{"id":250107,"date":"2020-10-05T11:26:00","date_gmt":"2020-10-05T14:26:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/?p=250107"},"modified":"2020-10-27T11:47:27","modified_gmt":"2020-10-27T14:47:27","slug":"a-nova-enciclica-social-fratelli-tutti","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/a-nova-enciclica-social-fratelli-tutti\/","title":{"rendered":"A nova enc\u00edclica social \u201cFratelli tutti\u201d"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\"><strong>Cardeal Orani Jo\u00e3o Tempesta<br \/>\n<\/strong><strong>Arcebispo do Rio de Janeiro (RJ)<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 O Papa Francisco publicou neste dia 4 de outubro, mem\u00f3ria de S\u00e3o Francisco de Assis, neste ano celebrando o 27\u00ba domingo do tempo comum, uma nova Enc\u00edclica social sobre a fraternidade e a amizade social. Ele a assinou neste s\u00e1bado, DIA 3, na Bas\u00edlica inferior de S\u00e3o Francisco em Assis. Ela se inicia com as palavras do pobrezinho de Assis, em italiano: \u201cFratelli tutti\u201d (<em>Admoesta\u00e7\u00f5es<\/em>, 6, 1): \u201cTodos irm\u00e3os\u201d, em portugu\u00eas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Logo no in\u00edcio, como ocorre em todas as enc\u00edclicas, o Papa lhe d\u00e1 o t\u00edtulo e exp\u00f5e sinteticamente o seu grande objetivo: \u201c<em>FRATELLI TUTTI<\/em>\u201d: escrevia S\u00e3o Francisco de Assis, dirigindo-se a seus irm\u00e3os e irm\u00e3s para lhes propor uma forma de vida com sabor do Evangelho. Destes conselhos, quero destacar o convite a um amor que ultrapassa as barreiras da geografia e do espa\u00e7o; nele declara feliz quem ama o outro, \u2018o seu irm\u00e3o, tanto quando est\u00e1 longe, como quando est\u00e1 junto de si\u2019 (<em>Admoesta\u00e7\u00f5es<\/em>, 25: <em>o. c.<\/em>, 175). Com poucas e simples palavras, explicou o essencial duma fraternidade aberta, que permite reconhecer, valorizar e amar a todas as pessoas independentemente da sua proximidade f\u00edsica, do ponto da terra onde cada uma nasceu ou habita\u201d (n. 1).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 O desejo do Santo Padre n\u00e3o \u00e9 sen\u00e3o o de fazer renascer, entre todos, um anseio mundial de fraternidade (cf. n. 8). Embora n\u00e3o pretenda resumir de modo total a doutrina sobre o amor fraterno, quer deter-se na sua dimens\u00e3o universal, na sua abertura a todos; por isso, \u00e9 dirigida a todas as pessoas de boa vontade (cf. n. 6).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Confessa o Papa que o est\u00edmulo para escrever a \u201cFratelli tutti\u201d nasceu de um mu\u00e7ulmano. S\u00e3o palavras do Sumo Pont\u00edfice: \u201cSenti-me especialmente estimulado pelo Grande Im\u00e3 Ahmad Al-Tayyeb, com quem me encontrei, em Abu Dhabi, para lembrar que Deus \u2018criou todos os seres humanos iguais nos direitos, nos deveres e na dignidade, e os chamou a conviver entre si como irm\u00e3os\u2019 (Francisco \u2013 Ahmad Al-Tayyeb, <em>Documento sobre a fraternidade humana em prol da paz mundial e da conviv\u00eancia comum<\/em> (Abu Dhabi 4 de fevereiro de 2019): <em>L\u2019Osservatore Romano<\/em> (ed. semanal portuguesa de 05\/II\/2019), 21). N\u00e3o se tratou de mero ato diplom\u00e1tico, mas duma reflex\u00e3o feita em di\u00e1logo e dum compromisso conjunto. Esta enc\u00edclica re\u00fane e desenvolve grandes temas expostos naquele documento que assinamos juntos. E aqui, na minha linguagem pr\u00f3pria, acolhi tamb\u00e9m numerosas cartas e documentos com reflex\u00f5es que recebi de tantas pessoas e grupos de todo o mundo\u201d (n. 5).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 E por que, depois da <em>Laudato Si<\/em>, inspirada em S\u00e3o Francisco de Assis, o Santo Padre se volta novamente para ele ao tratar da fraternidade e da amizade social, tema t\u00e3o central ao Cristianismo? \u2013 Uma vez mais, o pr\u00f3prio Papa explica que foi por ver na vida do Santo de Assis um fato que d\u00e1 a cada ser humano exemplo grandioso. Ei-lo: \u201cNa sua vida, h\u00e1 um epis\u00f3dio que nos mostra o seu cora\u00e7\u00e3o sem fronteiras, capaz de superar as dist\u00e2ncias de proveni\u00eancia, nacionalidade, cor ou religi\u00e3o: \u00e9 a sua visita ao Sult\u00e3o Malik-al-Kamil, no Egito. A mesma exigiu dele um grande esfor\u00e7o, devido \u00e0 sua pobreza, aos poucos recursos que possu\u00eda, \u00e0 dist\u00e2ncia e \u00e0s diferen\u00e7as de l\u00edngua, cultura e religi\u00e3o. Aquela viagem, num momento hist\u00f3rico marcado pelas Cruzadas, demonstrava ainda mais a grandeza do amor que queria viver, desejoso de abra\u00e7ar a todos. A fidelidade ao seu Senhor era proporcional ao amor que nutria pelos irm\u00e3os e irm\u00e3s. Sem ignorar as dificuldades e perigos, S\u00e3o Francisco foi ao encontro do Sult\u00e3o com a mesma atitude que pedia aos seus disc\u00edpulos: sem negar a pr\u00f3pria identidade, quando estiverdes \u2018entre sarracenos e outros infi\u00e9is (&#8230;), n\u00e3o fa\u00e7ais lit\u00edgios nem contendas, mas sede submissos a toda a criatura humana por amor de Deus\u2019 (S\u00e3o Francisco de Assis, <em>Regra n\u00e3o bulada dos Frades Menores<\/em>, 16, 3.6: <em>Fonti francescane<\/em>, 42-43). No contexto de ent\u00e3o, era um pedido extraordin\u00e1rio. \u00c9 impressionante que, h\u00e1 oitocentos anos, Francisco recomende evitar toda a forma de agress\u00e3o ou contenda e tamb\u00e9m viver uma \u2018submiss\u00e3o\u2019 humilde e fraterna, mesmo com quem n\u00e3o partilhasse a sua f\u00e9\u201d (n. 3).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Antes de prosseguir na leitura e no compartilhamento de trechos da enc\u00edclica em foco, desejo lembrar um ponto essencial que \u2013 de modo expl\u00edcito ou impl\u00edcito \u2013 se acha presente no documento pontif\u00edcio. Trata-se do fato de que, segundo a natureza, todos somos filhos de Deus; h\u00e1 uma perten\u00e7a de cada um dos seres humanos \u00e0 fraternidade universal. Real\u00e7ar isso numa enc\u00edclica j\u00e1 era \u2013 segundo fontes fidedignas \u2013 desejo do Papa Pio XI, pois essa doutrina \u2013 como hoje \u2013 se fazia importante no per\u00edodo imediatamente anterior \u00e0 Segunda Guerra Mundial (1939-1945) no qual ideologias anticrist\u00e3s \u2013 nazismo, fascismo e comunismo \u2013 se arvoravam como falsas solu\u00e7\u00f5es aos problemas humanos. Vejamos esse ponto que, por certo, muito ajudar\u00e1 cada um(a) a melhor entender o substrato teol\u00f3gico da abarcativa e oportuna \u201cFratelli tutti\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 A Teologia reconhece que, al\u00e9m da <em>filia\u00e7\u00e3o divina sobrenatural<\/em> \u2013 dada a cada um de n\u00f3s pelo Batismo, que nos possibilita, de modo pleno, o cons\u00f3rcio com Deus j\u00e1 aqui na terra e, depois, na eternidade feliz \u2013 h\u00e1 a <em>filia\u00e7\u00e3o natural<\/em> que nos faz todos irm\u00e3os, pois filhos do mesmo Pai. Duas cita\u00e7\u00f5es v\u00eam a prop\u00f3sito. A primeira \u00e9 de Dom Est\u00eav\u00e3o Bettencourt, OSB, afamado te\u00f3logo brasileiro, a afirmar o seguinte: \u201cTodo ser humano, pelo fato de ter sido criado \u00e0 imagem e semelhan\u00e7a de Deus, \u00e9 filho de Deus. Os vest\u00edgios desta filia\u00e7\u00e3o se encontram na realidade mesma do ser humano: em todos existe a sede do Infinito ou do Absoluto (muitas vezes mal entendido), todo homem pode reconhecer Deus como o Autor deste mundo e Pai da sua vida. Com outras palavras: todo homem aspira a algo de melhor do que aquilo que ele tem\u2026 aspira ao Bem que n\u00e3o se acaba, embora nem sempre saiba como atingir este Bem. Tais s\u00e3o as marcas do Criador ou de Deus, que se imprimem em toda criatura feita \u00e0 imagem do Pai celeste\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cMais ainda: todo homem tem em si a capacidade de cultivar as quatro virtudes cardeais, que ajudam a atingir o Fim Supremo ou a caminhar corretamente neste mundo: \u2013 a prud\u00eancia, que sabe escolher os meios que levam ao fim e sabe evitar os obst\u00e1culos que a ele se oponham; \u2013 a justi\u00e7a, que procura dar a cada um o que lhe compete; \u2013 a fortaleza, que robustece a vontade para que enfrente e supere os desafios da vida cotidiana; \u2013 a temperan\u00e7a, que modera os apetites da pessoa e a torna equilibrada entre os atrativos da vida presente. O homem que assim vive pode chegar a um certo grau da perfei\u00e7\u00e3o, fazendo muitos esfor\u00e7os para tanto. Era essa perfei\u00e7\u00e3o meramente humana que os fil\u00f3sofos estoicos gregos e romanos desejavam alcan\u00e7ar mediante a pr\u00e1tica da apatia (isen\u00e7\u00e3o de paix\u00f5es), pr\u00e1tica esta que os pr\u00f3prios estoicos julgavam muito dif\u00edcil de ser sustentada. Todavia \u00e9 de notar que, mesmo antes de Cristo, podiam alcan\u00e7ar a salva\u00e7\u00e3o os homens e as mulheres que n\u00e3o conheciam o verdadeiro Deus sem culpa pr\u00f3pria, mas viviam corretamente, seguindo os ditames de sua consci\u00eancia c\u00e2ndida e sincera, julgando, com certeza subjetiva, que o erro era a verdade\u201d (<em>Pergunte e Responderemos<\/em> n. 547, janeiro de 2008, p. 10-11).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tamb\u00e9m Dom Amaury Castanho, 3\u00ba. Bispo Diocesano de Jundia\u00ed- SP, j\u00e1 falecido, oferece-nos importante reflex\u00e3o ao escrever, \u00e0 luz de G\u00eanesis 1-2, que \u201ctodos os homens pertencendo \u00e0 mesma esp\u00e9cie humana e descendendo de um s\u00f3 casal, segue-se, por natural consequ\u00eancia, que todos somos fundamentalmente iguais e irm\u00e3os entre n\u00f3s. Nada, portanto, justifica o racismo ou qualquer tipo de discrimina\u00e7\u00e3o entre os homens. As diferen\u00e7as s\u00e3o acidentais, secund\u00e1rias, devendo ser superadas pela solidariedade e fraternidade universais. Entre indiv\u00edduos e povos somente deveria haver di\u00e1logo e entreajuda, jamais \u00f3dios e guerras, jogando-se irm\u00e3os contra irm\u00e3os. Isso n\u00e3o est\u00e1 no plano de Deus. A fraternidade deve traduzir-se em gestos cotidianos de servi\u00e7os e delicadezas\u201d (<em>Inicia\u00e7\u00e3o \u00e0 leitura da B\u00edblia<\/em>. 5\u00aa ed. Aparecida: Santu\u00e1rio, 2007, p. 45). Perguntaria, talvez, algu\u00e9m aqui: aquele bispo teria intu\u00eddo, naquele tempo, o que o Papa Francisco escreveria agora? Afinal, na transcri\u00e7\u00e3o que fiz, Dom Amaury parece, a seu modo, sintetizar a \u201cFratelli tutti\u201d&#8230; N\u00e3o \u00e9 nada disso. Propus esta cita\u00e7\u00e3o para deixar muito claro aos leitores que o tema abordado hoje pelo Santo Padre \u00e9, em sua ess\u00eancia, pertencente ao patrim\u00f4nio da nossa f\u00e9 cat\u00f3lica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sim, foi publicado, em 1995, o livro <em>L\u2019Encyclique cachee de Pie XI<\/em> (A enc\u00edclica oculta de Pio XI. Editions La D\u00e9couverte. Paris 1995. p. 320 pp.), da autoria de Bernard Suchechky, historiador judeu, e do Pe. Georges Passelecq, beneditino belga que trabalhou na Resistencia ao nacional-socialismo e foi Vice-presidente da Comiss\u00e3o Nacional Belga para as Rela\u00e7\u00f5es com Povo Judeu. Eles apresentam, no referido livro, o texto de um esbo\u00e7o de enc\u00edclica de Pio XI sobre antissemitismo, esbo\u00e7o que nunca foi ulteriormente elaborado e, por isto, tamb\u00e9m n\u00e3o publicado. Tal enc\u00edclica devia come\u00e7ar pelas palavras <em>Humani Generis Unitas<\/em> (A Unidade do G\u00eanero Humano). Contudo, aquele Pont\u00edfice faleceu na noite de 9 para 10 de fevereiro de 1939, deixando-nos apenas o esquema do documento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como quer que seja, os dois renomados historiadores, afirmam que \u201ca inten\u00e7\u00e3o dominante do texto era colocar as bases filos\u00f3ficas, cient\u00edficas e teol\u00f3gicas da unidade do g\u00eanero humano; todos os homens t\u00eam a mesma origem; por conseguinte, s\u00e3o iguais entre si; da\u00ed serem perversas as discrimina\u00e7\u00f5es de ordem racial, religiosa, econ\u00f4mica, etc. [&#8230;]. O racismo \u00e9 condenado como contr\u00e1rio \u00e0 unidade do g\u00eanero humano e como avesso \u00e0 liberdade e \u00e0 dignidade da pessoa humana\u201d. Al\u00e9m da forte defesa dos judeus perseguidos pelo nazismo, o esbo\u00e7o do documento se volta para outros pontos fundamentais: <em>Unidade da estirpe humana<\/em>: \u201cA unidade do g\u00eanero humano pousa, em primeiro lugar, sobre um fundamento que \u00e9 a natureza humana comum a todos\u201d (n. 72). <em>Mist\u00e9rio do Sangue<\/em>: \u201cO sangue e o parentesco de sangue fundamentam a realidade da comunidade dos homens&#8230; ligam todos os homens entre si por aquilo que eles t\u00eam de mais profundo, a saber: as suas rela\u00e7\u00f5es com Deus\u201d (n. 75). <em>Racismo<\/em>: \u201cA teoria e a pr\u00e1tica do racismo, distinguindo ra\u00e7as superiores e inferiores, ignoram o v\u00ednculo da unidade, cuja exist\u00eancia est\u00e1 demonstrada\u201d (n. 112). O Papa Pio XII usou fragmentos desse rascunho de seu antecessor, principalmente os concernentes \u00e0 unidade do g\u00eanero humano, em sua enc\u00edclica inaugural do pontificado, a <em>Summi Pontificatus<\/em>, de 20\/10\/1939 (cf. <em>Pergunte e Responderemos<\/em> n. 407, abril de 1996, p. 159-163).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Que assentimento o fiel cat\u00f3lico \u00e9 chamado a dar a essa importante enc\u00edclica? \u2013 Aquele que nos recomenda a M\u00e3e Igreja na <em>Lumen Gentium<\/em>: a religiosa submiss\u00e3o da vontade e do entendimento no que ela traz do magist\u00e9rio aut\u00eantico (f\u00e9 e moral). Diz textualmente o documento conciliar citado: \u201cEsta religiosa submiss\u00e3o da vontade e do entendimento \u00e9 por especial raz\u00e3o devida ao magist\u00e9rio aut\u00eantico do Romano Pont\u00edfice, mesmo quando n\u00e3o fala\u00a0<em>ex cathedra<\/em>; de maneira que o seu supremo magist\u00e9rio seja reverentemente reconhecido, se preste sincera ades\u00e3o aos ensinamentos que dele emanam, segundo o seu sentir e vontade; estes manifestam-se sobretudo quer pela \u00edndole dos documentos, quer pelas frequentes repeti\u00e7\u00f5es da mesma doutrina, quer pelo modo de falar\u201d (<em>LG<\/em>, 25).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dito isso, a t\u00edtulo de oportuno pano de fundo da enc\u00edclica \u201cFratelli tutti\u201d, ser\u00e1 muito importante o aprofundamento dos temas que o Papa Francisco desenvolve e atualiza com rela\u00e7\u00e3o \u00e0s quest\u00f5es sociais em seus longos cap\u00edtulos. Que isso estimule a leitura integral e a reflex\u00e3o prof\u00edcua deste novo documento que vem integrar a rica Doutrina Social da Igreja.<\/p>\n<h3><\/h3>\n<h3><strong>A nova enc\u00edclica social \u201cFratelli tutti\u201d (II)<\/strong><strong>\u00a0<\/strong><\/h3>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 A nova enc\u00edclica sobre a fraternidade e a amizade social, do Papa Francisco \u2013 que se inicia com as palavras de S\u00e3o Francisco de Assis: \u201cFratelli tutti\u201d, em italiano, \u201cTodos irm\u00e3os\u201d, em portugu\u00eas \u2013 foi publicada neste domingo: s\u00e3o oito densos cap\u00edtulos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 No cap\u00edtulo I, intitulado \u201cAs sombras de um mundo fechado\u201d (n. 9-55), o Santo Padre exp\u00f5e, sem pretender ser exaustivo, algumas tend\u00eancias do mundo atual que atrapalham ou mesmo impedem a fraternidade universal. Eis suas palavras: \u201cSem pretender efetuar uma an\u00e1lise exaustiva nem tomar em considera\u00e7\u00e3o todos os aspetos da realidade que vivemos, proponho apenas manter-nos atentos a algumas tend\u00eancias do mundo atual que dificultam o desenvolvimento da fraternidade universal\u201d (n. 9). E quais s\u00e3o essas sombras?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 S\u00e3o muitas: as regress\u00f5es na hist\u00f3ria que reacendem conflitos anacr\u00f4nicos que se consideravam superados, ressurgem nacionalismos fechados, exacerbados, ressentidos e agressivos, ideologias ego\u00edstas, nacionalistas e fechadas ao pr\u00f3ximo (cf. n. 11 e 37); o mundo globalizado que se desinteressa pelo bem comum e, por isso, em vez de aproximar, afasta as pessoas. \u201cO avan\u00e7o deste globalismo favorece normalmente a identidade dos mais fortes que se protegem a si mesmos, mas procura dissolver as identidades das regi\u00f5es mais fr\u00e1geis e pobres, tornando-as mais vulner\u00e1veis e dependentes. Desta forma, a pol\u00edtica torna-se cada vez mais fr\u00e1gil perante os poderes econ\u00f4micos transnacionais que aplicam o lema \u2018divide e reinar\u00e1s\u2019\u201d (n. 12); parece reinar um \u201c\u2018desconstrucionismo\u2019, em que a liberdade humana pretende construir tudo a partir do zero. De p\u00e9, deixa apenas a necessidade de consumir sem limites e a acentua\u00e7\u00e3o de muitas formas de individualismo sem conte\u00fado [&#8230;]. Para isso, precisam de jovens que desprezem a hist\u00f3ria, rejeitem a riqueza espiritual e humana que se foi transmitindo atrav\u00e9s das gera\u00e7\u00f5es, ignorem tudo quanto os precedeu\u201d (n. 13); perde-se, assim, a identidade espiritual e social com seus grandes conceitos norteadores; semeia-se o des\u00e2nimo e a polariza\u00e7\u00e3o, especialmente no campo pol\u00edtico. Nesse contexto, \u201ca pol\u00edtica deixou de ser um debate saud\u00e1vel sobre projetos a longo prazo para o desenvolvimento de todos e o bem comum, limitando-se a receitas ef\u00eameras de marketing cujo recurso mais eficaz est\u00e1 na destrui\u00e7\u00e3o do outro\u201d (n. 15). Tamb\u00e9m os defensores do meio ambiente ou da \u201ccasa comum\u201d s\u00e3o ridicularizados (cf. n. 17).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Ainda: a \u201ccultura do descarte\u201d \u00e9 denunciada com \u00eanfase: \u201cno fundo, as pessoas j\u00e1 n\u00e3o s\u00e3o vistas como um valor prim\u00e1rio a respeitar e tutelar, especialmente se s\u00e3o pobres ou deficientes, se \u2018ainda n\u00e3o servem\u2019 (como os nascituros) ou \u2018j\u00e1 n\u00e3o servem\u2019 (como os idosos). Tornamo-nos insens\u00edveis a qualquer forma de desperd\u00edcio, a come\u00e7ar pelo alimentar, que aparece entre os mais deplor\u00e1veis. A falta de filhos, que provoca um envelhecimento da popula\u00e7\u00e3o, juntamente com o abandono dos idosos numa dolorosa solid\u00e3o, exprimem implicitamente que tudo acaba conosco, que s\u00f3 contam os nossos interesses individuais\u201d (n. 18-19). N\u00e3o deixa o Papa de lembrar ainda os baixos sal\u00e1rios a prejudicar os mais vulner\u00e1veis que por vezes prescindem do necess\u00e1rio para viver (cf. n. 20-21); os direitos humanos n\u00e3o s\u00e3o iguais para todos, as mulheres sofrem preconceitos e uma nova forma de escravid\u00e3o atinge a n\u00e3o poucas pessoas em v\u00e1rias partes do mundo. Usam-se para se seduzir mulheres e crian\u00e7as as redes sociais e desse tr\u00e1fico de pessoas surgem gravidezes e, por conseguinte, abortos (cf. n. 23-24).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Temos ainda as guerras, os atentados, as persegui\u00e7\u00f5es por motivos raciais ou religiosos e tantas afrontas contra a dignidade humana; o etnocentrismo, ou seja, tudo o que vem do outro ou de um grupo diferente do meu \u00e9 suspeito ou n\u00e3o aproveit\u00e1vel (cf. n. 25-27); nesse cen\u00e1rio, surge o crime organizado ou as m\u00e1fias. S\u00e3o palavras do Papa: \u201cA solid\u00e3o, os medos e a inseguran\u00e7a de tantas pessoas que se sentem abandonadas pelo sistema, fazem com que se crie um terreno f\u00e9rtil para as m\u00e1fias. Com efeito, estas imp\u00f5em-se apresentando-se como \u2018protetoras\u2019 dos esquecidos, muitas vezes atrav\u00e9s de v\u00e1rios tipos de ajuda, enquanto perseguem os seus interesses criminosos\u201d (n. 28 e 38).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 H\u00e1 ainda uma obsess\u00e3o pelo pr\u00f3prio bem-estar que os demais s\u00e3o esquecidos; apareceu tamb\u00e9m a Covid-19 que poder\u00e1 ajudar a humanidade a repensar o seu futuro e trocar o exagero do \u201ceu\u201d pela grandeza do \u201cn\u00f3s\u201d (cf. n. 31-35); no campo virtual, tem-se um paradoxo: as pessoas podem perder sua intimidade expondo-se, mas tamb\u00e9m h\u00e1 o isolamento de quem troca o virtual pelo real e \u00e9 nas redes sociais que, quase sempre, surgem ofensas contra o pr\u00f3ximo. \u00c9 preciso romper essas barreiras e encontrar-se, de fato, com o outro na sadia conviv\u00eancia (cf. n. 42-50). O Santo Padre conclui o cap\u00edtulo com uma mensagem alentadora: \u201cConvido \u00e0 esperan\u00e7a que \u2018nos fala duma realidade que est\u00e1 enraizada no mais fundo do ser humano, independentemente das circunst\u00e2ncias concretas e dos condicionamentos hist\u00f3ricos em que vive. Fala-nos duma sede, duma aspira\u00e7\u00e3o, dum anseio de plenitude, de vida bem-sucedida, de querer agarrar o que \u00e9 grande, o que enche o cora\u00e7\u00e3o e eleva o esp\u00edrito para coisas grandes, como a verdade, a bondade e a beleza, a justi\u00e7a e o amor. (\u2026) A esperan\u00e7a \u00e9 ousada, sabe olhar para al\u00e9m das comodidades pessoais, das pequenas seguran\u00e7as e compensa\u00e7\u00f5es que reduzem o horizonte, para se abrir aos grandes ideais que tornam a vida mais bela e digna\u2019 (<em>Discurso no encontro com os jovens do Centro Cultural Padre F\u00e9lix Varela<\/em> (Havana \u2013 Cuba 20 de setembro de 2015): <em>L\u00b4Osservatore Romano<\/em> (ed. semanal portuguesa de 24\/IX\/2015), 9.). Caminhemos na esperan\u00e7a!\u201d (n. 55).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 No cap\u00edtulo II, intitulado \u201cUm estranho no caminho\u201d (n. 56-86), o Papa Francisco deixa \u2013 como ele mesmo afirma \u2013 as respostas \u00e0s quest\u00f5es levantadas no cap\u00edtulo I para refletir sobre a conhecida par\u00e1bola do Bom Samaritano (cf. Lc 10, 25-37). Eis as palavras do Sumo Pont\u00edfice: \u201cCom a inten\u00e7\u00e3o de procurar uma luz no meio do que estamos a viver e antes de propor algumas linhas de a\u00e7\u00e3o, quero dedicar um cap\u00edtulo a uma par\u00e1bola narrada por Jesus Cristo h\u00e1 dois mil anos. Com efeito, apesar desta enc\u00edclica se dirigir a todas as pessoas de boa vontade, independentemente das suas convic\u00e7\u00f5es religiosas, a par\u00e1bola em quest\u00e3o \u00e9 expressa de tal maneira que qualquer um de n\u00f3s pode deixar-se interpelar por ela\u201d (n. 56). Em se tratando de um texto b\u00edblico apto a despertar profundas reflex\u00f5es, convido a cada um(a) a l\u00ea-lo e medit\u00e1-lo com vagar e, em seguida, tomar o cap\u00edtulo II da \u201cFratelli tutti\u201d e sentir-se desafiado pelas reflex\u00f5es do Papa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Sem \u201cestragar\u201d o gosto de beber na pr\u00f3pria fonte da enc\u00edclica, chamo a aten\u00e7\u00e3o para alguns pontos mais interpeladores. O primeiro \u00e9 a s\u00edntese \u201catualizada\u201d que Francisco oferece da par\u00e1bola ao escrever: \u201cA par\u00e1bola mostra-nos as iniciativas com que se pode refazer uma comunidade a partir de homens e mulheres que assumem como pr\u00f3pria a fragilidade dos outros, n\u00e3o deixam constituir-se uma sociedade de exclus\u00e3o, mas fazem-se pr\u00f3ximos, levantam e reabilitam o ca\u00eddo, para que o bem seja comum. Ao mesmo tempo, a par\u00e1bola adverte-nos sobre certas atitudes de pessoas que s\u00f3 olham para si mesmas e n\u00e3o atendem \u00e0s exig\u00eancias inilud\u00edveis da realidade humana\u201d (n. 67). Nessa passagem b\u00edblica, \u201cj\u00e1 n\u00e3o h\u00e1 distin\u00e7\u00e3o entre habitante da Judeia e habitante da Samaria, n\u00e3o h\u00e1 sacerdote nem comerciante; existem simplesmente dois tipos de pessoas: aquelas que cuidam do sofrimento e aquelas que passam ao largo; aquelas que se debru\u00e7am sobre o ca\u00eddo e o reconhecem necessitado de ajuda e aquelas que olham distra\u00eddas e aceleram o passo\u201d (n. 70). E, recorrendo aos Santos Padres, vai al\u00e9m: \u201cS\u00e3o Jo\u00e3o Cris\u00f3stomo expressou, com muita clareza, este desafio que se apresenta aos crist\u00e3os: \u2018Queres honrar o Corpo de Cristo? N\u00e3o permitas que seja desprezado nos seus membros, isto \u00e9, nos pobres que n\u00e3o t\u00eam que vestir, nem O honres aqui no templo com vestes de seda, enquanto l\u00e1 fora O abandonas ao frio e \u00e0 nudez\u2019 (<em>Homiliae in Matthaeum<\/em>, 50, 3-4: <em>PG<\/em> 58, 508)\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Depois, vem outro problema: Quem \u00e9 o meu pr\u00f3ximo? \u2013 pergunta o jovem a Jesus. Da\u00ed uma explica\u00e7\u00e3o: \u201cImporta notar que para os israelitas s\u00f3 era considerado \u2018pr\u00f3ximo\u2019 dois pastores que se associam (<em>re\u2019a<\/em>), os amigos, os s\u00f3cios, os compatriotas, pois eles n\u00e3o deviam se misturar com outros (cf. Lv 19,19). O estrangeiro, salvo se fosse um oficial romano, n\u00e3o tinha valor algum. Ningu\u00e9m era obrigado a ajud\u00e1-lo. Certo \u00e9 que em Lv 19,34 e Dt 10,19 \u00e9 preceituado o amor ao estrangeiro, por\u00e9m n\u00e3o a qualquer um, mas, sim, apenas, ao estrangeiro domiciliado em Israel e, de certo modo, assimilado, por ado\u00e7\u00e3o ao povo de Israel (<em>ger<\/em>). Eis, pois, um importante pano de fundo da par\u00e1bola\u201d (<em>Recorramos a Santa Gertrudes de Helfta<\/em>. S\u00e3o Paulo: Cultor de Livros, 2019, p. 81 \u2013 nota 42). Dito isso, notemos \u2013 com o Papa \u2013 que tal mentalidade foi se abrindo no pr\u00f3prio Antigo Testamento (cf. Tb 4,15; Sir 18,13 etc.), mas s\u00f3 ganha contornos claros no Novo Testamento (cf. Mt 7,12; Mt 5,45; Lc 6,36; 1Ts 3,12 etc.).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Ao olhar, no entanto, o sacerdote, o levita e o samaritano, somos confrontados. Da\u00ed a indaga\u00e7\u00e3o firme do Santo Padre: \u201cCom quem te identificas? \u00c9 uma pergunta sem rodeios, direta e determinante: a qual deles te assemelhas? Precisamos de reconhecer a tenta\u00e7\u00e3o que nos cerca de se desinteressar dos outros, especialmente dos mais fr\u00e1geis. Digamos que crescemos em muitos aspetos, mas somos analfabetos no acompanhar, cuidar e sustentar os mais fr\u00e1geis e vulner\u00e1veis das nossas sociedades desenvolvidas. Habituamo-nos a olhar para o outro lado, passar \u00e0 margem, ignorar as situa\u00e7\u00f5es at\u00e9 elas nos ca\u00edrem diretamente em cima\u201d (n. 64).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00f3s, como o Bom Samaritano, \u201cgozamos dum espa\u00e7o de corresponsabilidade capaz de iniciar e gerar novos processos e transforma\u00e7\u00f5es. Sejamos parte ativa na reabilita\u00e7\u00e3o e apoio das sociedades feridas\u201d (n. 77). E mais: fazer tudo por amor de Deus, ou seja, sem esperar recompensa humana alguma: \u201cO samaritano do caminho partiu sem esperar reconhecimentos nem obrigados. A dedica\u00e7\u00e3o ao servi\u00e7o era a grande satisfa\u00e7\u00e3o diante do seu Deus e na pr\u00f3pria vida e, consequentemente, um dever. Todos temos uma responsabilidade pelo ferido que \u00e9 o nosso povo e todos os povos da terra. Cuidemos da fragilidade de cada homem, cada mulher, cada crian\u00e7a e cada idoso, com a mesma atitude solid\u00e1ria e sol\u00edcita, a mesma atitude de proximidade do bom samaritano\u201d (n. 79). Cristo est\u00e1 nos abandonados e exclu\u00eddos (cf. Mt 25,40.45).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Aprendamos, pois, a olhar os problemas de nosso tempo e a enfrent\u00e1-los por amor de Deus que \u00e9 tamb\u00e9m amor ao pr\u00f3ximo. Ambos s\u00e3o indissoci\u00e1veis, pois ningu\u00e9m consegue amar a Deus a quem n\u00e3o v\u00ea, se n\u00e3o ama o irm\u00e3o a quem v\u00ea (cf. 1 Jo 4,20-21). Pe\u00e7amos a gra\u00e7a de uma f\u00e9 que opera pela caridade (cf. Gl 5,1-6) perante todos os necessitados que o Senhor coloca em nosso caminho a fim de que lhes sejamos tamb\u00e9m bons samaritanos do s\u00e9culo XXI.<\/p>\n<h3><strong>A nova enc\u00edclica social \u201cFratelli tutti\u201d (III)<\/strong><\/h3>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 <\/strong>Reflitamos sobre os cap\u00edtulos 3 e 4 da nova enc\u00edclica \u201cFratelli tutti\u201d: a fraternidade e a amizade social, do Papa Francisco. Espero despertar em cada um o gosto pela leitura integral desse precioso documento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Recordo, a t\u00edtulo de contextualiza\u00e7\u00e3o, que no cap\u00edtulo I, intitulado \u201cAs sombras de um mundo fechado\u201d (n. 9-55), o Santo Padre exp\u00f4s algumas tend\u00eancias do mundo atual que atrapalham ou mesmo impedem a fraternidade universal. Deixou de lado, por um tempo, esses questionamentos para iluminar sua reflex\u00e3o com a par\u00e1bola do Bom Samaritano (cf. Lc 10, 25-37). Eis que, agora, no cap\u00edtulo III, cujo t\u00edtulo \u00e9 \u201cPensar e gerar um mundo aberto\u201d (n. 87-127), o Papa como que se volta para as respostas aos desafios por ele recolhidos no cap\u00edtulo II. Acompanhemos com aten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u00c9 preciso amar de verdade e concretamente, diz o Papa: \u201cO ser humano est\u00e1 feito de tal maneira que n\u00e3o se realiza, n\u00e3o se desenvolve, nem pode encontrar a sua plenitude \u2018a n\u00e3o ser no sincero dom de si mesmo\u2019 (<em>Gaudium et spes<\/em>, 24) aos outros. E n\u00e3o chega a reconhecer completamente a sua pr\u00f3pria verdade, sen\u00e3o no encontro com os outros: \u2018S\u00f3 comunico realmente comigo mesmo, na medida em que comunico com o outro\u2019 (Gabriel Marcel, <em>Du refus \u00e0 l\u2019invocation<\/em> (Paris 1940), 50). Isso explica por que ningu\u00e9m pode experimentar o valor de viver, sem rostos concretos a quem amar. Aqui est\u00e1 um segredo da exist\u00eancia humana aut\u00eantica, j\u00e1 que \u2018a vida subsiste onde h\u00e1 v\u00ednculo, comunh\u00e3o, fraternidade; e \u00e9 uma vida mais forte do que a morte, quando se constr\u00f3i sobre verdadeiras rela\u00e7\u00f5es e v\u00ednculos de fidelidade. Pelo contr\u00e1rio, n\u00e3o h\u00e1 vida quando se tem a pretens\u00e3o de pertencer apenas a si mesmo e de viver como ilhas: nestas atitudes prevalece a morte\u2019 (Francisco, <em>Alocu\u00e7\u00e3o do <\/em>Angelus (10 de novembro de 2019): <em>L\u2019Osservatore Romano<\/em> (ed. semanal portuguesa de 12\/XI\/2019), 3)\u201d (n. 87). Ali\u00e1s, a) \u201co individualismo n\u00e3o nos torna mais livres, mais iguais, mais irm\u00e3os. A mera soma dos interesses individuais n\u00e3o \u00e9 capaz de gerar um mundo melhor para toda a humanidade\u201d (n. 105) b) mesmo na defesa da verdade, devemos agir com amor, pois \u201co maior perigo \u00e9 n\u00e3o amar (cf. 1Cor 13,1-13)\u201d (n. 92).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O que foge disso tudo est\u00e1, via de regra, mais voltado a si mesmo do que ao pr\u00f3ximo e pode ser doentio: \u201cA pessoa humana, com os seus direitos inalien\u00e1veis, est\u00e1 naturalmente aberta a criar v\u00ednculos. Habita nela, radicalmente, o apelo a transcender-se a si mesma no encontro com os outros\u201d (n. 111). At\u00e9 mesmo em n\u00edvel micro, nas comunidades, \u201cos grupos fechados e os casais autorreferenciais, que se constituem como um \u2018n\u00f3s\u2019 contraposto ao mundo inteiro, habitualmente s\u00e3o formas idealizadas de ego\u00edsmo e mera autoprote\u00e7\u00e3o\u201d (n. 89). Ningu\u00e9m deve se isolar, somos \u201ctodos irm\u00e3os (Mt 23,8)\u201d (n. 95).\u00a0 Aqui entra o racismo: \u201cum v\u00edrus que muda facilmente e, em vez de desaparecer, dissimula-se, mas est\u00e1 sempre \u00e0 espreita\u201d (n. 97). Nesse contexto, quem ama os que com ele convivem numa comunidade local, dever\u00e1 amar tamb\u00e9m os de mais longe: \u00e9 assim o exerc\u00edcio da fraternidade universal (cf. n. 99-104). Sim, pois \u201ctodo ser humano tem direito de viver com dignidade e desenvolver-se integralmente, e nenhum pa\u00eds lhe pode negar este direito fundamental\u201d (n. 107). Somos, portanto, chamados a dar o melhor aos outros na verdadeira solidariedade (cf. n. 112 e 114), sem nos esquecermos do cuidado para com a \u201ccasa comum\u201d, conforme foi longamente tratado na <em>Laudato Si<\/em>, e com o uso correto da terra.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sobre a terra, em especial, escreve o Pont\u00edfice: \u201cFa\u00e7o minhas e volto a propor a todos algumas palavras de S\u00e3o Jo\u00e3o Paulo II, cuja veem\u00eancia talvez tenha passado despercebida: \u2018Deus deu a terra a todo g\u00eanero humano, para que ela sustente todos os seus membros, sem excluir nem privilegiar ningu\u00e9m\u2019 (<em>Centesimus annus<\/em> (1 de maio de 1991), 31: <em>AAS<\/em> 83 (1991), 831). Nesta linha, lembro que \u2018a tradi\u00e7\u00e3o crist\u00e3 nunca reconheceu como absoluto ou intoc\u00e1vel o direito \u00e0 propriedade privada, e salientou a fun\u00e7\u00e3o social de qualquer forma de propriedade privada\u2019 (Carta enc. <em>Laudato si\u2019<\/em> (24 de maio de 2015), 93: <em>AAS<\/em> 107 (2015), 884). O princ\u00edpio do uso comum dos bens criados para todos \u00e9 o \u2018primeiro princ\u00edpio de toda a ordem \u00e9tico-social\u2019 (Carta enc. <em>Laborem exercens<\/em> (14 de setembro de 1981), 19: <em>AAS<\/em> 73 (1981), 626), \u00e9 um direito natural, primordial e priorit\u00e1rio (cf. Conselho Pontif\u00edcio \u00abJusti\u00e7a e paz\u00bb, <em>Comp\u00eandio da Doutrina Social da Igreja<\/em>, 172). Todos os outros direitos sobre os bens necess\u00e1rios para a realiza\u00e7\u00e3o integral das pessoas, quaisquer que sejam eles incluindo o da propriedade privada, \u2018n\u00e3o devem \u2013 como afirmava S\u00e3o Paulo VI \u2013 impedir, mas, pelo contr\u00e1rio, facilitar a sua realiza\u00e7\u00e3o\u2019 (<em>Populorum progressio<\/em> (26 de mar\u00e7o de 1967), 22: <em>AAS<\/em> 59 (1967), 268). O direito \u00e0 propriedade privada s\u00f3 pode ser considerado como um direito natural secund\u00e1rio e derivado do princ\u00edpio do destino universal dos bens criados, e isto tem consequ\u00eancias muito concretas que se devem refletir no funcionamento da sociedade. Mas acontece muitas vezes que os direitos secund\u00e1rios se sobrep\u00f5em aos priorit\u00e1rios e primordiais, deixando-os sem relev\u00e2ncia pr\u00e1tica\u201d (n. 120; cf. n. 124).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Francisco louva os empres\u00e1rios em seus esfor\u00e7os, por\u00e9m tamb\u00e9m os desafia: \u201cMas estas capacidades dos empres\u00e1rios, que s\u00e3o um dom de Deus, deveriam em todo o caso orientar-se claramente para o desenvolvimento das outras pessoas e a supera\u00e7\u00e3o da mis\u00e9ria, especialmente atrav\u00e9s da cria\u00e7\u00e3o de oportunidades de trabalho diversificadas\u201d (n. 123). Afinal, s\u00f3 ante uma l\u00f3gica que considera a dignidade humana \u00e9 poss\u00edvel sonhar com e ter um mundo melhor (cf. n. 123).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 No cap\u00edtulo IV, cujo t\u00edtulo soa \u201cUm cora\u00e7\u00e3o aberto ao mundo inteiro\u201d (n. 128-153), o Papa se volta, por primeiro a um problema que lhe \u00e9 muito especial: o dos migrantes. Para o Santo Padre o ideal seria ningu\u00e9m deixar a sua terra natal, mas se, for\u00e7ado por algumas circunst\u00e2ncias espec\u00edficas, as pessoas tiverem de buscar outras regi\u00f5es, que vigore para elas a fraternidade universal: onde quer que esteja ou v\u00e1, encontre irm\u00e3os e irm\u00e3s capazes de lhes aplicar concretamente quatro verbos: \u201cacolher, proteger, promover e integrar\u201d (n. 129). A quem j\u00e1 se encontra instalado em um lugar faz algum tempo, importa que lhe seja reconhecida a cidadania, ou seja, a perten\u00e7a legal \u00e0 popula\u00e7\u00e3o local (cf. n. 131); ele h\u00e1 de ser um dom para ela, pois sempre traz algo novo (cf. n. 133).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cAs v\u00e1rias culturas, cuja riqueza se foi criando ao longo dos s\u00e9culos, devem ser salvaguardadas para que o mundo n\u00e3o fique mais pobre. Isso, por\u00e9m, sem deixar de as estimular a que permitam surgir de si mesmas algo de novo no encontro com outras realidades\u201d (n. 134 e 148). Nesse cen\u00e1rio, \u201ca ajuda m\u00fatua entre pa\u00edses acaba por beneficiar a todos\u201d (n. 137), dado que \u201choje nenhum Estado nacional isolado \u00e9 capaz de garantir o bem comum da pr\u00f3pria popula\u00e7\u00e3o\u201d (n. 153). Isso tudo sem perder, \u00e9 certo, a identidade local (cf. n. 142) \u00e0 luz de interc\u00e2mbios sadios e enriquecedores (n. 144). Nessa perspectiva, n\u00e3o cabem os \u201cnarcisismos bairristas que n\u00e3o expressam um amor sadio pelo pr\u00f3prio povo e a sua cultura. Escondem um esp\u00edrito fechado que, devido a uma certa inseguran\u00e7a e medo do outro, prefere criar muralhas defensivas para sua salvaguarda\u201d (n. 146). Pensa, assim, o Santo Padre, junto com Grande Im\u00e3 Ahmad Al-Tayyeb, no bom relacionamento entre o Ocidente e o Oriente (cf. n. 136).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Antes de prosseguir na leitura da <em>Fratelli Tutti<\/em>, desejo lembrar, a t\u00edtulo pessoal, as palavras do Conc\u00edlio Ecum\u00eanico Vaticano II (1962-1965) sobre os mu\u00e7ulmanos, uma vez que a rela\u00e7\u00e3o entre o Ocidente e o Oriente envolve Cristianismo e Islamismo: \u201cA Igreja olha tamb\u00e9m com estima para os mu\u00e7ulmanos. Adoram eles o Deus \u00danico, vivo e subsistente, misericordioso e omnipotente, criador do c\u00e9u e da terra, que falou aos homens e a cujos decretos, mesmo ocultos, procuram submeter-se de todo o cora\u00e7\u00e3o, como a Deus se submeteu Abra\u00e3o, que a f\u00e9 isl\u00e2mica de bom grado evoca. Embora sem o reconhecerem como Deus, veneram Jesus como profeta, e honram Maria, sua m\u00e3e virginal, \u00e0 qual por vezes invocam devotamente. Esperam pelo dia do ju\u00edzo, no qual Deus remunerar\u00e1 todos os homens, uma vez ressuscitados. T\u00eam, por isso, em apre\u00e7o a vida moral e prestam culto a Deus, sobretudo com a ora\u00e7\u00e3o, a esmola e o jejum. E se \u00e9 verdade que, no decurso dos s\u00e9culos, surgiram entre crist\u00e3os e mu\u00e7ulmanos n\u00e3o poucas disc\u00f3rdias e \u00f3dios, este sagrado Conc\u00edlio exorta todos a que, esquecendo o passado, sinceramente se exercitem na compreens\u00e3o m\u00fatua e juntos defendam e promovam a justi\u00e7a social, os bens morais e a paz e liberdade para todos os homens\u201d (<em>Nostra aetate<\/em> n. 3). Neste ponto espec\u00edfico, como fonte de aprofundamento, indico uma obra que trata do Islamismo de modo s\u00e9rio: <em>Religi\u00f5es: respostas para as perguntas do homem moderno<\/em>. S\u00e3o Paulo: Mundo e miss\u00e3o, 1998, p. 73-95 (volume I).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Retornando \u00e0 enc\u00edclica, vemos Francisco se volta para a gratuidade crist\u00e3 que \u00e9, em s\u00edntese, fazer o bem sem esperar nada em troca. Eis suas palavras sobre a gratuidade: \u201c\u00e9 a capacidade de fazer algumas coisas, pelo simples fato de serem boas, sem olhar \u00eaxitos nem esperar receber imediatamente algo em troca. Isto permite acolher o estrangeiro, mesmo que n\u00e3o traga de imediato benef\u00edcios palp\u00e1veis. Mas h\u00e1 pa\u00edses que pretendem receber apenas cientistas ou investidores. Quem n\u00e3o vive a gratuidade fraterna, transforma a sua exist\u00eancia num com\u00e9rcio cheio de ansiedade: est\u00e1 sempre a medir aquilo que d\u00e1 e o que recebe em troca\u201d (n. 139-140). \u00c9 \u00f3bvio que \u201cos nacionalismos fechados manifestam, em \u00faltima an\u00e1lise, esta incapacidade de gratuidade, a errada persuas\u00e3o de que podem desenvolver-se \u00e0 margem da ru\u00edna dos outros e que, fechando-se aos demais, estar\u00e3o mais protegidos. O migrante \u00e9 visto como um usurpador, que nada oferece\u201d (n. 141).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Da\u00ed afirmar o Papa sobre a intera\u00e7\u00e3o social: \u201cEsta abordagem exige, em \u00faltima an\u00e1lise, que se aceite com alegria que nenhum povo, nenhuma cultura, nenhum indiv\u00edduo pode obter tudo de si mesmo. Os outros s\u00e3o, constitutivamente, necess\u00e1rios para a constru\u00e7\u00e3o duma vida plena. A consci\u00eancia do limite ou da exiguidade, longe de ser uma amea\u00e7a, torna-se a chave segundo a qual sonhar e elaborar um projeto comum. Com efeito, \u2018o homem \u00e9 o ser fronteiri\u00e7o que n\u00e3o tem qualquer fronteira\u2019 (Georg Simmel, <em>Br\u00fccke und T\u00fcr. <\/em><em>Essays des Philosophen zur Geschichte, Religion, Kunst und Gesellschaft<\/em> (Estugarda 1957), 6)\u201d (n. 150).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Possam estas reflex\u00f5es do Santo Padre levar-nos a repensar, \u00e0 luz do Evangelho, nossa rela\u00e7\u00e3o com todos os que passam por n\u00f3s no dia a dia. Pe\u00e7amos a Deus a gra\u00e7a de sermos realmente acolhedores como manda o Evangelho (cf. Mt 25,35) e recomenda a Regra de S\u00e3o Bento (53,15) citada pelo Papa no n\u00famero 90 da <em>Fratelli Tutti<\/em>.<\/p>\n<h3 style=\"text-align: justify;\"><strong>A nova enc\u00edclica social \u201cFratelli tutti\u201d (IV)<\/strong><\/h3>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 <\/strong><strong>C<\/strong>om este artigo sobre os cap\u00edtulos 5 a 7 da nova enc\u00edclica \u201cFratelli tutti\u201d, sobre a fraternidade e a amizade social, do Papa Francisco, avan\u00e7o um pouco mais na minha apresenta\u00e7\u00e3o desse documento que muito tem a dizer a todos os fi\u00e9is cat\u00f3licos e demais homens e mulheres de boa vontade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 O cap\u00edtulo V, com o t\u00edtulo \u201cA pol\u00edtica melhor\u201d (n. 154-197), \u00e9 um convite muito pr\u00e1tico a superar as \u201cm\u00e1s\u201d ou at\u00e9 as consideradas \u201cboas\u201d pol\u00edticas por uma \u201cmelhor\u201d. Que \u00e9 essa pol\u00edtica melhor? \u2013 \u00c9 \u201ca pol\u00edtica colocada ao servi\u00e7o do verdadeiro bem comum\u201d (n. 154; cf. n. 176-177) e que vista desta maneira, \u201c\u00e9 mais nobre do que a apar\u00eancia, o marketing, as diferentes formas de maquilhagem medi\u00e1tica\u201d (n. 197). Ela se choca com a forma liberalista e populista de fazer pol\u00edtica, que \u00e9 longamente explanada na \u201cFratelli tutti\u201d (cf. n. 155-161). No entanto, o Santo Padre recorda que populismo \u00e9 diferente de popular, este \u00faltimo voc\u00e1bulo se aplica apenas a quem promove o bem do povo em geral, n\u00e3o s\u00f3 oferecendo dinheiro aos pobres, mas, sim, garantindo-lhes vida digna. Afinal, \u201cpor mais que mudem os sistemas de produ\u00e7\u00e3o, a pol\u00edtica n\u00e3o pode renunciar ao objetivo de conseguir que a organiza\u00e7\u00e3o duma sociedade assegure a cada pessoa uma maneira de contribuir com as suas capacidades e o seu esfor\u00e7o\u201d (cf. n. 162).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ainda: s\u00e3o falsamente acusados como \u201cpopulistas quantos defendem os direitos dos mais fr\u00e1geis da sociedade\u201d (n. 163); todavia, n\u00e3o pode haver garantias aos sadios direitos particulares sem a presen\u00e7a apoiadora do Estado, dado que \u201cde fato, n\u00e3o h\u00e1 vida privada, se n\u00e3o for protegida por uma ordem p\u00fablica; um lar acolhedor dom\u00e9stico n\u00e3o tem intimidade, se n\u00e3o estiver sob a tutela da legalidade, dum estado de tranquilidade fundado na lei e na for\u00e7a e com a condi\u00e7\u00e3o dum m\u00ednimo de bem-estar garantido pela divis\u00e3o do trabalho, pelas trocas comerciais, pela justi\u00e7a social e pela cidadania pol\u00edtica\u201d (Paul Ricoeur, \u2018Le<em> socius<\/em> et le prochain\u2019, in: Idem, <em>Histoire et v\u00e9rit\u00e9<\/em> (Paris 1967), 122). A verdadeira caridade inclui tudo isso e nada desperdi\u00e7a do que pode servir \u2013 de verdade e n\u00e3o por interesses escusos \u2013 o pr\u00f3ximo. Sim, afirma o Papa que \u201c\u00e0s vezes deparamo-nos com ideologias de esquerda ou pensamentos sociais cultivando h\u00e1bitos individualistas e procedimentos ineficazes, porque beneficiam a poucos; entretanto a multid\u00e3o dos abandonados fica \u00e0 merc\u00ea da poss\u00edvel boa vontade de alguns. Isto demonstra que \u00e9 necess\u00e1rio fazer crescer n\u00e3o s\u00f3 uma espiritualidade da fraternidade, mas tamb\u00e9m e ao mesmo tempo uma organiza\u00e7\u00e3o mundial mais eficiente para ajudar a resolver os problemas prementes dos abandonados que sofrem e morrem nos pa\u00edses pobres\u201d (n. 165). Tamb\u00e9m a pol\u00edtica econ\u00f4mica ativa, que \u00e9 necess\u00e1ria, deve ser acompanhada pela solidariedade e confian\u00e7a m\u00fatua, tendo a dignidade humana no centro (n. 168) e o apoio ao chamados \u201cmovimentos populares\u201d (n. 169).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Seria importante uma autoridade internacional capaz de garantir a viv\u00eancia da justi\u00e7a entendida como o \u201cdar a cada um o que lhe \u00e9 devido\u201d (n. 171). Contudo, \u201cquando se fala duma poss\u00edvel forma de autoridade mundial regulada pelo direito (Cf. Bento XVI, Carta enc. <em>Caritas in veritate<\/em> (29 de junho de 2009), 67: <em>AAS<\/em> 101 (2009), 700-701.), n\u00e3o se deve necessariamente pensar numa autoridade pessoal. Mas deveria prever pelo menos a cria\u00e7\u00e3o de organiza\u00e7\u00f5es mundiais mais eficazes, dotadas de autoridade para assegurar o bem comum mundial, a erradica\u00e7\u00e3o da fome e da mis\u00e9ria e a justa defesa dos direitos humanos fundamentais\u201d (n. 172). N\u00e3o se pode esquecer que, na debilidade ou aus\u00eancia de atua\u00e7\u00e3o de Organiza\u00e7\u00f5es Internacionais, alguns grupos civis t\u00eam ajudado a suprir a lacuna (cf. n. 175). Em tudo, no entanto, h\u00e1 de reinar a caridade, s\u00edntese de toda lei (cf. Mt 22,36-40). \u201cEsta caridade pol\u00edtica sup\u00f5e ter maturado um sentido social que supere toda a mentalidade individualista\u201d (n. 182), pois s\u00f3 \u201ca caridade pode construir um mundo novo\u201d (n. 183), \u00e0 luz da raz\u00e3o e da f\u00e9, sem relativismos (cf. n. 185). Ainda mais: \u201cEsta caridade, cora\u00e7\u00e3o do esp\u00edrito da pol\u00edtica, \u00e9 sempre um amor preferencial pelos \u00faltimos, que subjaz a todas as a\u00e7\u00f5es realizadas em seu favor\u201d (cf. S\u00e3o Jo\u00e3o Paulo II, Carta enc. <em>Sollicitudo rei socialis<\/em> (30 de dezembro de 1987), 42: <em>AAS<\/em> 80 (1988), 572-574; Idem, Carta enc. <em>Centesimus annus<\/em> (1 de maio de 1991), 11: <em>AAS<\/em> 83 (1991), 806-807). Sejam pois lembrados os princ\u00edpios \u201cde <em>subsidiariedade<\/em>, insepar\u00e1vel do princ\u00edpio de <em>solidariedade<\/em>\u201d (n. 187) e uma pol\u00edtica voltada a \u201celiminar efetivamente a fome\u201d (n. 189).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Vem a t\u00edtulo de fecho deste cap\u00edtulo um ponto destacado por Francisco: \u201cNeste contexto, gostaria de lembrar que eu juntamente com o Grande Im\u00e3 Ahmad Al-Tayyeb pedimos \u2018aos art\u00edfices da pol\u00edtica internacional e da economia mundial, para se comprometer seriamente na difus\u00e3o da toler\u00e2ncia, da conviv\u00eancia e da paz; para intervir, o mais breve poss\u00edvel, a fim de se impedir o derramamento de sangue inocente\u2019 (<em>Documento sobre a fraternidade humana em prol da paz mundial e da conviv\u00eancia comum<\/em> (Abu Dhabi 4 de fevereiro de 2019): <em>L\u2019Osservatore Romano<\/em> (ed. semanal portuguesa de 05\/II\/2019), 21). E quando uma determinada pol\u00edtica semeia o \u00f3dio e o medo em rela\u00e7\u00e3o a outras na\u00e7\u00f5es em nome do bem do pr\u00f3prio pa\u00eds, \u00e9 necess\u00e1rio estar alerta, reagir a tempo e corrigir imediatamente o rumo\u201d (n. 192).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O cap\u00edtulo VI, \u201cDi\u00e1logo e amizade social\u201d (n. 198-224), reafirma \u2013 em suma \u2013 um verbo muito caro ao atual Pont\u00edfice: dialogar (cf. n. 198) e promover, apesar das dificuldades, a \u201ccultura do encontro que supere as dial\u00e9ticas que colocam um contra o outro\u201d (n. 215; cf. n. 216-217). Tal di\u00e1logo jamais se confunde com \u201cuma troca febril de opini\u00f5es nas redes sociais, muitas vezes pilotada por uma informa\u00e7\u00e3o medi\u00e1tica nem sempre fi\u00e1vel\u201d (n. 200) com menosprezo a quem pensa diferente (cf. n. 201). Ali\u00e1s, essa \u201cfalta de di\u00e1logo sup\u00f5e que ningu\u00e9m, nos diferentes setores, est\u00e1 preocupado com o bem comum, mas com obter as vantagens que o poder lhe proporciona ou, na melhor das hip\u00f3teses, com impor o seu pr\u00f3prio modo de pensar\u201d (n. 202). Sim, \u201co di\u00e1logo social aut\u00eantico pressup\u00f5e a capacidade de respeitar o ponto de vista do outro, aceitando como poss\u00edvel que contenha convic\u00e7\u00f5es ou interesses leg\u00edtimos\u201d (n. 203). Nisso, se bem usada, \u201ca <em>internet<\/em> pode oferecer maiores possibilidades de encontro e de solidariedade entre todos\u201d (n. 205).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Contudo \u2013 e isso \u00e9 deveras importante \u2013, o di\u00e1logo n\u00e3o pode ceder lugar ao relativismo a professar sermos incapazes de chegar \u00e0 verdade como tal (cf. n. 206), ao qual se junta \u201co risco de que o poderoso ou o mais h\u00e1bil consiga impor uma suposta verdade\u201d (n. 209). E d\u00e1 exemplo do n\u00e3o matar. \u201c\u00c9 uma verdade irrenunci\u00e1vel que reconhecemos com a raz\u00e3o e aceitamos com a consci\u00eancia. Uma sociedade \u00e9 nobre e respeit\u00e1vel, nomeadamente porque cultiva a busca da verdade e pelo seu apego \u00e0s verdades fundamentais\u201d (n. 207). \u201cTemos de nos exercitar em desmascarar as v\u00e1rias modalidades de manipula\u00e7\u00e3o, deforma\u00e7\u00e3o e ocultamento da verdade nas esferas p\u00fablica e privada\u201d (n. 208). Afinal, as verdades morais b\u00e1sicas v\u00e3o al\u00e9m do mero consenso, est\u00e3o inscritas na natureza humana (cf. n. 211-212).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mais: \u201cSe devemos em qualquer situa\u00e7\u00e3o respeitar a dignidade dos outros, isto significa que esta n\u00e3o \u00e9 uma inven\u00e7\u00e3o nem uma suposi\u00e7\u00e3o nossa, mas que existe realmente neles um valor superior \u00e0s coisas materiais e independente das circunst\u00e2ncias e exige um tratamento distinto\u201d (n. 213). Nessa sociedade, h\u00e1 de se reconhecer no outro o direito de ser ele mesmo, sem viol\u00eancia, dado que \u201cpor tr\u00e1s da repulsa de certas formas vis\u00edveis de viol\u00eancia, muitas vezes esconde-se outra viol\u00eancia mais dissimulada: a daqueles que desprezam o diferente, sobretudo quando as suas reivindica\u00e7\u00f5es prejudicam de alguma maneira os pr\u00f3prios interesses\u201d (n. 218).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tamb\u00e9m somos convidados a respeitar os povos nativos, especialmente os ind\u00edgenas (cf. n. 220), bem como abrirmo-nos ao di\u00e1logo com todos os povos e at\u00e9 a ceder algo pelo bem comum (cf. n. 221). J\u00e1 contra o individualismo consumista (cf. n. 222), S\u00e3o Paulo prop\u00f5e \u201cum fruto do Esp\u00edrito Santo com a palavra grega <em>chrestotes<\/em> (Gl 5,22), que expressa um estado de \u00e2nimo n\u00e3o \u00e1spero, rude, duro, mas benigno, suave, que sustenta e conforta. A pessoa que possui esta qualidade ajuda os outros, para que a sua exist\u00eancia seja mais suport\u00e1vel, sobretudo quando sobrecarregados com o peso dos seus problemas, urg\u00eancias e ang\u00fastias\u201d (n. 223) e \u00e9 levada a viver a amabilidade do \u201ccom licen\u00e7a\u201d, \u201cdesculpe\u201d, \u201cobrigado\u201d (n. 224).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao concluir este cap\u00edtulo da \u201cFratelli tutti\u201d, a tratar da amizade social, n\u00e3o posso, enquanto monge cisterciense agradecido a Deus pelo dom da minha consagra\u00e7\u00e3o, deixar de recomendar a obra de um grande Padre cisterciense. Trata-se da \u201cAmizade espiritual\u201d, de Aelredo de Rievaulx, monge e abade do s\u00e9culo XII, que ajuda a cada ser humano a, valendo-se dos sadios la\u00e7os humanos, transcend\u00ea-los ou elev\u00e1-los a Deus. Para Aelredo, a amizade deve ser uma escada que conduz ao c\u00e9u (cf. <em>Amizade espiritual. Ora\u00e7\u00e3o pastoral<\/em>. S\u00e3o Paulo: Cultor de Livros, 2017). Elevemo-nos \u2013 pela gra\u00e7a divina que a ningu\u00e9m falta \u2013, com esse monge ingl\u00eas, a t\u00e3o altos patamares espirituais!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Chegamos, assim, ao cap\u00edtulo VII que tem por t\u00edtulo \u201cPercurso dum novo encontro\u201d (n. 225-270) capazes de nos conduzir \u00e0 paz sem desejos de vingan\u00e7a (cf. n. 226-227), mas a sermos promotores da reconcilia\u00e7\u00e3o e do encontro (cf. n. 229 e 232). Importa perdoar o rival de fora como se fosse membro da nossa fam\u00edlia (cf. n. 230). Embora longo, devo apenas apontar os itens tratados que recordam, na sua quase totalidade, temas trabalhados recentemente pelo Papa Francisco e que abordei, inclusive, de algum modo, em meus artigos \u00e0 imprensa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Podemos dizer que o Santo Padre recomenda neste cap\u00edtulo: 1) a amizade social com os mais pobres (cf. n. 233), uma vez que a desigualdade e a falta de inclus\u00e3o social pode ser geradora de viol\u00eancia (cf. n. 234-235); 2) o perd\u00e3o e a reconcilia\u00e7\u00e3o (237-239) superando o mal com o bem (cf. n. 243), apesar \u00a0de que \u201camar um opressor n\u00e3o significa consentir que continue a ser tal; nem lev\u00e1-lo a pensar que \u00e9 aceit\u00e1vel o que faz\u201d (n. 241); 3) n\u00e3o se esquecer de fatos graves da hist\u00f3ria para n\u00e3o repeti-los: A <em>Shoah<\/em>, os bombardeios at\u00f4micos de Hiroxima e Nagas\u00e1qui (cf. n. 246-247), \u201cas persegui\u00e7\u00f5es, o com\u00e9rcio dos escravos e os massacres \u00e9tnicos que se verificaram e verificam em v\u00e1rios pa\u00edses, e tantos outros factos hist\u00f3ricos que nos fazem envergonhar de sermos humanos\u201d (n. 248). Algu\u00e9m poderia perguntar: mas como entender o Papa se ele convida a perdoar, e, ao mesmo tempo, a n\u00e3o esquecer dos erros cometidos?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eis sua pr\u00f3pria explica\u00e7\u00e3o: \u201cAqueles que perdoam de verdade n\u00e3o esquecem, mas renunciam a deixar-se dominar pela mesma for\u00e7a destruidora que os lesou\u201d (n. 251). O que tamb\u00e9m n\u00e3o redunda em impunidade: quem erra tem de pagar pelo erro (cf. n. 252); 4) condena a guerra injusta e pede que elas nunca mais aconte\u00e7am, pois todas deixam o mundo pior do que antes (cf. n. 256-262); 5) recrimina a pena de morte, a pris\u00e3o perp\u00e9tua e as a\u00e7\u00f5es extrajudiciais (cf. n. 263-268) e 6) defende um mundo de paz no qual se cumpra a profecia de Isa\u00edas para os tempos messi\u00e2nicos: \u201ctransformar\u00e3o as suas espadas em relhas de arado\u201d (2,4).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eis, assim, mais um trecho da \u201cFratelli tutti\u201d a cada irm\u00e3o e irm\u00e3 interessado(a) em meditar, com alegria, este novo documento social da Igreja.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Cardeal Orani Jo\u00e3o Tempesta Arcebispo do Rio de Janeiro (RJ) \u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 O Papa Francisco publicou neste dia 4 de outubro, mem\u00f3ria de S\u00e3o Francisco de Assis, neste ano celebrando o 27\u00ba domingo do tempo comum, uma nova Enc\u00edclica social sobre a fraternidade e a amizade social. Ele a assinou neste s\u00e1bado, DIA 3, na Bas\u00edlica &hellip;<\/p>\n<p class=\"read-more\"> <a class=\"\" href=\"https:\/\/www.cnbb.org.br\/a-nova-enciclica-social-fratelli-tutti\/\"> <span class=\"screen-reader-text\">A nova enc\u00edclica social \u201cFratelli tutti\u201d<\/span> Leia mais &raquo;<\/a><\/p>\n","protected":false},"author":31,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","theme-transparent-header-meta":"default","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":""},"categories":[758,1837],"tags":[2817],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/posts\/250107"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/users\/31"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/comments?post=250107"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/posts\/250107\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/media?parent=250107"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/categories?post=250107"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/tags?post=250107"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}