{"id":240089,"date":"2020-06-03T16:55:58","date_gmt":"2020-06-03T19:55:58","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/?p=240089"},"modified":"2020-06-03T16:55:58","modified_gmt":"2020-06-03T19:55:58","slug":"raymundo-caramuru-de-barros-um-testemunho","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/raymundo-caramuru-de-barros-um-testemunho\/","title":{"rendered":"Raymundo Caramuru de Barros, um testemunho"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Em homenagem ao professor Raimundo Caramuru Barros, falecido no dia 17 de maio, em decorr\u00eancia de complica\u00e7\u00f5es ocasionadas por pneumonia e infec\u00e7\u00e3o urin\u00e1ria, Chico Whitaker escreveu o artigo aqui publicado. Caramuru estava com 89 anos e contribuiu durante anos com a CNBB como perito e assessor.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Chico Whitaker<\/p>\n<p>Caramuru partiu. Silencioso, modesto, como sempre viveu, apesar de tudo que sabia sobre o Brasil e sobre a Igreja e tudo o que fez por ela no Brasil. Depois de muito tempo sem o ver, pude visit\u00e1-lo no ano passado numa casa de repouso em Bras\u00edlia, j\u00e1 bastante debilitado mas com o olhar sempre vivo, acompanhando tudo que eu lembrava de nossos tempos trabalhando juntos na CNBB. \u00c0s vezes lhe saia uma lagrima nos olhos, o que significava &#8211; segundo Jos\u00e9 Carlos e Fernando, da CJP de Bras\u00edlia, que me levaram at\u00e9 ele e lhe davam um apoio permanente &#8211; que lhe vinha bem \u00e0 mem\u00f3ria tudo que eu recordava.<\/p>\n<p>N\u00e3o segui de perto todas as hist\u00f3rias de sua vida, no Brasil e fora dele. Somente compartilhei aqueles anos em que consagrou todo o seu tempo a que a Igreja brasileira assumisse as novas orienta\u00e7\u00f5es que estavam sendo adotadas no Concilio Vaticano II, para o qual Dom Helder C\u00e2mara, com quem Caramuru trabalhou antes, durante e depois desse Concilio, contribuiu intensamente.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o XXIII anunciara o Vaticano II em 1959, tr\u00eas meses depois de se tornar Papa, e o convocou em dezembro de 1961. Nesse mesmo m\u00eas em que o convocava &#8211; para inaugur\u00e1-lo em 1962 &#8211; enviou uma Carta Apost\u00f3lica aos Bispos da Am\u00e9rica Latina recomendando-lhes planejar sua a\u00e7\u00e3o, com vistas a aumentar sua efic\u00e1cia.<\/p>\n<p>Dom Helder, que foi Secret\u00e1rio Geral da CNBB de sua funda\u00e7\u00e3o em 1952 at\u00e9 1964, n\u00e3o titubeou em seguir essa recomenda\u00e7\u00e3o. E j\u00e1 em 1962 levou \u00e0 Assembleia Geral da Confer\u00eancia, que o aprovou, um Plano de Emerg\u00eancia da Igreja no Brasil. Caramuru deve ter contribu\u00eddo bastante para a elabora\u00e7\u00e3o desse Plano, mas guardava s\u00f3 para ele essa informa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Os ventos do planejamento na \u00e1rea dos governos j\u00e1 sopravam no mundo, como no Brasil com o Plano de Metas de Juscelino Kubistchek de 1956 a 1960 e em S\u00e3o Paulo com o Plano de A\u00e7\u00e3o de Carvalho Pinto, de 1959 a 1962. Mas, como se indica nos documentos da CNBB, o Plano de Emerg\u00eancia n\u00e3o quis ser um plano geral e acabado. Formulava princ\u00edpios para um primeiro esfor\u00e7o de pastoral de conjunto em n\u00edvel nacional, regional e diocesano, considerando alguns setores vitais da vida da Igreja, como a par\u00f3quia, o minist\u00e9rio sacerdotal, o sistema educacional cat\u00f3lico, a a\u00e7\u00e3o da Igreja no campo socioecon\u00f4mico.<\/p>\n<p>Realizou-se ent\u00e3o o Conc\u00edlio Vaticano II, em que se empreendeu uma gigantesca renova\u00e7\u00e3o de toda a Igreja, e foi-se tornando evidente que era preciso dar continuidade ao esfor\u00e7o de planejamento do Plano de Emerg\u00eancia, assumindo os caminhos ent\u00e3o abertos para uma nova postura da Igreja frente \u00e0 realidade em que vivia.<\/p>\n<p>Foi assim que D. Helder, em seu \u00faltimo mandato como Secret\u00e1rio Geral da CNBB, prop\u00f4s a elabora\u00e7\u00e3o de um primeiro Plano de Pastoral de Conjunto para a Igreja no Brasil. E foi na sua elabora\u00e7\u00e3o que Caramuru surgiu de novo, atendendo a pedido de D. Helder. O Plano foi aprovado em 1965 pela VII Assembleia Geral Extraordin\u00e1ria da CNBB, reunida em Roma no mesmo ano em que se encerrava o Conc\u00edlio, j\u00e1 no Papado de Paulo VI, eleito em junho de 1963.<\/p>\n<p>Ainda em 1965, em novembro, Paulo VI, em exorta\u00e7\u00e3o ao episcopado latino-americano por ocasi\u00e3o do X anivers\u00e1rio do Conselho Episcopal Latino-americano &#8211; CELAM, referiu-se a esse e outros Planos de Pastoral de Conjunto feitos por Igrejas na Am\u00e9rica Latina, \u201cem resposta ao insistente apelo\u201d de Jo\u00e3o XXIII. Para ele era um exemplo que poderia ser seguido pelos outros episcopados. E completou refor\u00e7ando a necessidade do planejamento: \u201cna obra pastoral n\u00e3o se pode andar \u00e0s cegas\u201d. (&#8230;) \u201cUma s\u00e1bia planifica\u00e7\u00e3o, portanto, pode oferecer tamb\u00e9m \u00e0 Igreja um meio eficaz e incentivo para o trabalho\u201d.<\/p>\n<p>***<\/p>\n<p>No Brasil t\u00ednhamos entrado no per\u00edodo turbulento de nossa hist\u00f3ria que precedeu o golpe militar de 1964, em que foi destitu\u00eddo o Presidente Jango Goulart. O Presidente J\u00e2nio Quadros, empossado em 1961, ap\u00f3s Juscelino, renunciara menos de sete meses depois de assumir o cargo. Jango, seu vice-presidente, considerado nacionalista de esquerda, se encontrava na China e teve sua volta e sua posse asseguradas pela press\u00e3o social, mas sob condi\u00e7\u00e3o: os setores conservadores do pa\u00eds e os militares impuseram ao Congresso a institui\u00e7\u00e3o do parlamentarismo. Este durou, no entanto, s\u00f3 o tempo necess\u00e1rio para a realiza\u00e7\u00e3o de um plebiscito &#8211; previsto para dois anos depois, mas antecipado, tamb\u00e9m por decis\u00e3o do Congresso &#8211; que fez o pa\u00eds voltar ao presidencialismo. Assumindo ent\u00e3o plenamente o Poder Executivo, Jango logo lan\u00e7ou um programa de \u201creformas de base\u201d, que mexiam com tudo: banc\u00e1ria, fiscal, urbana, administrativa, agr\u00e1ria e universit\u00e1ria. O carro-chefe dessas reformas era a reforma agr\u00e1ria. Jango a considerava urgente, mas era imposs\u00edvel realiz\u00e1-la sem mudar a Constitui\u00e7\u00e3o, que exigia indeniza\u00e7\u00e3o pr\u00e9via em dinheiro para as terras desapropriadas.<\/p>\n<p>Como era previs\u00edvel, veio ent\u00e3o o golpe militar, no dia 1\u00ba de abril de 1964, ano seguinte ao de sua posse. E foi nesse ponto que minha historia se cruzou com a de Caramuru, ent\u00e3o convidado por D. Helder C\u00e2mara para elaborar, dentro desse quadro, um novo Plano para a Igreja no Brasil. Foi uma enorme oportunidade que me foi dada de conviver e aprender muit\u00edssimo com ele, durante quase dois anos.<\/p>\n<p>Eu acabara de ser exonerado do cargo de Diretor de Planejamento da SUPRA, organismo encarregado exatamente da Reforma mais \u201cquente\u201d, a Agr\u00e1ria. Assumi esse cargo no governo federal por indica\u00e7\u00e3o do deputado federal Plinio de Arruda Sampaio, ent\u00e3o Relator da Emenda Constitucional que autorizaria o pagamento de terras desapropriadas para a Reforma Agr\u00e1ria com t\u00edtulos da divida p\u00fablica. Eu tinha sido contempor\u00e2neo dele na JUC (Juventude Universit\u00e1ria Cat\u00f3lica) de S\u00e3o Paulo e trabalhara sob sua coordena\u00e7\u00e3o no Grupo de Planejamento do Governo Carvalho Pinto.<\/p>\n<p>Mas, naquele momento estava desempregado, numa cidade ainda nova para mim &#8211; tinha mudado recentemente com a fam\u00edlia para o Rio &#8211; procurando sobreviver com vendas da Enciclop\u00e9dia Brit\u00e2nica e dando aulas em cursos diversos de planejamento. Foi a\u00ed que Caramuru \u201cme achou\u201d, ao buscar algum t\u00e9cnico em planejamento que o assessorasse.<\/p>\n<p>N\u00e3o nos conhec\u00edamos, apesar de eu ter circulado nos meios eclesiais como antigo membro da JUC (fui preso logo depois do golpe numa redada do CENIMAR que prendeu tamb\u00e9m a equipe nacional da JEC). Mas possivelmente, ele sabia de meu trabalho na equipe do Padre Lebret em S\u00e3o Paulo e conhecia a vis\u00e3o do movimento Economia e Humanismo, criado na Fran\u00e7a por Lebret, cujo ponto de partida, na an\u00e1lise que fazia de necessidades e possibilidades de desenvolvimento, eram pesquisas sobre n\u00edveis de vida da popula\u00e7\u00e3o e sobre a realidade econ\u00f4mica. Em v\u00e1rias conversas na sede da CNBB, que acabara de se instalar na \u201cVila Venturosa\u201d, uma antiga mans\u00e3o da Ladeira da Gl\u00f3ria, perguntei ent\u00e3o a Caramuru o que exatamente ele pretendia fazer.<\/p>\n<p>Naqueles tempos o planejamento tendia a ser visto como uma panaceia que resolvia todos os problemas, mas muito frequentemente se atinha \u00e0 organiza\u00e7\u00e3o da a\u00e7\u00e3o, sem questionar seus objetivos nem muito menos buscar a melhor estrat\u00e9gia para alcan\u00e7\u00e1-los. Se na organiza\u00e7\u00e3o da a\u00e7\u00e3o se chegava \u00e0 sua racionaliza\u00e7\u00e3o, o que podia melhorar sua efic\u00e1cia, a desconsidera\u00e7\u00e3o de seus objetivos podia coloc\u00e1-la a servi\u00e7o de objetivos contr\u00e1rios aos que se buscavam. E v\u00e1rios especialistas, que j\u00e1 come\u00e7avam a assessorar bispos desejosos de planejar sua a\u00e7\u00e3o, se atinham a esse tipo de planejamento, que eu chamava de \u201cmeio-planejamento\u201d. Constatei ent\u00e3o que Caramuru considerava que o planejamento da a\u00e7\u00e3o pastoral tinha que ser o \u201cplanejamento inteiro\u201d.<\/p>\n<p>Nessa perspectiva, nossas conversas tornaram clara outra quest\u00e3o: na vis\u00e3o de Caramuru, mesmo a simples organiza\u00e7\u00e3o planejada da a\u00e7\u00e3o pastoral n\u00e3o poderia ser confiada a uma equipe t\u00e9cnica que entregasse um plano pronto aos seus executores, de cima para baixo. Isso n\u00e3o caberia<\/p>\n<p>no planejamento da a\u00e7\u00e3o da Igreja-Povo-de-Deus que emergiu do Conc\u00edlio, em que todos os seus membros teriam que assumir um protagonismo correspons\u00e1vel, desde a elabora\u00e7\u00e3o dos seus planos pastorais. Isso significava tamb\u00e9m que n\u00e3o haveria espa\u00e7o para uma din\u00e2mica autorit\u00e1ria no planejamento e na execu\u00e7\u00e3o do plano \u2013 a que ali\u00e1s tendiam os processos decis\u00f3rios no regime militar rec\u00e9m instalado no pa\u00eds. Na pastoral a din\u00e2mica tinha que ser participativa.<\/p>\n<p>Ele dizia tamb\u00e9m que, tratando-se de a\u00e7\u00e3o pastoral, era preciso deixar a porta aberta para a a\u00e7\u00e3o imprevis\u00edvel da Gra\u00e7a. Ou seja, o planejamento na Igreja n\u00e3o podia simplesmente seguir um roteiro de decis\u00f5es a tomar. Tinha que ser um processo decis\u00f3rio vivo, que se estendesse com a participa\u00e7\u00e3o de todos os atores nela implicados. Ele escreveu depois, na apresenta\u00e7\u00e3o do Plano de Pastoral de Conjunto elaborado: \u201cN\u00e3o h\u00e1 d\u00favida de que a Gra\u00e7a de Deus transcende os c\u00e1lculos humanos e o Esp\u00edrito Santo atua independente dos condicionamentos naturais. Mas \u00e9 certo tamb\u00e9m que \u00e9 imprescind\u00edvel a coopera\u00e7\u00e3o do homem com a Gra\u00e7a. Ora, o planejamento pastoral \u00e9 um esfor\u00e7o dessa coopera\u00e7\u00e3o indispens\u00e1vel. Ele visa exatamente a criar condi\u00e7\u00f5es favor\u00e1veis \u00e0 atua\u00e7\u00e3o da Gra\u00e7a\u201d.<\/p>\n<p>Frente a isso tudo, Caramuru me perguntava se existiria uma metodologia de planejamento adequada \u00e0 a\u00e7\u00e3o pastoral, algo que inovasse, como se tornava necess\u00e1rio numa pastoral p\u00f3s Conc\u00edlio Vaticano II, em que toda a vis\u00e3o da miss\u00e3o da Igreja tinha sido renovada.<\/p>\n<p>***<\/p>\n<p>Acertados nossos rel\u00f3gios, passamos a ver como desenvolver o trabalho dentro dessas perspectivas. Conclu\u00edmos que o Plano teria que ser constru\u00eddo progressivamente, num di\u00e1logo com bispos, religiosos, religiosas, leigos e leigas de todo o Brasil. E nos propusemos a realizar Brasil afora reuni\u00f5es com esse objetivo. A ele caberia apresentar as conclus\u00f5es do Conc\u00edlio e a mim o processo de planejamento e a forma dele se desenvolver, consideradas essas conclus\u00f5es.<\/p>\n<p>Lembro-me que a primeira dessas reuni\u00f5es foi com os Bispos do Regional da CNNB de S\u00e3o Paulo. E que j\u00e1 nas minhas fun\u00e7\u00f5es levei a conversa para uma pergunta crucial: qual o objetivo da a\u00e7\u00e3o da Igreja, que se pretenderia planejar? Frente \u00e0 resposta imediata que me foi dada \u2013 evangelizar \u2013 eu perguntava, mas para que evangelizar? E assim por diante, frente \u00e0s respostas seguintes: para que? Era um pouco ousado de minha parte, como um moleque de 33 anos, interrogar dessa forma os senhores bispos. Mas eles aceitaram bem meu atrevimento e esse tipo de questionamento, recome\u00e7ado em muitas reuni\u00f5es, foi permitindo a elabora\u00e7\u00e3o coletiva do \u201cObjetivo geral da a\u00e7\u00e3o da Igreja\u201d, que nesse plano ficou assim formulado: Levar todos os homens \u00e0 plena comunh\u00e3o de vida com o Pai e entre si em Jesus Cristo, no dom do Esp\u00edrito Santo, pela media\u00e7\u00e3o vis\u00edvel da Igreja.<\/p>\n<p>Foi estabelecido que esse primeiro plano seria de 5 anos, n\u00e3o me lembro se por influ\u00eancia dos 5 anos do Plano de Metas do Juscelino, e que a ele se seguiriam outros de 4 anos, nos quais esse objetivo geral iria sendo retrabalhado, assim como a escolha de estrat\u00e9gias \u2013 ou caminhos &#8211; para realiz\u00e1-lo.<\/p>\n<p>O \u201cObjetivo geral\u201d serve at\u00e9 hoje para dar um rumo \u00e0 a\u00e7\u00e3o da Igreja, ainda que o \u201cpara que\u201d possa estar agora menos explicitado, como nas Diretrizes Gerais da A\u00e7\u00e3o Evangelizadora da Igreja no Brasil 2019-2023: OBJETIVO GERAL &#8211; EVANGELIZAR no Brasil cada vez mais urbano, pelo an\u00fancio da Palavra de Deus, formando disc\u00edpulos e disc\u00edpulas de Jesus Cristo, em comunidades eclesiais mission\u00e1rias, \u00e0 luz da evang\u00e9lica op\u00e7\u00e3o preferencial pelos pobres, cuidando da Casa Comum e testemunhando o Reino de Deus rumo \u00e0 plenitude.<\/p>\n<p>A defini\u00e7\u00e3o do objetivo e a escolha de estrat\u00e9gias para realiz\u00e1-lo nasceu evidentemente das inova\u00e7\u00f5es que o Conc\u00edlio trazia, e que, por sua vez, Caramuru expunha nas reuni\u00f5es, antes que eu falasse que planejamento \u00e9 isso e aquilo (um processo de tomada de decis\u00f5es antes, durante e depois da a\u00e7\u00e3o, a escolha da estrat\u00e9gia e a organiza\u00e7\u00e3o da a\u00e7\u00e3o s\u00f3 depois de definir bem claramente o objetivo a alcan\u00e7ar, organiza\u00e7\u00e3o em rede, poder-domina\u00e7\u00e3o e poder-servi\u00e7o, a<\/p>\n<p>diferen\u00e7a entre plano, programa e projeto \u2013 todos abertos a serem revistos no curso da a\u00e7\u00e3o \u2013 etc., etc.).<\/p>\n<p>E me lembro bem de uma enorme reuni\u00e3o em Recife \u2013 com D. Helder como Bispo da Arquidiocese e outros bispos do Regional, sacerdotes, religiosos e religiosas, leigos e leigas, numa grande sala lotada, em que Caramuru ia pacientemente \u201cexplicando\u201d o que representava de fato o Conc\u00edlio e o conte\u00fado de suas decis\u00f5es, quando um padre de meia idade, atento ali na primeira fila, lhe perguntou: Mas Caramuru, escuta aqui: com tudo isso que voc\u00ea est\u00e1 nos dizendo vamos ter que entrar de novo no Semin\u00e1rio! Caramuru riu e concordou&#8230;<\/p>\n<p>Vale a pena dizer que essa s\u00e9rie de reuni\u00f5es, ao longo de ano e meio, praticamente em todos os regionais da CNBB, contavam com grande participa\u00e7\u00e3o e tinham um ambiente de entusiasmo pela renova\u00e7\u00e3o que o Conc\u00edlio trazia. E, enquanto isso, Caramuru trabalhava tamb\u00e9m, incansavelmente como lhe foi sempre peculiar, na reda\u00e7\u00e3o do texto desse primeiro plano, recolhendo e sistematizando tudo que se discutia e se propunha.<\/p>\n<p>Nesse processo foram sendo identificadas, com base nos documentos do Conc\u00edlio, o que foi ent\u00e3o chamado de \u201clinhas da a\u00e7\u00e3o pastoral\u201d \u2013 comunit\u00e1ria, mission\u00e1ria, catequ\u00e9tica, lit\u00fargica, ecum\u00eanica e transformadora \u2013 pelas quais a Igreja realizaria seus objetivos em todas as dioceses que a comp\u00f5em. Na defini\u00e7\u00e3o teol\u00f3gica do conte\u00fado dessas \u201clinhas\u201d foi tamb\u00e9m decisiva a contribui\u00e7\u00e3o de Caramuru, que conhecia bem toda a reflex\u00e3o dos te\u00f3logos que inspiraram o Vaticano II.<\/p>\n<p>\u00c9 ali\u00e1s muito instrutiva para todos n\u00f3s a releitura, no Plano de Pastoral de Conjunto, dos textos que explicam esses conte\u00fados. Por sorte isto est\u00e1 hoje facilitado pela republica\u00e7\u00e3o desse Plano em 2004 &#8211; com acesso livre pelos buscadores on-line da Internet &#8211; tornando-o um documento de refer\u00eancia. Foi quase como uma comemora\u00e7\u00e3o promovida pela CNBB, 40 anos depois, com Dom Odilo Scherer como Secret\u00e1rio Geral.<\/p>\n<p>No in\u00edcio da d\u00e9cada de 80, por iniciativa de Dom Luciano Mendes de Almeida, ent\u00e3o Secret\u00e1rio Geral, essas \u201clinhas\u201d passaram a ser chamadas de \u201cdimens\u00f5es da a\u00e7\u00e3o eclesial\u201d. Essa mudan\u00e7a de nome valorizava seu conte\u00fado mais do que seu sentido organizativo, que levara at\u00e9 \u00e0 reestrutura\u00e7\u00e3o de todos os servi\u00e7os prestados pela CNBB. Caramuru deve ter concordado com essa mudan\u00e7a, embora n\u00e3o tenha podido participar da discuss\u00e3o a respeito, proposta por Dom Luciano. Eu mesmo, j\u00e1 de volta do exilio e trabalhando como assessor de D. Paulo Evaristo Arns, tive a grata oportunidade de dar minha opini\u00e3o favor\u00e1vel.<\/p>\n<p>***<\/p>\n<p>No processo de discuss\u00e3o do Plano, logo ficou claro que n\u00e3o se trataria de elaborar um plano de a\u00e7\u00e3o de toda a Igreja no Brasil, como se ela fosse um bloco monol\u00edtico cuja renova\u00e7\u00e3o a CNBB fosse, por assim dizer, comandar, como uma inst\u00e2ncia hier\u00e1rquica superior. At\u00e9 porque na pr\u00f3pria renova\u00e7\u00e3o que se queria assumir as dioceses eram vistas como comunidades eclesiais em plena comunh\u00e3o com Roma mas guiadas pelo seu bispo e que este, com seu presbit\u00e9rio, era colegialmente e solidariamente respons\u00e1vel pela miss\u00e3o apost\u00f3lica da Igreja.<\/p>\n<p>Assim \u00e9 que, gra\u00e7as tamb\u00e9m \u00e0 clareza da vis\u00e3o eclesiol\u00f3gica de Caramuru, ao longo do processo participativo de elabora\u00e7\u00e3o do Plano decidiu-se, como ele mesmo explica na sua apresenta\u00e7\u00e3o, que o Plano deveria prever somente as atividades da CNBB, como \u201cinstrumento privilegiado de exerc\u00edcio da co-responsabilidade pastoral do episcopado\u201d, como a definem seus documentos. Nessa perspectiva, o objetivo do Plano foi assim formulado: criar \u201cmeios e condi\u00e7\u00f5es para que a Igreja no Brasil\u201d se ajuste, \u201co mais r\u00e1pida e plenamente poss\u00edvel, \u00e0 imagem de Igreja do Vaticano II\u201d.<\/p>\n<p>O Plano previu ent\u00e3o quatro programas de a\u00e7\u00e3o, a serem realizados ao longo de 5 anos: de pesquisas e levantamentos, com 19 projetos; de reflex\u00e3o e elabora\u00e7\u00e3o teol\u00f3gico-pastoral, com 19<\/p>\n<p>projetos; de forma\u00e7\u00e3o de pessoal, com 12 projetos; de assessorias aos secretariados regionais, \u00e0s dioceses e a outros organismos de Igreja, com 6 projetos.<\/p>\n<p>Nossa dupla foi desfeita quando a ditadura me fez deixar o Brasil em fins de 1966. Depois do Plano aprovado pude ainda participar, com Caramuru, de assessorias de planejamento a Regionais, Dioceses e outros organismos, previstas no quarto desses programas. Mas Caramuru continuou a trabalhar no Secretariado Geral da CNBB, no acompanhamento e revis\u00e3o de todos os programas e projetos do Plano. N\u00e3o sei por quanto tempo o fez, nem se participou da elabora\u00e7\u00e3o dos planos quadrienais que a ele se seguiram. Mas o processo cont\u00ednuo de planejamento pastoral, com ele iniciado, continua at\u00e9 hoje.<\/p>\n<p>***<\/p>\n<p>Por \u00faltimo acho importante dizer, para fazer justi\u00e7a \u00e0 mem\u00f3ria de Caramuru, que foi dele, em 1965, a intui\u00e7\u00e3o da cria\u00e7\u00e3o de Comunidades Eclesiais de Base, que se multiplicaram e se tornaram, d\u00e9cadas depois, quase que a \u201cmarca registrada\u201d da Igreja no Brasil, surgindo tamb\u00e9m em outros pa\u00edses do mundo.<\/p>\n<p>O Padre Nelito Nonato Dornelas publicou na Revista Pastoral de Maio-Junho de 2006 um artigo com o t\u00edtulo \u201cA identidade das CEBs\u201d, em que diz que \u201cOs bispos do Brasil j\u00e1 haviam feito a op\u00e7\u00e3o pelas \u201ccomunidades de base\u201d desde 1966, para tornar a Igreja mais viva, mais correspons\u00e1vel e mais integrada. As CEBs foram consideradas atividade \u201curgente\u201d pelos bispos, para renovar as par\u00f3quias. Esse plano foi sistematizado e lan\u00e7ado em 1968, pela Editora Vozes, na obra do Pe. Raimundo Caramuru \u201cComunidades eclesiais de base: uma op\u00e7\u00e3o decisiva\u201d.<\/p>\n<p>As CEBS alcan\u00e7aram o auge com seus Encontros Intereclesiais, dos quais o primeiro foi realizado em 1975, quase dez anos depois do primeiro artigo de Caramuru a respeito. Ele teve lugar em Vit\u00f3ria, no Esp\u00edrito Santo, por est\u00edmulo de Dom Luiz Gonzaga Fernandes, ent\u00e3o Bispo Auxiliar da Arquidiocese. Segundo o Padre Edegard Silva Junior, dele participaram 70 pessoas, representando v\u00e1rias dioceses de 12 estados diferentes. Entre eles, 5 bispos e v\u00e1rios animadores e animadoras leigos e leigas e agentes de pastoral das comunidades de v\u00e1rias partes do pa\u00eds.<\/p>\n<p>J\u00e1 para o segundo, em 1976, ainda em Vit\u00f3ria, vieram 100 pessoas, representando 24 dioceses de 17 estados brasileiros. A metade dos presentes representava as comunidades (base) e a outra metade era constitu\u00edda por agentes de pastoral, bispos e assessores. Participaram 13 bispos brasileiros e 3 convidados estrangeiros, sendo 2 do M\u00e9xico.<\/p>\n<p>A partir da\u00ed esses encontros passaram a se realizar em diferentes cidades e regi\u00f5es do Brasil, com intervalos maiores de tempo entre eles. Segundo ainda o Padre Edegard, o 13\u00ba teve lugar em Juazeiro do Norte, no Cear\u00e1, em 2014, e dele participaram 4.036 pessoas, entre esses \u201c2.248 mulheres e 1.788 homens, 72 bispos, 232 padres e 146 religiosos e religiosas, 75 lideran\u00e7as ind\u00edgenas; 20 membros de outras Igrejas crist\u00e3s, 35 pessoas pertencentes a outras religi\u00f5es, 36 estrangeiros e 68 assessores e membros da coordena\u00e7\u00e3o ampliada. E, pela primeira vez na hist\u00f3ria, um Intereclesial das Comunidades Eclesiais de Base recebeu uma mensagem de um Papa. A mensagem do Papa Francisco dirigida aos participantes do 13\u00ba Intereclesial trouxe muita alegria e renovou a esperan\u00e7a de uma Igreja pobre e dos pobres comprometida com a justi\u00e7a e a profecia a servi\u00e7o da vida\u201d.<\/p>\n<p>Na sua mod\u00e9stia, Caramuru nunca reivindicou o agradecimento que merecia pelo enorme servi\u00e7o que prestou \u00e0 Igreja no Brasil.<\/p>\n<p>Solenidade de Pentecostes de 2020.<\/p>\n<p>&nbsp;    \t<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Veja o artigo em homenagem ao professor Raimundo Caramuru Barros, falecido no dia 17 de maio. Ele foi perito e assessor da CNBB por anos\u00a0<\/p>\n","protected":false},"author":83,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":""},"categories":[841],"tags":[],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/posts\/240089"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/users\/83"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/comments?post=240089"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/posts\/240089\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/media?parent=240089"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/categories?post=240089"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/tags?post=240089"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}