{"id":244873,"date":"2020-08-21T09:13:45","date_gmt":"2020-08-21T12:13:45","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/?p=244873"},"modified":"2020-09-08T13:51:25","modified_gmt":"2020-09-08T16:51:25","slug":"dom-walmor-quero-a-luz","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/dom-walmor-quero-a-luz\/","title":{"rendered":"Quero a luz"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right\"><strong>Dom Walmor Oliveira de Azevedo<\/strong><br \/>\n<strong>Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte (MG)<\/strong><br \/>\n<strong>Presidente da Confer\u00eancia Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB)<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Desejar a luz faz lembrar o cora\u00e7\u00e3o inquieto de Agostinho de Hipona que, ao sentir-se confrontado pelo mal, perguntava-se: \u201cQuem desembara\u00e7ar\u00e1 este n\u00f3 t\u00e3o enredado e emaranhado?\u201d &#8211; \u201c\u00c9 asqueroso, n\u00e3o o quero fitar nem ver. Quero-vos a V\u00f3s \u00f3 justi\u00e7a e Inoc\u00eancia t\u00e3o bela e t\u00e3o formosa, com puros resplendores e insaci\u00e1vel satura\u00e7\u00e3o!\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">\u201cQuero a luz\u201d \u00e9 a express\u00e3o de um desejo a ser operado pela for\u00e7a de princ\u00edpios inegoci\u00e1veis, a exemplo da preciosa recomenda\u00e7\u00e3o do ap\u00f3stolo Paulo, em sua carta aos Romanos: \u201cN\u00e3o te deixes vencer pelo mal, vence antes o mal com o bem\u201d. \u00c9 incontest\u00e1vel, sabe-se muito bem, que em toda tentativa de vencer o mal com o mal, o resultado da batalha \u00e9 a derrota ainda maior. Nesse horizonte se desenha preciosa li\u00e7\u00e3o com for\u00e7a de rem\u00e9dio ante os dram\u00e1ticos cen\u00e1rios que pesam sobre os ombros da humanidade: somente o bem pode derrotar o mal. \u00c9 essa tamb\u00e9m a receita terap\u00eautica para sanar realidades feridas pelos constantes combates fratricidas que enfraquecem institui\u00e7\u00f5es no seu interno, multiplicam as viol\u00eancias, validam preconceitos, a exemplo das posturas racistas e excludentes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Nesse cen\u00e1rio se p\u00f5e a discuss\u00e3o acalorada a respeito de raz\u00f5es. Mas raz\u00f5es n\u00e3o podem ser desvinculadas de princ\u00edpios. E os princ\u00edpios s\u00e3o inegoci\u00e1veis. Ao contr\u00e1rio disso, corre-se o risco de se permitir tudo. N\u00e3o se pode simplesmente considerar que a batalha em curso seja um conjunto de meras acarea\u00e7\u00f5es, apenas para deliberar a perspectiva de quem tem raz\u00e3o, agindo como se o conjunto da vida pudesse ser tratado em partes estanques. Em quest\u00e3o est\u00e1 o jogo que envolve o mal, o bem e o amor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Diante de tr\u00e1gicas experi\u00eancias, \u00e9 pr\u00f3prio do comportamento humano procurar identificar as ra\u00edzes do mal, explicar suas causas e fazer valer din\u00e2micas para a sua supera\u00e7\u00e3o. Desafio que se torna ainda mais complexo no contexto da administra\u00e7\u00e3o do dom precioso da liberdade humana. Assim, incontestavelmente, o bem e o mal ganham o rosto e o nome daqueles que os escolheram livremente. \u201cQuero a luz\u201d deve representar o desejo de, humildemente, se abrir e aprender a gram\u00e1tica da lei moral universal. Na gram\u00e1tica da lei moral est\u00e1 inscrito o compromisso intoc\u00e1vel da responsabilidade para com a vida de cada pessoa, considerada dom sagrado, defens\u00e1vel e promovido em qualquer que seja a circunst\u00e2ncia, por ser um bem acima de todo e qualquer bem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Ao contemplar os cen\u00e1rios da sociedade mundial, n\u00e3o se pode camuflar a efetiva difus\u00e3o de numerosas manifesta\u00e7\u00f5es sociais e pol\u00edticas da maldade &#8211; da desordem social \u00e0 anarquia, da injusti\u00e7a \u00e0 viol\u00eancia contra o outro &#8211; fecundadas pela indiferen\u00e7a e amparadas em relativiza\u00e7\u00f5es dos valores e dos princ\u00edpios intoc\u00e1veis da lei moral. O mundo est\u00e1 afligido por muitos males sociais e pol\u00edticos, com a eclos\u00e3o das viol\u00eancias. O investimento permanente na aprendizagem, na pr\u00e1tica dos princ\u00edpios e valores da gram\u00e1tica da lei moral contracena com o exerc\u00edcio do poder. O poder que todos t\u00eam, em medidas diferentes, como parte da composi\u00e7\u00e3o do tecido de sua cidadania, de sua confiss\u00e3o de f\u00e9 e nos contextos de sua representatividade e responsabilidades interage com os cen\u00e1rios da vida social e pol\u00edtica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Ensinava, com simplicidade, um mestre a seus ne\u00f3fitos que o poder \u00e9 exerc\u00edcio vinculado ao desempenho de uma autoridade que lhe compete. E a autoridade, vinculada \u00e0 capacidade de ser autor do bem, fruto da verdade e da considera\u00e7\u00e3o de princ\u00edpios intoc\u00e1veis que inspiram legisla\u00e7\u00f5es, fomentam h\u00e1bitos, que definem pr\u00e1ticas e constituem o tecido da cultura, tendo a vida sempre como um dom precioso e intoc\u00e1vel. Incontestavelmente os grandes equ\u00edvocos da humanidade nascem do uso inadequado, injusto e confuso do poder individual, a partir de sua condi\u00e7\u00e3o ou advindo do exerc\u00edcio que a profiss\u00e3o lhe compete &#8211; na viv\u00eancia cidad\u00e3 e nos servi\u00e7os p\u00fablicos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">No conjunto das muitas obscuridades encontram-se, pois, exerc\u00edcios equivocados no uso e desempenho do poder. Ora, porque se tem excessivo poder, em inst\u00e2ncias que tomam decis\u00f5es estreitadas por interesses pr\u00f3prios &#8211; n\u00e3o h\u00e1 vontade pol\u00edtica de preservar a vida e defend\u00ea-la-, ora porque, n\u00e3o raramente, um poder \u00e9 exercido sem a esperada compet\u00eancia human\u00edstica, apenas com o objetivo de usufruir das benesses. H\u00e1 uma gama de descompassos em andamento no exerc\u00edcio do poder, sem poupar qualquer que seja a inst\u00e2ncia, da religiosa \u00e0 judici\u00e1ria, da inst\u00e2ncia familiar \u00e0 pol\u00edtica, com passagem pelos desencontros cotidianos de civilidade. Revela-se, assim, a fonte de desmandos, a falta de pudor em fazer valer o que, subjetivamente, se considera oportuno.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">As sociedades mundial e local encontram-se numa travessia marcada por muitas agruras, dentre elas as feridas expostas de um poder fragilizado pelas muitas pr\u00e1ticas equivocadas, pela incapacidade de se efetivar o que se configura na legisla\u00e7\u00e3o, a come\u00e7ar pela Constitui\u00e7\u00e3o Federal. Esse horizonte dos descompassos que envolvem desde opini\u00f5es aos seus resultados, comprometendo a vida no seu conjunto, pede uma aprendizagem nova. Isso, para conter a exorbit\u00e2ncia no uso do poder, evitando-se a relativiza\u00e7\u00e3o do intoc\u00e1vel, a mistura do que \u00e9 imisc\u00edvel &#8211; din\u00e2micas que atrasam processos, adoecendo o planeta e as pessoas em disputas figadais por interesses que comprometem o inegoci\u00e1vel princ\u00edpio da solidariedade. \u00c0 luz da inquieta\u00e7\u00e3o de Agostinho de Hipona, ante o mal crescente e os descompassos, todos est\u00e3o desafiados a um mea culpa e a um anseio renovado por deixar ecoar no cora\u00e7\u00e3o o desejo-experi\u00eancia de querer a luz.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dom Walmor Oliveira de Azevedo Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte (MG) Presidente da Confer\u00eancia Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) &nbsp; Desejar a luz faz lembrar o cora\u00e7\u00e3o inquieto de Agostinho de Hipona que, ao sentir-se confrontado pelo mal, perguntava-se: \u201cQuem desembara\u00e7ar\u00e1 este n\u00f3 t\u00e3o enredado e emaranhado?\u201d &#8211; \u201c\u00c9 asqueroso, n\u00e3o o quero fitar &hellip;<\/p>\n<p class=\"read-more\"> <a class=\"\" href=\"https:\/\/www.cnbb.org.br\/dom-walmor-quero-a-luz\/\"> <span class=\"screen-reader-text\">Quero a luz<\/span> Leia mais &raquo;<\/a><\/p>\n","protected":false},"author":8,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":""},"categories":[758],"tags":[],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/posts\/244873"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/users\/8"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/comments?post=244873"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/posts\/244873\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/media?parent=244873"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/categories?post=244873"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/tags?post=244873"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}