{"id":241765,"date":"2020-07-03T14:26:11","date_gmt":"2020-07-03T17:26:11","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/?p=241765"},"modified":"2020-09-08T13:52:28","modified_gmt":"2020-09-08T16:52:28","slug":"241765-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/241765-2\/","title":{"rendered":"O luto e a dor humana"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right\"><strong>Dom Walmor Oliveira de Azevedo<\/strong><br \/>\n<strong>Arcebispo de Belo Horizonte<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">O mundo acompanha, pelos meios de comunica\u00e7\u00e3o, a dor do luto sofrida, anonimamente, por uma grande multid\u00e3o, revelando, de maneira desconcertante, o sofrimento humano, provocado pela pandemia da covid-19. Muitas fam\u00edlias sequer tiveram a oportunidade para se despedir de seus entes queridos. Uma dor sem b\u00e1lsamo, um peso necess\u00e1rio ante as exig\u00eancias para a preven\u00e7\u00e3o de novas contamina\u00e7\u00f5es. H\u00e1, pois, um clamor silencioso, mas ensurdecedor, que vem do luto dessas fam\u00edlias. Esse clamor deve sensibilizar a sociedade, para que seja adotada a l\u00f3gica da compaix\u00e3o solid\u00e1ria, capaz de aliviar a dor dos enlutados e de promover a aprendizagem de um novo jeito de viver.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">\u00c9 preocupante a indiferen\u00e7a em rela\u00e7\u00e3o ao luto vivido pelo outro. Essa indiferen\u00e7a, entre tantas outras, aumenta ainda mais o risco de um colapso humanit\u00e1rio. A insensibilidade para a dor do outro, que \u00e9 irm\u00e3o, impede a constru\u00e7\u00e3o de um tempo novo para a humanidade, pois leva \u00e0 banaliza\u00e7\u00e3o da vida \u2013 um dom precioso. Sua preciosidade deve ser tratada com ternura, nobre rever\u00eancia e sempre a partir de gestos solid\u00e1rios entre as pessoas. \u00c9 nessa perspectiva da solidariedade que se deve, inclusive, lidar com as muitas perdas que fazem parte da vida. No caminho oposto &#8211; o da indiferen\u00e7a &#8211; \u00e9 ainda mais dif\u00edcil passar pelo luto, n\u00e3o somente aquele provocado pela morte, mas tamb\u00e9m pelo fim de ciclos. Cegamente, muitas vezes, as pessoas n\u00e3o aceitam nem a perda daquilo que, na verdade, constitui oferta para o bem de todos. Em vez da consola\u00e7\u00e3o, essas pessoas cultivam a revolta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">O luto \u00e9 inevit\u00e1vel nas circunst\u00e2ncias da vida humana, mas pesa muito mais aquele que se origina nas irresponsabilidades, a exemplo do que \u00e9 imposto pela atual pandemia. O luto torna-se especialmente pesado quando n\u00e3o \u00e9 vivido adequadamente, pois n\u00e3o se alcan\u00e7a a sua fecundidade dolorosa, a for\u00e7a de reden\u00e7\u00e3o que surge nos limites pr\u00f3prios da condi\u00e7\u00e3o humana. N\u00e3o se pode tratar o luto com indiferen\u00e7a. Trata-se de experi\u00eancia a ser vivida considerando a singularidade de sua dor, a consola\u00e7\u00e3o que se recebe das pessoas pr\u00f3ximas, a oportunidade para aprendizados e qualifica\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria exist\u00eancia, alcan\u00e7ando sentidos profundos sobre o dom da vida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Assim \u00e9 o luto crist\u00e3o, caminho experiencial terap\u00eautico que se distingue por estar fundamentado na esperan\u00e7a. Essa experi\u00eancia no contexto da f\u00e9 crist\u00e3 \u00e9 convite a vislumbrar, para al\u00e9m da separa\u00e7\u00e3o terrena, o reencontro com Deus. Os crist\u00e3os consideram seus falecidos n\u00e3o como pobres mortos &#8211; eles s\u00e3o os que nos precedem e nos esperam diante de Deus. A morte provoca uma separa\u00e7\u00e3o muitas vezes desconcertante. H\u00e1 os que ficam extremamente desconsolados e at\u00e9 deixam de enxergar sentido na vida. O luto crist\u00e3o se assenta na certeza da vida p\u00f3s-morte. Assim, reorienta o viver de enlutados, ajuda a permear o cora\u00e7\u00e3o com recorda\u00e7\u00f5es consoladoras dos que morreram. E, mesmo na impossibilidade do contato, na invisibilidade, continua forte a presen\u00e7a de quem parte, ajudando a superar tristezas e ang\u00fastias dos que ficam.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">A f\u00e9 crist\u00e3 leva \u00e0 certeza da vida eterna, conquistada com Jesus \u2013 Filho de Deus. Sua morte e ressurrei\u00e7\u00e3o abriram as portas da vida que nunca passa. A morte \u00e9 um tr\u00e2nsito pascal, significa\u00e7\u00e3o luminosa que devolve a certeza de uma vit\u00f3ria definitiva. Essa certeza, se cultivada, ameniza a sensa\u00e7\u00e3o de fracasso que a perda e a partida sempre trazem. A dor da morte imp\u00f5e sempre o luto, alguns ainda mais dolorosos, sobretudo por circunst\u00e2ncias incompreens\u00edveis \u00e0 racionalidade humana. O crist\u00e3o tamb\u00e9m sente o trauma da morte biol\u00f3gica, com as suas ang\u00fastias e sofrimentos, mas deve deixar-se orientar sempre por uma luz amorosa: a vit\u00f3ria da vida sobre a morte, b\u00e1lsamo para a dor humana. No caminho indicado por essa luminosidade, os que professam a f\u00e9 em Jesus devem se comprometer com a vida, zelar por ela em todas as suas etapas. Isto inclui saber sobre a tarefa crist\u00e3 de se dedicar aos enlutados, sensibilizar-se ante a dor do pr\u00f3ximo, que \u00e9 irm\u00e3o, tratando-a com o b\u00e1lsamo da consola\u00e7\u00e3o e da solidariedade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Neste contexto contempor\u00e2neo de tantas feridas, de cora\u00e7\u00f5es tomados pela dor, \u00e9 urgente que cada pessoa busque ser presen\u00e7a solid\u00e1ria, compartilhando palavras que devolvam a esperan\u00e7a. Trata-se de cumprir miss\u00e3o paracl\u00e9tica, isto \u00e9, consoladora, responsabilidade de todos \u2013 uns cuidando dos outros, unidos, para levar luz aos momentos de luto e aliviar a dor humana.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dom Walmor Oliveira de Azevedo Arcebispo de Belo Horizonte &nbsp; O mundo acompanha, pelos meios de comunica\u00e7\u00e3o, a dor do luto sofrida, anonimamente, por uma grande multid\u00e3o, revelando, de maneira desconcertante, o sofrimento humano, provocado pela pandemia da covid-19. Muitas fam\u00edlias sequer tiveram a oportunidade para se despedir de seus entes queridos. 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