{"id":239776,"date":"2020-06-01T11:10:11","date_gmt":"2020-06-01T14:10:11","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/?p=239776"},"modified":"2020-09-08T14:08:49","modified_gmt":"2020-09-08T17:08:49","slug":"quarentena-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/quarentena-2\/","title":{"rendered":"Quarentena"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right\"><strong>Dom Jo\u00e3o Bosco \u00d3liver de Faria<\/strong><br \/>\n<strong>Arcebispo em\u00e9rito de Diamantina (MG)<\/p>\n<p><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Sou um arcebispo cat\u00f3lico, com 80 anos de idade e completando 52 de vida sacerdotal, tempo que me permitiu conhecer um pouco da alma humana.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">No in\u00edcio desta \u201cquarentena\u201d, enviei umas poucas reflex\u00f5es a alguns amigos. Recentemente, um sacerdote com seus 17 anos de vida sacerdotal sugeriu-me que voltasse ao tema, tentando ajudar as pessoas a vivenciar a novidade dos esquemas de vida e de conviv\u00eancia familiar. Tentarei evitar, neste texto,\u00a0 os lugares comuns do que se tem falado ou escrito.<\/p>\n<p>A modalidade de vida a que est\u00e1vamos acostumados incidia, preferencialmente, no fazer e no acontecer: o exerc\u00edcio da pr\u00f3pria profiss\u00e3o, dividindo o tempo com as atividades dom\u00e9sticas, reservando os s\u00e1bados e domingos (Domingo n\u00e3o \u00e9 \u201cfim de semana\u201d!) para a conviv\u00eancia social: atos religiosos, clubes, esportes, festas, anivers\u00e1rios e visitas. Lembro-me de um professor, em Roma, que, em 1974, j\u00e1 nos falava da \u201cneurose do domingo\u201d: pr\u00f3pria das pessoas que n\u00e3o sabem ocupar o pr\u00f3prio tempo fora da rotina semanal.<\/p>\n<p>A quarentena quebrou\u00a0 tudo isso. Nem todas as fam\u00edlias t\u00eam um espa\u00e7o suficiente na pr\u00f3pria casa para diversificar a valoriza\u00e7\u00e3o do uso do tempo e do sabore\u00e1-lo. Nem todas as crian\u00e7as s\u00e3o calmas e, mesmo quando o s\u00e3o, necessitam de espa\u00e7o, de movimento e de atividade. As menores, quando assentadas nas cadeiras, balan\u00e7am suas perninhas&#8230; Pode faltar o espa\u00e7o necess\u00e1rio para o sossego, para a leitura de um livro ou mesmo para ter um tempo de reflex\u00e3o e de medita\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Recentemente, uma pessoa, que vejo como a personifica\u00e7\u00e3o\u00a0 ambulante da\u00a0 calma, disse-me, ao final de um dia de trabalho, que estava se sentindo estressada, queixa que foi acolhida com risos pelos presentes.<\/p>\n<p>Essa situa\u00e7\u00e3o da quarentena pode gerar duas rea\u00e7\u00f5es opostas nos indiv\u00edduos:<br \/>\n&#8211; sentir-se a v\u00edtima que carrega, quase sozinha, o peso da fam\u00edlia, da conviv\u00eancia e dos problemas que surgem; o pensamento de que \u201csou esquecido(a) \u201d &#8211; \u201cningu\u00e9m se importa comigo\u201d \u2013 o \u201ctudo eu\u201d! Ou: \u201c se eu n\u00e3o fizer, ningu\u00e9m faz!\u201d Tal maneira de pensar pode levar a pessoa \u00e0 depress\u00e3o, com suas funestas consequ\u00eancias; ou<br \/>\n&#8211; adotar um comportamento agressivo, jogando nos outros a culpa n\u00e3o s\u00f3 de tudo que acontece de desagrad\u00e1vel em casa, como tamb\u00e9m da limita\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria capacidade de aceitar, de acolher, de administrar as limita\u00e7\u00f5es e os defeitos dos demais na conviv\u00eancia do dia a dia.<\/p>\n<p>As duas atitudes t\u00eam uma mesma fonte: o individualismo existente no grupo familiar: cada um s\u00f3 pensa em si.<br \/>\nComo vivenciar esta quarentena que pode se prolongar? Quais valores ela pode trazer para n\u00f3s?<br \/>\nAl\u00e9m do que j\u00e1 escrevi, anteriormente, e do que j\u00e1 foi falado ou escrito, trago algumas sugest\u00f5es, sem a pretens\u00e3o de ser exaustivo.<\/p>\n<p>* Gail Sheehy, em seu livro \u201cPassagens\u201d, ensina-nos que n\u00e3o resolvemos nossos problemas mudando o mundo fora de n\u00f3s, mas mudando a n\u00f3s mesmo, conformando-nos ao mundo em que estamos.<\/p>\n<p>* Cuidar da pr\u00f3pria apresenta\u00e7\u00e3o pessoal. N\u00e3o devemos nos arrumar apenas quando sa\u00edmos \u00e0 rua, mas sempre. Vestir-se bem n\u00e3o significa roupas caras, mas saber\u00a0 combinar a pr\u00f3pria roupa. Minha irm\u00e3 dizia: \u201c- N\u00e3o existe mulher feia, existe mulher que n\u00e3o se cuida\u201d.\u00a0 Um pouco de maquiagem dentro de casa faz bem a todos e sobretudo \u00e0 pr\u00f3pria pessoa que se maquia. Para n\u00f3s homens, fazer a barba diariamente ou conforme nosso costume anterior e cuidar-nos, tamb\u00e9m! A\u00a0\u00a0 vaidade no cuidado pessoal faz bem a todos!<\/p>\n<p>* H\u00e1 uma dimens\u00e3o positiva nesta situa\u00e7\u00e3o que vivemos: ter tempo para si pr\u00f3prio. Com muita frequ\u00eancia falamos em \u201ccorreria\u201d e n\u00e3o temos tempo para n\u00f3s mesmos: colocar nossas coisas em ordem: pap\u00e9is, roupas, gavetas&#8230;<\/p>\n<p>* Nesta mesma linha: procurar descobrir e valorizar os dons que cada um recebeu de Deus e que, pelas circunst\u00e2ncias da vida, ficaram esquecidos ou sem oportunidades de se fazerem presentes: aprender a tocar um instrumento musical, a pintar, a compor poesias, a escrever contos.\u00a0 Conhe\u00e7o uma professora, j\u00e1 de idade, humilde, no Sul de Minas, que publicou, recentemente, um pequeno livro com suas poesias. Uma amiga, em S\u00e3o Paulo, quando seu \u00fanico filho se casou, dedicou-se \u00e0 m\u00fasica e \u00e0 pintura, coisas que nunca fizera antes. Seus quadros foram premiados em v\u00e1rias exposi\u00e7\u00f5es em S\u00e3o Paulo, Bahia e outros Estados. Seu marido tinha condi\u00e7\u00f5es e, com um pequeno teclado, ela dedicou-se tamb\u00e9m \u00e0 m\u00fasica.<\/p>\n<p>* Muitas vezes falta-nos a oportunidade para descobrir dons e qualidades que Deus nos deu! S\u00e3o Henry Newman escreveu: \u201ctenho convic\u00e7\u00e3o de que Deus me criou para cumprir uma miss\u00e3o especial\u201d.\u00a0 Aceite que voc\u00ea \u00e9 uma pessoa sonhada por Deus e que Ele lhe deu uma miss\u00e3o especial! Descubra qual!<\/p>\n<p>* Admiro um garoto pobre, de quinze anos, que vive na \u00e1rea rural. Nestes dias sem aulas, com seu celular, estuda como criar coisas. J\u00e1 fez uma tesoura eletr\u00f4nica que corta papel, um carrinho miniatura que se movimenta sozinho (as rodas s\u00e3o tampinhas de garrafa pet), um outro carrinho teleguiado, um aparelhinho de solda quente, etc.<\/p>\n<p>* Li um livro, que muito me agradou, de outra psic\u00f3loga americana: Karol Jackowski, \u201cDez coisas divertidas a fazer antes de morrer\u201d, (depois de l\u00ea-lo, comprei dez exemplares para presentear amigos). Claro que\u00a0 tamb\u00e9m eu, apesar dos 80 anos, espero viver mais uns aninhos e superar o v\u00edrus Covid 19. Vale, no entanto, a pergunta: \u201c- Quais as coisas que gostaria de fazer antes de morrer?\u201d<\/p>\n<p>O \u201cCorona v\u00edrus\u201d pode me ajudar a conhecer melhor as pessoas que amo, a conhecer melhor a mim mesmo e a descobrir qual seria o projeto que Deus tra\u00e7ou para mim ao me criar! Mas, sobretudo, neste tempo em que nos resguardamos para nos proteger, \u00e9 muito importante ser alegre, cultivar a alegria, ver as coisas e os fatos pelo lado bom e crescer na\u00a0 gentileza para com as pessoas com quem convivemos.    \t<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dom Jo\u00e3o Bosco \u00d3liver de Faria Arcebispo em\u00e9rito de Diamantina (MG) Sou um arcebispo cat\u00f3lico, com 80 anos de idade e completando 52 de vida sacerdotal, tempo que me permitiu conhecer um pouco da alma humana. No in\u00edcio desta \u201cquarentena\u201d, enviei umas poucas reflex\u00f5es a alguns amigos. 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