{"id":243639,"date":"2020-08-05T11:42:51","date_gmt":"2020-08-05T14:42:51","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/?p=243639"},"modified":"2020-09-08T13:51:55","modified_gmt":"2020-09-08T16:51:55","slug":"os-chinelos-do-cura-dars","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/os-chinelos-do-cura-dars\/","title":{"rendered":"Os chinelos do Cura d\u2019Ars"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right\"><strong>Dom Gil Ant\u00f4nio Moreira<\/strong><br \/>\n<strong>Arcebispo de Juiz de Fora<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Como foi bela aquela viagem! Comigo foram quatro colegas quando estud\u00e1vamos em Roma. O calend\u00e1rio primaveril da Europa, marcava o dia 5 de abril de 1991. Eram os primeiros dias de P\u00e1scoa, quando as faculdades romanas oferecem f\u00e9rias festivas de uma semana. De Paris, tomamos um trem muito veloz que nos levou a Lion, depois Besan\u00e7on e por fim, Ars, pequeno povoado cujo nome oficial \u00e9 Ars sur Formans, comuna da Fran\u00e7a, do Distrito de Ain. Est\u00e1vamos muito desejosos de visitar a pequenina par\u00f3quia onde viveu e se santificou Padre Jo\u00e3o Batista Maria Vianney, que se tornou conhecido em todo o mundo como o Santo Cura d\u2019Ars.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Ao visitar sua casa paroquial, singela e pobre, adentramos seu quarto. Chamou-me logo \u00e0 aten\u00e7\u00e3o o seu par de chinelos, debaixo da cama, ali conservado desde seu falecimento, em 4 de agosto de 1859. Como o chap\u00e9u toma a fei\u00e7\u00e3o do dono, segundo o ad\u00e1gio popular, aqueles chinelos, feitos de tapete, revelavam os p\u00e9s mission\u00e1rios do sacerdote. L\u00ea-se em sua hist\u00f3ria que teve que atender a v\u00e1rias comunidades na regi\u00e3o e, na maioria das vezes, ia a p\u00e9, quando muito, de carro\u00e7a, levando sua volumosa valise com os objetos lit\u00fargicos para a missa. De s\u00fabito, me veio \u00e0 mente e ao cora\u00e7\u00e3o as palavras do Profeta Isa\u00edas: \u201c<em>Qu\u00e3o formosos, sobre os montes, os p\u00e9s dos que anunciam as boas novas; que trazem boas not\u00edcias, que proclamam a salva\u00e7\u00e3o; que dizem a Si\u00e3o: o teu Deus reina! <\/em>\u201d \u00a0(Is 52,7).\u00a0 S\u00e3o Paulo, mais tarde, em sua carta aos Romanos, vai citar esta frase aplicando aos que pregam o Santo Evangelho de Cristo (cf. Rom 10,15).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Nascido aos 8 de maio de 1796, em plena revolu\u00e7\u00e3o napole\u00f4nica, com tantos sofrimentos para a Igreja, o menino Jo\u00e3o Vianney desejou, desde muito cedo, ser padre. Fam\u00edlia muito pobre, mas rica de f\u00e9 e amor a Deus, somente aprendeu a ler e a escrever aos 18 anos. Estudando entre os feixes de feno, para n\u00e3o ser surpreendido pelas autoridades anticlericais, mal aprendeu o latim e n\u00e3o foi aluno brilhante em nenhuma mat\u00e9ria. Os seus reflexos luminosos estavam na alma, na sinceridade do car\u00e1ter, na vida moral exemplar, sobretudo na vida intensa de ora\u00e7\u00e3o. Apresentado por um padre, seu bom jeito de ser na juventude, sua assiduidade e gosto pelos ambientes religiosos, foram suficientes para convencer o bispo de orden\u00e1-lo, embora j\u00e1 se previsse para ele lugares humildes e nenhum destaque na organiza\u00e7\u00e3o pastoral. Ordenado, foi designado para a desprez\u00edvel Ars, aonde nenhum padre desejaria ir. O lugar n\u00e3o contava mais que 300 habitantes, a vida do povo n\u00e3o ia al\u00e9m de bord\u00e9is, futilidades, bebida alco\u00f3lica e pouca religi\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Os p\u00e9s do jovem sacerdote se puseram \u00e0 estrada, enquanto a mente e o cora\u00e7\u00e3o somente lhe inspiravam ardor nas coisas de Deus. Ia rezando e, confessou mais tarde: \u201ca ora\u00e7\u00e3o me traz alegria e nela nem vejo o tempo passar\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Como Deus n\u00e3o precisa dos humanos, mas os humanos \u00e9 que precisam de Deus, aquele humilde servo se transformou numa inesperada e extraordin\u00e1ria atra\u00e7\u00e3o para multid\u00f5es sedentas de f\u00e9. De todas as partes da Fran\u00e7a e da inteira Europa, chegavam caravanas, n\u00e3o s\u00f3 de simples fi\u00e9is, mas tamb\u00e9m de padres, bispos e cardeais, para confessarem seus pecados, receberem a absolvi\u00e7\u00e3o sagrada e se aconselharem para o prosseguimento da vida. Sua uni\u00e3o com Deus era t\u00e3o intensa, vis\u00edvel e natural, como dois peda\u00e7os de cera que, uma vez misturados, n\u00e3o se v\u00ea mais diferen\u00e7a e ningu\u00e9m mais pode separar. Esta imagem foi usada por ele mesmo, quando pregava aos seus paroquianos sobre a ora\u00e7\u00e3o. \u201cRezar e amar, eis o segredo da vida do crist\u00e3o\u201d, dizia ele.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Certa vez, foi a Ars um professor de Paris com o prop\u00f3sito de analisar, do ponto de vista sociol\u00f3gico, o fen\u00f4meno das multid\u00f5es atra\u00eddas por um simples p\u00e1roco rural. Voltou silencioso. Seus alunos lhe perguntaram: \u201co que viu em Ars?\u201d Quebrando o segredo de sua transforma\u00e7\u00e3o interior, lhes respondeu: \u201cvi a Deus em um homem\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Al\u00e9m de seus chinelos, chama \u00e0 aten\u00e7\u00e3o do observador em Ars, o duro confession\u00e1rio formado por banco de madeira e uma grande que se ergue \u00e0 direita, onde o santo Cura passava, \u00e0s vezes, 18 horas em atendimento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Ao lado da matriz paroquial, encontra-se ampla constru\u00e7\u00e3o. \u00c9 o orfanato que o Santo Cura d\u2019Ars construiu com esmolas que povo lhe dava, para acolher crian\u00e7as pobres. Chamou-o de \u201cCasa da Provid\u00eancia\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Com meus colegas de viagem, todos presb\u00edteros, tivemos a gra\u00e7a de celebrar a missa diante de seu corpo conservado, recoberto de camada de cera. O bondoso sacrist\u00e3o, com gentil acolhida, nos trouxe o c\u00e1lice sempre utilizado pelo Santo, para que, com ele, oferec\u00eassemos o santo sacrif\u00edcio de Cristo. Emocionante!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Ao retorno, nossos p\u00e9s pareciam cal\u00e7ados de seus chinelos, ensinando-nos li\u00e7\u00f5es de humildade, simplicidade, ora\u00e7\u00e3o e amor a Deus. Mist\u00e9rios da santidade. Modelo para todo padre.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;    \t<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dom Gil Ant\u00f4nio Moreira Arcebispo de Juiz de Fora \u00a0 Como foi bela aquela viagem! Comigo foram quatro colegas quando estud\u00e1vamos em Roma. O calend\u00e1rio primaveril da Europa, marcava o dia 5 de abril de 1991. Eram os primeiros dias de P\u00e1scoa, quando as faculdades romanas oferecem f\u00e9rias festivas de uma semana. 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