00e1 podem se sentir cansadas e, consequentemente, desmotivadas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Nosso tempo parece ter de ser totalmente preenchido por atividades e n\u00e3o faz\u00ea-lo seria equivocado, um preju\u00edzo, imediato ou futuro. Assim, tudo foi associado ao valor monet\u00e1rio. E mesmo o l\u00fadico passou a ter valor de consumo. Por que uma crian\u00e7a de aproximadamente tr\u00eas anos, graciosamente, diz \u00e0 m\u00e3e que n\u00e3o aguenta mais ficar em casa e precisa ir ao shopping encontrar-se com as amigas? A cena estava num breve v\u00eddeo que teve, recentemente, dezenas de milhares de visualiza\u00e7\u00f5es na internet. Como lidar com o tempo livre? O mundo contempor\u00e2neo parece nos condenar a ocupar todo tempo para trabalhar e para consumir. Desaprendemos a viver momentos de recolhimento, de \u00f3cio, de contempla\u00e7\u00e3o, de t\u00e9dio, de espera, de vazio&#8230; Ao lado da cultura do descarte existe aquela do instant\u00e2neo e do \u00eaxito.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 O isolamento social imposto em decorr\u00eancia da pandemia do novo coronav\u00edrus evidenciou vazios dos quais as pessoas fogem com frequ\u00eancia. Falo do vazio que significa n\u00e3o ter no momento o que se deseja ou, tamb\u00e9m, de ter no momento o que n\u00e3o se deseja e n\u00e3o saber como lidar com a situa\u00e7\u00e3o. Como se distrair num espa\u00e7o bem menor que as ruas, os parques, os shoppings? Como conviver com algu\u00e9m que est\u00e1 ao meu lado por longas horas? Como encarar a falta disso ou daquilo?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 At\u00e9 mesmo no \u00e2mbito eclesial, os fi\u00e9is tiveram de se deparar com a impossibilidade de frequentar celebra\u00e7\u00f5es e cultos. Por sua vez, os sacerdotes tiveram que lidar com a impossibilidade de poderem ter o povo de suas comunidades presente nas igrejas. N\u00e3o poder ir \u00e0 igreja, n\u00e3o poder receber a eucaristia, n\u00e3o poder se confessar se tornou para um n\u00famero grande de fi\u00e9is um enorme desafio. E tudo isso por poucas semanas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Ora, suportar o vazio, o n\u00e3o poder, o n\u00e3o saber \u00e9 um fecundo exerc\u00edcio de maturidade. Aprender com o vazio instaura na pessoa a sabedoria de sua conting\u00eancia e a devolve ao seu lugar de criatura. \u00c9 um processo de humaniza\u00e7\u00e3o. O Filho de Deus n\u00e3o experimentou isso? Ele esvaziou-se a si mesmo at\u00e9 a morte e morte de cruz (Fl 2,6-8). Para os crist\u00e3os esse \u00e9 um passo dif\u00edcil de se dar. Mas necess\u00e1rio.<\/p>\n<p>&nbsp;    \t<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dom Jo\u00e3o Justino de Medeiros Silva Arcebispo de Montes Claros \u00a0 \u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 O ser humano \u00e9 dotado de desejos e necessidades, e busca saci\u00e1-los ao infinito. Nada aplaca sua sede e sua fome, suas car\u00eancias e vazios. 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