{"id":240130,"date":"2020-06-04T18:06:29","date_gmt":"2020-06-04T21:06:29","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/?p=240130"},"modified":"2020-09-08T14:08:43","modified_gmt":"2020-09-08T17:08:43","slug":"nao-basta-encher-o-freezer","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/nao-basta-encher-o-freezer\/","title":{"rendered":"N\u00e3o basta encher o freezer"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right\"><strong> Dom Jacinto Bergmann<br \/>\nArcebispo de Pelotas<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">\n<p style=\"text-align: justify\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Tenho um amigo na Irlanda, professor universit\u00e1rio, que teve a gentileza de enviar-me uma reflex\u00e3o do Cardeal portugu\u00eas que trabalha no Vaticano como Bibliotec\u00e1rio Apost\u00f3lico, Dom Jos\u00e9 Tolentino Mendon\u00e7a. Baseado nessa reflex\u00e3o sobre a situa\u00e7\u00e3o atual da pandemia do coronav\u00edrus, elaboro este escrito desta semana:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 No Imagin\u00e1rio contempor\u00e2neo o termo \u201cquarentena\u201d remete-nos para mundos recuados, que a modernidade superou. Quanto muito, podia-se aplicar a alguns casos individuais, onde a gravidade das patologias impunha essa arcana pr\u00e1tica securit\u00e1ria. A ideia de pa\u00edses inteiros \u201cem quarentena\u201d constitui uma absoluta estranheza. N\u00e3o admira, por isso, que a primeira rea\u00e7\u00e3o seja a de medo e d\u00ea lugar \u00e0s formas mais diversas de express\u00e3o de claustrofobia exasperada. Alguns &#8211; \u00a0movidos por motiva\u00e7\u00f5es religiosas ou por escolhas conscientes de vida &#8211; \u00a0aprenderam a tornar fecunda e solid\u00e1ria a pr\u00f3pria solid\u00e3o e educaram o seu cora\u00e7\u00e3o nesse sentido, mas tinham que se posicionar muitas vezes contra a corrente. De fato, essa educa\u00e7\u00e3o, reflete Mendon\u00e7a, \u201cfalta a uma sociedade onde os est\u00edmulos maiores v\u00e3o na dire\u00e7\u00e3o contr\u00e1ria: na linha do escapismo, do atordoamento consumista, da vida massificada e dispersa\u201d. Por isso, somos convocados como sociedade a uma experi\u00eancia pedag\u00f3gica. Que a \u201cquarentena\u201d n\u00e3o seja s\u00f3 um violento recurso for\u00e7ado, do qual vemos apenas os aspectos negativos, mas, mesmo com o indesment\u00edvel esfor\u00e7o, nos possa ajudar a transmutar o <em>chr\u00f3nos<\/em> em <em>kair\u00f3s<\/em>. Passamos a vida inteira a repetir que \u201ctempo \u00e9 dinheiro\u201d e nem nos apercebemos do custo existencial dessa proposi\u00e7\u00e3o. Este pode ser o momento para irmos ao encontro daquilo que perdemos; daquilo que deixamos sistematicamente por dizer; daquele amor para o qual nunca encontramos nem voz, nem vez; daquela gratuidade reprimida que podemos agora saborear e exercer. Temos de olhar para a \u201cquarentena\u201d n\u00e3o apenas como um adverso congelamento da vida que nos deixa manietados, elencando de modo man\u00edaco o que estamos a perder. Sairemos mais amadurecidos se a aproveitarmos como um dom, como um espa\u00e7o pr\u00e1tico e aberto, como um TEMPO PARA SER, SERVIR E AMAR (<em>versus um tempo do mero ter, poder e aproveitar-se).<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 A nossa seguran\u00e7a n\u00e3o pode provir apenas da despensa guarnecida ou do freezer cheio <em>(e como fica com os pobres?).<\/em> A vida \u00e9 mais do que a materialidade necess\u00e1ria \u00e0 sobreviv\u00eancia. \u00c9 isso, mas \u00e9 maior do que isso. Esta situa\u00e7\u00e3o de exce\u00e7\u00e3o que vivemos representa, assim, tamb\u00e9m uma oportunidade para refletir sobre aquilo que nos nutre. \u00c9 que nos alimentamos de tanta falsifica\u00e7\u00e3o de produtos, reduzindo a vida a um <em>fast-food<\/em>, de prefer\u00eancia sem refletir muito. \u00c9 que nos alimentamos de <em>tickets<\/em> rotineiros e empalidecidos; de ideias-feitas que n\u00e3o deixam lugar a percursos de escuta e de descoberta; de automatismos que pairam como pura abstra\u00e7\u00e3o; de imagens filtradas que reduzem sempre mais a realidade a uma coisa plana, esvaziando-a da sua natureza \u00e1spera, polif\u00f4nica e concreta; de palavras que, mais do que uma real declara\u00e7\u00e3o de presen\u00e7a, se parecem a uma estrat\u00e9gia que nos substrai \u00e0s chamadas sucessivas que a vida faz.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Aqui n\u00e3o podemos deixar de lembrar o discurso sapiencial que Jesus de Nazar\u00e9, o Filho de Deus, fez no Serm\u00e3o da Montanha: \u201cQuanto \u00e0 vossa vida, n\u00e3o coloqueis o cuidado no que haveis de comer ou beber, nem quanto ao vosso corpo, pelo que haveis de vestir. N\u00e3o vale a vida mais que o alimento, e o corpo mais que o vesti\u00e1rio. Olhai os p\u00e1ssaros do c\u00e9u: n\u00e3o semeiam, n\u00e3o colhem, nem ajuntam em celeiros. No entanto, vosso Pai celeste os alimenta. Aprendei dos l\u00edrios do campo: n\u00e3o trabalham, nem fiam. No entanto, eu vos digo, nem Salom\u00e3o, em toda a sua gl\u00f3ria, jamais se vestiu como um s\u00f3 dentre eles\u201d (Mt 6, 25-29).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">\n<p style=\"text-align: justify\">\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dom Jacinto Bergmann Arcebispo de Pelotas \u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Tenho um amigo na Irlanda, professor universit\u00e1rio, que teve a gentileza de enviar-me uma reflex\u00e3o do Cardeal portugu\u00eas que trabalha no Vaticano como Bibliotec\u00e1rio Apost\u00f3lico, Dom Jos\u00e9 Tolentino Mendon\u00e7a. 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