{"id":239874,"date":"2020-06-02T13:48:07","date_gmt":"2020-06-02T16:48:07","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/?p=239874"},"modified":"2020-09-08T14:08:47","modified_gmt":"2020-09-08T17:08:47","slug":"medo-de-morrer","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/medo-de-morrer\/","title":{"rendered":"Medo de morrer"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right\"><strong>Dom Adelar Baruffi<\/strong><br \/>\n<strong>Bispo de Cruz Alta<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">\u00c9 normal que o ser humano tenha medo de morrer. Contudo, a presen\u00e7a da pandemia do coronav\u00edrus acentuou este medo. Todos estamos ainda praticamente reclusos, em nossas casas, exatamente por preven\u00e7\u00e3o, para nos cuidarmos. O instinto da vida, da sobreviv\u00eancia, da busca da felicidade, da realiza\u00e7\u00e3o da vida, do seu sentido, sempre est\u00e1 presente. Sabemos que iremos morrer um dia, mas n\u00e3o o queremos. A pandemia descoloriu a vida, trouxe novamente, sem os adornos, na maioria das vezes desnecess\u00e1rios, aquilo que torna a vida \u201cinaut\u00eantica\u201d e nos distrai da quest\u00e3o fundamental, como afirmou o fil\u00f3sofo Heidegger. S\u00f3 olhamos para a vida, verdadeiramente, quando conseguimos abstrair de tudo o que nos distrai. A quest\u00e3o da morte \u00e9 central para a vida humana. \u201c\u00c9 em face da morte que o enigma da condi\u00e7\u00e3o humana se torna mais denso\u201d (GS, n.18). De fato, o morrer \u00e9 o horizonte da vida humana.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Pensamos em preservar a vida humana, curar, cuidar. Nada \u00e9 mais importante do que a vida humana, todas as vidas. Ela est\u00e1 em primeiro lugar. Depois v\u00eam as quest\u00f5es econ\u00f4micas, tamb\u00e9m muito preocupantes, visto que todos dependemos delas. A economia n\u00e3o pode preceder o cuidado pela vida. A cada dia acompanhamos o n\u00famero dos que morrem. S\u00f3 que n\u00e3o s\u00e3o n\u00fameros, s\u00e3o pessoas, com rostos, com hist\u00f3rias, com fam\u00edlias. Nunca a morte de algu\u00e9m pode trazer indiferen\u00e7a ou estar s\u00f3 numa estat\u00edstica. Sabemos que, antropologicamente, o morrer j\u00e1 acontece anteriormente, com as perdas cotidianas, inclusive de algu\u00e9m que amamos ou de si mesmo, pelos aniquilamentos existenciais. Vamos aprendendo, na vida, a integrar as perdas e crescer na resili\u00eancia para enfrenta-las. Elas s\u00e3o parte do caminhar. De maneira mais dif\u00edcil a quest\u00e3o da morte se apresenta quando os infectados s\u00e3o isolados, basta ouvir os que j\u00e1 est\u00e3o curados, bem como pela press\u00e3o social das dificuldades de atendimento pelo sistema de sa\u00fade. Tamb\u00e9m, pelo modo como s\u00e3o realizados os vel\u00f3rios e o sepultamento, algumas vezes em valas comuns. O cuidado pela vida passa por ritos, que s\u00e3o t\u00e3o humanos quando o viver: a proximidade, o amor dispensado e o abra\u00e7o silencioso e orante na despedida com todo ritual previsto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Nossa f\u00e9, a partir da qual nos movemos, nos fala que nossa vida \u00e9 um grande dom de Deus, imerecido. Nascemos uma \u00fanica vez, para caminharmos para a vida eterna, junto de Deus. Existe uma ansiedade no ser humano, pois \u201co prolongamento da longevidade biol\u00f3gica n\u00e3o pode satisfazer aquele desejo duma vida ulterior, invencivelmente radicado no seu cora\u00e7\u00e3o\u201d (GS, n. 18). E, continua o Conc\u00edlio, falando do fim feliz de nossa vida: \u201co homem foi criado por Deus para um fim feliz, para al\u00e9m dos limites da mis\u00e9ria terrena\u201d (GS, n.18). Se carregamos conosco esta certeza, poderemos, ent\u00e3o, dizer ao Senhor, todos os dias, que a vida futura \u00e9 mais importante que a vida presente. Da\u00ed entendemos a postura de alguns m\u00e1rtires, como S\u00e3o Maximiliano Kolbe e, recentemente, o Pe. Giuseppe Berardelli, de 72 anos, de B\u00e9rgamo, que, no dia 24 de mar\u00e7o passado, morreu depois de recusar ser colocado em um respirador que seus paroquianos haviam comprado para ele e, nesta pandemia, ofereceu a um paciente mais novo o equipamento. Ou, tamb\u00e9m, o grande ideal de vida de todas as institui\u00e7\u00f5es que cuidam dos doentes, especialmente as irm\u00e3s religiosas, como Santa Teresa de Calcut\u00e1, que ensinou suas coirm\u00e3s a sorrirem sempre aos que cuidavam e iriam partir. Assim, partiriam deste mundo com a imagem de algu\u00e9m feliz.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">O mais importante \u00e9 fixar nosso olhar na morte de Cristo, na sua cruz. Nela, todos n\u00f3s contemplamos aquele que morreu por n\u00f3s, em cuja companhia consoladora e salvadora posso viver todo o sofrimento. Diante do sofrimento da perspectiva da morte, neste tempo de pandemia, a f\u00e9 crist\u00e3 continua a anunciar o evangelho: nascemos de Deus, vivemos com Deus e vamos para Deus.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dom Adelar Baruffi Bispo de Cruz Alta &nbsp; \u00c9 normal que o ser humano tenha medo de morrer. Contudo, a presen\u00e7a da pandemia do coronav\u00edrus acentuou este medo. Todos estamos ainda praticamente reclusos, em nossas casas, exatamente por preven\u00e7\u00e3o, para nos cuidarmos. 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