{"id":243802,"date":"2020-08-07T15:19:04","date_gmt":"2020-08-07T18:19:04","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/?p=243802"},"modified":"2020-09-08T13:51:53","modified_gmt":"2020-09-08T16:51:53","slug":"lembrancas-de-meu-pai","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/lembrancas-de-meu-pai\/","title":{"rendered":"Lembran\u00e7as de meu pai"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right\"><strong>Dom Jo\u00e3o Justino de Medeiros Silva<\/strong><br \/>\n<strong>Arcebispo de Montes Claros<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 A comemora\u00e7\u00e3o do dia dos pais faz cada um olhar para o seu pai. Os que vivem na mesma casa poder\u00e3o celebrar com mais seguran\u00e7a esse segundo domingo de agosto. Os que n\u00e3o habitam juntos v\u00e3o encontrar alguma forma para se congratularem. Aqueles cujos pais j\u00e1 faleceram buscar\u00e3o as lembran\u00e7as. Eu estou entre esses. Meu pai faleceu em fevereiro de 2016. Se ele estivesse aqui completaria, em dezembro pr\u00f3ximo, seus 90 anos. Ao escrever sobre ele quero homenage\u00e1-lo, bem assim, a todos os pais, mas, especialmente, aqueles que j\u00e1 nos deixaram.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Quando meu pai morreu eu tinha um pouco mais de 49 anos. Posso dizer que aproveitei muito de sua presen\u00e7a. Na verdade, bem mais que isso. Sua vida marcou minha vida definitivamente. Primeiro porque sou seu filho. Depois, foi ele quem escolheu e definiu meu nome, praticamente, sem consultar minha m\u00e3e. Diferentemente de Zacarias que confirmou o nome apresentado por Isabel, foi ele quem disse primeiro: Vai se chamar Jo\u00e3o Justino. Jo\u00e3o em homenagem a outro pai, o meu av\u00f4 materno. Justino em homenagem ao meu av\u00f4 paterno. Mas esse era, tamb\u00e9m, seu primeiro nome. Meu pai chamava-se Justino Em\u00edlio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Ele se casou com minha m\u00e3e, Maria de Lourdes, aos 24 anos. Geraram cinco filhos. Eu sou o quarto. Viveram 61 anos juntos, at\u00e9 que ele fechasse para sempre seus belos olhos azuis. Era um homem de humor muito leve. Gostava de conversar com as pessoas, acompanhava os debates pol\u00edticos, sua presen\u00e7a enchia a casa de alegria. Era rom\u00e2ntico, adorava presentear sua esposa e trazia sempre flores para ela. E quando j\u00e1 limitado pelo Alzheimer sa\u00eda aos arredores de casa, ao voltar costumava quebrar um ramo de flores do jardim de uma casa vizinha para levar \u00e0 minha m\u00e3e.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Tenho lembran\u00e7as muito vivas de sua ternura. As mais fortes s\u00e3o da inf\u00e2ncia. Como das vezes em que, de dentro da piscina, ele me mandava pular em seus bra\u00e7os. Eu o fazia com toda a confian\u00e7a de um menino de cinco anos. Sentia orgulho de ver que meu pai nadava muito bem. Outra cena vem como lembran\u00e7a: Eu tinha seis anos e meus pais me matricularam numa escola infantil que se chamava Gato de Botas. A escola era muito simples. Veio uma tempestade de granizo, os vidros e as telhas de amianto se partiam. Recordo-me ver meu pai entrando \u00e0s pressas na sala onde j\u00e1 est\u00e1vamos abrigados debaixo das mesinhas. Ele me abra\u00e7ou e me levou para casa. Lembro-me de algumas despedidas, como em 2002, nos abra\u00e7amos no aeroporto do Gale\u00e3o. Nos despedimos com um longo abra\u00e7o. Ele saiu chorando e eu entrei para o embarque com o cora\u00e7\u00e3o partido rumo a um ano de estudos em Roma. Quanta alegria ao regressar no dia de natal do ano de 2003. Ele me esperava ansioso na cal\u00e7ada de casa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Meu pai sempre se orgulhou de cada um de seus filhos. Trabalhou pela nossa forma\u00e7\u00e3o. Corrigiu-nos muitas vezes. Celebrou nossas vit\u00f3rias. Viveu uma alegria contagiante pela chegada dos cinco netos. Foi sempre muito generoso e parcimonioso. Tinha muitas habilidades. Fazia um pouco de tudo para a manuten\u00e7\u00e3o de uma casa. Consertava os aparelhos dom\u00e9sticos, reparava solas dos sapatos, pintava paredes e portas, arrumava fechaduras e torneiras. Quando n\u00e3o sabia fazer, queria logo aprender. Dentro de mim eu sei que ele plantou em cada um de n\u00f3s um pouco de seu humor, de seu empenho no trabalho, de sua criatividade para as solu\u00e7\u00f5es. Em nossas vidas suas lembran\u00e7as se tornam modos de ser. Obrigado, pai.<\/p>\n<p>&nbsp;    \t<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dom Jo\u00e3o Justino de Medeiros Silva Arcebispo de Montes Claros \u00a0 \u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 A comemora\u00e7\u00e3o do dia dos pais faz cada um olhar para o seu pai. Os que vivem na mesma casa poder\u00e3o celebrar com mais seguran\u00e7a esse segundo domingo de agosto. Os que n\u00e3o habitam juntos v\u00e3o encontrar alguma forma para se congratularem. 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