{"id":240695,"date":"2020-06-16T14:21:31","date_gmt":"2020-06-16T17:21:31","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/?p=240695"},"modified":"2020-09-08T13:52:44","modified_gmt":"2020-09-08T16:52:44","slug":"final-do-outono-o-belo-e-o-desconforto-producente-da-incompletude","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/final-do-outono-o-belo-e-o-desconforto-producente-da-incompletude\/","title":{"rendered":"Final do outono: o belo e o desconforto producente da incompletude"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right\"><strong>Dom Luiz Antonio Lopes Ricci<\/strong><br \/>\n<strong>Bispo de Nova Friburgo<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Estamos na \u00faltima semana do outono, que teve in\u00edcio em 20 de mar\u00e7o e terminar\u00e1 no pr\u00f3ximo s\u00e1bado, 20 de junho. O outono \u00e9 um per\u00edodo de transi\u00e7\u00e3o e situa-se entre o ver\u00e3o e o inverno, com pouca chuva, temperatura mais baixa, folhas que caem e colorido diferenciado. A pandemia da Covid-19 atravessou todo o nosso per\u00edodo outonal, causando milhares de mortes, dor, luto, sofrimento, preocupa\u00e7\u00e3o, incertezas, medo&#8230; Bastante significativo \u00e9 poder, este ano, celebrar a Solenidade do Sagrado Cora\u00e7\u00e3o de Jesus no pen\u00faltimo dia do outono, fechando essa bela e triste esta\u00e7\u00e3o, com o Amor de Jesus que transborda e jorra de seu Cora\u00e7\u00e3o e Lado aberto na Cruz. Trata-se do mesmo Amor que nos acompanhou nesse dram\u00e1tico per\u00edodo e nos acompanhar\u00e1 at\u00e9 o fim, seja qual for a situa\u00e7\u00e3o pessoal, social e global. Como \u00e9 bom sentirmo-nos abrigados no Sagrado e \u201cSangrado\u201d Cora\u00e7\u00e3o de Jesus. Cora\u00e7\u00e3o aberto que a todos acolhe. Cora\u00e7\u00e3o que acalma e que tem poder de fazer o nosso cora\u00e7\u00e3o cada vez mais semelhante ao Dele. Cora\u00e7\u00e3o que pode transformar o nosso cora\u00e7\u00e3o, tantas vezes petrificado, em cora\u00e7\u00e3o de carne (cf. Ez 36,26), mais humano, misericordioso e acolhedor. Precisamos estar vigilantes, sobretudo em situa\u00e7\u00e3o adversa, para n\u00e3o arrefecer o nosso cora\u00e7\u00e3o, como nos alertou Jesus: \u201cA iniquidade (maldade) se espalhar\u00e1 tanto que o amor de muitos esfriar\u00e1. Quem, por\u00e9m, perseverar at\u00e9 o fim, esse ser\u00e1 salvo\u201d (Mt 24,12-13).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Gratid\u00e3o tamb\u00e9m \u00e9 poder celebrar o Imaculado Cora\u00e7\u00e3o de Maria, no \u00faltimo dia do outono e o primeiro do inverno, no s\u00e1bado, dia 20. Quantos sinais do Amor de Deus e de sua Presen\u00e7a-Presente para encerrar uma esta\u00e7\u00e3o e prosseguir com teimosa esperan\u00e7a nas outras, na alegre e dif\u00edcil peregrina\u00e7\u00e3o temporal rumo \u00e0 Casa do Pai. Sempre utilizamos a express\u00e3o \u201ccora\u00e7\u00e3o de m\u00e3e\u201d para se referir ao amor materno e \u00e0 bondade das pessoas. Nosso Deus tem Cora\u00e7\u00e3o! Nossa M\u00e3e Maior tem um Cora\u00e7\u00e3o Imaculado, que n\u00e3o conheceu o pecado e o mal. Por isso, al\u00e9m de nos abrigarmos e \u201csossegar\u201d nosso ser no Colo de Maria, queremos pedir ao Bom Deus, por intercess\u00e3o dela, que o nosso Cora\u00e7\u00e3o seja purificado, com a elimina\u00e7\u00e3o das obstru\u00e7\u00f5es do desamor e sentimentos negativos que maculam o nosso cora\u00e7\u00e3o, feito para amar, servir e fazer o bem: \u201ce Deus viu que tudo era muito bom\u201d (Gn 1, 31). Ter um \u201ccora\u00e7\u00e3o de m\u00e3e\u201d \u00e9 um imperativo para todo o ser humano. Na confian\u00e7a filial e na pr\u00e1tica do amor podemos rezar<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">com o Salmista: \u201cFiz calar\u00a0e sossegar a minha alma; ela est\u00e1\u00a0em grande paz dentro de mim, como a crian\u00e7a bem tranquila, amamentada no rega\u00e7o acolhedor de sua m\u00e3e\u201d (Sl 130,2).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">N\u00e3o obstante tanta dor e incertezas, acompanhadas de um desconforto oriundo do nosso \u201cconforto\u201d e situa\u00e7\u00e3o \u201cprivilegiada\u201d, quando comparada \u00e0 realidade de tantos irm\u00e3os e irm\u00e3s, pois \u201co custo da desigualdade s\u00e3o os sofrimentos individuais e a infelicidade coletiva\u201d (C. Volpato), o Criador nos presenteou durante o outono com momentos que favoreceram a contempla\u00e7\u00e3o e aliviaram um pouco a dor dos cora\u00e7\u00f5es compass\u00edveis e emp\u00e1ticos. Como n\u00e3o recordar os espl\u00eandidos crep\u00fasculos, captados n\u00e3o por acaso pela nossa vis\u00e3o, acolhidos com gratid\u00e3o outonal ao Criador e registrados em nossas fotografias internas e digitais? Como n\u00e3o pedir com insist\u00eancia renovada, diante de tanta beleza, como o fizeram os disc\u00edpulos de Ema\u00fas naquele entardecer pascal: \u201cFica conosco Senhor, pois j\u00e1 \u00e9 tarde e a noite vem chegando\u201d? De fato, no outono, os dias ficam mais curtos e o anoitecer chega mais cedo. Algumas noites da exist\u00eancia s\u00e3o mais escuras e dif\u00edceis, mesmo quando iluminadas pela f\u00e9 pascal e pela irm\u00e3 lua. Contudo, emerge a certeza: \u201cE a luz brilha nas trevas e as trevas n\u00e3o a dominaram\u201d (Jo 1,5). Por essa raz\u00e3o, nos ensina o Papa Francisco ao refletir G\u00eanesis 32,23-33: \u201cTodos n\u00f3s temos um encontro marcado com Deus de noite, na noite da nossa vida, nas muitas noites da nossa vida: momentos escuros, momentos de pecado, momentos de desorienta\u00e7\u00e3o. H\u00e1 ali um encontro com Deus, sempre. Ele nos surpreender\u00e1 quando menos esperamos, quando nos encontramos verdadeiramente sozinhos. Nessa mesma noite, lutando contra o desconhecido, tomaremos consci\u00eancia de que somos apenas pobres homens &#8211; ouso dizer \u2018infelizes\u2019 &#8211; mas, precisamente nessa altura, quando nos sentirmos \u201cpobres homens\u201d, n\u00e3o deveremos recear: porque, nesse preciso momento, Deus nos dar\u00e1 um novo nome, que cont\u00e9m o sentido de toda a nossa vida; Ele mudar\u00e1 os nossos cora\u00e7\u00f5es e nos dar\u00e1 a b\u00ean\u00e7\u00e3o reservada para aqueles que se deixam transformar por Ele. Este \u00e9 um bom convite para nos deixarmos transformar por Deus. Ele sabe como fazer, porque conhece cada um de n\u00f3s. \u2018Senhor, tu conheces-me\u2019, todos n\u00f3s o podemos dizer. \u2018Senhor, tu conheces-me. Transforma-me\u2019\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Ainda que as temperaturas tenham sido mais amenas no outono e com alguns dias de frio, o calor das emo\u00e7\u00f5es negativas, infelizmente, n\u00e3o deu tr\u00e9gua. O clima continuou \u201cquente\u201d em muitos setores da sociedade brasileira. A noite insiste sempre! Tamb\u00e9m os males da estupidez, do \u00f3dio e da indiferen\u00e7a. \u201cCessem os discursos e falem as obras\u201d (Santo Antonio). Ser\u00e1 que o inverno iminente ser\u00e1 capaz de resfriar os \u00e2nimos apenas, jamais o cora\u00e7\u00e3o? Seria poss\u00edvel transformar o inverno-esta\u00e7\u00e3o e o \u201cinverno\u201d que insiste habitar em n\u00f3s, em tempo de frutos e flores? Recordemos que os ip\u00eas florescem no inverno! N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel antecipar a primavera, mas plaus\u00edvel transformar os \u201cinvernos\u201d em primavera do novo ser humano. N\u00e3o haver\u00e1 novo normal adequado sem um novo humano! Na It\u00e1lia se diz que \u201csotto la neve c\u2019\u00e8 il pane\u201d(sob a neve tem p\u00e3o), ou seja, ap\u00f3s a neve chegam os frutos. O inverno pode ser fecundo, belo e transformador! Urge arrefecer as emo\u00e7\u00f5es e atitudes negativas para brotar amor e p\u00e3o!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Voltemos ao outono, com os olhos fixos em n\u00f3s mesmos, bem como no belo, no bom e no verdadeiro. Assim escreve o grande educador e poeta Rubem Alves: \u201cO crep\u00fasculo e o outono nos fazem retornar \u00e0 nossa verdade. Dizem o que somos. S\u00e3o met\u00e1foras de n\u00f3s mesmos, eles nos fazem lembrar que somos seres crepusculares, outonais\u201d. Somos inquietos e incompletos e com enorme desejo de completude e plenitude que s\u00f3 alcan\u00e7aremos junto de Deus, na Vida Eterna. Quanto mais nos aproximamos de Deus, tanto mais percebemos que ainda temos um longo caminho de convers\u00e3o e santifica\u00e7\u00e3o, como nos ensinam os santos e santas. A viv\u00eancia da f\u00e9 madura e orante nos \u201cincompleta\u201d para \u201ccompletar\u201d novamente. Tamb\u00e9m o p\u00f4r do sol nos incompleta positivamente ao questionar a enganadora sensa\u00e7\u00e3o de nos sentirmos completos. Na verdade, tudo aquilo que nos incompleta, nos esvazia, favorece a busca e o desejo de completude autenticamente humana. Como posso evoluir se j\u00e1 me considero completo e acabado? Quanto maior for a nossa consci\u00eancia da incompletude, tanto maior ser\u00e1 a nossa busca por completude na Plenitude de Deus. Neste outono, especificamente por conta da pandemia e<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">risco, tivemos tempo para pensar em nossa finitude terrena, na fragilidade humana e na irm\u00e3 morte, \u00e0 luz, \u00e9 claro, da P\u00e1scoa, que celebramos tamb\u00e9m nesse outono. N\u00e3o nascemos para morrer, mas morremos para ressuscitar! A vida humana, embora temporalmente incompleta, participar\u00e1 da Plenitude de Cristo. Quanto maior o desejo de plenitude, tanto maior deve ser a humildade, a consci\u00eancia dos limites e fragilidades, do desconforto existencial e da \u201cinquieta\u00e7\u00e3o\u201d agostiniana que nos coloca em movimento, em dire\u00e7\u00e3o a Deus e, consequentemente, ao pr\u00f3ximo. Precisamos pensar na finitude para valorizar melhor a nossa vida e a vida dos irm\u00e3os e irm\u00e3s, especialmente os mais vulner\u00e1veis e necessitados. As constantes imagens de dor, morte e sepultamentos que traspassam a alma, deveriam mobilizar em n\u00f3s um maior desejo de afirmar a vida e de lutar para que todos tenham vida e vida com dignidade, em abund\u00e2ncia (cf. Jo 10,10). A dor produz compaix\u00e3o, desconforto e indigna\u00e7\u00e3o porque muitas dessas mortes certamente poderiam ter sido evitadas, se tiv\u00e9ssemos nos preparado melhor para essa pandemia e se coloc\u00e1ssemos o foco naquilo que realmente importa: a vida. \u201cA Gl\u00f3ria de Deus \u00e9 a vida do homem\u201d (S. Irineu). A Trindade Santa, Perfeita Comunidade, que celebramos faz pouco, \u00e9 o Caminho para tornar a comunidade humana mais humana, solid\u00e1ria, fraterna e justa. Toda vida \u00e9 sagrada e inviol\u00e1vel! A Igreja nos ensina e nos convida a amar e cuidar de \u201ctodo homem e do homem todo\u201d, defendendo a vida, como dom e compromisso, enquanto podemos e conseguimos respirar. \u201cO outro que sofre nos pertence\u201d (S. Jo\u00e3o Paulo II).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Em tempos de dor e morte, precisamos cultivar a esperan\u00e7a: \u201cSabedoria \u00e9 isto: contemplar o abismo, sem ser destru\u00eddo por ele\u201d (Rubem Alves). Diante da dor, causada pela injusti\u00e7a, desigualdade e descaso, cabem a f\u00e9 e a resili\u00eancia, jamais o esquecimento ou sil\u00eancio letal.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Seguimos com Rubem Alves: \u201cNo ver\u00e3o o excesso de luz ofusca as cores. No outono a luz fica mais mansa e as cores desabrocham como flores. O Ver\u00e3o \u00e9 inquieto. Tudo nele nos convida a sair e a agir. O outono \u00e9 tranquilo, introspectivo, convida ao recolhimento e \u00e0 medita\u00e7\u00e3o. \u00c9 um convite ao pensamento\u201d. De fato, durante a pandemia e tantos acontecimentos, n\u00e3o nos faltou tempo, neste outono, ainda que intranquilo, para pensar e avaliar nossos atos e modo de vida, \u00e0 luz do Evangelho. Como n\u00e3o pensar e rezar diante de um crep\u00fasculo outonal? Se o crep\u00fasculo \u00e9 o intervalo entre o dia e a noite, a aurora, segundo o bel\u00edssimo texto de S. Greg\u00f3rio Magno, \u00e9 o intervalo entre a noite e a luz. Em ambos est\u00e1 presente a luz do sol. Somos \u201csal da terra e luz do mundo\u201d, mas tamb\u00e9m crep\u00fasculo e aurora, guiados e inundados permanentemente pela Luz de Cristo, enquanto caminhamos para aquele \u201cdia sem ocaso\u201d no qual \u201cn\u00e3o haver\u00e1 mais noite, n\u00e3o mais se precisar\u00e1 da luz do sol, porque o Senhor Deus vai ilumin\u00e1-los e viver\u00e3o pelos s\u00e9culos dos s\u00e9culos\u201d (Ap 22,5). \u201cA madrugada ou aurora \u00e9 o tempo da passagem das trevas para a luz. A aurora e a madrugada anunciam ter passado a noite, no entanto, ainda n\u00e3o mostram toda a claridade do dia: repelem aquela, acolhem este, e, enquanto isto, as trevas e a luz se misturam. Quem somos n\u00f3s nesta vida, n\u00f3s que seguimos a verdade, a n\u00e3o ser aurora ou madrugada? J\u00e1 havendo realizado algo que pertence \u00e0 luz, no entanto, ainda n\u00e3o nos libertamos inteiramente das trevas. Pelo Profeta foi dito a Deus: Diante de ti, nenhum vivente \u00e9 justo. E em outro lugar:\u00a0Em muitas coisas falhamos todos. Por isto, quando Paulo diz:\u00a0Passou a noite; n\u00e3o acrescenta logo: Chegou o dia, mas:\u00a0O\u00a0dia se aproximou. Ao dizer que, passada a noite, o dia n\u00e3o veio, mas se aproximou, demonstra, sem qualquer d\u00favida, estar ainda na aurora, depois das trevas e antes do sol. Qual \u00e9 ent\u00e3o o lugar da aurora, a n\u00e3o ser a perfeita claridade da vis\u00e3o eterna? Quando, conduzida, l\u00e1 chegar, nada mais lhe restar\u00e1 das trevas da noite. A aurora apressa-se em alcan\u00e7ar seu lugar, no testemunho do Salmista:\u00a0\u2018Minha alma tem\u00a0sede do Deus vivo; quando irei e aparecerei diante da face de Deus?\u00a0\u2019\u201d (S\u00e3o Greg\u00f3rioMagno). Busquemos a verdadeira Luz, que \u00e9 Cristo, o Sol da Justi\u00e7a e \u201csirvamos ao Senhor em santidade e em justi\u00e7a, enquanto perdurarem nossos dias\u201d (Lc 1,75).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">O p\u00f4r do sol \u00e9 belo justamente por carregar um pouco de tristeza. Trata-se da \u201celegante melancolia do crep\u00fasculo\u201d (C. Chaplin). E uma tristeza que tem potencialidade de se transformar em beleza e alegria, em aurora e luz. Trata-se de uma ambival\u00eancia natural e existencial, uma coexist\u00eancia de sentimentos antag\u00f4nicos que fazem emergir a nossa incompletude para completar com o que realmente completa e importa. Isso implica ter a sabedoria de que, na travessia da exist\u00eancia, estamos constantemente como aprendizes e \u201cna mvida somos eternos amadores, pois vivemos pouco para sermos mais do que isso\u201d (C. Chaplin). \u00c0 luz da f\u00e9 crist\u00e3, podemos sintetizar a ambival\u00eancia com duas frases, uma chamada \u201cmantra\u201d e a outra de Santo Agostinho, respectivamente: \u201cIndo e vindo, trevas e luz, tudo \u00e9 Gra\u00e7a, Deus nos conduz\u201d; \u201cFizeste-nos para ti Senhor, inquieto estar\u00e1 o nosso cora\u00e7\u00e3o enquanto n\u00e3o repousar em ti\u201d. A consci\u00eancia de que somos incompletos e o humilde desejo de completude, que busca constantemente passar da noite para a aurora e da aurora para a luz, do outono para o inverno e do inverno para a primavera, nos permite rezar com o Salmista: \u201cCompletai em mim a obra come\u00e7ada; \u00f3 Senhor, vossa bondade \u00e9 para sempre! Eu vos pe\u00e7o: n\u00e3o deixeis inacabada esta obra que fizeram vossas m\u00e3os\u201d (Sl 138,8). Precisamos permitir que Deus continue sua obra para ser o que podemos e devemos ser: melhores e santos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Encerraremos o outono com a Solenidade do Sagrado e Sangrado Cora\u00e7\u00e3o de Jesus a Mem\u00f3ria do Imaculado Cora\u00e7\u00e3o de Maria. Nosso Deus tem Cora\u00e7\u00e3o! Ele \u00e9 Amor! Temos uma M\u00e3e que nos foi dada pelo pr\u00f3prio Jesus, na Cruz. Iniciaremos a nova esta\u00e7\u00e3o, aquecidos pelo Amor e com o nobre desejo de vivenciar concretamente o Mandamento do Amor. Para tanto, precisamos identificar o que falta em n\u00f3s. Jesus perguntou aos dois disc\u00edpulos de Jo\u00e3o Batista que o seguiam: \u201co que procurais?\u201d (Jo 1,38). E n\u00f3s, o que procuramos? Onde procuramos? O que falta? Somente Jesus pode despertar em n\u00f3s o humano desejo de completude na consci\u00eancia da incompletude tocada por Ele: \u201cVinde a mim, todos os que estais cansados e carregados de fardos, e eu vos darei descanso\u201d (Mt 11,28). \u00c9 humano e compreens\u00edvel o \u201ccansa\u00e7o\u201d que experimentamos nesse dram\u00e1tico momento e em tantos outros: \u201csabemos que toda a cria\u00e7\u00e3o, at\u00e9 o presente, est\u00e1 gemendo como que em dores de parto. E n\u00e3o somente ela, mas tamb\u00e9m n\u00f3s\u201d(Rm 8,22-23). Por essa raz\u00e3o, imploramos constantemente: \u201cJesus manso e humilde de Cora\u00e7\u00e3o, fazei o nosso cora\u00e7\u00e3o semelhante ao Vosso\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Visitando recentemente, com toda seguran\u00e7a, na Solenidade da Sant\u00edssima Trindade, o Mosteiro das Irm\u00e3s Carmelitas, dizia a elas que estava ali para respirar o ar da contempla\u00e7\u00e3o e renovar os pulm\u00f5es com o puro oxig\u00eanio que l\u00e1 n\u00e3o falta e de l\u00e1 se difunde, porque aqui fora estava dif\u00edcil e um pouco asfixiante. Dizia tamb\u00e9m que elas vivem em clausura por voca\u00e7\u00e3o e que o povo aqui fora estava confinado por medo do v\u00edrus mortal. Se no cotidiano delas quase nada mudou durante a pandemia, j\u00e1 no nosso, tudo mudou. Somos \u201cobrigados\u201d ao distanciamento por amor \u00e0 vida. Elas se \u201cdistanciam\u201d do mundo por Amor a Cristo, o \u00fanico Esposo e Primeiro Amor. Elas t\u00eam o oxig\u00eanio da contempla\u00e7\u00e3o. N\u00f3s, o cansa\u00e7o da miss\u00e3o e dos tempos dific\u00edlimos. Elas rezam por n\u00f3s, pela Igreja e toda humanidade. N\u00f3s, com as ora\u00e7\u00f5esdelas e com as nossas, \u00e9 claro, podemos receber o oxig\u00eanio de Deus, respirar melhor, contribuir para que todos tamb\u00e9m possam respirar, viver com dignidade e seguir lutando contra as persistentes desigualdades injustas, t\u00e3o cru\u00e9is e mortais. Nesse mundo injusto, ao menos o ar, ainda que muitas vezes polu\u00eddo, permanece democr\u00e1tico e acess\u00edvel a todos. Nas viagens a\u00e9reas, \u00a0somos orientados, em caso de emerg\u00eancia, a colocar a m\u00e1scara primeiramente em n\u00f3s e depois nos outros. Para ajudar aos outros precisamos respirar. Respirar para cuidar e fazer respirar! Nesse caso, quanto mais respiramos o sopro vital do Amor de Deus e somos conduzidos pelo Esp\u00edrito Santo, tanto mais devemos ajudar a colocar a \u201cm\u00e1scara\u201d do oxig\u00eanio nos outros, utilizando responsavelmente m\u00e1scaras e, simultaneamente, desnudando o que produz morte e asfixia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Finalizamos com uma s\u00e1bia e silenciosa senhora que foi visitar sua amiga numa cl\u00ednica, e, do lado de fora, distante alguns metros, ap\u00f3s uma troca amorosa de olhares, lhe disse com ternura e em alto e bom tom: \u201cminha amiga, fique bem a\u00ed, mais segura, porque aqui fora o mundo est\u00e1 muito estranho\u201d. Poder\u00edamos completar: e tamb\u00e9m nossa situa\u00e7\u00e3o dolorosa e inaceit\u00e1vel, pela falta de bom senso e consenso que incompleta e \u201cmata\u201d ainda mais. Que bom seria se a melhoria da qualidade do ar, que se constata, fosse tamb\u00e9m acompanhada da melhoria nas rela\u00e7\u00f5es interpessoais! Que bom seria se todos e todas deixassem de \u201cpoluir\u201d o ambiente, j\u00e1 t\u00e3o sofrido, evitando atitudes que intoxicam e asfixiam o amor e a respeitosa conviv\u00eancia! Que venham os ip\u00eas, na esta\u00e7\u00e3o do inverno! Que possamos florescer e frutificar, mesmo no inverno, que acolheremos apenas como esta\u00e7\u00e3o, evitando teimosamente de sermos por ele acolhidos e dominados. As folhas caem no outono, mas a vida permanece; nos sentimos desnudos, embora com m\u00e1scara; desprotegidos pelas incertezas, embora com teimosa esperan\u00e7a; desconfort\u00e1veis pelo conforto; incompletos, buscando a verdadeira completude; vivos, naquele que Vive para sempre! A Completude \u00e9 oferecida aos seres incompletos que se mant\u00eam em busca&#8230; \u00d3 producente desconforto! \u00d3 feliz incompletude inquietante! Que belo outono e dolorosa realidade! \u201cEm tudo somos atribulados, mas n\u00e3o abatidos; postos em apuros, mas n\u00e3o desesperan\u00e7ados\u201d (2 Cor 4,8). \u201cBendito seja Deus que nos consola em toda a nossa tribula\u00e7\u00e3o para que possamos consolar os que se acham em alguma tribula\u00e7\u00e3o\u201d (2 Cor 1,4). Portanto, com<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Santo Agostinho queremos iniciar a nova esta\u00e7\u00e3o rezando: \u201cTarde te amei, \u00f3 beleza t\u00e3o antiga e t\u00e3o nova, tarde te amei! Eis que estavas dentro e eu, fora. Estavas comigo e eu n\u00e3o contigo. Seguravam- me longe de ti as coisas que n\u00e3o existiriam, se n\u00e3o existissem em ti. Chamaste, clamaste e rompeste minha surdez, brilhaste, resplandeceste e afugentaste minha cegueira. Exalaste perfume e respirei, agora anseio por ti. Provei-te, e tenho fome e sede. Tocaste-me e ardi por tua paz\u201d (Santo Agostinho). A foto abaixo, capturada por mim, no final deste ver\u00e3o, pode servir como ilustra\u00e7\u00e3o para esta reflex\u00e3o finda. Vamos em frente, no olhar e respiro da f\u00e9. Florescer e frutificar no inverno \u00e9 preciso e poss\u00edvel! Deus os aben\u00e7oe. Com gratid\u00e3o,<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dom Luiz Antonio Lopes Ricci Bispo de Nova Friburgo &nbsp; Estamos na \u00faltima semana do outono, que teve in\u00edcio em 20 de mar\u00e7o e terminar\u00e1 no pr\u00f3ximo s\u00e1bado, 20 de junho. O outono \u00e9 um per\u00edodo de transi\u00e7\u00e3o e situa-se entre o ver\u00e3o e o inverno, com pouca chuva, temperatura mais baixa, folhas que caem &hellip;<\/p>\n<p class=\"read-more\"> <a class=\"\" href=\"https:\/\/www.cnbb.org.br\/final-do-outono-o-belo-e-o-desconforto-producente-da-incompletude\/\"> <span class=\"screen-reader-text\">Final do outono: o belo e o desconforto producente da incompletude<\/span> Leia mais &raquo;<\/a><\/p>\n","protected":false},"author":71,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":""},"categories":[758],"tags":[],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/posts\/240695"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/users\/71"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/comments?post=240695"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/posts\/240695\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/media?parent=240695"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/categories?post=240695"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/tags?post=240695"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}