{"id":25063,"date":"2011-09-16T00:00:00","date_gmt":"2011-09-16T03:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/homilia-da-missa-de-25-anos-de-ordenacao-episcopal-de-dom-damasceno\/"},"modified":"2011-09-16T00:00:00","modified_gmt":"2011-09-16T03:00:00","slug":"homilia-da-missa-de-25-anos-de-ordenacao-episcopal-de-dom-damasceno","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/homilia-da-missa-de-25-anos-de-ordenacao-episcopal-de-dom-damasceno\/","title":{"rendered":"Hom\u00edlia da Missa de 25 anos de ordena\u00e7\u00e3o episcopal de Dom Damasceno"},"content":{"rendered":"<h4 style=\"text-align: right\">Dom Eduardo Benes de Sales Rodrigues<\/h4>\n<h4 style=\"text-align: right\">Arcebispo de Sorocaba &#8211; SP<\/h4>\n<p style=\"text-align: justify\">Dom Damasceno agrade\u00e7o, honrado e feliz, o generoso convite para pregar em sua missa de jubileu de prata episcopal.\u00a0\u00a0 Seu convite me fez voltar em pensamento, com saudades, aos tempos de Mariana quando, colegas e amigos, estud\u00e1vamos filosofia, enfrentando juntos os dif\u00edceis textos dos \u201celementa philosophiae aristot\u00e9lico-thomisticae\u201d de Josephus Gredt, sob a orienta\u00e7\u00e3o dos padres lazaristas.\u00a0 Quero inicialmente fazer mem\u00f3ria de seus pais, Carmen e Francisco, e prestar homenagem a seus 9 irm\u00e3os, certo de que sua fam\u00edlia foi o ber\u00e7o das virtudes que presidem sua significativa e rica presen\u00e7a no cen\u00e1rio da Igreja do Brasil nos \u00faltimos dec\u00eanios. \u00c9 bonita, marcada por especial provid\u00eancia de Deus, sua trajet\u00f3ria no servi\u00e7o do povo de Deus em nossa Igreja. Depois de v\u00e1rios anos como bispo auxiliar de Bras\u00edlia, Nossa Senhora Aparecida, de quem sua m\u00e3e, Carmen, era especial devota, trouxe-o para o Santu\u00e1rio, cora\u00e7\u00e3o cat\u00f3lico do Brasil. Aqui voc\u00ea tem vivido os melhores dias de sua vida e recebido as mais significativas tarefas para o servi\u00e7o da Igreja. Enumero quatro principais: sediar a V\u00a0 Confer\u00eancia do Episcopado latino-americano e caribenho, quando voc\u00ea desfrutou da companhia do Vig\u00e1rio de Cristo, hospedando-o em sua casa; sua elei\u00e7\u00e3o para a Presid\u00eancia do CELAM, quando foi oficialmente lan\u00e7ada a Miss\u00e3o Continental; sua escolha por Sua Santidade, o Papa Bento, para membro do Col\u00e9gio Cardinal\u00edcio; e, recentemente, a elei\u00e7\u00e3o para a Presid\u00eancia da CNBB. E pensar, irm\u00e3os, que tudo isso foi recebido por Dom Damasceno com simplicidade de cora\u00e7\u00e3o e no esp\u00edrito de fidelidade de quem quer administrar os talentos de Deus com sincera dedica\u00e7\u00e3o, fazendo jus desde j\u00e1 \u00e0 palavra do Senhor: \u201cServo bom e fiel, j\u00e1 que foste fiel no pouco, eu te constituirei sobre o muito, entra na alegria de teu Senhor\u201d.<\/p>\n<p>  <!--more-->  <\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">A alegria!\u00a0 \u00c9 sobre a alegria, que todos lemos em seu semblante, quaisquer que sejam as circunst\u00e2ncias, que desejo meditar nesse breve espa\u00e7o de tempo que me permite a homilia desta Santa Missa. A primeira observa\u00e7\u00e3o que fa\u00e7o \u00e9 que antes que o ser humano pudesse entrar na alegria do Senhor, a alegria do Senhor entrou em sua hist\u00f3ria. Foi com um \u201calegra-te\u201d(Kaire), dirigido a Maria que a plenitude da alegria do Pai, o Filho Unig\u00eanito, come\u00e7ou a estar entre n\u00f3s. A alegria de Deus se comunica ao homem pecador como miseric\u00f3rdia. Esta verdade s\u00f3 foi plenamente compreendida por Pedro, depois do perd\u00e3o de suas tr\u00eas quedas, com a vinda do Esp\u00edrito Santo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><strong>Perd\u00e3o e alegria<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Neste sentido a palavra de Deus, proclamada no evangelho,nos convida retomar o que h\u00e1 de mais revolucion\u00e1rio na revela\u00e7\u00e3o crist\u00e3. Trata-se da mensagem &#8211; a \u00fanica verdadeiramente capaz de transformar o mundo \u2013 da miseric\u00f3rdia que, jorrando do cora\u00e7\u00e3o de Deus, contagia o cora\u00e7\u00e3o humano e restaura os la\u00e7os da comunh\u00e3o na conviv\u00eancia no seio da sociedade.\u00a0 Em sua mensagem para o trig\u00e9simo quinto dia mundial da Paz, em 2002, o Papa Jo\u00e3o Paulo II, prop\u00f4s o Perd\u00e3o como condi\u00e7\u00e3o \u201csine qua\u201d para o estabelecimento da justi\u00e7a na Terra: \u201cN\u00e3o h\u00e1 Paz sem Justi\u00e7a, n\u00e3o h\u00e1 Justi\u00e7a sem Perd\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">O santo Padre afirma que a paz e a plena justi\u00e7a s\u00f3 se estabelecem de forma consistente se forem curadas as chagas produzidas pela viola\u00e7\u00e3o dos direitos humanos, o que s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel se o perd\u00e3o se fizer presente na vida das pessoas e nas rela\u00e7\u00f5es entre os povos. Assim: \u201cMas, como a justi\u00e7a humana \u00e9 sempre fr\u00e1gil e imperfeita, porque exposta como tal \u00e0s limita\u00e7\u00f5es e aos ego\u00edsmos pessoais e de grupo, ela deve ser exercida e de certa maneira completada com o perd\u00e3o que cura as feridas e restabelece em profundidade as rela\u00e7\u00f5es humanas transtornadas. Isto vale tanto para as tens\u00f5es entre os indiv\u00edduos, como para as que se verificam em \u00e2mbito mais alargado e mesmo as internacionais. O perd\u00e3o n\u00e3o se op\u00f5e de modo algum \u00e0 justi\u00e7a, porque n\u00e3o consiste em diferir as leg\u00edtimas exig\u00eancias de repara\u00e7\u00e3o da ordem violada; mas visa sobretudo aquela plenitude de justi\u00e7a que gera a tranquilidade da ordem, a qual \u00e9 bem mais do que uma fr\u00e1gil e provis\u00f3ria cessa\u00e7\u00e3o das hostilidades, porque consiste na cura em profundidade das feridas que sangram nos cora\u00e7\u00f5es. Para tal cura, ambos, justi\u00e7a e perd\u00e3o, s\u00e3o essenciais.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><strong>Resposta de Jesus \u00e0 pergunta de Pedro<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">O trecho do evangelho de Mateus, proclamado neste domingo em nossa igrejas, \u00e9 parte do discurso eclesiol\u00f3gico de Jesus em que Ele ensina como deve ser o cora\u00e7\u00e3o de sua Igreja ( Mt 18). O cora\u00e7\u00e3o da Igreja deve pulsar como o cora\u00e7\u00e3o de Deus. A pergunta de Pedro &#8211; \u201cquantas vezes devo perdoar? At\u00e9 sete vezes?\u201d- situa-se no contexto do juda\u00edsmo da \u00e9poca de Jesus que, n\u00e3o obstante o que ouvimos na primeira leitura (Eclo. 27,33-28,9), n\u00e3o havia conseguido assimilar em plenitude a proposta do perd\u00e3o na medida de Deus. As escolas rab\u00ednicas elaboraram tabelas ou tarifas que continham regras para o perd\u00e3o para os v\u00e1rios tipos de ofensas, estabelecendo quantas vezes o perd\u00e3o deveria ser dado. Pedro, percebendo a novidade que Jesus estava a introduzir, pergunta-lhe: \u201cquantas vezes devo perdoar? At\u00e9 sete vezes?\u201d. A resposta de Jesus n\u00e3o deixa d\u00favidas: \u201cN\u00e3o te digo at\u00e9 sete vezes, mas at\u00e9 setenta vezes sete\u201d(Cf. Mt 18,21-22). O perd\u00e3o deve ser uma disposi\u00e7\u00e3o profunda e permanente do cora\u00e7\u00e3o de seus disc\u00edpulos. Oferecer sempre o perd\u00e3o e de todo o cora\u00e7\u00e3o. A par\u00e1bola que vem logo a seguir oferece a medida: perdoar com a mesma generosidade com que Deus nos perdoa. Jesus retoma, na par\u00e1bola, a s\u00faplica do Pai-Nosso: \u201cperdoai as nossas ofensas assim como n\u00f3s perdoamos a quem nos tem ofendido\u201d e ensina-nos como perdoar: \u201cperdoai assim como eu vos perd\u00f4o\u201d. Mas como? Ser\u00e1 isso poss\u00edvel? Ser\u00e1 poss\u00edvel imitar Jesus que, diante da crueldade e das blasf\u00eamias dos homens, brada: \u201cPai, perdoai-lhes, pois n\u00e3o sabem o que fazem\u201d? S\u00f3 quem experimentou a miseric\u00f3rdia de Deus e se deixou impregnar dela ser\u00e1 capaz de repetir o gesto de Deus que perdoa al\u00e9m de toda medida. Deus se comove diante de nossa mis\u00e9ria e se alegra em nos restaurar em sua amizade. A alegria de Deus, ao recuperar o filho que partiu na ilus\u00e3o de ser feliz longe da casa paterna, \u00e9 o transbordamento da eterna alegria de gerar em sua eternidade o unig\u00eanito de seu amor. Jesus experimenta em seu cora\u00e7\u00e3o humano a eterna alegria que lhe comunica o amor do Pai. Com o mist\u00e9rio da encarna\u00e7\u00e3o a alegria de Deus entrou no mundo e se revela como miseric\u00f3rdia que vem ao encontro da ovelha perdida e d\u00e1 vida aos que haviam morrido na inani\u00e7\u00e3o do pecado. \u201c\u00c0 primeira vista, o perd\u00e3o poderia parecer uma fraqueza, mas n\u00e3o: tanto para ser concedido quanto para ser aceito, sup\u00f5e uma for\u00e7a espiritual e uma coragem moral a toda a prova.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Em vez de humilhar a pessoa, o perd\u00e3o leva-a a um humanismo mais pleno e mais rico, capaz de refletir em si um raio do esplendor do Criador\u201d(Jo\u00e3o Paulo II). Deus \u00e9 forte, plenitude de vida e de amor, eterna alegria de amar e ser amado, por isso Deus \u00e9 miseric\u00f3rdia e se alegra em perdoar, a ponto de Jesus afirmar: \u201cEu vos digo: assim haver\u00e1 no c\u00e9u alegria por um s\u00f3 pecador que se converte, mais do que por noventa e nove justos que n\u00e3o precisam de convers\u00e3o\u201d.(Lc 15,7). Sim\u00e3o Pedro compreender\u00e1 a par\u00e1bola que ouvimos na proclama\u00e7\u00e3o do evangelho mais tarde, quando, depois da tr\u00edplice nega\u00e7\u00e3o, sentir pousar sobre seus olhos turvados pela culpa o olhar penetrante e misericordioso de Jesus l\u00e1 de dentro do tribunal do Sumo sacerdote(Cf. Lc 22,54-62). A alegria de Deus \u00e9 infinita, tem a dimens\u00e3o e a pot\u00eancia de seu amor. Aqueles que s\u00e3o tomados pela alegria de Deus nesta vida se empenham em colocar tudo o que receberam de Deus a servi\u00e7o do Reino e ouvir\u00e3o, um dia, do Senhor: \u201cEntra na alegria do teu Senhor\u201d Este \u00e9 o lema episcopal de Dom Raimundo, sobre o qual\u00a0 me estendo um pouco mais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><strong>O Lema de Dom Raimundo: \u201cin gaudium domini\u201d(Mt 25,23)<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Deus nos quer part\u00edcipes de sua alegria. Para essa alegria nos criou e para ela nos chama. Os ministros do Senhor, seus especiais disc\u00edpulos, trabalham para que essa alegria chegue a todos, porque por ela foram contagiados, como nos descreve o DAp:\u00a0\u00a0 \u201cNossa alegria, portanto, baseia-se no amor do Pai, na participa\u00e7\u00e3o no mist\u00e9rio pascal de Jesus Cristo que, pelo Esp\u00edrito Santo , nos faz passar da morte para a vida, da tristeza para a alegria, do absurdo para o sentido profundo da exist\u00eancia, do desalento para a esperan\u00e7a que n\u00e3o engana. Esta alegria n\u00e3o \u00e9 sentimento artificialmente provocado nem estado de \u00e2nimo passageiro. O amor do Pai nos foi revelado em Cristo que nos convidou a entrar em seu reino. Ele nos ensinou a orar dizendo \u201cAbba, Pai\u2019 (Rom 8,15; Mt 6,9)\u201d(n. 17); \u201cConhecer Jesus \u00e9 o melhor presente que qualquer pessoa pode receber; t\u00ea-lo encontrado foi o melhor que ocorreu em nossas vidas,e faz\u00ea-lo conhecido com nossa palavra e obras \u00e9 nossa alegria\u201d(n. 29).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">\u201cIn Gaudium Domini\u201d:\u00a0 Na Alegria do Senhor. (Mt 25,23) . Este tem sido o lema e o caminho episcopal de Dom Damasceno, tirado da par\u00e1bola dos talentos do Cap\u00edtulo 25 do evangelho de S\u00e3o Mateus, em que um senhor, devendo se ausentar por um longo per\u00edodo de tempo, confiou a seus servos talentos para que os fizessem render. Voltando, aquele senhor se dirige aos dois que multiplicaram os talentos e os convida a entrar na sua alegria. A cada um o Senhor repete: \u201cMuito bem, servo bom e fiel, sobre o pouco foste fiel, sobre o muito te colocarei: entra na alegria de teu senhor\u201d( Mt 25, 21. 23). Pois, bem, irm\u00e3os e irm\u00e3s, tentemos compreender que alegria \u00e9 essa na qual devem entrar os bons administradores dos talentos de Deus.\u00a0 Come\u00e7o por observar que a palavra alegria \u2013 kar\u00e1 no original grego &#8211; aparece 59 vezes no Novo Testamento e o verbo correspondente, alegrar-se &#8211; Ka\u00edr\u00f4 -74 vezes. Na maioria dos textos trata-se da experi\u00eancia de entrar na posse do bem escatol\u00f3gico da salva\u00e7\u00e3o, do reino prometido. Aquele que recebe o reino faz a experi\u00eancia da alegria que n\u00e3o pode ser encontrada em nenhuma outra realidade: \u201cO Reino dos C\u00e9us \u00e9 como um tesouro escondido num campo. Algu\u00e9m o encontra, deixa-o l\u00e1 bem escondido e, cheio de alegria, vai vender todos os seus bens e compra aquele campo. O Reino dos C\u00e9us \u00e9 tamb\u00e9m como um negociante que procura p\u00e9rolas preciosas. Ao encontrar uma de grande valor, ele vai, vende todos os bens e compra aquela p\u00e9rola. (Mt 12,44-45). Sabemos que o Reino na hist\u00f3ria se concretiza pela atua\u00e7\u00e3o do Esp\u00edrito Santo.\u00a0 A alegria \u00e9, juntamente com a justi\u00e7a e a paz, fruto dessa presen\u00e7a do amor pessoal, fruto do eterno abra\u00e7o do Pai e do Filho no mist\u00e9rio de Deus, precisamente:, fruto do Esp\u00edrito Santo( G\u00e1l 5,22; Rom 14,17) . Mas, voltemos ao lema de Dom Raimundo: \u201cin Gaudium Domini\u201d, na Alegria do Senhor. A palavra \u201calegria\u201d assim como outras palavras, amor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">por ex., vem perdendo seu sentido profundo, confundida com emo\u00e7\u00f5es passageiras provocadas pela estimula\u00e7\u00e3o dos sentidos e\/ ou pelos aplausos colhidos da fama e do poder. H\u00e1, entretanto, uma alegria, um \u201cgaudium\u201d, que vem de Deus e que ningu\u00e9m nos pode tirar. A alegria do disc\u00edpulo brota de dentro como fruto do encontro que d\u00e1\u00a0 sentido definitivo e pleno \u00e0 vida. Em que consiste a alegria de Deus j\u00e1 conhecida por Neemias\u00a0 no Antigo Testamento, quando recomenda: \u201cseja a alegria de Deus a vossa for\u00e7a\u201d? ( Esta\u00a0 foi a palavra de Neemias ao povo que,\u00a0 retornando, chorava sobre as ru\u00ednas de Jerusal\u00e9m) (Cf. Ne 8,10). Em que consiste a alegria de Deus , seu \u201cgaudium\u201d?\u00a0 \u00c9 sobretudo o evangelista Jo\u00e3o quem procura nos levantar o v\u00e9u sob o qual pulsa infinita a alegria de Deus. Esta alegria est\u00e1 em Jesus e Ele nos quer participantes dela: \u201cAgora, por\u00e9m, eu vou para junto de ti, e digo estas coisas estando ainda no mundo, para que tenham em si a minha alegria em plenitude\u201d(17,13). A alegria, o g\u00e1udio de Jesus, est\u00e1 nisto: \u201co Pai ama o Filho\u201d e lhe \u201cd\u00e1 ter a vida em si mesmo\u201d(Cf. Jo 3,35; 5,20; 26; 17,24. 26). A alegria \u00e9 ter a Vida em plenitude e a vida em plenitude \u00e9 a vida de amor que est\u00e1 em Deus. \u00c9 esta vida que Deus, em Cristo, pelo Esp\u00edrito nos comunica: a vida eterna. E a vida eterna consiste em fazer a experi\u00eancia do mist\u00e9rio da rela\u00e7\u00e3o do Pai para com o Filho e do Filho para com o Pai, como nos revela Jesus no in\u00edcio e no fecho da ora\u00e7\u00e3o sacerdotal: \u201cPai, chegou a hora. Glorifica teu filho, para que teu filho te glorifique, assim como deste a ele poder sobre todos, a fim de que d\u00ea vida eterna a todos os que lhe deste. (Esta \u00e9 a vida eterna: que conhe\u00e7am a ti, o Deus \u00fanico e verdadeiro, e a Jesus Cristo, aquele que enviaste.(Jo 17,1-3) \u201cEu lhes fiz conhecer o teu nome, e o farei conhecer ainda, para que o amor com que me amaste esteja neles, e eu mesmo esteja neles\u201d.(Jo 17,26).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Fazendo eco \u00e0 ora\u00e7\u00e3o de Jesus, em sua primeira carta, S\u00e3o Jo\u00e3o nos comunica a mesma verdade: \u201cO que era desde o princ\u00edpio, o que ouvimos, o que vimos com os nossos olhos, o que contemplamos e o que as nossas m\u00e3os apalparam da Palavra da Vida &#8211;\u00a0 vida esta que se manifestou, que n\u00f3s vimos e testemunhamos, vida eterna que a v\u00f3s anunciamos, que estava junto do Pai e que se tornou vis\u00edvel para n\u00f3s -, isso que vimos e ouvimos, n\u00f3s vos anunciamos, para que estejais em comunh\u00e3o conosco. E a nossa comunh\u00e3o \u00e9 com o Pai e com seu Filho, Jesus Cristo.\u00a0 N\u00f3s vos escrevemos estas coisas para que a nossa alegria seja completa\u201d(I Jo 1,1-4). Uma alegria completa s\u00f3 pode ser encontrada em Deus. J\u00e1 nesta vida essa alegria nos \u00e9 oferecida: o amor com o qual o Pai ama Jesus nos \u00e9 dado: \u201cAssim como o Pai me amou tamb\u00e9m vos amei. Permanecei no meu amor\u201d(Jo 15,9). Deus nos oferece uma alegria plena ao se oferecer inteiro a n\u00f3s. Esta alegria se planta dentro de n\u00f3s quando, na f\u00e9, fazemos a experi\u00eancia do encontro com Cristo. \u00c9 uma experi\u00eancia ainda misturada com as afli\u00e7\u00f5es de nossa exist\u00eancia no mundo. Mas \u00e9 uma certeza, certeza de quem experimentou a vida prometida, posse incoativa dos bens futuros, pois a f\u00e9 \u00e9 \u201csubstantia rerum sperandarum, argumentum non apparentium\u201d, como nos ensina a Ep\u00edstola aos Hebreus(11,1). O papa Bento XVI em sua enc\u00edclica \u201cSpe salvi\u201d explica-nos o sentido dessa passagem: \u201cA f\u00e9 n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 uma inclina\u00e7\u00e3o da pessoa para realidades que h\u00e3o-de vir, mas est\u00e3o ainda totalmente ausentes; ela d\u00e1-nos algo. D\u00e1-nos j\u00e1 agora algo da realidade esperada, e esta realidade presente constitui para n\u00f3s uma \u00ab prova \u00bb das coisas que ainda n\u00e3o se v\u00eaem. Ela atrai o futuro para dentro do presente, de modo que aquele \u201cj\u00e1\u201d n\u00e3o \u00e9 o puro \u201cainda-n\u00e3o\u201d. O fato de este futuro existir muda o presente; o presente \u00e9 tocado pela realidade futura, e assim as coisas futuras derramam-se naquelas presentes e as presentes nas futuras\u201d. Assim sendo, a palavra de Jesus que inspira a vida episcopal de Dom Damasceno \u2013 \u201centra na alegria de teu Senhor\u201d-, j\u00e1 atua em nossa caminhada hist\u00f3rica desde o momento em que Ele nos entrega\u00a0\u00a0\u00a0 a riqueza de seu Reino para dela desfrutarmos e para multiplic\u00e1-la para o bem de nossos irm\u00e3os de humanidade. Nossa fidelidade no dia a dia de nossa pobre exist\u00eancia, no servi\u00e7o de Deus, cont\u00e9m a alegria do encontro final e nos sustenta em meio \u00e0s vicissitudes do caminho. Nosso Deus \u00e9 o Deus da vida, o Deus da alegria. Nosso mundo busca desesperadamente a vida e se engana em alegrias sem consist\u00eancia, fugazes. O documento de Aparecida , depois de constatar a sede de viver latente na cultura atual, quis que o tema \u201cVIDA\u201d fosse o horizonte a marcar sua reflex\u00e3o e suas propostas para fazer disc\u00edpulos mission\u00e1rios. A alegria, manifesta\u00e7\u00e3o da vida \u00e9 tamb\u00e9m tema recorrente no texto de Aparecida.\u00a0 A plenitude da alegria, que pregustamos no encontro com Cristo nesta exist\u00eancia, por obra e gra\u00e7a do Esp\u00edrito Santo, nos impele a colocar os talentos dados por Deus a servi\u00e7o do reino na certeza-esperan\u00e7a de um dia escutarmos do Senhor as palavras que tornar\u00e3o eterna nossa alegria: \u201centra no g\u00e1udio de teu Senhor\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Esta alegria, que ningu\u00e9m, nem nada, nos pode roubar, reflexo da alegria de Deus, que brilha no rosto de Jesus, \u00e9 um dos tra\u00e7os, talvez o mais marcante do testemunho crist\u00e3o.\u00a0 Bento XVI lembrava-nos que o evangelho se comunica n\u00e3o por via proselitista, mas por atra\u00e7\u00e3o, vale dizer por cont\u00e1gio. A fidelidade do disc\u00edpulo- \u201cfoste fiel no pouco\u201d \u2013 no dia a dia revela esta alegria escondida no cora\u00e7\u00e3o e que se deixa entrever na amizade, na const\u00e2ncia e na simplicidade da vida e que se revelar\u00e1 plenamente no reino definitivo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Dom Damasceno, nascido de fam\u00edlia crist\u00e3, no interior de nossa Minas Gerais, de tradi\u00e7\u00f5es cat\u00f3licas t\u00e3o ricas, soube, desde sua juventude, cultivar a simplicidade e a alegria, que caracterizam o disc\u00edpulo de Cristo. As altas fun\u00e7\u00f5es que t\u00eam exercido como Bispo, ultimamente a dignidade cardinal\u00edcia, n\u00e3o lhe alteram o estilo, manso, humilde, alegre, feito tamb\u00e9m de um senso de humor saud\u00e1vel, que torna sua conviv\u00eancia e amizade desejada por todos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Nossa\u00a0 alegria, reflexo da alegria de Deus, faz-nos de \u201cbem com a vida\u201d e nos disp\u00f5e a perdoar sempre, quebrando a corrente do \u00f3dio e da viol\u00eancia que, continuamente introduz a dor e a tristeza na conviv\u00eancia humana.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Dom Damasceno, irm\u00e3o querido, servidor do evangelho, que a m\u00e3e Aparecida, a primeira a receber a plenitude da alegria\u00a0 &#8211; kaire, kekaritomene -, anunciada pelo Arcanjo, trazida pelo Verbo da Vida, o conserve assim como voc\u00ea \u00e9: simples, homem da justi\u00e7a e da paz, alegre da alegria que brota de dentro, do encontro com o tesouro escondido, do encontro com Cristo. Am\u00e9m.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Aparecida, 10 de setembro de 2011<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dom Eduardo Benes de Sales Rodrigues Arcebispo de Sorocaba &#8211; SP Dom Damasceno agrade\u00e7o, honrado e feliz, o generoso convite para pregar em sua missa de jubileu de prata episcopal.\u00a0\u00a0 Seu convite me fez voltar em pensamento, com saudades, aos tempos de Mariana quando, colegas e amigos, estud\u00e1vamos filosofia, enfrentando juntos os dif\u00edceis textos dos &hellip;<\/p>\n<p class=\"read-more\"> <a class=\"\" href=\"https:\/\/www.cnbb.org.br\/homilia-da-missa-de-25-anos-de-ordenacao-episcopal-de-dom-damasceno\/\"> <span class=\"screen-reader-text\">Hom\u00edlia da Missa de 25 anos de ordena\u00e7\u00e3o episcopal de Dom Damasceno<\/span> Leia mais &raquo;<\/a><\/p>\n","protected":false},"author":83,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":""},"categories":[769,772],"tags":[],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/posts\/25063"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/users\/83"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/comments?post=25063"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/posts\/25063\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/media?parent=25063"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/categories?post=25063"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/tags?post=25063"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}