{"id":238547,"date":"2020-05-11T11:20:10","date_gmt":"2020-05-11T14:20:10","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/?p=238547"},"modified":"2020-09-08T14:09:18","modified_gmt":"2020-09-08T17:09:18","slug":"cinquenta-dias-de-igrejas-de-portas-fechadas-em-uma-sociedade-doente","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cinquenta-dias-de-igrejas-de-portas-fechadas-em-uma-sociedade-doente\/","title":{"rendered":"Cinquenta dias de Igrejas de portas fechadas em uma sociedade doente"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right\"><strong><em>Dom Pedro Brito Guimar\u00e3es<br \/>\n<\/em><\/strong><strong><em>Arcebispo de Palmas \u2013 TO<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">\n<p style=\"text-align: justify\">J\u00e1 se passaram cinquenta dias, desde que as nossas Igrejas est\u00e3o vazias e de portas fechadas. Nem mesmo os mais negativistas poderiam imaginar tanto tempo assim. Parece fantasia, mas n\u00e3o \u00e9. \u00c9 a pura e a dura realidade. O mundo est\u00e1 doente, de uma doen\u00e7a mortal. O novo coronav\u00edrus, a convid-19, veio ao improviso, como um tsunami; derrubando certezas cient\u00edficas, pol\u00edticas, sociais, econ\u00f4micas e eclesiais. Por causa disto, estamos em estado de emerg\u00eancia. <em>\u201cAt\u00e9 o profeta e o sacerdote vagueiam sem rumo pela terra\u201d<\/em> (Jer 14,18). N\u00e3o \u00e9 brincadeira, n\u00e3o \u00e9 uma <em>\u201cgripezinha\u201d<\/em>, \u00e9 uma <em>pandemia<\/em>. Lembro-me que no momento em que assinei aquele Decreto, algumas l\u00e1grimas ca\u00edram dos meus olhos. Espero que neste \u201cvale de l\u00e1grimas\u201d, as minhas l\u00e1grimas tenham se juntado as de todos que choram as perdas de seus entes queridos. Espero tamb\u00e9m que todo este sacrif\u00edcio n\u00e3o seja em v\u00e3o, mas tenha ajudado a salvar vidas e a acordar a Igreja de pedras vivas que pode estar dormindo dentro de n\u00f3s.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Para a Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade (OMS) a conid-19 \u00e9 uma\u00a0<em>\u201cpandemia\u201d<\/em>. A palavra\u00a0<em>\u201cpan-demia\u201d<\/em>\u00a0\u00e9 formada por duas palavras gregas:\u00a0<em>\u201cpan\u201d<\/em>\u00a0significa tudo, todo e em todo lugar; e\u00a0<em>\u201cdemia\u201d\u00a0<\/em>significa povo.\u00a0<em>Pandemia<\/em>\u00a0\u00e9, portanto, uma doen\u00e7a infectocontagiosa que atinge todos os povos, em todos os lugares. Esta pandemia concretamente desconsertou o mundo, embora haja pessoas que acham exagerada esta compreens\u00e3o e a v\u00ea como algo sem a\u00e7\u00e3o e rea\u00e7\u00e3o, sem causa e efeito. A cosmovis\u00e3o de muitos brasileiros s\u00f3 chega a estes dois pontos mortos: maximalismo\u00a0(pandemia) <strong><em>x<\/em><\/strong>\u00a0minimalismo (gripezinha). E da\u00ed n\u00e3o sai e nem passa. Este embate ideol\u00f3gico \u00e9 gerador de muitos conflitos e polariza\u00e7\u00f5es que se transformou em intermin\u00e1veis controv\u00e9rsias e inimizades.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Diante desta triste realidade, causadora de tantas dores, sofrimentos e mortes, a atitude primeira do crist\u00e3o, seguidor de Jesus, deve ser a de solidariedade, de compaix\u00e3o, de cuidado, de amor pela vida, de comunh\u00e3o e fraternidade. Gra\u00e7as a Deus, s\u00e3o muitos os samaritanos que est\u00e3o cuidando, com amor sincero e ternura fraterna, do nosso povo sofredor. Basta pensar nos m\u00e9dicos e nos apoiadores dos diversos servi\u00e7os hospitalares, nos motoristas de ambul\u00e2ncias, nos gestores e pol\u00edticos s\u00e9rios, empenhados na luta para vencer esta batalha; nos padres, di\u00e1conos, consagrados e nos diversos servi\u00e7os eclesiais, de muitos homens e mulheres que rezam e atuam na caridade discreta para com os necessitados. Mas, infelizmente, uma parcela significativa do nosso povo n\u00e3o se compadece de quem sofre, vive na indiferen\u00e7a, pensa apenas no lucro e no proveito pol\u00edtico, colocando o dinheiro e o poder acima da vida e da dignidade das pessoas. Neste estado de coisas, vem-me \u00e0 mem\u00f3ria a par\u00e1bola, na qual Jesus do Bom Pastor que, porque d\u00e1 a vida pelas suas ovelhas (Jo 10,10), d\u00e1 amor, aten\u00e7\u00e3o, cuidado, ternura, consolo e esperan\u00e7a. E n\u00f3s? Ser\u00e1 que, a exemplo de Jesus, estamos sendo bons pastores ou, ao contr\u00e1rio, mercen\u00e1rios, ladr\u00f5es e assaltantes? Somos desafiados a lan\u00e7ar em nossa sociedade as sementes do amor e da fraternidade. Diante de tantos gestos e sinais de indiferen\u00e7a, de perda do senso de humanidade, da busca de proveito pr\u00f3prio, encima da dor e da morte alheias, n\u00e3o podemos ficar indiferentes. Que o Senhor nos livre de um cora\u00e7\u00e3o fechado ao bem e ao amor!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Passados cinquenta dias da publica\u00e7\u00e3o do Decreto, com o qual decretamos o fechamento das nossas Igrejas para celebra\u00e7\u00f5es presenciais, evitando, assim, a aglomera\u00e7\u00e3o de pessoas e o aumento do n\u00famero de contaminados, me vem \u00e0 mente a pergunta que muitos est\u00e3o se fazendo: <em><u>esta situa\u00e7\u00e3o \u00e9 passageira, \u00e9 algo para ficar no passado, nos registros de nossos livros de mem\u00f3rias, ou \u00e9 um fen\u00f4meno que nos assusta e nos preocupa para o futuro?<\/u><\/em> Quando as portas de nossas Igrejas estiverem abertas, entraram homens e mulheres de cora\u00e7\u00f5es abertos? A alerta sobre a possibilidade de esta situa\u00e7\u00e3o se tornar uma realidade frequente, num futuro n\u00e3o muito long\u00ednquo, est\u00e1 dada. O coronav\u00edrus mandou seus avisos pr\u00e9vios. \u00c9 preciso saber l\u00ea-los.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Concretamente, o que fazer? N\u00e3o estamos e n\u00e3o podemos nos calar. Mas palavras bonitas n\u00e3o salvam vida e nem enchem barrigas. Discursos inflamados tamb\u00e9m n\u00e3o. Em meio a esta pandemia, aprendamos a escutar mais a ci\u00eancia, a promover e defender a vida, a sermos mais abertos ao di\u00e1logo e \u00e0 vida fraterna. Sejamos uma Igreja viva, que ergue o c\u00e1lice da vida, que bebe o c\u00e1lice da vida e que compartilha este mesmo c\u00e1lice da vida com quem o deseja receber e comungar. Faz-me pensar o que disse o padre Tom\u00e1s Hal\u00edk, refletindo sobre a imagem de Igreja do Papa Francisco, como um <em>\u201cHospital de Campanha\u201d<\/em>. Ele sugere tr\u00eas atitudes para a Igreja que podemos faz\u00ea-las nossas: primeiro, fazer o <em>diagn\u00f3stico<\/em> (identificar os sinais dos tempos, o que todo esse sofrimento nos pode ensinar); segundo, fazer a <em>imuniza\u00e7\u00e3o<\/em> (oferecer rem\u00e9dios preventivos, investir mais na qualifica\u00e7\u00e3o de profissionais de primeiros socorros da vida); e terceiro, ajudar na <em>convalescen\u00e7a<\/em> e na <em>reabilita\u00e7\u00e3o<\/em> (curando as feridas e os traumas de quem est\u00e1 doente e incidindo nos cora\u00e7\u00f5es dos que se dizem sadios o Evangelho da miseric\u00f3rdia, do perd\u00e3o e da reconcilia\u00e7\u00e3o). N\u00e3o basta abrimos as Igrejas e fecharmos os cora\u00e7\u00f5es. Somente assim, poderemos continuar tendo Igrejas abertas e um povo cheio de vida e solid\u00e1rio, e n\u00e3o Igrejas fechadas em uma sociedade doente. T\u00e9rmino, citando o nosso m\u00e1rtir tocantinense, padre Josimo: <em>\u201cse eu me calar, quem os defender\u00e1\u201d?<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;    \t<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dom Pedro Brito Guimar\u00e3es Arcebispo de Palmas \u2013 TO J\u00e1 se passaram cinquenta dias, desde que as nossas Igrejas est\u00e3o vazias e de portas fechadas. Nem mesmo os mais negativistas poderiam imaginar tanto tempo assim. Parece fantasia, mas n\u00e3o \u00e9. \u00c9 a pura e a dura realidade. 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